sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha do livro "A Ordem do Discurso", de Michel Foucault

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.  24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

A ordem do discurso (2014) é um livro que contém todo o conteúdo da aula inaugural do filósofo Michel Foucault, no Collège de France, em 1970, em que ele substitui o lugar do professor Hypollite, que havia falecido.

O livro é totalmente metalinguístico, pois ao mesmo tempo em que Foucault faz o seu discurso, ele discute sobre o mesmo. O filósofo inicia, então, dizendo que gostaria de não começar a falar, pois sente uma “pressão” vinda do local e das pessoas ao seu redor. Em suas palavras: “Existe em muita gente, penso eu, um desejo semelhante de não ter de começar, um desejo de se encontrar, logo de entrada, do outro lado do discurso (...)” (p. 6).

É que nem o discurso nem o lugar são neutros. Quem fala, mesmo que seja um convidado, é vigiado pelo outro, por isso existe a tensão ao discursar. E em cada local há regras implícitas que “norteiam” o quê e como a palavra deve ser dita e ouvida.

Foucault supõe que em todas as sociedades “(...) a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e distribuída por certo número de procedimentos (...)” (p. 8), ou seja, se há rituais na sociedade, haverá rituais para com os discursos.

Dois exemplos que ele dá são os assuntos da sexualidade e da política, tabus da sociedade. São temáticas consideradas como perigosas, em que, sobretudo, exerce-se o poder de interdição sobre elas. Porém, pelo mesmo motivo que querem excluí-los das discussões, é que mostra o quanto eles possuem poder.

O filósofo lembra, então, da figura do louco, que sempre teve o discurso interditado, excluído, rejeitado: “(...) Desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros (...)” (p. 10), sendo assim, desconsiderado ou interpretado como visionário. No entanto, é por ele não obedecer às instituições (que impõem as regras e causam a “tensão”), que diz o que quer e o que realmente pensa. É livre.

Pode-se pensar que o louco era excluído somente no passado, mas até hoje é assim, pois os únicos que os ouvem são os médicos e os psicólogos/psicanalistas. Ora, se eles são mandados para estes locais, é porque ainda são rejeitados na sociedade pelo o que são.

Foucault explica como os discursos eram valorizados na Antiguidade Clássica, sendo considerados “verdadeiros” somente aqueles que falavam sobre a justiça, de forma preciosa e bonita, geralmente ditos por alguém de status. Com o tempo, deixou-se de considerar os discursos pela posição dos discursadores, mas sim pela sua coerência.

Essa divisão se deu pela “vontade de saber” (p. 15). As influências da época e da sociedade mudam a forma de pensar e de considerar os discursos. Assim, ao escapar de uma regra para ser considerado verdadeiro, o discurso sofre interferência de outras esferas. Por exemplo, quem quiser ser considerado como verdadeiro no ramo da ciência, deverá obedecer as normas daquela área; e, continuamente, o que estiver fora desses conceitos será excluído e tido como falso.

Há, portanto, três grandes sistemas de exclusão da sociedade que afetam o discurso, que são: “(...) a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade (...)” (p. 18). E há dois tipos de discurso: os que são ditos no dia a dia e os que são e serão ditos “sempre” (os literários, científicos, religiosos, etc); os primeiros podem ser ditos sobre os segundos, tomando a forma de “comentários”, mas nunca os substituem.

Após fazer estes levantamentos, Foucault discute a existência e a influência do autor. Novamente, ele comenta sobre o passado, em que, na Idade Média, era “(...) indispensável, pois era um indicador de verdade. Uma proposição era considerada como recebendo de seu autor seu valor científico. (...)” (p. 26). Enquanto com o passar dos séculos, na ciência, esta valorização do autor diminuiu, por outro lado, no campo literário, na mesma época, o valor do autor só aumentou.

É importante ressaltar a importância do autor, pois ele é dono não só da obra como do estilo e do método usado para alcançar tais objetivos, porém, para discutir algo novo, pede-se “(...) novos instrumentos conceituais e novos fundamentos teóricos (...)” (p. 33). É por este motivo que muitos autores não são compreendidos em seu tempo, mas postumamente, porque seus discursos não estão no que se considera “verdadeiro” (naquelas regras, leis, disciplinas, ordens etc) daquele período.

Dentre as disciplinas que o discurso deve seguir, há os rituais. O ritual define as formas de recitação, de gestos, de comportamentos, e, assim, define a qualificação e a eficiência do discurso. Percebem-se diferentes tipos de rituais em conferências acadêmicas, encontros religiosos, judiciários, políticos etc.

