domingo, 11 de dezembro de 2016

Resenha do livro Os ratos, de Dyonelio Machado, com enfoque no tempo e espaço da obra

Os ratos, de Dyonelio Machado, é um romance de 1935, que conta a história de Naziazeno, um homem que logo no início do livro descobrimos que só possui vinte e quatro horas para conseguir o dinheiro para pagar o leiteiro, caso contrário, não receberia mais o leite, o que significa um problema para o seu filho. Isso é apenas uma síntese dessa grandiosa obra. Antes de verificarmos um pouco da sua complexidade é preciso rever alguns conceitos.

Segundo Bosi (2013), há, no mínimo, a partir de 1930, quatro tipos de romance: os de tensão mínima, os de tensão crítica, os de tensão interiorizada e os de tensão transfigurada. Os ratos encaixa-se nos de tensão crítica, isto é, o herói lutando contra o seu meio.

Naziazeno é um homem pobre e devedor (ele deve a mais pessoas além do leiteiro). Embora viva na cidade, cresceu no campo, o qual ele lembra sempre idealizando, sendo, assim, o retrato do homem que saiu da zona rural para trabalhar na área urbana e que, talvez, ainda não esteja familiarizado com essas diferenças.

Embora a partir dos anos 30 tenha havido um crescimento na criação de romances em que as histórias se passavam no nordeste ou em outras regiões que não fossem os centros das cidades, Dyonelio Machado vai no sentido oposto de seus contemporâneos, escrevendo uma ficção que se passa na área urbana (em Porto Alegre, para ser mais exato).

Na verdade, ele apenas seguiu uma tradição, já que “(...) o romance surgiu identificado com a burguesia. Por isso, é urbana sua geografia” (MOISÉS, 2001, p. 178). Outra característica dos romances é que eles geralmente se passam em vários espaços diferentes, sendo abertos ou fechados. No caso d’ Os Ratos, o personagem principal perambula pelas ruas e pelos interiores de casas e comércios.

Uma última informação antes de adentrar a história é sobre o tempo. Como se sabe, há três tipos de tempo nos romances: o histórico/cronológico, o psicológico e o metafísico/mítico (idem, ibidem). Dyonelio consegue juntar os dois primeiros em sua obra de forma bem intrincada, além de, como sabemos, o tempo interferir no espaço e vice-versa.

É início do dia, cedinho, e o leiteiro já está brigando com Naziazeno, pois este não pagou o que lhe deve. Os vizinhos estão todos observando a discussão. Naziazeno só tem “mais um dia” (MACHADO, 2004, p. 8). Assim começa Os ratos. A partir daí, começa a incansável (não tão incansável assim) busca do anti-herói pelo dinheiro, cinquenta e três mil réis. O problema do personagem principal é que o tempo da cidade, do espaço, é diferente do tempo que ele tem.

A narração da obra é em terceira pessoa na maior parte do tempo (embora em alguns momentos passa-se em primeira), o narrador observa de longe o protagonista, como é característica do Realismo e Naturalismo, para dar um caráter de objetividade. Temos uma noção de tempo cronológico, da rotina de Naziazeno, logo no início: “O bonde leva uma ‘outra gente’. Não a que ele está acostumado a ver, às nove ou dez horas, a ‘sua hora’. — ‘Melhor, melhor’. Essa falta de ‘conhecidos’ apazigua-o” (Idem, p. 13). Neste momento que a personagem pega o bonde, são sete e meia.  

Isso é um indício das noções de tempo que virão com o passar da obra. Além disso, percebemos que o personagem principal vê-se acuado, observado — assim como na primeira página do livro, quando ele percebe que está sendo observado pelos vizinhos —, como se estivesse preso na cidade.

É interessante como algumas palavras interferem no mal-estar do herói e como a sua mente abalada distorce o seu cenário. Ao saber que um homem no bonde carregava leite, Naziazeno se sente mal; e todo leiteiro que passa na rua, para ele, está mal encarado.

