domingo, 24 de junho de 2018

InuYasha, algumas considerações

Depois de 193 episódios e 4 filmes, finalmente terminei de assistir àquele anime que a Globo só exibiu 26 episódios, quando eu era criança, por volta de 2004/2005: InuYasha.
A história é boa, começa simples e termina complexa, mas, como é característica da criadora, Rumiko Takahashi, prolonga-se demais, tal como seu outro grande sucesso, Ranma 1/2 (que conta com 161 episódios e 2 filmes, e eu assisti a tudo...).
Além disso, a autora repete sua fórmula, o que, para alguns, torna a obra previsível. Em Ranma 1/2, Ranma é um menino amaldiçoado, metade homem, metade mulher, que gosta de Akane, que também gosta dele, porém, ambos fingem que não. Em InuYasha, este, metade humano, metade demônio, gosta de Kagome, que também gosta dele, mas ambos vivem brigando. (Em Rin-Ne, outra obra de Rumiko, feita após o fim de InuYasha, o protagonista, que também leva o nome do anime, é um rapaz metade humano, metade shinigami...).
Outros personagens de InuYasha são bem parecidos com os de Ranma 1/2. Kouga, rival de Inuyasha, por exemplo, lembra o rival de Ranma, Ryoga. Os dois estão sempre perdidos. A pulga Myouga, de InuYasha, é a cara do Happosai, de Ranma 1/2, mas este é muito mais engraçado e o seu caráter de "safado" é passado para Miroku, um dos personagens principais de InuYasha.
Depois da questão da "duração", que é muito longa, outro problema de InuYasha é a falta de vilões, ou a existência de apenas um: Naraku. Chega a ficar chata a situação: InuYasha consegue um poder, procura e enfrenta Naraku, que foge, aprende uma nova técnica que inutiliza a do protagonista, que, por sua vez, apanha, viaja para outro canto, adquire outra habilidade, enfrenta o vilão, que escapa etc.
Os cálculos de Naraku também podem ser considerados defeitos do anime: tudo é planejado, previsto e previsível, tanto pelo vilão quanto pelo telespectador, o único erro do personagem ocorre ao final (e que se não tivesse acontecido, Naraku reviveria...).
A primeira fase é constituída de 167 episódios, exibidos de 2000 a 2004; a segunda tem 26, que só foram feitos em 2009. Esta última, final, é muito corrida, deixando muitos acontecimentos sem explicação para quem viu apenas o anime...
Um último comentário negativo será sobre os confrontos. Rumiko Takahashi é famosa pelas comédias românticas, não pelas lutas, que são a principal característica do gênero shounen, ao qual InuYasha pertence. Porém, embora quase todo episódio possua batalhas, elas quase não são interessantes e emocionantes, pois não há estratégias. É um defeito que acontece em outros animes shounen antigos, como Dragon Ball Z e Saint Seiya, por exemplo.
Por outro lado, é preciso ressaltar que a trilha sonora é maravilhosa, as cores utilizadas no ambiente medieval também, a animação começa boa (exceto numa parte em que os protagonistas lutam contra demônios morcegos — não lembro exatamente em quais episódios —, onde é possível ver que apenas a boca do "rei" dos morcegos se move, mas as asas, não...) e termina excelente. Como é característica da autora, a obra traz diversas referências ao folclore e à mitologia japonesa, o que é muito bom e interessante, pois enriquece o trabalho.
A história conta com diversos personagens, conflitos e situações emocionantes, cenas tanto belas quanto tristes (a metáfora, a vontade e a morte de Kagura que o digam...); construções interessantes (como a passagem de Onigumo para Naraku, de Naraku para Musou — o motivo das ações deste, nos três únicos episódios em que aparece, são muito bem pensadas).
Em suma, InuYasha é bom, mas poderia ser muito melhor, se fosse bem mais curto, se possuísse mais vilões e complexidade nas técnicas de luta, ou se a minha experiência de assistir até o final tivesse ocorrido quando era mais jovem.


domingo, 3 de junho de 2018

O pipa e as penas


Lembro-me muito bem, o ano era 2007, a internet estava popularizando-se no meu bairro, o Jardim Caçula, e havia três lan houses (hoje, não há mais nenhuma), todas muito frequentadas, por causa do efêmero gosto de novidade.

Eu tinha 13 anos e, por ignorância e medo, via esses estabelecimentos com olhos atravessados. Ignorância, porque não tinha computador e nem conhecia as boas possibilidades da internet; medo, não da rede, mas do novo e da solidão, já que os meus amigos, quase todos, começaram a deixar de jogar futebol no saudoso Campinho da rua 3, que hoje é uma quadra de areia, para assistir aos vídeos da então iniciante plataforma chamada Youtube.

Além dos motivos já mencionados para eu não querer ir às lan houses, havia outra questão: nunca gostei de pedir dinheiro aos meus pais. E esse se tornou um dos meus argumentos:

— Gente, deixe disso! Ao invés de gastar dinheiro à toa, vamos jogar bola, que é grátis, além de ser mais divertido e fazer bem à saúde! Veja essas crianças de hoje em dia, todas sedentárias, não praticam um esporte! Aliás, percebo que atualmente as habilidades de vocês estão piorando...

Os amigos riam. Realmente, chegava a ser engraçado, embora fosse uma verdade. O tempo passou, um ano depois, eu ganhei um computador e acesso à internet — na época, a lentíssima discada, que muita gente nem sabe o que era (e os que sabem não querem nem lembrar). Ainda assim, continuamos a brincar na rua: a ignorância diminuiu, o medo desapareceu.

Todas essas lembranças vieram-me à mente antes de ontem, quando, ao caminhar com o Rambinho — o cachorrinho —, vi um pipa cair (antigamente, dizíamos “ter sido mandado”) na minha rua, mas apenas uma criança ter ido atrás. Porém, o menino não tinha pressa, parou no topo da rua, olhou... Perguntei:

— Você está atrás do pipa?

— Uhum.

— Está vendo aquele poste? Caiu ali, do outro lado da rua, no mato, a uns dois braços de distância da calçada.

— Ah, então deixa...

E foi embora.

Eu caminhei com o Rambinho, voltei e fui ouvir uma música, ao estilo antigo, no aparelho de som, enquanto olhava a rua pela janela. Passou outra criança, perguntei:

— Ei, menino, você solta pipa?

