domingo, 15 de janeiro de 2017

Um breve comentário sobre o anime "Now and then, here and there"

Não sou especialista em animes, mas gostaria de comentar sobre um que acabei de assistir.

Há cerca de dois anos, um amigo do Facebook relatou ter assistido ao anime Now and then, here and there e ter gostado muito. Anotei o nome para assisti-lo depois, mas passou-se um ano e eu não tinha o assistido ainda. Prometi a mim mesmo que depois que terminasse de ver o Yu-Gi-Oh, vê-lo-ia.

Terminado de assistir aos 224 episódios das aventuras e duelos de Yugi e seus amigos, fui direto ao anime recomendado. O nome original da animação é Ima, Soko Ni Iru Boku, que no Ocidente ficou conhecido como Now and then, here and there (Agora e depois, aqui e lá).

(Shu e Lala Ru)
A obra possui apenas treze episódios, que foram dirigidos por Daichi Akitaro (famoso pelo Fruits Basket) e dirigido por Hideyuki Kurata. O anime foi exibido entre outubro de 1999 e janeiro de 2000. Apesar de curto, não se engane, os temas abordados e a forma como são discutidos são de uma profundidade imensa, proporcionando reflexões por muito mais tempo do que a duração de cada capítulo.

Primeiramente, falemos sobre a abertura, que chega a nos lembrar algumas soundtracks do Hunter x Hunter (Yoshihiro Togashi) clássico — também exibido entre 1999 e 2001 —, mas não apresenta ação alguma, apenas as figuras e os nomes dos personagens.

(Opening de Now and then, here and there)

É preciso dizer, também, que antes de cada episódio, antes mesmo da abertura, lemos a frase “Pois dez bilhões de anos é um tempo tão frágil, tão efêmero... Que incita um carinho amargo, quase desolador...”. Uma reflexão introdutória, tal como é feito em Berserk (Kentaro Miura), mas este último foi exibido em 1997 e 1998.

Pois bem, assim começa Now and then, here and there, com o personagem principal, Shu, um menino elétrico, ingênuo e bondoso, lutando e perdendo num dojo. Em seguida, caminhando pela rua, ele avista alguém em cima de uma chaminé de um local abandonado, observando o pôr-do-sol.

Depois de certa insistência, a menina misteriosa diz se chamar Lala Ru. Neste momento, porém, surge uma luz, alguns soldados e uma mulher, que depois descobrimos se chamar Abelia. Eles são membros do exército de Hellywood, um país-navio de outro mundo (em outro tempo), governado pelo ditador Hamdo. Lala Ru está sendo procurada há tempos, por conta de uma habilidade única que ela possui (depois descobrimos ser o controle da água). Shu, ao perceber que a menina lhe pede ajuda, tenta impedir (a qualquer custo) que ela seja pega, mas ambos são levados à Hellywood.

Neste momento, penso ser um ponto negativo na obra, pois é inverossímil com a realidade. Shu tinha acabado de descobrir o nome da menina, não sabia nem de onde ela veio ou o motivo pelo qual estavam atrás dela. Embora ele tenha um grande senso de justiça, não é sempre que se pula de uma chaminé para outra, correndo risco de vida, lutando contra dois soldados montados em enormes máquinas-dragão, tudo isso tendo como arma apenas um pedacinho de madeira a seu favor... Mesmo depois, ao chegar num mundo desconhecido, o personagem principal nem se lembra da própria família, apenas em salvar a menina recentemente conhecida...

A partir daqui haverá alguns spoilers. Se não quiser sabê-los, assista ao anime e volte — se quiser — depois.

Chegando ao outro mundo (Hellywood), Shu e Lala Ru tentam fugir, mas são perseguidos por vários soldados de Hellywood a mando do ditador Hamdo. Aqui começa o peso da história: todos os soldados são apenas crianças... Crianças que foram retiradas de outras vilas, mas que agora servem a um ditador que, sem que eles soubessem, após tomá-los de suas famílias, destruiu as suas cidades. Então, elas lutam a favor do ditador, que lhes prometeu que quando capturassem Lala Ru, voltariam para suas famílias e vilas... Cegas, elas seguem um sonho; cegas, elas seguem a ideologia (d)e um homem que as oprime...

Não se explica o que “é” o mundo de Hellywood, mas acredito ser algum lugar da Terra no futuro, pois, lá, todo o cenário é devastado por causa das guerras e pela falta d’água. Além disso, há relação dada pelo título do anime: Agora e depois, aqui e lá, que pode demonstrar o presente de Shu e o futuro de Lala Ru e dos outros, o “aqui” do Japão e o “lá” de Hellywood. Ou ainda, pode significar uma reflexão sobre quem somos aqui e agora e o que seremos ou podemos ser mais tarde; outra sugestão, talvez, seja o “aqui” = nós, e o “lá” = o(s) outro(s).

