terça-feira, 27 de junho de 2017

Embasamento teórico para a elaboração do livro "As primeiras palavras de uma criança" (2017)

“(...) A literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.” (COELHO, 2000, p.15).


É com esta citação que inicio esta pequena defesa e justificativa da escrita e da leitura de textos e de livros infantis, que são (os textos e livros infantis) uma forma (riquíssima) de demonstração, compreensão e formação do mundo e do indivíduo ainda criança/adolescente.

Hoje, lê-se cada vez mais, por isso, deve haver boas referências no campo da literatura, não apenas vindas de autores clássicos e consagrados, mas de novos escritores também. Afinal, os tempos mudaram, logo, alguns conceitos e valores idem. Assim, as temáticas, as figuras e as abordagens sobre o mundo e a literatura infantil devem mudar. É isso o que As primeiras palavras de uma criança (2017) tenta propor.

As primeiras palavras de uma criança traz algumas memórias e vontades de um menino chamado Magno Júnior. De certa forma, pode-se dizer que é um texto metalinguístico, pois o narrador/personagem está escrevendo um livro — inclusive, ele mesmo (o Magno) diz que fará as imagens, mas que, no caso, quando lêssemos a história, elas já estariam feitas. A metalinguagem também aparece quando, em algumas figuras, há trechos que já foram escritos nas páginas anteriores (autorreferências).

Pois bem, o livro é construído sob a voz de uma criança — o que já é importante — contadora de histórias, que possui a liberdade de escrevê-las e o incentivo de seu pai à leitura desde cedo. Porém, o incentivo é a favor da leitura de enciclopédias, algo que não faz (nem deve fazer) parte da realidade de uma criança. Muitas vezes, a decepção com a leitura de um texto inadequado à mentalidade da pessoa pode fazê-la se afastar dos livros.

Foi o que quase houve com Magno Júnior, que afirma que aquele conteúdo (conhecimentos sobre Hitler e sobre as proteínas) não é/era importante, não devia ser iniciado em casa, durante essa idade, porém mais tarde, na escola (que é o que acontece). Essa afirmação demonstra a quebra da obediência absoluta, que é/era um dos valores tradicionais que “(...) transformou a ‘autoridade’ em ‘autoritarismo’” (COELHO, 2000, p. 20), como se houvesse alguém detentor do poder e do saber.

Pelo contrário, Magno Júnior traz algo da Literatura Infantil mais atual, que é o questionamento da autoridade e a consciência da relatividade dos valores e dos ideais (COELHO, 2000). Um dos momentos em que podemos notar tais conceitos é quando o personagem diz não acreditar que alguém seja autodidata, pois quem escreve o livro, de certa forma, está ensinando quem o lê. Embora boba, é uma opinião e uma reflexão.

Além deste, há as questões feitas à professora de Ciências e aos professores da catequese. Claro, o direcionamento das indagações foi errado, pois ele pergunta sobre religião para a professora de ciências e sobre ciência para os catequistas. Porém, esse ato demonstra a inquietação e a ingenuidade do personagem (que não compreende a Física, muito menos a Metafísica — afinal, ele só possui 11 anos).

Em outro trecho, Magno Júnior diz que acha que os professores não sabem tanto das coisas e que seus pais estão errados sobre os professores saberem sobre tudo. Percebamos esse “acha”, pois não é uma certeza, mas uma dúvida do personagem, um questionamento sobre o seu próprio pensamento.

É importante ressaltar a preocupação da criança com as representações (figuras, desenhos) daquilo que estava sendo dito. Ela mesma diz que fará as figuras depois, pois parece que assimilamos melhor o conteúdo quando há imagens representando-o. Este pensamento é exatamente — embora com outras palavras — o mesmo de Gregorin (2010): “O texto não verbal (visual) se desenvolve com cenografias e figuras de modo a um compor o outro, e os dois (visual e verbal) constroem um único texto, apropriado ao fazer interpretativo do enunciatário (p. 16).

No curto livro, percebe-se, também, a consciência de igualdade entre o gênero feminino e o masculino, “não mais estigmatizados pelo o que é certo ou errado para o homem e para a mulher” (COELHO, 2000, p. 25). Isso acontece quando Magno Júnior diz respeitar muito as meninas, pois possui algumas amigas que são mais amigas do que os meninos. No mesmo parágrafo, o personagem fala de rumores de que escrever é coisa de menina, um preconceito antigo, mas que, segundo ele, estão errados e todos deveriam escrever.

Aliás, levanto uma simples e rápida questão aqui: Se ao longo do tempo poucas mulheres tiveram o privilégio da escrita, sendo a maioria dos livros escritos por homens — até hoje! —, então, por que existiu a imagem de que “escrever é coisa de mulher”? Atualmente ainda há resquícios desse pensamento. Pensemos.

Além desses tópicos abordados, o livro incentiva as crianças a lerem e a escreverem. Magno Júnior, por exemplo, escreveu o texto por simples vontade. Outras crianças também podem fazê-lo, basta incentivá-las. A escrita, segundo Nelly Novaes Coelho (2000), é um “ato-fruto da leitura assimilada e/ou da criatividade estimulada pelos dados de uma determinada cultura.” (p. 18).

Por fim, As palavras de uma criança possui intertextualidades (em forma de citação) com alguns desenhos japoneses, como os personagens Gohan, Griffith, Roy (Mustang) e Hyoga, respectivamente dos animes Dragon Ball Z, Berserk, Full Metal Alchemist e Cavaleiros do Zodíaco, que fazem parte da realidade e do gosto do personagem principal. Também há a menção dos quadrinhos do Senninha, no início do livro.

Em suma, baseado nestes poucos conceitos adotados dos livros da Nelly Novaes Coelho e do José Nicolau Gregorin Filho, As palavras de uma criança foi escrito. Penso que o livro serve não apenas para a função pedagógica, mas pelo prazer estético também. Na verdade, primeiro escrevi o texto, depois notei os conceitos. Aliás, foi um prazer tê-lo feito.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

GREGORIN, José Nicolau Filho. Literatura infantil: múltiplas linguagens na formação de leitores. São Paulo: Melhoramentos, 2010.

SIQUEIRA, Carlos. As primeiras palavras de uma criança. São Paulo: Novas Vozes, 2017.

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