terça-feira, 7 de julho de 2015

Análise da música "Toda forma de poder", da banda Engenheiros do Hawaii e a relação com a "novilíngua".

“Toda forma de poder” é uma música da banda Engenheiros do Hawaii, lançada em 1986, no álbum “Longe Demais das Capitais”. A letra, de cunho político, faz uma crítica aos governos e, como diz o próprio título, à “toda forma de poder”. 

O que chama a atenção nessa música é que, logo no primeiro verso da letra, faz-se uma crítica à linguagem usada pelos políticos/governantes/pessoas importantes, algo que, como será mostrado, chama-se “novilíngua”; ao mesmo tempo, depois, essa mesma estratégia é usada pelo próprio eu-lírico. Eis a letra:

Toda forma de poder
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada (Yeah, yeah)
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada (Yeah, yeah)
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
(Yeah yeah, uoh, uoh)

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada
(Yeah, yeah)
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada
(Uoh uoh)
A história se repete
Mas a força deixa a história mal contada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

E o fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante e se esquecer
Que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer


Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer


//


Logo de início, nota-se a percepção do eu-lírico quanto à novilíngua: “Eu presto atenção no que eles dizem / mas eles não dizem nada”. A novilíngua “é o processo de manipulação da linguagem que invade o campo político, esvazia o discurso e, como pesadelo de Orwell, instrumentaliza a esfera pública”. Todos sabemos o quanto os políticos enrolam em seus discursos, mudam de assunto, utilizam frases prontas, frases de efeito, enfim, “falam sem falar”, com intuito de se distanciarem do assunto principal. É a novilíngua, muito utilizada por ditadores.

Em seguida, o eu-lírico diz que Fidel Castro e Pinochet dão risada de nós, pois não fazemos nada, e que ele já começa a achar normal que algum boçal/ignorante — fascista? — atire bombas na embaixada. É que a novilíngua é “capaz de minar o hábito de ouvir, a atenção e a concentração, formando pessoas que deixam de pensar a política como uma esfera de atuação em seu cotidiano” e assim, acostumam-se, apenas seguem o que é dito, acreditam que todos os discursos são iguais e mentirosos, alienam-se. 

Os nomes Fidel e Pinochet podem ser trocados por vários outros, aqui mesmo, no Brasil, temos tantos políticos que caçoam de nós, que criam leis que beneficiam a eles e nos prejudicam, no entanto, nós não fazemos nada para combatê-los — alguns dizem não fazer por não adiantar, por isso nem tentam... —; ou ainda, nem precisa ser político, mas líderes religiosos ou certos “artistas”, que soltam seus ideais autoritários e passam por cima de leis e nada lhes acontecem.

Para quem não sabe, Fidel Castro foi o revolucionário cubano, líder ao lado de Che Guevara na Revolução Cubana, que tirou o ditador Fulgêncio Batista do poder e que implantou o Comunismo. Embora Cuba tenha melhorado em muitos sentidos desde então, Fidel Castro continuou sendo autoritário. Assim, o eu-lírico critica a “extrema esquerda”. 

Por outro lado, Augusto Pinochet, comandante do exército chileno, foi quem liderou o golpe militar de 1973 e implantou uma ditadura sobre o Chile. Autoritarismo e fascismo resumem o que foi o “governo” de Pinochet. Assim, o eu- lírico critica a “extrema direita”.

Em seguida, chega o refrão, e é nesta parte em que o eu-lírico, conscientemente, utiliza-se da novilíngua, distanciando-se totalmente do discurso proferido na primeira estrofe.

Se no primeiro verso ele reclama que presta “atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”, agora, quem não diz nada é o próprio eu-lírico: “Se tudo passa, talvez você passe por aqui / E me faça esquecer tudo que eu vi / Se tudo passa, talvez você passe por aqui / E me faça esquecer”. 

Além de fugir do assunto político que estava sendo discutido, neste momento o eu-lírico canta mais devagar, repete algumas frases e ainda se utiliza de um jogo de palavras que faz o refrão ser a parte mais memorável da música. Observemos o jogo de palavras usado, destacadas as sílabas que o compõe: SE – pasSA – voCÊ – pasSE – faÇA – esqueCER – SE – pasSA – voCÊ – pasSE – faÇA – esqueCER.