— Sim.

— Pois há um aí, bem aí, a dois braços de onde você está, dentro do capim. Eu vi quando caiu, ninguém veio buscar.

O menino olhou para o mato...

— Ah, depois eu pego. Obrigado.

Fiquei meio decepcionado, falei com meu pai:

— Quando eu era pequeno, você brigava comigo, porque eu corria atrás de pipas, dentro do mato, na rua... E pensar que as crianças de hoje quase não os soltam, muito menos correm atrás deles; a quadra de areia e a rua estão sempre vazias... Que pena. Muita pena.

Anoiteceu, passou-se um dia. As penas devem ter trazido nuvens: choveu, o brinquedo molhou e rasgou-se. Triste, mas mais triste foi o meu último pensamento: a criança dentro de mim até teve vontade de pegar o pipa, mas o irmão mais velho disse:

— Você não solta mais.

É verdade, é outra pena; com ela, termino esta crônica.

03/06/2018

sábado, 19 de maio de 2018

Dos cultivos


Há uma história na internet de que, uma vez, alguém perguntou para um velho sábio quantos anos ele tinha, ao que o mestre respondeu:

“Oito ou dez. Tenho, na verdade, os anos que me restam, porque os já vividos não tenho mais.” — algo assim.

Embora não haja um autor definido, atribuem essa fala ao pensador Galileu Galilei. Sei que todos podem se equivocar ou julgar se algo é correto ou não, mas espero que a frase não seja dele. A resposta do sábio pode parecer lógica, mas não o é.

Não perdemos os anos vividos, pelo contrário, estão sempre conosco: adquirimo-los, guardamo-los, ampliamo-nos com eles, usamo-los quando aplicamos o que aprendemos ao longo do tempo. Como é dito na música Além da máscara, do projeto Poucal Vogal, do Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii): “Não há tempo perdido, não há tempo a perder”. Seria mais bonito e poético, para mim, se o sábio tivesse respondido que não sabia a própria idade, que o que ele tinha era a dúvida...

Sou da opinião de que “Cada dia que passa / eu fico mais jovem” (TRINDADE, 2011, p. 57), como escrevi no ano passado (embora, na época, ainda não conhecesse esses versos, nem esse nosso poeta); concordo com o fotógrafo Jacob Riis (apud CORTELLA, 2015, p. 69): “‘(...) olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela que conseguiu, mas todas as que vieram antes’”. Como pode alguém acreditar que não tem os anos passados, mas os futuros? Do amanhã só temos ideias, incertezas e planos — o que já é muito bom e importante.

Fiz aniversário hoje e não consigo concordar com a lição do antigo homem, nem sou capaz de discordar do meu mestre pessoal e espiritual, Mario Quintana, que diz que “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...” (QUINTANA, 2003, p. 64). Aliás, o mesmo poeta tem um texto, no mesmo livro, chamado “Pensamento para o teu aniversário”, no qual ensina: “Nem todos podem estar na flor da idade, é claro! Mas cada um está na flor da sua idade...” (idem, ibidem, p. 78).

Cito-o, porque fazer aniversário também é conhecido como “completar primavera”, que é conhecida como a estação das flores, que, por sua vez, são sinônimas de beleza. É preciso ver a vida, os anos, os dias, quaisquer que sejam, com mais atenção. Se não temos as grandes e melhores características dessa estação do ano, mas, por outro lado, temos a marca da passagem, que saibamos (ou lembremos), então, de que um buquê é formado por várias flores, e estas têm sementes ou podem servir como mudas, e esse produto final, de beleza singular, possui uma história que foi cultivada há anos...

REFERÊNCIAS

CORTELLA, Mario Sérgio. Não nascemos prontos!: Provocações filosóficas. 19 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

POUCA VOGAL: Gessinger + Leindecker. Além da máscara. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8HEzQQ5FAA0>. Acesso em: 19 maio. 2018.

QUINTANA, Mario. Caderno H. 9 ed. São Paulo: Globo, 2003.

TRINDADE, Solano. Poemas antológicos. 2 ed. São Paulo: Nova Alexandria, 2011. (Coleção Obras antológicas)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O jogo

Encontrei, nos meus arquivos, este "antigo" texto, de um ano atrás, e resolvi publicá-lo, embora esteja datado:

A mão global, que havia capturado a peça dilmãe, substituiu-a por um cara que se achava aristocrata só por ser velho e parecer o Conde Drácula. Porém, peças são peças e podem ser retiradas do tabuleiro.
Em outro quadrado (e em outro parágrafo), um componente da mão global começa a ser retirado do campo. É (quer dizer, "foi") o aecinho. Esse é impiedoso, não tem dó. Não captura: manda matar.
No entanto, é possível que ele continue recebendo privilégios — mesmo fora do campo —, já que uma outra peça, a de alcunha cunha, recebe para ficar em silêncio.
Esse último, como se sabe, foi um dos responsáveis pela retirada da dilmãe (embora ele tenha sido só uma marionete da mão global).
Ainda há alguns integrantes no tabuleiro, nas chamadas "side quests": de um lado, o juiz sem juízo, morinho (que lembra "marinho"); de outro, o cara que tem um dedo a menos (e que a mão global teme e sempre temeu); e aos arredores, alguns menores de nomes (alguns são até invisíveis!), mas metidos nas irregularidades. Afinal, embora as regras existam, ninguém as vê. Idem para as irregularidades.
O povo assiste ao jogo da mão global contra não-sei-quem (posto que há muitas mudanças rápidas: uma hora quem assume o lado oposto é o estado, outra hora são outras empresas, outra hora são cidadãos comuns que se cansam de esperar a jogada e tentam invadir o tabuleiro etc), sem saber que telespectadores são peões.
Engraçado é ver a mão global abrindo a boquinha (na mão, mesmo, estilo Deidara) para revelar secrets-secrets de suas peças, que fizeram parte de sua estratégia, passando-se, assim, como sincera e heroína (quem deve gostar de heroína é a sua peça aecinho). Faz parte da nova estratégia. Sacrifícios são feitos em jogos.
Qual será a próxima invocação? Sei lá, não sou jogador. Sou um mal relatador (à infeliz espera de delatores). A vontade é de fechar todo mundo dentro da caixa do xadrez, mas não sou o dono do brinquedo.

domingo, 15 de abril de 2018

Análise comparada dos contos “A aranha”, de Orígenes Lessa, e “Zoiuda”, de Luiz Vilela


Brevíssima introdução


O gênero, a Literatura comparada e os escritores: Orígenes Lessa e Luiz Vilela



O conto é um dos gêneros literários mais populares da contemporaneidade, por sua brevidade, “objetividade” (no sentido de ir direto ao ponto, sem enrolações que há, por exemplo, num romance), conflitos, imediata compreensão dos fatos (sem muito aprofundamento no passado) pelos leitores e por sua verossimilhança com a vida.

