quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Análise da música "Bullets On The Altar",da banda Almah.

"Bullets On The Altar" é uma música da banda brasileira Almah. Composta por Edu Falaschi, é uma homenagem para as doze crianças assassinadas por Wellington Menezes, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo - RJ, 2011 .

A letra é direta, com algumas questões e afirmações sobre crenças e visões religiosas. Enquanto a música inicia-se como balada (música lenta), em alguns pontos (por causa do conteúdo da letra) torna-se mais "agressiva", para mostrar a indignação do eu- lírico. Agora vamos à letra traduzida :

Balas no Altar

Nós somos realmente amados?
O que é crença e o que é crime?
Celestial? Fora da mente de alguém?

Pessoas amam, estimam
E acariciam quem elas crucificaram
Como vítimas fingimos chorar.

Tragédia, fim dos dias?
Ou é apenas a cegueira de um homem ?
Lealdade ou fanatismo?
Sem esperança, isso faz sentir-me muito solitário.

Homicídio
Crime
Um tiroteio
Agonia
Você repousa suas balas no altar.

E você morre
E você mata
Morto por dentro
Você revela
Sua aberração sob sua fé.

Tomando sonhos, tomando vidas
Tirando anjos dos braços da inocência
Prioridade, casa da dor!
Está descendo pregos na chuva fria.

Mas eu sinto o fim da tempestade
E o libertar das doze almas presas
Quando vemos as cruzes queimando para aliviar.

Contamos com o desconhecido para deixar nossa culpa de lado
Piedade não irá apagar suas mentiras
Encare a evidência de que Deus é algo para aliviar
O céu é a liberdade e o inferno é aqui.

Tomando sonhos, tomando vidas
Tirando anjos dos braços da inocência
Prioridade, casa da dor!
Está descendo pregos na chuva fria.

Mas eu sinto o fim da tempestade
E o libertar das doze almas presas
Quando vemos as cruzes queimando para aliviar.

Agora eu vejo o fim da tempestade
E vislumbro as doze almas ensinadas
Elas estão livres em algum lugar descansando nas memórias.


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Análise do conteúdo

Começa-se, então, com o eu - lírico fazendo várias questões sobre o que as religiões (pelo menos a maioria) pregam. Somos realmente amados por Deus? Até que ponto  as atitudes por uma crença podem chegar? O que difere um assassinato (crime) por uma questão política, de um assassinato em nome de Deus, religião ou crença? Mesmo com tais atitudes, nós ainda somos seres celestiais, criados pela mente de alguém (que é celestial também)?

Depois disso, o eu - lírico começa a descrever as más atitudes humanas (relacionando com a história de Jesus Cristo), mostrando como somos falsos. Diz que crucificamos as pessoas e, depois do feito, acariciamo-las; dizemos que amamos, estimamos e fingimos chorar. Tudo falsidade.

Na terceira estrofe há o questionamento entre o que as pessoas geralmente pensam ou dizem e o que realmente pode ser. Até que ponto a lealdade passa a se tornar fanatismo? Envolvido em tantas questões, o eu – lírico diz sentir a solidão e “puxa” a ponte anterior ao refrão da música. 

Neste ponto a música fica mais “agressiva” e relembra o que aconteceu em 2011, em uma escola de Realengo, Rio de Janeiro. O crime, os tiros, a agonia, tudo. Na frase “você repousa suas balas sobre o altar” pode-se pensar na possível ligação que tinha o assassino Wellington Menezes com a religião islâmica.

Na próxima estrofe é dito que o assassino ao matar já mostra que está morto por dentro, e coloca para fora o verdadeiro “eu”, no caso, uma aberração que existia por baixo de uma fé.

Assim, ele tirou sonhos, tirou vidas e tirou os anjos (que são as crianças, seres puros) dos braços da inocência — não só as que ele matou, mas as outras que presenciaram a cena e agonia também, pois é quase impossível alguém esquecer algum acontecimento deste nível depois de ter sobrevivido. Pode-se contar não só com a “inocência” citada, mas com os inocentes também, a saber, os pais e parentes das crianças.

Em meio a tantas coisas ruins, o eu -lírico mostra possuir esperanças (contradizendo-se, pois no 10º verso ele diz não possuí-la ) e sentir o fim disso tudo, que é quando as doze almas (o número de crianças mortas por Wellington) presas neste mundo se libertam: vemos as cruzes queimarem, ou seja, o assassino pagar pelo o que fez. Mas é dito que as cruzes queimam para aliviar, então, mesmo Wellington pagando pelo o que fez, perdendo a vida, isso não curará a dor dos entes das crianças, apenas aliviará. Termina-se o refrão.

A partir de agora a letra começa a mostrar as convicções do eu- lírico, que se mostra ser alguém cético perante os ideais religiosos. Ele diz que não aceitamos a nossa culpa e clamamos por algo desconhecido (Deus) para nos aliviar; ou ainda, como fazem alguns, colocar a razão dos fatos como planos do Divino. E termina por dizer que o céu é a liberdade e o inferno é aqui, afirmando, então, que vivemos no inferno e que é impossível sermos livres nesta vida.

Por fim, repete-se o refrão, mas com mais uma estrofe. Nela, é visto o eu- lírico que não apenas sente, mas que agora vê o fim da tempestade, observando as doze almas, agora sim, ensinadas a serem livres: livres em algum lugar, mas presas, descansando nas memórias dos que ficaram. 

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Há algumas contradições na letra, no dizer/pensar do eu- lírico, mas isso é normal do ser humano. Somos contraditórios por natureza, pois estamos sempre mudando — algo que condiz totalmente com o ideal do álbum que se encontra a música analisada.

"Bullets On The Altar" faz parte do álbum Motion ("Movimento”, em português), assim que abrimos o encarte do álbum, vemos uma frase em inglês, do filósofo grego Heráclito de Éfeso: "You cannot step twice into the same river, for fresh water are ever flowing on to you", algo como: "Você não consegue pisar no mesmo rio duas vezes, pois águas novas estão sempre fluindo sobre você".

Heráclito nos diz que tudo passa; as águas quando passam pelo homem que se banha, não são as mesmas, e o homem também não é o mesmo; a tristeza que sentimos uma hora irá embora, o mesmo acontece com as alegrias. Assim é a vida.

Embora a letra seja baseada no massacre de Realengo, ela aborda questões muito válidas sobre as religiões e crenças em todo o mundo. Vemos na História muitos casos em que as religiões mataram muitas pessoas e continuam matando até hoje; crimes são cometidos em nomes de crenças e deuses, em nome da "verdade". Devemos refletir, mudar nossa forma de pensar e agir; escolhermos a vida ao invés da morte.

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