Cita-se que existiram “sociedades do discurso”, que guardavam e produziam formas e conteúdos de textos (geralmente orais) somente para si, como os rapsodos. Embora não existam mais tais grupos, o modelo de guardar e de produzir conhecimento ainda existe em outros meios e em outras esferas sociais fechadas. Por exemplo, não são todos que possuem acesso ou que compreendem textos filosóficos e científicos, mas um grupo seleto. Esta “doutrinação” une certos indivíduos, ao mesmo tempo em que separa e os diferencia de todos os outros.

Um fator interessante sobre os discursos é que eles existem antes mesmo de serem manifestados. Antes de serem pronunciados, já existe um tema, uma ideia, uma vontade e um sentido, que serão expostos através das palavras, dos signos, das marcas etc., que estão disponíveis.

Foucault pontua que, para analisar os discursos, deve-se “(...) questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento (...)” (p. 48), assim, tirando-os da ordem somente de “significante” e analisando-os como algo concreto. Com isso, investiga-se como eles se formam e o que está por debaixo deles.

Às vezes, ver-se-á que por baixo das palavras não há coerência nem continuidade, mas divergência, porque, na verdade, os discursos devem ser vistos como “(...) práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem” (p. 50).

Outro princípio abordado é o da “’especificidade’” (p. 50), o qual revela que todo discurso é ideológico. Ele não demonstra o que o mundo ou as coisas são, apresentados claramente por quem fala, mas o que foi imposto (dito) sobre tais assuntos. Portanto, é possível (e preciso) buscar a intenção do discurso.

Para isso, é necessário procurar o contexto do enunciado, pois é ele que determina a limitação do discurso, do comentário, do conteúdo, do autor, além de definir quais os métodos e disciplinas a serem seguidas.

Notam-se, assim, num mesmo contexto, diversas manifestações sobre um mesmo assunto, uma vez que elas são heterogêneas. Portanto, sua análise “(...) liga-se aos sistemas de recobrimento do discurso; procura detectar, destacar esses princípios de ordenamento, de exclusão, de rarefação do discurso (...)” (p. 65). A investigação “(...) não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra à luz do dia o jogo da rarefação imposta, com um poder fundamental de afirmação (...)” (p. 66).

Em seguida, no último capítulo do livro, Foucault discute sobre a importância do ex-professor — a quem ele estava substituindo — Jean Hyppolite. Fala-se sobre os seus métodos e a influência de Hegel em sua conduta, como ele confrontava muitos importantes filósofos modernos; a forma que ele via a filosofia, como “(...) o fundo de um horizonte infinito, uma tarefa sem término (...) tarefa sempre recomeçada” (p. 70).

Enfim, vê-se todo o reconhecimento e admiração que Michel Foucault possuía pelo ex-professor. O filósofo termina o livro de forma muito bela, voltando ao assunto do início da aula/livro, dizendo que agora compreende o motivo de sentir aquela pressão ao discursar, ali, no Collège de France. Com suas palavras: “(...) Sei o que havia de tão temível em tomar a palavra, pois eu a tomava neste lugar de onde o ouvi e onde ele não mais está para escutar-me” (p. 74).

A ordem do discurso é um excelente livro, que se propõe a desvendar as relações entre os discursos e os poderes que eles possuem; como eles se formam, como os enunciados eram vistos no passado, como são agora e como a sociedade cria e se apropria dos discursos para se apoderar das situações. Em suma, é um livro recomendado para todos aqueles que se interessam pela interação e pela linguagem humana.

Michel Foucault nasceu em 1926, na França, e faleceu em 1984. Foi um renomado filósofo de sua época, dentre as suas maiores obras estão Vigiar e punir (1975) e Microfísica do Poder (1979), além de estudos sobre a sexualidade.


Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é estudante do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.

4 comentários:

  1. Carlos, agradeço por sua resenha. Antes apreciar a obra original (o livro) eu li o sua resenha, que diga-se de passagem, muito bem realizada e condensando os pontos principais e chaves desta obra. Facilitou-me a leitura e compreensão do livro a priori lê-lo, sem spoilers.

    Agradeço! Abraço!

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    1. Que bom, Douglas. Muito obrigado!
      Abraço.

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  2. Parabenizo-te pela iniciativa de pavimentar os caminhos esburacados do conhecimento.

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