As principais características do conto são a pequena quantidade de personagens, a presença de diálogos, a cronologia do tempo/dos eventos e, principalmente, uma única célula dramática (clímax), sempre ao final. No conto, a narrativa, a dissertação, a descrição e o tempo psicológico são menos presentes.

A Literatura Comparada é um campo de pesquisa que busca, por semelhanças ou diferenças, através da interdisciplinaridade e intertextualidade, analisar duas ou mais obras, sendo elas do mesmo gênero textual ou não. Neste trabalho, procurar-se-á, brevemente, observar como dois autores, de tempos diferentes, lidam com o tema da solidão. Curiosamente, há algumas semelhanças nas duas histórias selecionadas, A aranha, de Orígenes Lessa, e Zoiuda, de Luiz Vilela.

Orígenes Lessa foi um contista, romancista, novelista, ensaísta e jornalista brasileiro. O autor, que começou sua carreira literária em 1929, entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1981. O conto A aranha, que será analisado, está presente na antologia Para gostar de ler – Volume 10 - Contos (1991), que reúne diversos contistas, de diferentes períodos literários.

Luiz Vilela é um contista, romancista e novelista brasileiro. O conto Zoiuda, que será explorado, faz parte do livro Você verá (2013). O escritor iniciou sua vida literária com o livro Tremor de terra, em 1967, aos 24 anos, o que já lhe rendeu o Prêmio Nacional de Ficção.

É preciso ressaltar, também, que este texto analisará os dois contos apenas sob a ótica de um tema, o que é muito pouco para qualquer obra literária, que é, por natureza, plurissignificativa. 

 Análise do conto A aranha, de Orígenes Lessa

A aranha é um conto de Orígenes Lessa, presente na coleção “Para gostar de ler – volume 10 – contos” (1991). A história constrói-se em duas camadas: no presente, num corredor de um prédio, através de diálogos nos quais o narrador-personagem ouve, de forma indesejada, um evento que aconteceu num sítio, no passado, com o amigo de um dos personagens presentes no corredor, que narra o acontecido durante seus turnos da conversa.

De qualquer forma, ambas as “camadas” do conto passam-se em espaços fechados (o corredor e o sítio), ambas as narrações seguem o tempo cronológico (linear), e o foco narrativo, interessantemente, oscila entre a primeira e a terceira pessoa: há um personagem-narrador, mas este apenas ouve a história de um segundo, onde o protagonista é um terceiro...

A complexidade do conto já começa nas primeiras linhas:

— Quer assunto para um conto? — perguntou o Enéias, cercando-me no corredor.
Sorri.
— Não, obrigado.
— Mas é assunto ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo!
— Não, não é preciso... Fica para outra vez...
— Você está com pressa?
— Muita!
— Bem, de outra vez será. Dá um conto estupendo. E com esta vantagem: aconteceu... É só florear um pouco. (LESSA, 1991, p. 16)

A história é iniciada com a oferta de outra história, que será contada logo depois. Também já é demonstrado que o protagonista-narrador não quer dialogar, não quer companhia, o que está relacionado à narrativa do amigo. 

É importante notar essa valoração do fato, da não-ficção, como se a literatura fosse uma mentira e, por isso, algo de menos valor, quando, na verdade, ela é baseada na realidade e, às vezes, por “distorcê-la” tanto, ajuda o leitor a perceber melhor o seu próprio meio. Ao mesmo tempo, a valoração do amigo pelo fato justifica a narração ser em terceira pessoa, porque ela dá um caráter objetivo à história, embora, como se pode notar, esse amigo utiliza muitos adjetivos (ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo, estupendo), o que não é aconselhável para textos impessoais...

Pois bem, o amigo do narrador conta um caso acontecido com um de seus conhecidos, o Melo, que morava numa enorme fazenda e “Passava lá enormes temporadas, sozinho, num casarão desolador (...) um verdadeiro deserto” (idem, ibidem, p. 18). Esse colega adorava tocar violão, principalmente músicas tristes como “A madrugada que passou” e “O luar do sertão”. Como se vê, canções relacionadas ao escuro, à noite, que trazem a ideia de subjetividade e demonstram a personalidade do personagem.

Outra obra que o rapaz gostava de executar era “A tarantela”, de Listz, o que já indica e cria a “rima” para o que virá a seguir no conto: o aparecimento de uma aranha caranguejeira. Sempre que o Melo tocava violão, a aranha aparecia; quando parava, ia embora, se escondia, impossibilitando, então, a sua morte, e criando, desta forma, uma espécie de companhia para o artista.

Essas intermitências da aranha continuaram por dias e também formam outra coerência na narrativa: enquanto, no passado, no interior de um sítio, um animal fugia, ia e vinha, no presente, no corredor de um prédio, o narrador-personagem quer entrar no elevador, que sobe e desce a todo momento, mas sempre lotado, impossibilitando a sua “fuga” dos amigos.

No outro dia, Melo “estava ocupadíssimo com a colheita. Só à noite voltaria para o casarão da fazenda. Teve que almoçar com os colonos, no cafezal. Andou a cavalo o dia inteiro. E sempre pensando na aranha” (idem, ibidem, p. 20). À noite

Queria saber se “ela” voltava. Começou a tocar como quem se apresenta em público pela primeira vez. Coração batendo. Tocou. O olho na fresta. Qual não foi a alegria dele quando, quinze ou vinte minutos depois, como um viajante que avista terra, depois de uma longa viagem, percebeu que era ela... o pernão cabeludo, o vulto escuro no canto mal iluminado. (idem, ibidem, p. 20)

Nesses trechos, percebe-se o tamanho da solidão do personagem que, mesmo envolto de pessoas durante o trabalho, só pensava na aranha. O Melo chegou até a colocar um nome (que o narrador não lembra) no animal, e “desde então, não sentiu mais a solidão incrível da fazenda” (idem, ibidem, p. 21).

