quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Isshuukan Friends: amizade e memória


Isshuukan Friends, também conhecido como One week friends, é um anime de 2014, baseado no mangá homônimo que foi publicado entre 2012 e 2015, de Matcha Hazuki. A animação ficou ao cargo do estúdio Brain’s Base, responsável pelos relativamente conhecidos Rin-ne (de Rumiko Takahashi, criadora de Ranma ½ e InuYasha), Durarara e Bacanno! (ambos de Ryohgo Narita).

A história dura apenas 12 episódios e é muito bonita e relativamente simples, mas pode produzir reflexões interessantes. Em resumo, um menino, Hase, deseja ser amigo da menina mais quieta e reservada da sala, Fujimiya, e depois de muita insistência, descobre que o motivo de ela ser assim, afastada, é porque toda semana ela perde a memória dos amigos, lembrando-se apenas dos familiares e de questões que não envolvem pessoas, como o conteúdo das lições, os caminhos, as vontades, os gostos etc. Mesmo assim, toda segunda-feira, Hase pede para ser amigo de Fujimiya novamente.


Essa situação, pedir a amizade de alguém, é ambivalente, pois, de um lado, mostra a ingenuidade dos envolvidos, como se fossem crianças, o que, pelo design escolhido na obra, é o que eles aparentam ser, desenhados bem bonitinhos, com as bochechas coradas etc. Quando se é pequeno, é verossímil que uma pessoa peça para ser amiga da outra, mas, por outro lado, os personagens de Isshuukan Friends estão no ensino médio, são adolescentes, mesmo que, pelos traços e até pelas personalidades, não pareçam. Todavia, por causa do problema da menina que perde a memória toda semana, o anime mostra que amizade não se ganha, pelo contrário, se constrói dia após dia, o que combina com a estrutura episódica da obra.

Para evitar o infortúnio da amiga, o protagonista sugere que ela escreva as experiências cotidianas num diário, o que é uma boa ideia, pois, como se sabe, alguém sem memória, sem história, é, também, sem identidade. No entanto, isso levanta um questionamento psicológico: como toda relação humana, há certo egoísmo envolvido (não se pode esquecer que “ego”, em latim, significa “eu”), porque, no fundo, mesmo que quem sofra mais seja a Fujimiya, é o Hase que não quer ser esquecido... Episódios mais à frente, com outras palavras, essa dúvida é levantada: você realmente se esforça tanto por mim, ou por você mesmo? Todo contato tem atrito...


Outra indagação que o espectador pode fazer e que também é realizada no anime é que há uma diferença entre a realidade objetiva do mundo e a subjetiva de Fujimiya: mesmo que ela escreva para não se esquecer das suas experiências, ao ler sobre elas e desejar crer naquilo, acreditaria em qualquer coisa que estivesse escrita, mesmo que modificada, por exemplo. Ou mesmo em outra ocasião, veja, se ela lê que tem um amigo chamado Hase e um menino chegasse falando com ela, a menina poderia pensar que é o seu colega (há episódios em que ela chega ao colégio, na segunda-feira, e pergunta: “Você é o Hase-kun?”), mas se fosse alguém mal-intencionado, conseguiria criar confusões e problemas entre eles. De qualquer forma, são apenas possibilidades que não acontecem na obra.

A direção do anime é eficiente e consegue conciliar bem conteúdo e forma, demonstrando os sentimentos dos personagens através do clima do momento, das cores ou por meio do enquadramento da tela. Então, por exemplo, enquanto querem revelar seus anseios, mas vivenciam dúvidas interiores, vão à praia e está chovendo, isto é, um tempo instável, além de estarem na presença do mar, que vai e volta, que é o movimento da vontade subjetiva deles. Não à toa, no fim desse episódio, uma pessoa relacionada ao passado de Fujimiya, tal como uma onda ou maré, retorna. Outro momento é quando a menina ainda não confiava no Hase e os seus encontros, na tela, eram sempre marcados por algo, no fundo, que os separava, como uma grade ou uma barra de ferro.


