sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Análise da música "Zombies Dictator", da banda Almah

“Zombies Dictator” é uma música da banda Almah, lançada no álbum Motion, de 2011. Composta por Edu Falaschi, mas interpretada por ele e Victor Cutrale, este é um dos fatores que chamam a atenção na música: dois vocais, um melódico e um gutural; além disso, há um “peso” e intensidade muito fortes na canção. 

A letra, assim como os vocais, divide-se em duas partes, uma agressiva e questionadora, e a outra, melódica e esperançosa. Farei uma tradução um pouco diferente das que existem por aí, deixando outras possibilidades:

Ditadores zumbis

Como podemos viver com isto/este
Poder e miséria?
Eles lutam
Ou mandam outros lutarem por eles?

Alguém morre em vão
Porque alguém semeia o medo.
O que você vê?
Um futuro em uma rua sem-saída.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditadores zumbis.

O povo come pão apodrecido
Enquanto suas almas destrutivas
Fazem um brinde
À indústria da morte.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditador de zumbis
Há um motivo para resistir
A imposição do Terror!
Todos nascem livres
Ditadores zumbis

Morra

Você conduz o inferno através das colinas sem esperança
Você prevê toda a desgraça do Oeste

Morra

Empunhe armas e mire na cabeça
E adorne/decore o deserto com o sangue.
Salve-nos agora

E queime no inferno com sua máfia/gente.


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Logo ao ler, percebe-se a diferença de pensamentos do eu-lírico, que, de tão diferentes, ainda mais com as diferenças de estilo e vozes utilizadas, pensa-se ser dois, mas são apenas dois sentimentos diferentes.

A música inicia-se muito agressiva, é uma das mais pesadas da banda, com um eu-lírico que questiona sua própria posição: como podemos viver nesta situação, com este tipo de poder, com esta miséria? 

É um chamado de consciência para nós mesmos, neste cenário onde a política, o poder, não age conosco, mas brinca. E termina a estrofe com a pergunta “Eles lutam ou mandam outros lutarem por eles?”; tratando-se de governantes e falsos líderes, o verbo “lutar” pode ser trocado por outros, “trabalhar” é um deles. No campo dos ditadores (que não foge muito do campo dos governantes), lembremo-nos das guerras, onde os soldados apenas seguem ordens de lutar, de representar o país, enquanto os ditos “representantes do povo”, não fazem nada — na verdade fazem a “briga”; pois a luta não é de interesse da população.

Na segunda estrofe percebe-se o pessimismo de uma parte do eu-lírico. “Alguém morre em vão porque alguém semeia o medo”, na verdade, não é somente uma pessoa, mas várias que morrem em vão, lutando por falsas verdades (ideologias), lutando contra a mentira espalhada, lutando por um fato dito consumado, inexorável. E termina com uma projeção do lado ruim do eu-lírico; muitas vezes, o ser não possui escapatória: ou luta e morre pelo o que foi ordenado, ou luta e morre por ter se rebelado. É uma rua sem-saída.

Neste momento a sonoridade da música fica mais devagar e é o Edu quem canta, com uma visão diferente das duas primeiras estrofes, ele diz que há uma razão para tudo isso, que é ficarmos mais fortes. É como se fosse um pensamento para enganar a si mesmo, típico de algumas pessoas que não agem para mudar o seu meio (lembremo-nos do primeiro e segundo verso) ou não entendem como funciona o sistema/realidade, e arranjam desculpas ou convencem-se, de verdade, que há um motivo para tais atos acontecerem. Mas percebamos que enquanto uma parte do eu-lírico vê uma rua sem-saída, só vê os lados negativos, diferentemente, este vê um lado positivo.

No entanto, esse eu-lírico, mesmo que pensando diferente quanto ao futuro, é consciente da realidade do presente, pois mostra que sabe que esses “ditadores zumbis” apenas aparentam serem bons, disfarçando-se atrás de armas. É interessante percebermos esse termo “zumbi”, pois mostra que os ditadores já estão mortos (como seres humanos, que, por ser assim, são entendidos por essa parte do eu-lírico como bons, assim como ele. É uma projeção), mas ainda pensam em matar.