O personagem contou o caso para outras pessoas, que vieram ver “a aranha amiga da música. Todas as noites era aquela romaria. Amigos, empregados, o administrador, gente da cidade, todos queriam conhecer a cabeluda fã de O luar do sertão e de outras modinhas.” (idem, ibidem, p. 21). É preciso se atentar ao fato de que todos iam ver a aranha, não o Melo, nem ouvir a sua música. Se, por um lado, o tocador “humanizou” um animal através da arte, por outro, isso é resultado da “desumanização” que os semelhantes fizeram com ele, ao não lhe darem atenção. Tal como as modinhas, que passam, o interesse pelas pessoas pela aranha desapareceu, mas o sentimento de Melo por ela continuou o mesmo, na verdade, ficou até maior.

Todavia, contraditórios como os seres-humanos são, assim que o tocador recebeu uma visita de uma pessoa diferente, cheia de novidades, esqueceu-se da amiga aracnídea e tocou seu violão, a música preferida da aranha, que apareceu em poucos instantes. Sem ser avisado do comportamento da amiga admiradora de melodias, o visitante matou-a sem hesitar, para a tristeza do Melo. Clímax do conto, chega o elevador para o narrador, fim da história.

O final sombrio já é esperado ao leitor que se atenta para a quantidade de palavras relacionadas à noite e ao escuro, além do rompimento na vida do protagonista, que começa triste, passa a ser feliz e, como o gênero conto pede o drama e a situação inesperada, isto é, abrupta, sempre ao final, haveria de acontecer algo que rompesse o encanto. No outro âmbito, no presente, no corredor do prédio, depois de tantas vezes em que o elevador chegou lotado, logo após a narrativa do amigo acabar, o elevador surgiu vazio, finalizando, coerentemente, os acontecimentos passados e presentes.
  
Análise do conto Zoiuda, de Luiz Vilela

Zoiuda é um conto de Luiz Vilela, presente no livro Você verá (2014). A história ocorre em espaços fechados: num bar, numa escola e num apartamento (a maior parte da narrativa acontece aqui); o tempo é cronológico, linear; o foco da narrativa é em terceira pessoa, um narrador conta a história de um professor que se apega a uma lagartixa.

Um dia, numa sexta-feira, após voltar do bar (e isso é muito significativo), um professor depara-se com uma lagartixa; após um observar o outro por algum tempo, o homem foi dormir.

Como a ida ao bar havia apontado, o professor não tem uma vida muito interessante, pois “Na noite seguinte — de novo o bar, de novo as conversas e as bebidas, conversas e bebidas que só serviam para matar o tempo e para matar dentro dele alguma coisa que ele não sabia bem o que era, mas que sabia ser essencial” (VILELA, 2014, p. 8). Além disso, o caráter repetitivo da existência do personagem é refletido na própria linguagem do narrador, que reforça as palavras “de novo”, “conversas e bebidas” e “matar”. Essa característica da narrativa é reutilizada em outros trechos do conto.

O protagonista, que não tem nome — o que pode sugerir que seja qualquer pessoa —, observa a lagartixa e nomeia-a, isto é, humaniza-a (nas palavras do narrador: “batizando-a”): Zoiuda. Ela tem nome, ele não; é como se ela fosse mais importante do que ele. De qualquer forma, o animal torna-se muito significativo para o personagem, como pode ser observado na passagem:

Na terceira noite, domingo — o mesmo bar e os mesmos amigos e as mesmas conversas e bebidas — ele, num momento de quase convulsivo tédio (“isso mesmo”, se diria depois, “convulsivo tédio”), lembrou-se da Zoiuda, isolando-se por alguns minutos do ambiente ao redor, um leve sorriso lhe aflorando aos lábios. (idem, ibidem, p. 8).

Mesmo fora de casa, mesmo rodeado de amigos, o homem distrai-se e sorri ao lembrar da lagartixa. Ela é motivo de um sorriso, algo que, em momento algum, antes ou depois, é causado ou observado no protagonista. Ao chegar em casa e chamar pelo animal, a companheira não apareceu. “Não estava. Ficou meio decepcionado. Tinha certeza de que...” (idem, ibidem, p. 9). Qual é o tamanho da solidão deste homem?

É importante ressaltar que esse personagem “dava aulas de português para um bando de adolescentes desinteressados e distraídos” (idem, ibidem, p. 9), ou seja, é um professor, alguém relacionado à comunicação humana, à língua, mas, ao contrário do que se espera, as pessoas ao seu redor não querem e nem estão abertas ao diálogo.

Ao contar para os colegas docentes que apareceu uma lagartixa na sua casa (um fato corriqueiro, banal), ouviu o relato de um que, desde que aprendeu um veneno, na sua casa “não ficou uma, nem uma só pra contar a história” (idem, ibidem, p. 9); a outra professora tem pavor; então o protagonista achou e disse que era meio maluco, “mas nenhum dos dois estava mais prestando atenção a ele” (idem, ibidem, p. 10).

É o retrato de uma vida medíocre, abandonada, vazia. O personagem sabe disso, pois “À noite, naquela plena segunda-feira, ele não saiu, substituindo o bar pela TV — a mesmice pela idiotice, pensou” (idem, ibidem, p. 10). O homem não tem a atenção dos alunos, na escola; dos colegas docentes, na sala dos professores; nem dos amigos, no bar (que já é um lugar de “fuga” da realidade sem graça).

Não é à toa que o narrador compara o protagonista a uma criança: "‘Zoiuda!’, exclamou, com a alegria de um menino; ‘você está aí!...’" (idem, ibidem, p. 11). O que o personagem deseja é amparo. Esse encontro dos dois ocorreu quando o professor foi beber água, da mesma forma que aconteceu pela primeira vez, na sexta, à noite. A água, não se pode esquecer, é fonte de vida; o homem, ao buscá-la, sacia a sede física, mas a metafórica, a sede de companhia, também é satisfeita com a presença da lagartixa. A única coisa que o personagem quer é reciprocidade, como se observa neste trecho: “lá dentro, àquela hora, o minúsculo coração também estaria batendo um pouquinho mais forte?...” (idem, ibidem, p. 10).

Mais à frente, é explicitado:

“Zoiuda, tirando minha mãe, você é a única criatura que eu amo hoje no mundo” — Zoiuda passou a ser para ele uma... uma espécie de companhia. Afinal, num apartamento onde havia somente ele de gente e onde, por dificuldade em criá-los, não havia cachorro, gato ou passarinho, ela era uma presença, um ser vivo, a quem ele podia dirigir a palavra, embora não houvesse resposta — mas para que resposta? Não queria resposta, queria apenas falar; apenas isso.
“Né, Zoiuda?” (idem, ibidem, p. 11)

No trecho supracitado, confirma-se o motivo do narrador ter comparado o professor a um menino: a lagartixa é uma segunda mãe para ele. E como não poderia deixar de ser, por se tratar de um conto, onde o clímax está sempre no final, aliado às noites da história, o corte inesperado acontece: a Zoiuda some e o protagonista volta a sofrer, “— tinha de admitir — que aquele apartamento ficara um pouco mais vazio e aqueles fins de noite mais tristes.” (idem, ibidem, p. 11). Triste, mas coeso e bem construído.
  
Relação entre os textos e conclusão

Há diversas semelhanças entre os textos escolhidos: ambos fazem parte do gênero “conto”, foram escritos por brasileiros, possuem pequenos animais, têm seus acontecimentos mais significantes à noite e tratam da solidão de homens.

O primeiro, A aranha (1991), de Orígenes Lessa, apresenta a história de um tocador de violão que, um dia, de repente, encontrou uma aranha no interior de seu enorme sítio. O bicho, primeiramente, causou medo ao personagem, mas depois se tornou uma companhia.

O segundo, Zoiuda (2014), de Luiz Vilela, é o caso de um professor de português que, numa noite, ao voltar do bar, depara-se com uma lagartixa que, com o passar dos dias, torna-se uma espécie de companheira, de ouvinte.

Ambos os contos retratam a solidão: os dois protagonistas, indiferentemente de seus meios, seja um sítio ou um apartamento, mesmo rodeados de pessoas, tanto no trabalho quanto nas horas de lazer, sentem-se sozinhos e preferem a companhia de pequenos animais, uma aranha e uma lagartixa, bichos que causam medo na maioria das pessoas com quem dialogam.

Além disso, ambos os personagens principais estão ligados, mais do que outros indivíduos, à linguagem, por um ser professor e o outro, um músico, porém, os dois têm dificuldades em dialogar com as pessoas ao seu redor. Mais ainda: os protagonistas apenas querem ser ouvidos. Essa é a angústia dos contos e um apontamento em comum nas duas histórias: é preciso dar mais atenção aos semelhantes. Talvez, o tocador e o professor só “humanizaram” os animais, porque, em diversos momentos, foram "desumanizados". Tal como os personagens, é necessário abrir os olhos para as pequenas criaturas.  


REFERÊNCIAS

LESSA, Orígenes. A aranha. In: Para gostar de ler: volume 10 – contos. 6 ed. São Paulo: Ática, 1991.

VILELA, Luiz. Zoiuda. In: Você verá. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Por que o termo "Cinema de Arte" pode ser tão nocivo?


O texto abaixo é de um amigo que pediu um espaço no meu blog para escrever e postar este pensamento que ele possui. As palavras, reflexões e concepções sobre o tema são inteiramente dele. Espero que gostem.

Por que o termo "Cinema de Arte" pode ser tão nocivo?

Por Luke Muniz

Antes de mais nada, queria deixar claro que este texto nada mais é que uma opinião bem particular minha e que não se trata de nenhum tipo de artigo acadêmico ou algo parecido. Não se preocupem, não o encherei com referências ou nomes bonitos - talvez um ou outro, para dar um up no texto. Em fato, redijo aqui esse pensamento motivado por nada mais nada menos que por pura stream of consciousness minha, e também lembrando de discussões sobre cinema com amigos.

Deixando claro que isso não é uma regra, estou expondo um pensamento com intuito de discutir e, assim, gerar troca de experiências e aprendizados; falar besteira é normal, e provavelmente o farei durante essas X quantidades de palavras que irei digitar por aqui. Então, vamos ser tranquilos e debater com educação, ok? Concordar é ótimo, mas discordar promove trocas etc. Vamos para o que de fato interessa.

Quando falamos de clássicos cinematográficos, sempre aparecem nomes conhecidos como: “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Cidadão Kane”, “Pulp Fiction”, “O Poderoso Chefão” e por aí vai, dos mais antigos até os mais contemporâneos. E não só filmes, mas também seus diretores, as mentes por trás das obras: Kubrick, Tarantino, Spielberg, Hitchcock, Scorsese e tantos outros. Tendo consciência de que essas figuras se destacam, algo eles fizeram para serem tão reconhecidos, fazendo sua arte brilhar dentre tantas e pensar além de seu tempo. Quando o assunto “clássicos” surge, eles marcaram e definiram aspectos para os seus gêneros e para o cinema como um todo, é inegável.

(Hitchcock)

Mas sempre que se trata do cinema autoral (sim, eu prefiro esse termo, de longe) surge a aura maldita do termo “Cinema de arte”. Essa “taxonomia” é carregada e extremamente pedante, além de que, trata-se de uma segregação que não faz o menor sentido, tanto na prática, como conceitualmente falando. Em toda ocasião, quando o termo surgia, eu sentia uma cerca enorme ser criada, eu mesmo já falava disso quando queria me referir uma obra mais cult, e antes de mencionar, sempre deixava claro meu desprezo por essa taxação.

Arte sf 1. Capacidade de expressar uma ideia, empregando algum material que possa ser trabalhado – a arte de um pintor. 2. Prática de atividade que depende da inteligência e da habilidade - a arte de um médico/a arte de um pedreiro.
Geraldo Mattos – Dicionário JÚNIOR da língua portuguesa.