Uma dificuldade que os animes curtos têm, principalmente os do gênero “Slice of life”, como é o caso de Isshuukan Friends, é desenvolver os personagens, já que a história é curta e cada episódio tem seu próprio conflito, com início, meio e fim. Além dos já mencionados Hase e Fujimiya, o anime trabalha com outras três figuras: Kiryu, que é amigo do Hase; Yamagishi, que é uma menina que sempre quis ser colega da protagonista e que, curiosamente, gosta de Kiryu e também é esquecida das coisas (mas só de fazer a lição, lembrar do nome dos colegas de classe etc.); e Kujo, que era um amigo de Fujimiya do passado e parte do motivo de ela ter perdido as memórias.

Como se não bastasse a coincidência deste último personagem retornar para Tóquio, para a mesma escola que sua antiga melhor amiga está estudando, no mesmo horário que ela, de cair na mesma sala, de o único lugar vazio ser ao lado dela, Kiryu, por outro lado, também estudou com Yamagishi no ensino fundamental (embora esta não lembre) e mesmo que ele não demonstre suas emoções — típico personagem que é bom em tudo o que faz sem precisar se esforçar — já no passado, ajudava Yamagishi sem que ela soubesse... Por quê? Para quê? Eles nunca haviam trocado palavras e se dependesse dos dois, nunca trocariam, já que uma é extremamente tímida e o outro é quase totalmente indiferente a tudo e a todos.


Ainda assim, esses são problemas pequenos que não afetam a beleza da obra, nem desmerecem as sutis reflexões que ela proporciona, às vezes, sobre questões bobas que acontecem nas melhores amizades, como quando Hase apresenta seu amigo Kiryu para Fujimiya e ela se dá muito bem com ele, embora, no começo, não o considere um amigo e, por isso mesmo, na outra semana, lembre-se dele, mas não de Hase que, irracionalmente, sente ciúmes, como amigos que têm esse sentimento quando veem que seu/sua parceiro (a) agora é companheiro (a) de outro (a) colega seu/sua. Bobo, mas normal e verossímil.

O pensamento do protagonista sobre o fato da amiga perder a memória também vale para a vida de qualquer um: o passado é importante, claro, mas se você não consegue lembrar do ontem, viva o hoje, o amanhã, o depois de amanhã, hoje, amanhã e depois de amanhã; crie novas vivências que poderão ser lembradas, se não por você, então, por outros. Diz-se que, no grego antigo, os verbos “morrer” e “esquecer” têm semelhança, daí a preocupação em querer ser lembrado... Carlos Drummond de Andrade possui um poema onde diz que “eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo / mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata (DRUMMOND, 2010, p. 301)”. Essa é uma lição que todos sabem, mas que não deveria ser esquecida...


Todavia, há experiências que não apenas são abandonadas involuntariamente, quanto devem sê-lo, que o próprio corpo se encarrega de fazê-lo. Fujimiya não nasceu com o problema que ela tem, mas o adquiriu após uma série de eventos que ocasionaram um acidente que, por sua vez, gerou um trauma. A menina passa mal quando surge o Kujo e tenta lembrá-la do seu passado. Não é bom recordar de certas coisas (o sentido etimológico da palavra “recordar” é “passar de novo pelo coração”), e nem é necessário fazê-lo: quantas informações o cérebro capta durante o dia todo, num centro urbano? Agora, para quê lembrar de tudo o que foi visto ou ouvido? Além de ser impossível, é desnecessário, e a máquina do corpo humano sabe disso.

Em suma, Isshuukan Friends é um anime bom, leve e muito bonito, sobre amizade e lembranças e, portanto, sobre parte da vida. O design dos personagens ajuda a deixar tudo mais belo e até “inocente” e fofo, o que não condiz com a idade deles; a direção é bem trabalhada; a história termina bem, mas não cobre todo o mangá, então ainda ficam algumas pontas soltas, mas nada que interfira muito no produto final. Por ser curto, pode-se assistir ao anime em um ou poucos dias mais — e vale a pena vê-lo. Quer dizer, é memorável.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.



terça-feira, 30 de julho de 2019

Análise do poema A terra das crianças pretas, de Paulo Franco


Este texto é parte modificada do último trabalho feito para o curso de Letras – Português, Inglês e respectivas literaturas, da Faculdade de Santo André, no segundo semestre de 2017.

