sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um breve comentário sobre o soneto XCI, de Shakespeare

(Introdução copiada de outra publicação que já fiz aqui)

De maneira (muito) resumida: Shakespeare foi/é um dos maiores homens que o mundo já viu, nascido possivelmente em 1564 e falecido em 1616, desenvolveu suas obras (poemas e peças teatrais) no período do Classicismo.

O Classicismo se encontra dentro de um período histórico chamado Renascimento. O Renascimento foi uma época de grandes mudanças em todos os âmbitos (sociais, religiosos, filosóficos, econômicos, políticos, etc.): iniciam-se as grandes navegações, começa-se a mudança de sistema (feudalismo para "capitalismo"), a igreja católica perde seu poderio, muda-se a visão de teocentrismo para o antropocentrismo  e, principalmente, surge a Imprensa de Gutenberg.

Com a imprensa, muitos livros são publicados, assim, as ideias e obras de filósofos passam a serem conhecidas por muitos. Surge uma nova mentalidade, o homem considera-se em um período iluminado e renascido. Cheio de descobertas, busca diferenciar-se de outrora, agora buscando elementos da cultura grega e romana para adotar em suas obras. Portanto, a arte será racional; será valorizada a ciência, o engenho e valores da Era Clássica. Que fique claro: de maneira (muito) resumida.

Traduzido por Ivo Barroso, este soneto faz parte de Os Melhores Sonetos (2013) de William Shakespeare (Saraiva de Bolso). Como se sabe, o soneto é composto por 4 estrofes, sendo 2 quartetos (estrofes com 4 versos) e 2 tercetos (estrofes com 3 versos), podendo ser decassílabo (versos de 10 sílabas poéticas) ou alexandrino (versos de 12 sílabas poéticas).  Mas existe um "tipo" de soneto próprio de Shakespeare, também chamado "soneto inglês".

Este modelo possui a estrutura de 3 quartetos e 1 dístico (estrofe de 2 versos); diferente do soneto italiano, o soneto inglês não é feito em estrofes separadas, mas todo junto; apenas os dois últimos versos se diferenciam por estarem 2 espaços à frente dos outros. Mantendo a fidelidade ao livro, eis o poema:

XCI

Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
   O infortúnio seria apenas este:
   Tirar de mim o bem que tu me deste.

(SHAKESPEARE, 2013, p. 89)

Comentário

Quanto à estrutura do poema, temos um soneto decassílabo, isto é, todos os versos possuem dez sílabas poéticas. Como vimos na descrição acima, o texto segue com três quartetos e um dístico; o esquema de rima, por sua vez, é: ABAB – CDCD – EFEF – GG.

Como é costume dos sonetos, principalmente os da época do Classicismo (a qual Shakespeare fez parte) e do Barroco (que viria depois), temos o uso da sintaxe invertida (frases inversas, não na ordem direta, como estamos acostumados, principalmente na fala espontânea).

O uso de antíteses neste poema não ficou explícito por meio de palavras antônimas, exceto em “plenas” - “minúcias”, “alegria” - “infortúnio”, “tirar” e “deste”, mas através das ideias: o eu-lírico prefere apenas uma coisa em detrimento de todas as outras, além de comparar os quesitos de que alguns se orgulham.

Quanto ao conteúdo, até que é simples. Há um eu-lírico que diz muitos se orgulham da classe social que pertencem; outros, dos bens; outros, da fortuna; outros, dos cavalos treinados; outros, dos cães; outros, da força física; outros, por acompanharem a moda (e aqui há o adjetivo “feia”, crítica feita pelo dramaturgo às roupas na época), etc., mas que nada disso alegra o eu-lírico. Este a tudo o que foi dito e comparado antes, bens ou habilidades que todos se vangloriam, orgulha-se de ter o amor de alguém.

Com isso, também se pode pensar que ele dá mais valor a algo imaterial, abstrato, do que às coisas terrenas e concretas. É um traço de uma transcendência, algo além, como os classicistas enfocavam (geralmente com substantivos iniciados com letras maiúsculas), por conta da retomada do platonismo.

O que chama a atenção, no entanto, é o fato de o eu-lírico se orgulhar do amor dado a ele por uma pessoa, não propriamente pela pessoa que se dá a ele. Algo diferente do que se vê na maioria das relações, onde um olha para o outro, mas nenhum olha para o objetivo (se há algum) em comum e para aquilo que os une.

É claro que há indivíduos que lamentam pela vida toda a perda de alguém, mas há aquelas que seguem em frente, se relacionando com outros sujeitos. O que ninguém percebe e que o poeta mostra-nos nesse poema escrito há séculos atrás, é que, antes de tudo, somos apaixonados e amamos o amor, não somente a pessoa. Não buscamos “alguém”, mas aquilo que ele(a) pode trazer ou criar: os sentimentos, dentre eles, o amor.

Os pares vão se trocando, mas o que procuram ainda é o mesmo: afetos. O eu-lírico sabe disso, por isso teme que lhe tirem o bem causado por alguém, tirem-lhe o amor, tirem-lhe as lembranças, pois lhe tirando essa subjetividade, esse valor transcendente, sobram apenas objetos terrenos e, por isso, passageiros... Sobre as habilidades, idem.

E se o eu-lírico teme que essa substância possa lhe ser tirada, é porque há essa possibilidade... Através de brigas, de discussões, de falta de diálogo, de reciprocidade, etc. Então, nem tudo o que é imaterial é transcendente... Mas, por isso mesmo, é importante e deve ser valorizado.

Vale lembrar que em momento algum o eu-lírico sofre, ele apenas reflete. Os poemas e as obras em geral, na época do Classicismo, refletem a racionalidade, elemento herdado da Era Clássica. Quem demonstrará muito mais do que a razão, mas os sentimentos, o sofrimento, uma subjetividade maior, serão os românticos. Mas isso somente séculos depois. Deixemos para outra hora, para outro dia.

Referências

SHAKESPEARE, William. Os melhores sonetos. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013. (Saraiva de Bolso)

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