Vamos por conceito: Não sei vocês, mas o Dicionário Júnior  já me deixou bem claro que qualquer coisa que você empregar um valor artístico, dentro dos conceitos que aquela obra em específico abrange, será arte. Claro que ela, por si só, é extremamente subjetiva, do  modo de criação até o de apreciação, mas existem moldes de avaliação, como, já cito,  o do cinema, que observa fotografia, roteiro, atuação, direção etc. Esses são os aspectos técnicos que compõem qualquer obra cinematográfica. Assim como a música, que  tem que ter melodia, ritmo, voz (ou não, no caso das instrumentais). Descartando qualquer valor de qualidade, de bom ou ruim, se um produto segue as “normas” do seu segmento artístico específico, ELE  É ARTE.

O conceito de cinema de arte é um tanto vago, tanto quanto a sua história. É, todavia, do conhecimento geral que o termo se refere a obras apreciadas pelo seu valor artístico e não como passatempo lucrativo, a filmes que sobrevivem à avassaladora maré das produções de Hollywood, ao “mainstream”, ao cinema industrial cujo objetivo é o lucro. É, na sua essência, um cinema que se preocupa com a condição humana e a aborda numa perspectiva ética, que não é descartável da estética, tanto em criações de baixo orçamento (low budget films) ou de nenhum orçamento (no budget film) como em projetos de elevado custo de produção.”
Fonte: Wikipédia

Há quem ache que justificar algo dizendo que é a “Proposta” possa soar preguiçoso ou algo semelhante. Concordo, mas há casos e casos. Ressaltando o conceito que atribuem ao termo “Cinema de Arte”, podemos perceber que,  com apenas uma pesquisa rápida, reitera-se  o fator “segregação”. O cinema dito “lucrativo” e de “passatempo”, os famosos blockbusters, não se limita  a só isso. Não irei longe para citar um exemplo que de cara quebra todo esse paradigma insolente.

Dirigido por Ryan Coogler, em 2018 chegou aos cinemas o maravilhoso e importantíssimo “Pantera Negra”. Se você possui alguma rede social, deve ter visto centenas de publicações ao redor do mundo com a comoção do filme e pela representatividade que este carrega consigo. Lembrando: Um filme blockbuster. Mas destaco aqui o valor deste filme - que dizem não ser arte... Faça-me o favor!  -quando li uma notícia que circulou em vários veículos, de um garoto de 15 anos que resolveu voltar a estudar por conta de ter assistido e se inspirado no protagonista T’Challa. É um caso lindo, e deixo aqui um link para saber mais: https://omelete.com.br/filmes/noticia/pantera-negra-adolescente-decide-voltar-a-estudar-apos-assistir-ao-filme/

(Pantera Negra, de 2018)

O valor que isso tem é inestimável. O efeito que a obra causou na vida dessa pessoa já vale mais que os orçamentos exacerbados de filmes que “não são arte”. E ressalto, de novo, um “blockbuster”. Ano passado, tivemos “Mulher Maravilha”, dirigida por Patty Jenkins, outro grande marco no cinema que “não é de arte”, por sua representatividade feminina e por seu simbolismo.

Eu disse que não iria mais longe, mas tenho de ir. O que seriam dos conceitos de amizade que reverberam na memória de muitos se não fossem as aventuras dos anos 80? A escola Spielberg de produção, de garotos e garotas numa aventura contra o mal e descobrindo que a união faz a força e que a segregação só enfraquece. Filmes de apenas “entretenimento barato”. Entretenimento barato existe? Claro que sim, é óbvio. Abra qualquer filme do Adam Sandler. E até o Adam Sandler consegue arrancar uma mensagem bastante interessante, “Click” está aí para provar isso.

O recente programa (2016), feito pela TV Quase e exibido no canal do Omelete, “Choque de Cultura”, ganhou um público gigante de fãs e não-fãs de cinema. São motoristas de transporte alternativo, que se juntam em um estúdio e discutem obras cinematográficas, desde a mais cult até a mais “não cinema de arte”. Os personagens, Rogerinho do Ingá, Renan, Maurílio e Julinho, tratam das obras diante das perspectivas de suas vidas  e de quem eles são. Logicamente, algumas posições tendem aos exageros, mas isso ocorre  para efeito cômico, que é o viés principal do programa.
  


Entretanto, dentro do tema que abordo aqui, "Choque de Cultura" é uma metalinguagem disso tudo, pois são pessoas que não são cults, mas que assistem a filmes assim, e os tratam, na hora de avaliar, da mesma maneira dos que "não são arte". E eles não motoristas de van, cinéfilos, consegue entender? Não conseguimos imaginar um motorista de van que seja cinéfilo, mas quem disse que não pode existir? E só pelo fato de já estar assistindo a filmes e discutindo sobre eles, já é maravilhoso.

Todo filme é arte. Bom ou ruim. É arte. Entender isso é fundamental. Gosta de filmes? É cinéfilo? Tenho certeza que, mesmo que não o seja, já deve ter visto algum filme que deixou alguma mensagem marcada (e uma que seja positiva). Nenhuma delas, estou certo disso, era sobre separar.

Não é só um termo para definir filmes com assinatura própria, se for por isso, existem nomes melhores para tal, como, por exemplo: “Filme com diretor de assinatura”. Olhe  aí, que beleza de nome. Não segrega, não é nocivo, mas agrega. É essa mensagem que a arte e o cinema espalham em muitas de suas obras: União. Da comédia romântica mais boba até uma Magnum opus de Scorsese. Em suma, sempre é algo voltado para o ser humano; alguns, em níveis mais aprofundados; outros, melhores discutidos, alguns, nem tanto, mas a intenção é a mesma. Cinema é Cinema. Cinema é arte.
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terça-feira, 6 de março de 2018

Conteúdo e forma: a importância da estética e uma breve análise da música “Prelúdio”, de Raul Seixas


Introdução

Muitas vezes, as pessoas gostam de um poema, de uma música, de um quadro, de uma imagem etc., mas não sabem o porquê. Às vezes, nem compreendem completamente as mensagens passadas por uma obra, mas algo as atrai e as faz gostarem dela: é a forma como o objeto é mostrado, por trás da subjetividade. Antônio Candido diz que “A eficácia humana é função da eficácia estética” (CANDIDO, 1988, p. 182), isto é, o conteúdo da mensagem é reforçado através da maneira como é demonstrado.

Há diversas técnicas linguísticas, verbais, áudio e visuais utilizadas na arte, tanto para deixar o objeto mais belo, quanto para chamar a atenção de quem o observa. Por isso, é necessário mais atenção e aprofundamento ao contemplar qualquer arte, porque ela não é objetiva, pelo contrário, é subjetiva, sempre sugere diversas interpretações.