 

Análise do poema A terra das crianças pretas, de Paulo Franco


Paulo Franco é um escritor contemporâneo, iniciou sua carreira ainda na infância; por volta dos catorze anos, um de seus poemas tornou-se o primeiro hino do município Rio Grande da Serra, local onde morava. Vencedor de muitos concursos literários no país, sua obra revela uma indignação com a sociedade, com a pobreza, com o preconceito, com a alienação e, ao mesmo tempo, um encanto pelas pequenas imagens do dia-a-dia e pelos sonhos. Seus versos variam entre os brancos e os rítmicos sonoros, vão do belo ao trágico.

A terra das crianças pretas, poema contido no livro Pétalas de Insônia, de 1999, traz à tona uma infeliz realidade: a exclusão do negro na sociedade, que persiste desde a época em que o Brasil era uma colônia escravista. A seguir, o poema e a sua análise:

A terra das crianças pretas


E os soldados brancos
sentinelam as crianças pretas.
E as crianças pretas
já não brincam de marchar
e observam os desfiles
dos soldados brancos.

E os soldados brancos
nunca brincam
vigiando
esta terra de crianças pretas.

E as crianças pretas
se acostumam a jamais serem soldados
e só brincam de crianças pretas
dominadas por soldados brancos.

...Pois que ser soldado
deve ser só para crianças brancas
que já nascem dominando
até os sonhos das crianças pretas.

É interessante o fato de o poema começar com a conjunção “E”, pois dá a impressão de que o que virá a seguir é uma continuação de um acontecimento que já ocorreu ou que ainda insiste, o que, realmente, o é: “E os soldados brancos / sentinelam as crianças pretas” (FRANCO, 1999, p. 3): são os negros que até hoje são vigiados por soldados, guardas, policiais e pessoas brancas.

Por outro lado, “as crianças pretas / já não brincam de marchar / e observam os desfiles / dos soldados brancos” (idem, ibidem, p. 3). São versos que denotam a forma como as crianças negras, desde pequenas, acostumam-se à passividade, à exclusão, a apenas serem observadas e, assim, deixam até mesmo de brincar, de se divertir, de ser sujeitos que agem; enfim, passam apenas a ser espectadores.

É necessário lembrar que a brincadeira das crianças pretas, às vezes, também é interrompida pela realidade pobre, muitas vezes presente em suas vidas, quando perdem a infância para trabalharem e ajudarem a sustentar as suas famílias. Por serem menores de idade, obviamente, o trabalho é ilegal, o que gera mais desconforto e permite mais abusos, ocasionados pela discriminação. Em suma, trocam o mundo lúdico das crianças pelo mundo do trabalho dos adultos.

Já os soldados brancos “nunca brincam / vigiando / esta terra de crianças pretas.” (idem, ibidem, p. 3). Os soldados, os guardas, os policiais, são agentes do sistema, perpetuam-no, dão continuidade à exclusão dos negros e ao preconceito, posto que não abrem os seus olhos para o diferente ou mesmo para a compreensão de sua própria realidade.

No entanto, eles também são vítimas do próprio sistema, pois os soldados são, de certa forma, alienados, que apenas seguem ordens de sentinelar as crianças pretas e nunca se questionam sobre o porquê de estarem fazendo o que fazem. Pela descrição do eu-lírico, são sérios, nunca brincam, apenas trabalham.

A quarta estrofe confirma que “as crianças pretas / acostumam-se a jamais serem soldados / e só brincam de crianças pretas / dominadas por soldados brancos.” (idem, ibidem, p. 3). Desta forma, com a existente e persistente opressão que há sobre elas, desistem de seus sonhos. A brincadeira deixa de ser marchar e passa a ser observar a marcha dos brancos, “... Pois que ser soldado / deve ser só para crianças brancas / que já nascem dominando / até os sonhos das crianças pretas” (FRANCO, 1999, p. 3).

Semanticamente e esteticamente, é interessante perceber que este jogo de palavras criado pelo poeta, esta repetição dos vocábulos “soldados brancos” e “crianças pretas”, que se intercalam ao longo dos versos e estrofes, sugere a própria marcha dos soldados, para lá e para cá. Outro ponto a ser considerado é que o adjetivo “pretas” aparece mais vezes (seis, ao todo) do que o “brancos” (quatro vezes — cinco, se contar com a variação “branca”, no décimo sexto verso), o que remete à população brasileira, onde há mais negros do que brancos, mas estes sempre dominaram aqueles (antes, fisicamente; agora, simbolicamente).

Além disso, o uso contínuo dos termos “soldados brancos” e “crianças pretas”, sem sinônimos, elipses ou troca por pronomes, pode manifestar a ideia de que a descrição dessa realidade é feita justamente por uma criança, que ainda não utiliza de forma eficaz e sem redundância a linguagem.

É um poema que explicita um determinismo social, uma predestinação para cada pessoa: melhores para os brancos, piores para os negros. Este determinismo, no Brasil, acontece desde quando o país era uma colônia, quando o branco tinha escravos negros (bem como índios), quando os filhos destes já nasciam escravos daqueles também, exceto se fossem filhos — frequentemente nascidos sob abusos sexuais — da escrava com o “senhor” branco, pois, nesses casos, estariam livres.

Já na época da escravidão existiam os soldados brancos, os capitães do mato, os caçadores de escravos, que vigiavam as crianças, os jovens e os adultos negros; que se sentiam alheios às dores e à falta de liberdade dos semelhantes; que se achavam superiores a eles, simplesmente pela cor da pele, o que lhes rendiam classes sociais distintas.

Aliás, é importante notar que o eu-lírico de Paulo Franco não utiliza a palavra “negras”, mas “pretas”, o que pode indicar que, para o eu-lírico, só há uma raça, a humana, não a “branca” ou a “negra”, como alguns dizem até hoje. Dentro desta única raça, há os brancos (soldados) e os pretos (crianças pobres).

No entanto, essa separação denota que, mais do que racial, há uma separação social, as crianças brancas já nascem dominando os sonhos das crianças negras, dominando como os soldados brancos dominam as ações das crianças pretas. As brancas poderão e serão líderes e livres; as negras, lideradas e vigiadas; as brancas podem brincar do que quiserem, têm acesso à escola e à boa alimentação; as negras, quase sempre, não.

É desta maneira que a terra de crianças pretas é criada. Não é um local específico, mas qualquer um feito através da segregação, do preconceito, da opressão. As favelas não foram criadas por livre e espontânea vontade, mas porque eram os locais onde os brancos não queriam morar, eram os restos, eram as margens da sociedade (daí a palavra “marginal”); era para onde os negros “livres” se refugiaram após a sua “libertação” (que só lhe deu o nome de “livre”, mas não lhe deu emprego, moradia, educação, vestimentas, alimentação, nada). Obviamente, se uma terra de crianças pretas é criada, por outro lado, uma terra das crianças brancas também o é, sempre o oposto da primeira.

Assim, a mímesis continua a acontecer: se as crianças brancas veem que só há soldados brancos, líderes brancos, presidentes brancos, atrizes e atores brancos, apresentadores de televisão brancos, acostumam-se e acreditam que é seu direito sê-los, quando, na verdade, é um privilégio. A criança negra, ao não ver ninguém de sua cor e de sua classe social nesses locais, quando a “representação” dos seus aparece apenas como empregados passivos ou vítimas, ela também se acostuma à situação.

REFERÊNCIAS


FRANCO, Paulo. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

sábado, 8 de junho de 2019

Mestre, Maestro, Andre Matos


Hoje, infelizmente, faleceu um dos maiores vocalistas e músicos mundiais, o brasileiro Andre Matos. Quando soube, nem acreditei, pois o havia visto ao vivo no domingo passado, com o Shaman e o Avantasia, duas de minhas bandas preferidas. Ao todo, pessoalmente, pude assistir aos seus shows cinco vezes: duas em carreira solo, duas com o Shaman e uma com o Viper. Três dessas (inclusive a última, há seis dias), aliás, presenciei sozinho, sem companhia de amigos, tamanha admiração, vontade e gosto que tenho por sua obra.
Conheci o seu trabalho quando eu ainda estava descobrindo o Metal, em 2009, gênero que viria a se tornar o meu preferido, e desde então passei a ouvi-lo diariamente, seja com o Viper, o Angra, o Shaman, o Virgo, a carreira solo, o Symfonia, o Avantasia ou outros projetos, nacionais e internacionais.
A primeira letra de música em inglês que decorei foi "Time", do Angra, e é com um trecho dela que encerro esta mísera publicação, posto que as palavras de suas letras, aliadas ao som que o Mestre, o Maestro do Metal, ajudou a criar, ao contrário do que escrevo, continuarão a ser lidas, ouvidas e cantadas: "Life makes us feel the time we cannot hold / Time makes us live a tale already told".
Sim, a vida nos faz sentir o tempo que não conseguimos segurar, tempo que, por sua vez, nos faz viver um conto já contado. Não dará mais para ver o ídolo ao vivo, mas eu continuarei a apreciar e a recomendar a sua obra a todos, ao mesmo tempo em que contarei e recontarei as minhas boas experiências a quem estiver disposto.

R.I.P.


domingo, 19 de maio de 2019

Voltas e idas


“Aniversário”, etimologicamente, “Aquilo que volta todos os anos”. Por isso, cá estou escrevendo mais um texto sobre esta data que não pode passar batida, na verdade, como nenhum outro momento do dia, da semana, do mês, da vida, pois, como escreveu Marina Colasanti: “Sou meio impaciente / a vida é um prato / que se come quente.” (2013, n.p.). Não se pode deixar esfriar o momento.

Leio, utilizo e tento escrever poesia (às vezes, em prosa...), portanto, para não deixar não só a data, mas a minha existência passar em branco, pois “Não morre aquele / que deixou na terra / a melodia do seu cântico / na música de seus versos.” (CORALINA, 2008, p. 239); versos de uma arte que, muitas vezes, “nem mesmo / codifica a luz do dia, / mas que a alma intensifica, / já que a vida é passageira, / mas a poesia fica!” (FRANCO, 2017, p. 46).

Não gosto nem desejo frios parabéns de desconhecidos ausentes-presentes, artifícios de pessoas de relações super e artificiais. Carlos Drummond de Andrade tem um poema chamado “Idade madura”, penso não estar nela ainda — e talvez nunca estarei —, mas concordo que “Já não quero palavras / nem delas careço.” (2010, p. 39). Quero criar realidades e gravar memórias que viverão para sempre: “eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo / mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata (DRUMMOND, 2010, p. 301).

Para isso, não é preciso esperar pelo aniversário; e nesse, como já disse em outras oportunidades, todavia não com estas próximas palavras, é necessário que se “Vença o ideal de andar caminhos planos” (MORAES, 2009, p. 271). Sim, a vida não é plana, está “sempre dividida / Entre compensações e desenganos.” (idem, ibidem), o que não é perfeito, claro, posto que perfeito, até pela origem da palavra, significa algo “feito completamente”, efeito que não se aplica ao ser-humano, que está sempre em construção, desconstrução, reconstrução etc.

Daqui a um tempo, desconstruído e reconstruído de novo, quero acreditar que meu eu do amanhã conversará com meus outros eus sobre o nosso futuro presente e juntos possivelmente pensaremos: “Velho, saca só esse moleque! / Fazendo seu caminho pelo mundo / Cada vez que volta / Tá cada vez mais longe / Cada vez mais.” (GESSINGER, 2013). Quem sabe. Espero. Tentarei.


REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

COLASANTI, Marina; GRILO, Rubem. Classificados e nem tanto. 5. ed. Rio de Janeiro: Galerinha Record, 2013.

CORALINA, Cora. Melhores poemas. 3. ed. São Paulo: Global, 2008. (Coleção Melhores Poemas)

FRANCO, Paulo. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

GESSINGER, Humberto. Segura a onda, DG. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=7rHPkSmNiwo>. Acesso em: 18 maio. 2019.

