sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Uma pequena reflexão #8: Evitando reinventar a roda

Um dia desses, enquanto caminhava, pensei:

— Às vezes, muitas pessoas (e até nós mesmos) passam alguns meses, anos ou a vida inteira, gostando de alguém sem que aquela pessoa desejada ou amada saiba. Será que, neste momento, alguém está gostando de mim e eu não sei?

No entanto, esse pensamento até que é comum e fútil, muita gente já o teve. Minha verdadeira dúvida e indignação vieram depois, quando estendi (por um momento pensei que essa palavra, "estendi", estava errada, mas conferi e não está, não) a questão: 

— Pior ainda: será que alguém me odeia e eu não sei? Será que alguém chegou a me odiar e eu não fiquei sabendo até hoje? Nossa, isso dá um poema!

Guardei a ideia para escrever depois, liguei o computador e acessei alguns sites. Num deles, como faz parte da rotina, ouvi os dois minutos de áudio do filósofo Cortella numa rádio (é um programinha bem curto). Pois bem, após ouvi-lo, perdi a vontade de escrever o poema.

O motivo é que esse programa quase sempre traz uma frase de algum pensador (conhecido ou desconhecido), mas bem nesse dia, a citação proferida foi: “Uma das vantagens desse mundo é de se poder odiar e ser odiado sem se conhecer.” Frase do escritor italiano Alessandro Manzoni, escrita na obra Os Noivos.

Por isso não quis mais fazer o poema: um escritor do século XIX já pensou e escreveu a minha ideia sobre ser odiado sem sabê-lo. Melhor ainda: seu fragmento foi além do meu pensamento e de seu tempo.

Hoje seria muito fácil alguém dizê-lo, por conta das redes sociais, onde as pessoas se adicionam como “amigos” e se excluem com um click, num instante. O excluído ou bloqueado nem sabe da sua situação (ao menos no momento), enquanto o outro, ao bloqueá-lo, faz textos carregados de ódio a seu “respeito”. Mas Manzoni viveu no século XIX...

Além disso, a frase do escritor pode trazer uma resposta e solução para o problema do ódio. Pode-se odiar e ser odiado sem se conhecer, mas muitos o fazem justamente por não conhecer o outro. Sem conhecer as razões e boa parte da vida do próximo, pode-se obter uma interpretação equivocada de tal pessoa e, assim, odiá-la. Às vezes, o ódio é evitado pelo conhecimento, pois muitas vezes ele é fruto da ignorância.

Por outro lado, há quem conheça muito bem alguém e, por isso mesmo, o odeia. Assim como há pessoas que amam o outro até que possam conhecê-lo pessoalmente e profundamente e a idealização se quebre.

Eu poderia ficar com raiva (alguns, talvez, até odiariam) do Alessandro Mazzoni (ou de seu texto), mas não. Pelo contrário, fico agradecido de ter conhecido um de seus pensamentos antes de escrever o mesmo, antes de ser redundante. A saber, até me lembrei de um poema do meu poeta preferido: Mario Quintana. Escreveu o mestre:

Três poemas que me roubaram

Lá pelas tantas menos um quarto eu suspirei num poema:
“Vontade de escrever “Sagesse” de Verlaine...”
Mas o que eu tenho vontade mesmo
É de haver escrito “A pedra no meio do caminho”
a “Balada & canha”, a “Estrela da manhã”,
se
— ó Musa infiel,
não te houvessem possuído antes
Carlos, Augusto e Manuel!...

(QUINTANA, 2008, p. 182)

Na verdade, fico feliz de ter tido, sem saber, a mesma ideia de alguém que eu não conheci. Como disse Schopenhauer (2016): “(...) Com freqüência, escrevi frases que hesitei em apresentar ao público, em função de seu caráter paradoxal, e depois as encontrei, para minha grata surpresa, expressas literalmente nas obras antigas de grandes homens.” (p. 46).

Não veio o poema, mas veio este curto texto, que foi além do que eu havia imaginado. Uma surpresa agradável.

Referências

<http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/mario-sergio-cortella/2016/09/20/UMA-DAS-VANTAGENS-DESSE-MUNDO-E-DE-SE-PODER-ODIAR-E-SER-ODIADO-SEM-SE-CONHECER.htm>. Acesso em: 13. Jan. 2017.

QUINTANA, Mario. Seleção e organização de Tania Franco Carvalhal. Três poemas que me roubaram. In: 80 anos de poesia. São Paulo: Globo, 2008.

SCHOPENHAUER, Arthur. Organização e tradução de Pedro Süssekind. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016.

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