Neste texto, buscar-se-á apreender alguns sentidos na música “Prelúdio”, de Raul Seixas, além do explícito, conciliando, desta forma, código e mensagem.

Sobre o artista

Raul Seixas foi um dos maiores cantores e compositores brasileiros, um dos pioneiros do rock nacional, embora o misturasse com outros gêneros musicais, principalmente nordestinos. Tendo vivido na época da ditadura, sua obra possui diversas críticas ao regime daquele tempo, além de referências à literatura, à psicologia, à história e à filosofia, o que faz suas músicas serem complexas e ricas de interpretações.

Como se não bastasse a preocupação do artista com o conteúdo de suas canções, quase sempre com letras relevantes para a sociedade, também há uma valorização da estética, o que é muito importante para a propagação e para a compreensão da mensagem, como será visto mais à frente.


Antecedentes e contexto

Antes de tudo, é necessário explicitar que a letra de “Prelúdio”, que aqui foi separada em apenas quatro versos, é a tradução quase exata do final da música “Now or never”, de Yoko Ono, mulher de John Lennon, ídolo de Raul Seixas. A canção de Yoko foi lançada em 1972, como single homônimo, e depois como faixa do álbum Approximately Infinite Universe, de 1973. Já a música do brasileiro está presente no disco Gita, de 1974. Veja a semelhança:

Últimos dois versos de Now or never, de 1972

‘Cause dream you dream alone is only a dream,
But dream we dream together is reality.



Prelúdio, de 1974

Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só,
Mas sonho que se sonha junto
É realidade.



Há quem acuse Raul Seixas de plágio, e não é muito fácil defendê-lo, pois os versos se parecem muito (o que muda é que o trecho da música original possui os pronomes pessoais “You” e “We”, “Você/Tu” e “Nós”, respectivamente; enquanto a versão brasileira usa uma linguagem impessoal, com a partícula “se”). Além disso, todos sabem que Raul era um grande fã dos Beatles e do John Lennon, sua música foi lançada depois do single e álbum da Yoko, mas não há nenhuma referência ou créditos a ela.

De qualquer forma, as duas obras possuem muita força, por causa de seus contextos. Now or Never foi lançada na época da Guerra do Vietnã, enquanto Prelúdio foi apresentada durante a Ditatura Militar brasileira; ambos períodos conturbados, violentos e descontentes de seus povos e países; ambas serviram como protestos.

A era atual, conhecida como “modernidade líquida” ou “pós-modernismo”, que começou na segunda metade dos anos 50, é marcada pelo egoísmo. Jair Ferreira dos Santos, ainda nos anos 80, escreveu:

O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas. Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente aos grandes problemas sociais e humanos. (SANTOS, 1988, p. 88)

Nesse contexto, a mensagem da música é simples: é preciso pensar no geral, a sociedade é coletiva, sozinho não se consegue nada, o individualismo é um problema, um verdadeiro povo possui objetivos em comum. Todavia, o presente texto também tem como meta apresentar uma interpretação sobre a estética da música de Raul Seixas, em razão de seus jogos sonoros.

Características do objeto

Nesta análise, a letra de “Prelúdio” será entendida como um poema, isto é, uma criação literária, “um discurso específico, em que a seleção e a combinação das palavras se fazem não apenas pela significação, mas também por outros critérios, um dos quais, o sonoro” (GOLDSTEIN, 2005, p. 05).

Segundo Décio Pignatari (2011), citando Ezra Pound, que foi um renomado crítico literário e poeta norte-americano, há três características fundamentais nos poemas: a fanopeia, a melopeia e a logopeia. O primeiro tipo de poema trabalha com imagens e metáforas; o segundo, com sons e música; e o terceiro, com ideias. Embora a obra de Raul Seixas seja uma metáfora, a melopeia, isto é, a sonoridade, é muito mais forte e importante.

A análise de qualquer texto deve partir do título, pois ele já sugere ao leitor alguma ideia do que será discutido, no caso, a música se chama “Prelúdio”, que significa “antecipação, anúncio, prólogo, etapa inicial de algo” etc. No ramo musical, é uma introdução para uma obra ou para um ato que virá em seguida.

Desta forma, se for levado em conta o álbum no qual “Prelúdio” está inserida, Gita, ela é uma entrada para “Loteria da Babilônia”, uma música com tantos significados e referências (Jorge Luís Borges, Alester Crowley, Hércules etc.), que seria preciso fazer outro texto sobre ela, mas que, em suma, fala sobre a suposta iluminação de alguém; se a canção for referente a si mesma, pode-se dizer que a primeira etapa, o prelúdio de qualquer mudança social, é o sonho coletivo. Dialeticamente, essa mensagem leva ao despertar.

Além disso, a “musicalidade (sugestão de música e ritmo) pode partir do título, algumas vezes” (GOLDSTEIN, 2005, p. 08). É o que ocorre com o nome da canção, “Prelúdio”, que já sugere uma preocupação com os sons.

A importância da estética

Um dos maiores problemas das pessoas, quando leem um poema ou uma letra de música, é se atentarem somente ao conteúdo do texto, ignorando a sua forma. Todavia, “quando elaboram uma estrutura, o poeta ou o narrador nos propõem um modelo de coerência, gerado pela força da palavra organizada” (CANDIDO, 1988, p. 177). Ou seja, tais vocábulos não são escolhidos à toa, eles possuem um motivo para estar onde estão e da forma como foram apresentados. Otto Maria Carpeaux é enfático e ácido ao dizer que:

Os homens não sabem ler. Aplicam a um poema o mesmo processo errado que aplicam a anúncios de jornal ou a notícias de propaganda política: contentam-se com o sentido superficial das palavras, sem explorar a intenção daquele que fala. Confundem duas coisas que estão juntas em cada palavra falada ou escrita: a expressão e a intenção. Consideram apenas o que o outro Ihes diz, sem considerar como o diz e porque o diz. (CARPEAUX, s/d, p. 26)

Mesmo que “Prelúdio” seja uma tradução, traduzir um poema ou qualquer texto literário é algo muito difícil, porque a obra não é apenas o conteúdo, mas a junção dele com a estética:

A mensagem é inseparável do código, mas o código é a condição que assegura o seu efeito. (...) Em palavras usuais: o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e sugere. O caos originário, isto é, o material bruto a partir do qual o produtor escolheu uma forma, se torna ordem; por isso, o meu caos interior também se ordena e a mensagem pode atuar. (CANDIDO, 1988, p. 178)

A música de Raul Seixas é cantada de forma lenta e vai subindo o tom conforme os versos se repetem, apenas com um piano/teclado ao fundo. Não à toa, pois o tema abordado é o sonho, que ocorre durante o sono, geralmente no silêncio. Não poderia ser uma canção agitada. Além disso, três dos versos são construídos sob três técnicas poéticas de efeito sonoro: aliteração, assonância e anáfora.

