domingo, 27 de setembro de 2015

Entre as frestas


Recentemente, em uma ferroviária, enquanto esperava o trem, deixei de olhar para o chão ou para os trilhos e mirei ao outro lado da estação, bem mais vazia do que o lado em que eu estava. Dentre as pessoas que lá aguardavam, notei uma cena estranha, um velhinho abaixado, fazendo algo que não consegui identificar num primeiro momento.

Andei um pouco, para que meu olhar ficasse de frente para o homem, pois, antes, por causa da localidade de cada um, estava em diagonal. Percebi, então, que o velhinho estava derramando a água de sua garrafinha sobre o chão, mas não aleatoriamente, naquele piso cinza e feio, mas exatamente nas rachaduras, nas frestas daquele cimento cinzento.

É fundamental falar as cores, cinza e cinzento, porque onde o senhorzinho despejava sua água, lá estava verde, lá havia vida. Nas frestas daquele chão, onde todos pisam todos os dias, havia raminhos. 

Alguns até podem achar graça de minha atenção a este caso, mas há gêneros específicos para isso, para fatos do cotidiano; então, caso você, leitor, não goste desse tipo de textos, feche esta página, não me leia. Outros podem dizer que aqueles pequenos ramos nasceram sem querer, mas como algo nasce sem querer? 

Em primeiro lugar, há uma permissão à vida, se você não a tem, não pode viver — não entremos na pergunta “quem a dá?”, isso não interessa muito; mas que ela (a permissão) existe, sim, existe.

Em segundo lugar, é necessário ter uma vontade pela vida, uma insistência, uma resistência, uma luta a tudo que te implica ao seu redor. Só assim podemos surgir, podemos aparecer e sermos percebidos, tal como a rama foi pelo velhinho, tal como o velhinho foi por mim.

Mas não foi apenas a cena que me motivou a escrever esse texto, e, sim, as perguntas que a cena me levou a fazer. Por que regar um matinho entre as rachaduras do chão, umas folhinhas que ninguém dá atenção, que todos passam por cima sem se preocuparem? Quanto tempo durará aquela vida? Para que irrigar uma planta que, se crescer demais, terá de ser cortada? 

Isso diz o lado niilista (e cínico), que questiona a vida, mas a do outro, não a própria. Ora, a planta somos nós. Para que continuarmos, nos esforçarmos, lutarmos para viver, se morreremos? Também não sabemos quando iremos, também somos pisoteados, também não somos percebidos.

O que virá é menos importante do que o que está. Por que regar? Porque ele quer, porque vale a pena, porque é melhor o verde do que o cinza, porque é melhor existir do que não existir. O final nem importa tanto.

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