sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Fichamento comentado do livro "Análise da Conversação", de Luiz A. Marcuschi

MARCUSCHI, Luiz A. Análise da Conversação. 2. ed. São Paulo: Editora Ática, 1991.

Análise da Conversação, de Marcuschi, é um livro técnico que, como diz o próprio título, tenta compreender como se dá o processo da conversação. Por muito tempo acreditou-se que a escrita era a forma ordenada, coesa e coerente da língua, enquanto a fala seria um sistema caótico e sem regras — o que não é verdade. A conversação “(...) não é um fenômeno anárquico e aleatório, mas altamente organizado e por isso mesmo passível de ser estudado (...)” (p. 6). 

Embora a conversação seja a prática mais comum do ser humano, ela só começou a ser estudada e analisada nos anos 60, “(...) sobretudo, com a descrição das estruturas da conversação e seus mecanismos organizadores. (...)” (p. 6). Dentre as questões que a Análise da Conversação propõe-se a resolver estão: “(...) como é que as pessoas se entendem ao conversar? Como sabem que estão se entendendo? (...) Como usam seus conhecimentos lingüísticos e outros para criar condições adequadas à compreensão mútua? (...)” (p. 7), etc. 

É por essa razão que o objeto de estudo é a própria conversa viva em situações reais, e não textos ou conversações retiradas de livros, artes ou outras áreas, pois por mais que sejam parecidas ou inspiradas na realidade, foram planejadas antecipadamente.

O livro também aborda questões e processos de transcrições. Marcuschi diz que ao transcrevermos conversações, devemos atentar-nos a “(...) detalhes não apenas verbais, mas entonacionais, paralingüísticos e outros, algumas informações adicionais, quando as houver, devem aparecer na transcrição (...)” (p. 9) também. Embora deva-se usar, para transcrever, o sistema ortográfico da língua-padrão, há alguns sinais próprios para algumas situações, como falas simultâneas, sobreposição de vozes, pausas, dúvidas, truncamentos bruscos na conversa, ênfase, comentários do analista e outras situações.

Importante saber que nenhuma conversação se dá com apenas uma pessoa, a isto chama-se “monólogo”. Para ser considerada uma conversação é necessário que haja pelo menos duas pessoas, um tema central (mas que pode-se abrir para outros assuntos paralelos), ao “(...) menos uma troca de falantes; (...) presença de uma seqüência de ações coordenadas(...)” (p. 15), um mínimo de conhecimento em comum por parte dos participantes e uma mesma situação/contexto. 

Uma informação básica e essencial sobre a conversação é que ela se dá por turnos. O turno é a produção de um falante enquanto está na sua “vez”, e isso inclui, às vezes, também, o silêncio — deve-se ficar claro que o turno não é apenas uma “fala”; muitas vezes o emissor pode ter tido mais de uma fala em apenas um turno. 

É analisado que em cada turno, cada pessoa fala de uma vez; as ordens e duração dos turnos variam; em cada conversação o número de participantes pode variar também; há falhas, continuidades, descontinuidades, técnicas e estruturas inseridas em cada turno, mas a regra básica é “(...) fala um de cada vez (...)” (p. 19).

Segundo Marcuschi, “(...) Tudo indica que a tomada de turno não se dá caoticamente, mas obedece a um mecanismo, que se explicita em algumas técnicas e regras.” (p. 20). Embora possa parecer uma tarefa simples e façamo-la todos os dias, mesmo sem perceber, a conversação é um ato muito complexo; usamos mecanismos metalinguísticos e para-linguísticos (olhar, gesticulação, riso, tom de voz etc.) que criam, corrigem e dão margem à outras situações, situações estas que na escrita não aconteceriam.

Sabemos que as conversações possuem uma organização e sequências, mas elas não se dão sozinhas, nós a criamos (e até as esperamos). Por exemplo, ao fazer uma pergunta, esperamos uma resposta; ao dar uma ordem, fazer um convite, cumprimentar, pedir, acusar, etc., sempre causamos uma sequência, sempre passamos o turno para o outro, e não precisa ser em uma situação face a face, mas, entre outras formas, a conversação telefônica.

No capítulo “Organizadores globais: o caso da conversação telefônica” lemos que “O mais normal numa conversação é que ela tenha pelo menos três seções distintas estruturalmente, ou seja, uma abertura, um desenvolvimento e um fechamento.” (p. 53), mas que “Um dos problemas nos telefonemas é o do fechamento da conversação. (...) são freqüentes seções longas de despedidas, com várias reduplicações. (...)” (p. 59). Marcuschi ainda cita Schegloff e Sacks para estender essa problemática às conversações face a face.

No sétimo capítulo são abordados os marcadores conversacionais, sistemas verbais e não-verbais, sinais do falante e do ouvinte, mostrando como uma conversação é muito mais que meras palavras, mas uma relação e interação humana; como o falante percebe e induz a reação do ouvinte, e este, ao ouvir, como reage ao concordar ou discordar com o discurso proferido.

Ao falarmos em “organização” é necessário falar em coerência e coesão, e “(...) sabemos que algumas coisas são ‘conversáveis’ e outras não. Entre as coisas conversáveis, algumas podem ser ditas a qualquer um e outras a poucos, algumas devem ser ditas logo e outras podem ser adiadas, e assim por diante.” (p. 77). A conversação fluente, coesa e coerente é aquela que passa de um assunto (tópico) ao outro normalmente, mesmo que haja uma mudança, ela deve ter algo relacionada ao tópico anterior, pois se não, ou será corrigida ou questionada pelo motivo da “quebra”. 

 Conclusão

Este livro mostra que, embora as conversações sejam complexas, elas não são caóticas; possuem suas regras e seguem padrões (alguns universais), o que as tornam possíveis de estudar, observar, explicar e explicitar. 

O livro, de linguagem técnica, não se propõe a esgotar o assunto, muito pelo contrário, surge e apresenta-se somente como introdução. Uma descrição e análise daquilo que fazemos (que sempre fizeram e sempre faremos) naturalmente todos os dias: conversar. Como esta ação é processada? Qual a importância de alguns fatores (verbais e não verbais)? O que eles acarretam?

Em suma, um livro mais do que linguístico, porque estudar a linguagem e conversação é estudar parte das relações humanas.

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