Neste começo da história, todo o tempo é incerto, psicológico: “É que é cedo” (Idem, p. 23). Cedo “quanto/quando”? Nem o narrador sabe: “Mas, espera: que horas serão? Não há mais tempo agora: é preciso ir direto à repartição. Foi o seu primeiro plano, e é força segui-lo.” (Idem, p. 24), porque o próprio personagem perdeu a noção do tempo.

O anti-herói trabalha na repartição, isto é, um local fechado, que é o espaço. Ele pensa em pedir dinheiro ao diretor, pois este já o ajudou antes (tempo cronológico, embora não se diga exatamente “quando”), uma vez que teve problemas com a saúde do filho.

“O relógio da prefeitura marca pouco mais de oito horas” (Idem, p. 25). A partir desse ponto aparecerão muitas passagens de tempo cronológico no romance, para lembrar a Naziazeno que o seu tempo está acabando e para criar a catarse em nós, leitores. Por outro lado, começa a aparecer o tempo psicológico também, pois passam-se cinco parágrafos e “’— Este relógio ainda está marcando oito e dez.’ Os relógios não andam certos. Mas já há de ser umas oito e vinte ou oito e meia. Às nove ele se encaminhará pra a repartição” (Idem, p. 26).

Naziazeno ficou imaginando o que lhe poderia acontecer durante cinco parágrafos. Notemos a palavra “ainda” na citação anterior, pois o tempo psicológico “(...) aborrece ou ignora a marcação do relógio. Tempo interior, imerso no labirinto mental de cada um, cronometrado pelas sensações, idéias, pensamentos, pelas vivências, em suma, que, como sabemos, não têm idade (...)” (MOISÉS, 2001, p. 183).

Essa mudança do estado mental de Naziazeno afeta até mesmo o narrador (ou, pela confusão, os dois, narrador e interlocutor, se confundem): “Quanto custa um jornal?... É estranho, está em dúvida... Duzentos ou trezentos? A sua cabeça anda cansada, é isto. Mas não lembra bem mesmo. Parece que é trezentos: sofreu dois aumentos” (MACHADO, p. 26). Passa-se uma página inteira e ainda “São oito e meia quase no relógio do café” (Idem, p. 28). Tempo psicológico. Fim do capítulo três, vinte e oito páginas decorridas, apenas uma hora desde que ele saiu de casa.

A primeira frase do quarto capítulo já anuncia: “9 horas! Já está arrependido daquela longa ‘folga’. Parece-lhe tarde agora. Daí que chegue à repartição, perde mai uns dez ou quinze minutos” (Idem, p. 29). De um capítulo para o outro passaram-se trinta minutos, passamos o olhar de uma página à outra em menos de alguns segundos, mas para o personagem passou-se muito tempo. É que

trata-se do tempo psicológico experimentado pela personagem, não como dimensão da narrativa: esta, pode passar-se num vasto lapso de tempo, correspondente à vida inteira da personagem, ou numas poucas horas. Entretanto, “a área do tempo dos romances psicológicos é comumente restrita a um curto período, ou a um número de curtos períodos de variado intervalo” (...) (MENDILOW, A. A, op. cit. p. 218 apud MOISÉS, Massaud, p. 204)

Além disso, percebemos que Naziazeno já está calculando o tempo que sabe que está perdendo. Falando sobre o seu trabalho, é visto que ele (Naziazeno) trabalha com contas, mas que, como não necessita de pressa (crítica à burocracia do governo), como não precisa estar em dia, ele atrasa uns “bons dez meses” (MACHADO, p. 33). Não é à toa que ele atrasou com o leiteiro: é apenas uma reprodução de suas ações em outro espaço.

Depois de muito tempo esperando o diretor chegar, para lhe pedir o dinheiro emprestado (e o próprio empréstimo já pressupõe um tempo futuro), apenas passou-se meia hora...

É importante atentarmo-nos que até na imaginação do personagem sua mente altera o espaço (não somente o tempo), através de uma projeção (caso sinta-se bem, o cenário é belo):
Quando, depois de “pagar” o leiteiro no portão, ao pé da “escadinha”, “entra” de novo em casa, as janelas estão cheias de luz, a toalha enxovalhada da mesa resplandece, o café com leite tem um cheiro doméstico, que lhe lembra a sua infância... (Idem, p. 36)

Temos outro exemplo, que é quando o anti-herói olha novamente para o relógio e ele lhe parece “uma cara redonda e impassível...” (Idem, p. 37), como se o relógio estivesse cobrando e lembrando-o de que lhe restam poucas horas.

