quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, estranhamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e as modela, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA, Instituto de Ensino Superior “Santo André”, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

4 comentários:

  1. Maravilhosa análise! Parabéns Carlos!

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  2. Carlos, adorei a análise. O sonho de qualquer poeta é que um dia o seu poema caia nas mãos de um grande leitor. Estou feliz porque A RUA DOS DIAS e outras obras chegaram até o seu competente e contundente olhar. Ver A RUA DOS DIAS em diálogo com outras obras de minha autoria e ainda e ainda vê-la conversando com Pessoa, Drummond e Quintana além de uma honra é uma enorme felicidade e realização. Um forte abraço.

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    1. Que bom que adorou, Paulo. Um dia, pretendo ser poeta e professor também, tenho a você e ao professor Reinaldo como exemplos. Se não fosse pelo Reinaldo, talvez não teria conhecido a sua obra, além de também não ter a capacidade e a sensibilidade que hoje tenho para observar e escrever sobre alguma obra literária (pois antes de entrar para a faculdade, não conhecia a Literatura...). Quanto a você e à sua obra, são responsáveis pelo nosso autoconhecimento, pelo conhecimento sobre os outros, pela descoberta de alguns mistérios nossos nessa Rua dos dias... Não é qualquer autor ou uma obra qualquer que consegue ser comparada a outros grandes artistas da palavra. É preciso que o livro, que o poema, que o poeta sejam bons também. E, para mim, você está no mesmo caminho dos mestres. Muitíssimo obrigado (até dei print do seu comentário, para guardar junto das minhas imagens históricas — a última vez que fiz isso, foi quando o próprio diretor do clipe de uma banda finlandesa que eu amo, o Stratovarius, elogiou a minha análise que eu fiz do clipe — porque fiquei muito feliz e orgulhoso ao lê-lo). Um forte abraço!

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