Aliteração “é a repetição da mesma consoante ao longo do poema” (GOLDSTEIN, 2005, p. 50), assonância “é o nome que se dá à repetição da mesma vogal no poema” (idem, ibidem, p. 51), e anáfora é a “repetição de palavras (...) na mesma posição” (idem, ibidem, p. 52). No caso, a consoante repetida é o “s”; a vogal, o “o”, e as palavras, “sonho que se sonha só”.

Ao reforçar a letra “s” (sonho, se, sonha, só, só, sonho, se, sonha, só, mas, sonho, se, sonha), o eu-lírico sugere o silêncio da situação de alguém dormindo, tal como quando se pede para alguém não fazer barulho. As sílabas, por sua vez, constituem uma espécie de embalo musical na leitura, ao se revezarem entre sílabas fortes e fracas:

SO – nho – QUE – se – SO – nha- SÓ
É – SÓ_um – SO – nho – QUE- se – SO- nha – SÓ
Mas – SO -nho – QUE – se – SO- nha – JUN- to
É re – A – li – DA- de.

(As maiúsculas seriam as sílabas fortes; as minúsculas, as fracas.)

Além disso, os três primeiros versos são quase compostos apenas por vogais e sílabas fechadas e nasais, exceto pela palavra “só”, que é aberta. Neste contexto, a vogal fechada ou nasal pode significar o escuro do local (lembre-se, o tema é o sono e o sonho). É como se falasse para alguém cochilando, dormindo na maior parte do tempo e acordando somente na última sílaba (“só”).

Isso se constata com o último verso, que só possui as palavras “É realidade”. A primeira é uma vogal aberta (É), a segunda tem como sílaba tônica “Da”, que também é aberta (dA). Essa última frase sugere claridade, diferente dos três primeiros versos. Porém, por ser o fim da música, seu significado é intensificado: a mensagem foi dada, esclarecida, é hora de acordar, levantar e agir.

Quanto à anáfora, a repetição das mesmas palavras, ela fixa e memoriza os versos, além disso, cria um ritmo que sugere uma continuidade de sons semelhantes, mas as novas palavras, no último verso, de sons diferentes, rompem a expectativa do leitor/ouvinte, o que o faz despertar, confirmando o sentido e a intenção do texto.

Considerações finais

Independentemente de Raul Seixas ter plagiado Yoko Ono ou não, é impossível negar as suas habilidades de interpretação e composição, seus conhecimentos históricos, sociológicos, filosóficos e literários, além da preocupação social que o artista sempre teve. Prelúdio até pode ser uma utopia por sugerir que todos sonhem com o mesmo objetivo, mas, de qualquer forma, as utopias são necessárias ao homem. Embora nunca se alcance a meta, dá-se passos para frente.

Também foi visto que da mesma maneira que a união entre as pessoas é necessária, ao se analisar qualquer obra de arte, é fundamental unir o conteúdo à estética, pois esta reforça a mensagem daquele, mesmo que “nas camadas do subconsciente e do inconsciente, incorporando-se em profundidade como enriquecimento difícil de avaliar.” (CANDIDO, 1988, p. 179).

Em suma, tentou-se mostrar alguns sentidos implícitos presentes na letra da música Prelúdio, através dos seus jogos sonoros, e a importância destes na construção do valor total da obra.

Raul Seixas, consciente de seu tempo e espaço, do egoísmo do homem pós-moderno, apontou uma saída, mas, infelizmente, muita gente ainda dorme sonhando com ilusões, sozinho. É por isso que a música continua atual.

NOTA: Há quem diga que até mesmo o trecho presente em Now or Never, da Yoko Ono, é uma paráfrase de um excerto do livro Dom Quixote, um clássico mundial da Literatura, de Miguel de Cervantes. Todavia, o autor desta análise possui e leu uma versão do livro Dom Quixote, traduzida por Ferreira Gullar, e em nenhum momento aparece algo similar ao referido. Ainda assim, o criador deste texto procurou essa frase em duas versões do livro de Cervantes, tanto na parte um quanto na parte dois, com mais de 600 páginas cada, mas nada foi encontrado. Se você é um dos que dizem que Yoko Ono e Raul Seixas copiaram o escritor espanhol, por favor, comente qual é a editora, a edição, o ano, a página e o tradutor do livro Dom Quixote que possui essa frase.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é formado em Letras – Português, inglês e respectivas literaturas, pela Faculdade de Santo André, Santo André, São Paulo.

REFERÊNCIAS

APPROXIMATELY INFINITE Universe. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Approximately_Infinite_Universe>. Acesso em: 05 de mar. 2018.

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, s/d. Disponível em: <https://culturaemarxismo.files.wordpress.com/2011/10/candido-antonio-o-direito-c3a0-literatura-in-vc3a1rios-escritos.pdf>. Acesso em: 05 de mar. 2018.

CARPEAUX, Otto Maria. Poesia e ideologia. In: Origens e fins. Disponível em: <http://www.portalconservador.com/livros/Otto-Maria-Carpeaux-Poesia-e-Ideologia.pdf>. Acesso em: 05 de mar. 2018.

GITA. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Gita_(%C3%A1lbum)>. Acesso em: 05 de mar. 2018.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons e ritmos. 13 ed. São Paulo: Ática, 2005.

ONO, Yoko. Now or never. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3r5yWnY9VvU>. Acesso em: 05 de mar. 2018.

PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética.10 ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011.

SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós-moderno. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.

SEIXAS, Raul. Prelúdio. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-2bxSDOarKM>. Acesso em: 05 de mar. 2018.