Acelerando um pouco a narrativa (pois este será um texto breve), Naziazeno se encontra com Alcides, um amigo, afim de que este lhe empreste o dinheiro — que no momento lhe é negado. Porém é importante notar que quando Alcides é olhado pelo protagonista, ele lhe parece diferente, o que não é verdade, diferente está Naziazeno e o seu olhar (lição que nos é ensinada desde Heráclito de Éfeso). É o tempo psicológico que traz essa subjetividade.

Ao voltar para o seu serviço (Naziazeno transita pelas ruas da cidade), para ver se o diretor já chegou e para pedir o dinheiro emprestado, é feita a primeira referência aos ratos: “Naziazeno ‘vê-se’ no meio da sala, atônito, sozinho, olhando pra os lados, pra todos aqueles fugitivos, que se esgueiram, que se somem com pés de ratos...” (Idem, p. 47).

Irônica passagem essa, pois quem está sozinho, com medo, se esgueirando pelos restaurantes, cafés e ruas da cidade, sentindo-se cercado, é o próprio anti-herói. Ele é como os ratos, a cidade é como uma gaiola, não aberta, mas que o prende. Como se não bastasse essas descrições do narrador, para compará-lo implicitamente aos animais que levam o nome do romance, o personagem começa a ter lembranças de quando bebia leite, quando era criança. Ironia. Ainda são onze e trinta da manhã.

Chegada essa hora, o diretor nega o empréstimo. “Treme o ar, toda a rua treme com o calor, tremem as casas, como um pedaço de paisagem submarina, ondulando através da água movediça” (Idem, p. 55). Depois do “não”, o espaço é modificado pelo medo do protagonista.

A partir daí, tudo piora para o anti-herói, tudo fica mais difícil. O sol fica mais quente, a rua fica mais larga, ele sente-se fraco. É por isso que quando ele vai cobrar o dinheiro de um devedor do Alcides, é enganado facilmente.

Ainda são treze horas e Naziazeno não tem o que respirar, está sem comer, está sem dinheiro, sem amigos, se sente sozinho em meio ao mundo: “A cidade não tem árvores. A rua é um bloco inteiriço de granito escaldante” (Idem, p. 66).

É importante notarmos as “dicas” que o narrador deixa do que acontecerá. Depois de enganado, nosso personagem principal percebe que caiu “num jogo” (Idem, p. 70) do devedor do Alcides, o Andrade. Pois bem, é no jogo que Naziazeno tentará ganhar o dinheiro!

Interessante a metáfora utilizada: um anti-herói azarado joga na roleta, que gira, assim como o ponteiro do relógio, assim como o seu tempo, assim como a sua vida. E ele ganha, mas assim como a roleta gira, a Fortuna (deusa romana do Acaso/Destino) também, e ele perde em seguida. É triste ver que um homem pobre, dentro de uma cidade inteira, dependa da sorte para conseguir algo (talvez, uma crítica à meritocracia).

Outra metáfora usada em seguida é a sua passagem pela rua Sete, na qual ele sente um calor imenso e passa mal novamente. Logo na rua Sete, número que possui como significado o ciclo. Observemos este outro caso da descrição do espaço: “Um caminhão cinzento passa por ele com uma certa velocidade. É o das ‘obras’. Vem do serviço. Traz um longo cano, fino, de encanamento, que sacode com a  marcha e cuja ponta fica vibrando como a açoiteira duma chibata” (Idem, p. 81).

O caminhão é cinza, como a cidade, cor nem fraca nem forte, assim como a vida de Naziazeno e dos outros personagens. O movimento do cano, comparado a uma chibata, pode ser comparado à tortura que o protagonista está passando. Novamente, o espaço está ligado ao que o personagem está sentindo.