Não é à toa que a maioria das pessoas lembra somente desta parte da música, esquecendo-se totalmente (ou nem percebendo/refletindo) o teor crítico do resto dela. E isso acontece na maioria das músicas. 

Passando o refrão, o eu-lírico volta com suas críticas e diz que “toda forma de poder é uma forma de morrer por nada”, pois “toda forma de conduta se transforma numa luta armada”. Aqui se mostra quase um niilismo do eu-lírico, pois este não vê sentido em forma alguma de poder, seja de “direita ou de esquerda”, além disso, há a denúncia de que todo extremismo causa revoltas/ lutas armadas. 

Termina-se essa estrofe dizendo que “a história se repete / mas a força deixa a história mal contada”, até porque, geralmente quem sobra para contá-la são os vencedores. Ou, como disse Napoleão: “A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”. A força e o autoritarismo deformam os fatos e criam ideologias. Ideologias camufladas por discursos. 

Interessante notar que o eu-lírico, ao terminar de cantar a última palavra da estrofe, “contada”, fica repetindo as duas últimas sílabas: “ta” e “da”, como se fosse um eco, assim como é dito que a história se repete, mas mal contada, contada pela metade, contada só o final. É bom lembrarmos que se não conhecermos a História, podemos repetir erros do passado.

Depois disso volta o refrão que nada tem a ver com o conteúdo da música, agora com mais de uma voz e cantado mais alto. Talvez, implicitamente, esteja mostrando que para a fuga há mais forças/pessoas/vozes, mas para a crítica...

Por fim, depois de tantos indícios que o eu-lírico já tinha dado, ele fala do fascismo. Diz que o “fascismo é fascinante / deixa a gente ignorante e fascinada / É tão fácil ir adiante e se esquecer / Que a coisa toda tá errada / Eu presto atenção no que eles dizem / Mas eles não dizem nada”.

Além de ser real, essa estrofe é atual. Ora, o fascismo, a violência, o poder, realmente atraem/fascinam. Dão uma resposta simples e rápida para problemas difíceis e complexos. Assim nascem as ideologias. Um exemplo: nazismo. O nazismo deu uma resposta muito simples e rápida para todos os problemas na Alemanha: extermínio de judeus. Disseram na época que o problema de toda a situação ruim (seja econômica, cultural etc.) da Alemanha era a presença dos judeus, sendo assim, a solução era somente exterminá-los. 

Um exemplo mais atual: temos centenas de políticos governando o Brasil, inúmeros problemas em todos os âmbitos, mas andam dizendo que a culpa de todos os problemas é a presidente, que tirando-a, ela e o seu partido “do poder”, tudo se resolve. Outro assunto que está em debate é a diminuição da violência, onde a maioria acredita que, investindo em prisões, punições e diminuindo a redução da maioridade penal, resolver-se-á tudo. Quando se fala em educação, é só em diminuição dos gastos e investimentos.

Voltando à novilíngua, ela foi e ainda é muito utilizada por ditadores e fascistas, tanto que antes de ela possuir esse nome, era referida como “linguagem stalinista” (Stalin, como se sabe, foi um ditador da União Soviética). A ideia de punição/aniquilação/ destruição, isto é, o fascismo, fascina e “deixa a gente ignorante”. Dão-se respostas simples e rápidas, porque é “tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda está errada”. 

// 

Não nos deixemos enganar pela linguagem, não nos deixemos cair em ideologias; pensemos antes de agir, porque ao agirmos sem pensar, se não for por emoção e desatenção, é por intenção, é por pretensão, é por ação imediata, ao invés de reflexão, opinião e ação sensata. 

Engenheiros do Hawaii é uma banda brasileira de rock, liderada por Humberto Gessinger, criada em 1984, esteve em atividade até 2008, ano em que a banda entrou em “pausa” e está até hoje. 

Referências:

 <http://pensador.uol.com.br/frase/NjQxOA/>, acesso em: 07/07/2015.  

14 comentários:

  1. Seria pedir demais uma análise de ''Longe demais das capitais'' e ''Surfando Karmas e DNA''?

    ótima visão, parabéns.

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    1. Olá! Muito obrigado, Clair! Olhe, não prometo nenhuma das duas, mas prometo uma análise de "Nossas Vidas", do mesmo álbum Longe demais das capitais. Espero que você goste dela. Talvez eu faça dela (Longe demais das capitais) também. É que eu só faço essas análises nas férias, que é quando estou livre de trabalhos da faculdade (e faço trabalhos por conta própria rsrs). Fiz outras quatro análises além dessa, mas mais voltadas ao Heavy Metal (bandas: Almah, Andre Matos, Helloween — essa eu analisei junto do videoclipe — e Black Sabbath). Tenho em mente analisar a Nossas Vidas — lerei ao menos um livro para embasar a análise —, do Engenheiros; My Eternal Dream, do Stratovarius (pretendo analisar junto do videoclipe); Zombies Dictator, do Almah. E outra, que ainda não decidi rsrs Muito obrigado por ler, apoiar e sugerir opções!

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  2. Muito bom essa analise, resumiu tudo que eu penso em forma que eu não conseguiria escrever.

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  3. Análise super detalhada, precisa, impecável! Obrigado pela contribuição e parabéns pelo trabalho!

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  4. Nunca uma música traduziu tão bem esse momento de retrocesso q estamos vivendo.
    Análise muito boa Carlos, com uma "aula de história" ainda (rs), parabéns! Sucesso.

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    1. É um retrocesso mesmo, Géssika, mas como disse Chico Buarque: "Amanhã vai ser outro dia". Muito obrigado!

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  5. Que post incrivel, achei muito esclarecedor!! Parabéns :)

    jeveuxxl.blogspot.com.br

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    1. Que bom que gostou, Rafaela ^^ Dentro de uma ou duas semanas postarei uma análise da "Nossas vidas", ainda do primeiro álbum dos Engenheiros.

      Obrigado!

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  6. Muito importante analisar essa letra que já no título "Toda forma de poder" já se tornava subversiva pra época dos anos 80 onde o Brasil havia saído de uma recente "ditadura militar". Sei que a análise ainda que boa não se esgota, mas foi muito pertinente contextualizar e até mesmo fazer um paralelo com a atualidade onde estamos vivendo uma "polaridade" entre os ditos "esquerdistas" e os "direitistas" em que termos como Ditadura, Fascismo, Cuba, Fidel citado na música podem ser infinitamente interpretados cada qual ao seu bel prazer. E na canção fica claro que já na época dos anos 80 o Eu-Lírico assume uma postura "niilista" ante a toda forma de poder que só gera violência em que os governantes e estadistas que podem ser facilmente substituídos por alguns atuais, pois o que importa é o estereotipo da personificação do poder onde aparecem figuras "messiânicas" prometendo "salvar o povo" das mazelas sociais.
    Canção que dá pra trabalhar a nossa historiografia onde se diz " a história se repete e deixa a história mal contada". você citou Napoleão Bonaparte e essa mesma personagem pode ser considerada do ponto de vista das história dos vencedores. Ou seja, é interessante sempre desconfiar, problematizar quem nos conta a história. Quem nos diz que isso é fascismo? Porque toda forma de poder é assim e/ou assado? Quem é o autor da canção, o que ele Leu o inspirou? Porque hoje cantamos a canção e despolitizamos a mesma?
    Mas pra não estender, parabéns pelo texto e até

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    1. Muito bom comentário, Robério. Obrigado. Até mais!

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  7. Gostei muito, isso nos leva a refletir sobre a repetição, sobre a reprodução do fato histórico, da ação humana e da manipulação que as elites (força-vencedores) exercem sobre nossas vidas. Parece que aqueles que fazem algo são sempre minoria, e quando essa minoria chega lá segue repetindo a história. Mas, mesmo assim, ainda creio no homem!

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    1. Obrigado, João Siebra. É um triste ciclo. Mesmo assim, devemos crer e agir — ao menos em nosso tempo de possibilidade de atuação.

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