Outro fator não explicado é quem é Lala Ru, de onde veio, porque ela existe, de onde vem o seu poder, etc. Só sabemos que ela é considerada lenda por alguns povos, pois vive(u?) há milhares de anos; é cobiçada por Hamdo, para que com a água (que o mundo todo quase não tem) ele possa dominar outros lugares e países.

Num dos episódios, Lala Ru diz que sempre que usa o seu poder, sente-se fraca; odeia os seres humanos, porque se ela os ajuda, eles querem “ajuda” (benefícios) sempre, e caso se recuse, passa a ser odiada e perseguida, nunca os contentando completamente. Isso ocorreu e se repetiu durante gerações (lembram-se da frase que inicia todos os episódios? “Pois dez bilhões de anos é um tempo tão frágil, tão efêmero... Que incita um carinho amargo, quase desolador...”). Enquanto isso, Shu tenta convencê-la do oposto, que ainda há bondade no mundo e pessoas boas, ele é um exemplo, outras pessoas que eles conhecem, outros.

Voltando à história, Lala Ru é capturada, mas para a infelicidade do ditador, ela está sem o objeto que contém retido todo um “oceano” de água doce. Este fica com Shu, que o perde numa luta contra Nabuca, uma criança líder de uma tropa de Hamdo.

Nabuca é um dos personagens que mais muda conforme a narrativa, pois no início ele se mostra sempre eficiente a serviço de Hamdo, matando até amigos (outras crianças) se for preciso, se for uma ordem de um superior; mas quanto mais ele se relaciona e conversa com Shu, mais percebe que não só ele, mas todos os outros estão vivendo uma loucura, algo desumano.

Um dos companheiros de Nabuca, sempre ao seu lado, é Boo. Uma criança mais nova e negra. É preciso ressaltar essa característica, pois não é comum nos animes termos personagens negros. Boo é um dos primeiros a ser influenciado por Shu, compreendendo a si mesmo, suas vontades e medos, deixando de fazer o que não queria, mas que fazia porque foi imposto, lutando sem querer lutar. Além disso, é interessante notar a leve semelhança entre o personagem de Now and then, here and there com o Oob (o contrário de “Boo”, pois é a reencarnação boa do vilão “Boo”) de Dragon Ball Z (Akira Toriyama). Coincidência (?), ambos são negros.
(Boo e Oob)
Uma outra leve (leve, bem de longe!) semelhança entre personagens que podemos perceber é entre Abelia, a fiel súdita do louco ditador Hamdo, que vive entre seus surtos, ora sendo elogiada, ora sendo xingada e agredida fisicamente, mas sempre submissa (como muitas mulheres ao redor do mundo...), e a Faye Valentine, do anime Cowbow Bebop (Shinichiro Watanabe e Keiko Nobumoto), mas esta última aparenta ser mais jovem e é mais cool, (muito) mais sexy — claro, além de obras e desenhistas diferentes, o contexto de Abelia é muito pior.
(Abelia e Faye. Detalhe: escolhi imagens em que as personagens podiam se parecer mais, porque, na verdade, Abelia é mais morena e "feia", enquanto Faye é mais bonita do que a imagem escolhida)

Aliás, os traços de todo o anime são mais simples, sem muitos detalhes. As cores alternam entre o escuro e o claro, cores frias e quentes (tal como as alternâncias do título do anime...). Precisamos atentar-nos às feições dos personagens, porque nos diversos momentos de silêncio, elas falam muito sobre o espírito, a vontade e o passado daquelas pessoas...

Para não me prolongar demais, recomendo a animação por conta de seus temas, que não são muito comuns entre nós, ocidentais, em desenhos. Em Now and then, here and there discute-se violência, ideologia, fascismo, guerras, determinismo, reprodução, vingança, tortura, medo, fome, falta d’água, estupro, aborto, perda da inocência, etc., tudo mediado, discutido, vivenciado por crianças. É isso que faz com que a obra seja pesada, uma das mais fortes que já assisti. Se fossem adultos, não teria o mesmo impacto. Por mais que seja ficção científica, é tudo muito real e próximo de nós.  

Contudo, no final, por mais tristes acontecimentos que tenham acontecido, ainda assim, resta uma mensagem de esperança. Ao lado de Kino No Tabi (Keiichi Sigsawa), considero-o o anime mais filosófico que já assisti.


P.S.: Há outros personagens e acontecimentos, além de fatores como trilha sonora, que devem ser refletidos, mas deixo-os para quem assistir. Para quem não viu ainda, esse texto é só uma introdução; para quem já o assistiu, uma conversa.

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