Entardece, as casas e os comércios começam a fechar, o problema de Naziazeno agrava-se, ele não tinha contado com isso: o seu tempo é diferente do tempo da cidade, ele tem vinte e quatro horas, mas a cidade funciona por menos tempo. Mais uma comparação (metáfora) é feita pelo personagem principal: o sol descendo o horizonte é como uma moeda, representando o dinheiro que ele necessita indo embora. As casas fechadas são apenas reflexos das pessoas para com os seus problemas.

Naziazeno se encontra novamente com Alcides, são dezoito e vinte, este segundo paga um café para o primeiro, que pede leite, leite que lhe faz mal: a bebida não lhe faz bem, assim como a bebida para o filho está lhe causando toda essa tortura.

O protagonista, junto de Alcides, se encontra com Mondina e, finalmente, com o Duque (personagem que estava sendo procurado desde o início do romance, pois este sempre dá um jeito de conseguir dinheiro). Depois de irem a vários lugares, conseguem empenhar o anel de Alcides, que lhe “deu” o dinheiro. Aqui há outra metáfora (em forma de antítese): o anel, que aperta o dedo, desapertou a situação de Naziazeno. Nisso já se passou das vinte e uma horas.

Embora se tenha mostrado o fim do problema, não foi mostrado exatamente como o problema se resolveu. Técnicas e características dos romances modernos. Depois de o anti-herói chegar em casa, com o dinheiro (e com queijo — derivado do leite — para a mulher), depois de comer e deitar-se, é que se explica como ele conseguiu tal feito, isto é, o tempo cronológico é ignorado, volta-se no tempo.

Como se não bastasse, os últimos capítulos são de paranóia de Naziazeno, deitado na cama, refletindo sobre o seu dia, tentando dormir. Apenas “tentando”, porque não consegue, pois começa a ouvir ruídos e sons de tudo ao redor. Pensando que já amanhecerá, na verdade se passaram apenas alguns instantes. Em suas palavras: “Uma hora!... Já lhe parece um século aquela noite e é apenas uma hora!... Precisa dormir, precisa descansar. Tem de aproveitar esse resto de noite. É estranho: um cansaço tão grande, e não consegue conciliar o sono...” (Idem, p. 163).

Não é à toa que todo esse sofrimento se passa dentro de um quarto, espaço fechado, para aumentar a tensão do personagem e a nossa catarse. Por fim, Naziazeno delira, imaginando que ratos roem toda a sua cozinha, inclusive o dinheiro.

Massaud Moisés (2001) diz que

É voz corrente entre os críticos que um romance, para ser bom, deve satisfazer a três requisitos fundamentais: 1) um enredo suficientemente rico, forte e convincente para manter no leitor a mesma pergunta aflita: “e agora? Que vai acontecer? E depois?”; 2) personagens verossímeis à imagem e semelhança dos seres humanos, “gente” como nós (...) 3) reconstituição da natureza ou do espaço onde a história transcorre. (...) (p. 181-182).

Considerando essa citação do Massaud Moisés, Dyonelio Machado conseguiu fazer um excelente romance, pois satisfaz aos três requisitos, cativando-nos do início ao fim. Naziazeno é a representação do trabalhador oprimido e alienado, sua vida depende de terceiros e da sorte. A cidade é um espaço fechado, que aprisiona, ao invés de libertar. A própria separação de breves capítulos já demonstra a fragmentação do homem. A falta de dinheiro torna o homem quase um animal, desesperado pela sobrevivência.

Escrito numa linguagem simples e acessível, Os ratos é um livro riquíssimo, principalmente para quem estuda a mentalidade do ser humano. Repleto de metáforas e críticas, o autor entretém, ensina e provoca. Para quem se interessa por Literatura Brasileira, é leitura indispensável.

Dyonelio Machado nasceu em 1895 e morreu em 1985. Formado em medicina, especializou-se em psiquiatria. Escreveu romances e contos, além de ter sido jornalista e deputado.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA (Instituto de Ensino Superior “Santo André”), Santo André, SP.


REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

MACHADO, Dyonelio. Os ratos. São Paulo: Planeta, 2004.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa I. 18. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário