sexta-feira, 29 de julho de 2016

Resenha do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto

BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011 (Saraiva de Bolso).

O triste fim de Policarpo Quaresma é um romance pré-modernista, de Lima Barreto, publicado em 1911. O livro narra a história de Policarpo Quaresma, um homem ingênuo, idealista e fanático nacionalista, que não só acredita no Brasil como o melhor país, como tenta fazer dele um lugar melhor. Porém, ideal e real não significam a mesma coisa.

Esta versão conta com 240 páginas, que se dividem entre três partes. A primeira é uma apresentação do contexto e de quem é o major Quaresma; a segunda trás o afastamento de Policarpo para o campo, tentando ajudar e conhecer o país através da agricultura; e o último capítulo mostra a tentativa do personagem principal melhorar o país por meio da política.

Podemos dizer que o major Policarpo Quaresma é uma caricatura do que seria o romântico, tão idealizador que não percebe sua situação de diferente de toda a sociedade. Policarpo é um homem extremamente moralista, tradicionalista e estudioso, mas somente dos autores e de tudo o que vem a ser brasileiro.

Logo de início, todos estranharam que um homem tão respeitável queria aprender a tocar violão, que na época era considerado “malandragem”. Porém, se o major quis aprender, era porque ele acreditava que “A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa (...)” (p. 17).

O narrador, ao descrever os livros na estante do personagem principal, denota todo o espírito nacionalista de Policarpo. Alguns dos autores: Bento Teixeira (poeta barroco), Gregório de Matos (idem), José de Alencar (escritor romântico) e Gonçalves Dias (poeta romântico indianista e nacionalista). Dos dois últimos autores está toda a obra. Dentre os autores estrangeiros, está Darwin. Percebe-se que Quaresma é um pouco descrente nas religiões, mas ele o tem na estante por causa de sua (de Darwin) visita e relato sobre o Brasil.

Na verdade, “major” é apelido, porque “Logo aos 18 anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. (...) Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar” (p. 19). Sabia tudo sobre as terras, rios, climas, etc. Todos os dias, contava aos amigos alguma informação nova que descobrira, embora alguns não quisessem saber (e ele não percebia).

Uma característica da escrita de Lima Barreto é a maneira simples de escrever — que o fez ser muito criticado na época —, e sempre que pode, ela vem acompanhada de um sarcasmo. Leiamos esta descrição, por exemplo:

(...) Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios (...) o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado — aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção (p. 23)

O livro faz muitas críticas às ações do Brasil e políticas do governo de Floriano Peixoto, militar e ditador brasileiro, durante a Primeira República. Não só a ele, mas também aos “tipos” de militares (que sempre existiram). É o caso do general Albernaz
(...) que nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. (p. 31).

Não é uma crítica somente ao personagem, mas a todos aqueles que, como sabemos, fazem carreiras dentro do exército, sem fazerem nem saberem nada (há vários deles no romance). Como quem estava no governo era um militar, a crítica estende-se e aplica-se aos políticos também. Até hoje ela é válida, posto os “exemplos” de representantes que “temos”.

Lima Barreto foca muito no quanto as pessoas valorizam as aparências, ora na profissão, ora em casa. Este general, por exemplo, valoriza sua posição, falso moralismo e quer casar a filha, mesmo não gostando de seu genro por causa de sua profissão (dentista), para se livrar dela. Mas na rua finge que não está gostando de ter que casá-la e se separar dela. Enquanto isso, outras moças desejam se casar sem nem saber o motivo, somente porque manda a tradição, somente por hábito.

Assim é feita a crítica ao casamento e ao Romantismo (como se não bastasse a sátira no personagem Policarpo) também. As mulheres se casam pela moralidade; os homens, para conseguir bens. Com isso, não só o casamento, mas a família também é colocada em dúvida.

As instituições privadas não passam batidas pelo olhar agudo do escritor. Num diálogo entre um personagem e o dentista, eis que este profere a seguinte frase: “— Atualmente, não vale nada, meu caro senhor (...) Com essas academias livres... (...) Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...” (p. 49).

O livro ironiza o pensamento das pessoas sobre ler e escrever, como já é característica dos contos do autor. Quando Policarpo Quaresma fez um requerimento ao ministro, foi chamado de louco e que o motivo da loucura era a leitura. Ora “(...) — Pra que ele lia tanto? (...) — Telha de menos (...) — Ele não era formado, para que meter-se em livros? — É verdade (...) — Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores (...) — Devia até ser proibido (...) a quem não possuísse um título ‘acadêmico’ ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças (...) “ (p. 57).

São pensamentos dos personagens (da elite da época, dos militares) que continuam em nossa sociedade brasileira, que até hoje não lê nem quatro livros por ano; que acredita que ler e escrever é só para as elites. Além disso, percebamos que o autor escreveu “Pra” num dos diálogos, mostrando que nem os ditos cultos usam a norma privilegiada/padrão da língua em todos os momentos. Lima Barreto foi um dos primeiros a inserir características de várias camadas e classes do Brasil na Literatura (esta é uma das marcas dos pré-modernistas, investigar quem realmente é o brasileiro).

Numa das descrições que o narrador faz de Policarpo Quaresma, é dito que ele passou a maior parte de sua vida dentro dos livros e de seu sonho, “Desinteressado de dinheiro, de glória e posição (...)” (p. 61). Uma espécie rara de homem, que quando o encontramos, temos mais esperança. Isso acontece porque o Romantismo não é somente uma escola artística, mas uma forma e ideal de vida que sobrevive até hoje. É como a Luísa, do Primo Basílio, de Eça de Queirós, que mesmo sendo errada, causa dó em muitos leitores, que se identificam com ela, por serem românticos também.

É muito interessante a forma como Lima Barreto satiriza, de forma sutil, tudo e todos, mostrando que os jornalistas não são honestos ao roubarem num jogo de cartas (quem dirá em suas matérias?); ou os oficiais do governo, que possuem fama de sábios por terem tirado boas notas na faculdade (e o pior é que essa valorização da nota ao invés do conhecimento permanece até hoje, entre nossos alunos) e ficarem em silêncio na maior parte do tempo — isso até lembra uma crônica chamada Jargão, do Luís Fernando Veríssimo —, mas confundem tupi com grego, por conta dos “yy”. Enfim, tudo gira em torno da aparência.

Escrito numa época pós-escravagista, o livro traz muitos momentos que denotam o preconceito e insatisfação (tanto dos ex-escravos, quanto dos ex-donos) da época. O amigo de Policarpo, Ricardo Coração dos Outros, por exemplo, cria uma rixa com outro tocador de violão, por dois motivos: um deles era pelo o homem ser negro, isso “desvalorizaria” o instrumento; e outro era porque esse homem dizia que as músicas tinham que seguir regras, criar uma mensagem, não serem puro sentimento. É uma ironia o nome do personagem possuir “Coração dos outros”, quando ele pensa somente em si mesmo.

Termina-se o primeiro capítulo com o major Quaresma sendo afastado de seu posto e amigos, num manicômio, por ser considerado louco ao sugerir um requerimento na lei, para que falássemos o tupi, que é a nossa verdadeira língua (percebamos como chega a ser cômico o nível do patriotismo).

Depois que ele sai de lá, não volta para a cidade, pois decide mudar de vida: agora quer viver no campo, ajudar o Brasil através da agricultura. Sua irmã, como sempre, o acompanhou, até mesmo na roça. “(...) Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. (...) Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira! (...)” (p. 97). A maior parte das mulheres no livro age assim, sem vontade, apenas por hábito e aparência.

Muitas pessoas tentam convencer o major a voltar para a cidade, que viver na e da roça não dá mais lucro, que as terras já estão cansadas, mas ele insiste que as melhores terras e climas estão no Brasil, basta trabalhar. Além disso, outros personagens, por serem ruins, pensam que o major foi para a área rural para fazer fama e se candidatar depois. É interessante que até hoje o Brasil sobrevive, em grande parte, da agricultura (e muitos agricultores estão na política).

Há vários momentos naturalistas no livro, como as descrições das pessoas, que são comparadas a animais, ou as dualidades entre os locais de ricos e pobres, com enfoque nos dos pobres, pois estes são desconhecidos da burguesia (que não conhece o Brasil).

Numa das visitas da sobrinha de Quaresma, durante o caminho da cidade à roça, eis o que ela constata, através do narrador:

O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais acusadas de preguiça trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal-alojados, talvez com fome, sorumbáticos!... (p. 128).

Esta moça é uma das melhores personagens, questionadora, inquieta, diferente de todas as outras mulheres do romance. Após fazer esse questionamento, ela lamenta ser mulher, pois se fosse homem, poderia viajar mais e estudar os motivos e soluções para tais situações. Não deixa de ser uma crítica, também, ao patriarcado da sociedade.

Interessantíssimo é um diálogo que ocorre entre ela e um ex-escravo, trabalhador da roça de Policarpo. Quando questionado sobre o motivo de não plantar para si mesmo, ele diz que uma coisa é pensar, outra é fazer. Não dá para esperar pelos alimentos crescerem. “(...) — Terra não é nossa... E ‘frumiga’?... Nós não ‘tem’ ferramenta... isso é bom para italiano ou ‘alamão’, que governo dá tudo... Governo não gosta de nós...” (p. 129). Além do conteúdo, percebamos como o pobre realmente entra na história, com suas características linguísticas.

Ainda há quem precise ler estas palavras ou estudar História para saber que meritocracia é uma farsa, que os negros sempre foram postos de lado, postos à margem (por isso são chamados “marginais”, não com essa outra conotação que a palavra adquiriu com o tempo) de nossa sociedade; que os brancos europeus, imigrantes, tiveram privilégios em nossas terras e que isso virou herança. Além disso, critica-se também o capitalismo, em que a burguesia detém os meios de produção, fazendo com que o pobre sempre tenha que trabalhar para o rico. Enquanto um dá uma miséria, a qual chama “salário”, o outro dá a vida, o tempo e a força.

Depois de muita dificuldade com os aparelhos científicos para usar na terra (ora, sendo Quaresma um idealista romântico, é claro que ele não se daria bem com a Ciência), prejuízos com as vendas, trabalho com as formigas e ver que o governo ditador estava recrutando gente, o major decide voltar para a cidade. Faria bem ao país através da política, mesmo que ditatorial (a qual ele chama de “forte”).

O terceiro capítulo é mais forte do livro, o qual a menor crítica feita ao governo, era motivo para mandar prender e matar. A violência justificava tudo. Sobre Floriano Peixoto (o ditador militar),
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a coisa ao grande o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte (...) (p. 170).

Quaresma, assim como a maioria dos homens da época, não percebia isso como um mal, pois estavam “encantados” pela força e palavras do ditador. Assim que pôde, levou um manuscrito seu para Peixoto. Esse texto trazia ideias para revolucionar o Brasil, porém, não teve a atenção desejada. Ainda assim, conseguiu o posto de um verdadeiro major.

Chega a ser engraçado a forma de Quaresma liderar os soldados na hora do combate, na hora da prática, ao procurar teorias nos livros para ter mais eficiência. Além disso, havia muita bondade com os soldados de nível mais baixo.

Depois de alguns meses de revolta contra o governo, tudo se tornou monótono. A sociedade toda se sentia mal, o próprio major se sentia triste por ter seu manuscrito não levado a sério, por ser chamado de visionário ao pedir reforma agrária para o ditador, pedir que desse emprego para todos, para que, assim, o país pudesse ser melhorado.

Depois de uma triste carta enviada à irmã, na qual ele conta suas vivências na guerra, suas tristezas e memórias, a contradição de termos tecnologia avançada, mas mentes e homens retrógrados, o personagem principal vai se tornando, aos poucos, niilista, percebendo qual era a verdadeira situação do país, que tudo o que ele pensava era sonho e fantasia; que a crise financeira, antes de tudo, é ética, moral, intelectual, política, tudo. Até hoje não a superamos.

Policarpo Quaresma é preso até a morte, num triste fim, como já apontava, desde o início, o título da obra. Tido como traidor, um homem que sempre quis o melhor para o seu país. No fundo, ele percebe que todo seu empenho e lutas não valeram nada; que os livros mentiam; as terras, climas e hospitalidade do Brasil não passam de aparência.

Fica-nos a mensagem do quanto o patriotismo e idealismo podem fazer mal à sociedade, embora pareçam bons. Os líderes ruins não são criados do nada, são sustentados pelo próprio povo, que vê neles ídolos e heróis.

O triste fim de Policarpo Quaresma é um excelente livro, que nos mostra muitas facetas do brasileiro e do próprio ser humano, além de ser um resgate à história de nosso próprio país, apontando problemas tanto quanto possíveis soluções. Afinal, até hoje não tivemos reforma agrária, até hoje temos ultranacionalistas ignorantes que saem às ruas sem nem saber o que estão fazendo.

Escrito de forma simples e corrida, Lima Barreto nos ajuda a conhecer a nós mesmos. É recomendável a todos aqueles que gostam de Literatura brasileira e realista (pois se pode dizer que, de certa forma, o Pré-Modernismo foi uma continuação do Realismo e Naturalismo).

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é aluno do curso de Letras, em IESA (Instituto de Ensino Superior “Santo André”), Santo André, SP.

2 comentários:

  1. Fazer uma análise literária é enriquecedora quando se sabe extrair a essência da obra.Para fazer uma produção eficaz depende de muita leitura. Cada leitura é uma nova descoberta. É muito gratificante perceber que através das obras se pode perceber diversos tipos de acontecimentos sociais em diferentes épocas, além de outros aspectos, enfim, são possibilidades de discussões acerca de um determinado tema. Sua resenha está ótima, muito esclarecedora. Sou formada em letras/Literatura e sou apaixonada por tudo que envolve a Literatura.Um abraço

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    1. A Literatura faz parte de nós e ajuda-nos a crescer e ver melhor o mundo. Ainda estou me formando (e sempre o estarei). Obrigado, um abraço ^^

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