Em seguida retorna a parte agressiva do eu-lírico e da música, comparando e diferenciando as realidades do povo e dos ditadores/políticos/ricos; enquanto uns comem pão apodrecido e vivem na miséria (a miséria é citada no segundo verso), outros tomam drinques, comemorando o poder (citado também no segundo verso) e lucros conseguidos pela indústria da morte. Devemos perceber que o povo, por estar vivo, come, alimenta o corpo; os “zumbis”, por estarem mortos, só são alimentados a alma.

Novamente volta a parte melódica da música, o refrão, mas acrescentado de algumas ideias. Se antes o eu-lírico acreditava que havia um motivo para tudo isso, aceitando a realidade, agora já diz que há um motivo para resistir a essa imposição de terror, pois todos nascemos livres. Nascemos livres, mas ao longo da vida prendemo-nos a lugares, pessoas e ideias de outras pessoas, deixando de sermos o que somos ou éramos.

Logo após isso, retorna a agressividade e o “pedido” (mas por estar gritando, o pedido torna-se ordem) para que esses ditadores morram. Este trecho é muito interessante, pois mostra o quanto após vivermos sob a violência, se nos deixarmos levar por ela, tornamo-nos violentos também. 

Esse trecho é a concretização de uma frase, que gostaria de citar aqui, do filósofo Nietzsche, em que ele diz: “Aquele que luta contra os monstros deve vigiar para não se tornar um deles. Ora, quando teu olhar se fixa por muito tempo no fundo de um abismo, o próprio abismo penetra em ti.” (NIETZSCHE, 2013, p. 107). Se não tomarmos cuidado, agimos da mesma maneira dos que estão ao nosso redor, tornamo-nos a essência de nosso oposto. É o caso de policiais que agem como bandidos e cidadãos que agem como políticos, por exemplo.

O ritmo da canção muda, ficando novamente lento, melódico, mas mais carregado, e a parte “boa” do eu-lírico diz que os ditadores conduzem, lideram, controlam o inferno, que seria nossa situação de vida, através das colinas sem esperança, que são as nossas vidas, sem esperança de um dia melhor. E termina por dizer que eles preveem toda a desgraça do oeste. O oeste, sendo o lado em que o sol se põe, dando início à noite e escuridão, pode-se pensar que signifique o fim de tudo, o fim da vida, que eles preveem, pois eles mesmos causam-no. Ouve-se novamente o pedido, a ordem, o desespero para que morram.

Deve-se prestar atenção à sonoridade da música também, pois neste momento todos os instrumentos alinham-se para que, juntos, façam um som similar ao de uma metralhadora, o que tem tudo a ver com a letra da música, com a agressividade de uma parte do eu-lírico e com as ações dos ditadores. 

Após o solo, dá-se início à última parte “inédita” da música. Percebamos que antes do “Morra”, o eu-lírico apenas se questionava, mas agora ele dá “respostas” típicas de ditadores contra os próprios ditadores: “Empunhe armas e mire na cabeça/ E adorne/decore o deserto com o sangue./ Salve-nos agora/ E queime no inferno com sua máfia/gente.” — essa estrofe não necessita de explicação. É a realização da frase do Nietzsche, aquele que lutava contra monstros, tornou-se um também; tornou-se zumbi, que só pensa em matar o outro. Depois disso só repete-se o refrão e os gritos de “morra”, é uma luta.

Antes de finalizar eu gostaria de dizer que quando fui fazer esta análise/interpretação, pensei muito em quem seriam os zumbis: o povo ou os ditadores? Pois o zumbi é uma criatura facilmente enganada, tal como o povo; ao mesmo tempo, os zumbis perdem sua consciência humana e apenas pensam em matar, que é o caso dos ditadores. A tradução seria “Ditadores de zumbis" ou "Ditadores zumbis"?, acabei optando pela segunda opção. Sendo a arte subjetiva, fica a critério de cada um, desde que embasado nas explicações.

Liderada pelo vocalista Edu Falaschi, Almah é uma das maiores bandas brasileiras de Heavy Metal do país. Após participar do Rock In Rio e excursionar pela Europa e Estados Unidos, o grupo lançará seu novo álbum em 2016, sendo o mais recente de 2013, Unfold.

Referências

NIETZSCHE, Friedrich W. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Editora Escala, 2013.

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