MORAES, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Breve comentário sobre Otelo, o Mouro de Veneza


Shakespeare viveu no período do Classicismo, uma época em que os artistas buscavam inspiração nos elementos da mitologia greco-romana. Este fato aconteceu por os textos clássicos terem sido publicados em maior escala, por causa da invenção da imprensa, e os pensadores quererem novos ares, até pelo momento de descobrimento de novas terras, povos e culturas, com as navegações.

Sobre os gregos, como se sabe, eles buscavam o ideal, a perfeição, o culto à forma, a padronização, o belo e a racionalização. O teatro era dividido em dois grandes gêneros: Tragédia e Comédia. Otelo (2014) é uma tragédia (final triste que consagra o herói) que possui todos esses tópicos.

A peça se passa, na maior parte do tempo, nas ruas de Veneza (cidade italiana) e em um único momento, num porto de Chipre (ilha do mar Mediterrâneo). A obra narra a história de Otelo, um mouro a serviço de Veneza, um dos homens mais respeitados do exército, e sua esposa Desdêmona, filha de Brabâncio, que é um senador veneziano.

Dentre os servos de Otelo há Iago, um homem cruel, mentiroso, ganancioso e inteligente, mas que usa sua esperteza para o mal. É bom lembrar que a racionalização é um dos elementos valorizados pelos gregos, logo, pelos classicistas. Ao ver que o posto que queria tomar foi assumido por Cássio, que é outro servo de Otelo, Iago deseja se vingar de todos: de Cássio, por ter conseguido o cargo que ele queria; de Otelo, por ser negro, estrangeiro, casado com uma das mais belas mulheres locais e por desconfiar de que o mouro tenha dormido com sua esposa,  Emília; e de Desdêmona, por deseja-la e ela ter aceitado se casar com Otelo.

Utilizando-se de toda sua capacidade argumentativa e persuasiva, Iago engana todos, fazendo com que Otelo despeça Cássio de seu cargo (por causa de uma briga arranjada com outro servo de Iago); depois, faz com que Otelo desconfie de que Cássio possua um relacionamento extraconjugal com sua mulher, Desdêmona. E após mais armações de Iago, Otelo termina louco de ciúme e mata sua própria esposa.

A obra é dividida em cinco atos e quinze cenas. Nela, são apresentadas algumas formas de preconceito, uma crise política e visões (algumas, distorcidas) sobre honra, traição e amor.

Sobre o preconceito presente na peça, é possível destacar o racial, o religioso e o xenofóbico. Como se sabe, a Inglaterra é uma ilha, portanto, um lugar isolado dos outros países europeus. Isso é refletido na sua literatura, na qual, muitas vezes, quando aparece algum estrangeiro, é observado com maus olhos e desconfiança. É o caso de Otelo, que não é bem visto por Iago e outros personagens, por ter vindo de fora (a raiva de Iago por Cássio também é justificada com esse argumento: Cássio subiu de cargo e era florentino, enquanto ele, veneziano, continuou no que estava).

O preconceito racial, por sua vez, é presente em quase toda a obra. É fácil encontrar trechos em que outros personagens zombam de Otelo por causa de sua cor, mesmo que ele seja de uma classe superior: “Iago – (...) Neste momento, um carneiro velho e preto está cobrindo sua ovelhinha branca.” (p. 23). Nota-se, nesse trecho e em vários outros, a comparação de Otelo aos animais. Quando Iago profere essas frases de cunho erótico, essa analogia é frequente.

O preconceito religioso também é percebido nas falas de Otelo: “(...) eu agarrei o cão peçonhento circuncidado pelo pescoço e o apunhalei assim” (p. 191). A circuncisão é uma operação que retira parte do prepúcio do corpo masculino. Esse tipo de cirurgia é feito pelos judeus para serem confirmados na religião. No Novo e no Velho Testamentos, sempre que é usado o termo “circuncidado”, faz-se referência aos judeus. Há outros momentos em Otelo nos quais Iago faz comparações do cristianismo com outras religiões, sempre rebaixando-as. Dialeticamente, por ser escrita no período do Classicismo, há várias expressões exaltando alguns deuses mitológicos ao mesmo tempo em que o Deus cristão é citado.

No campo social, a peça demonstra haver certa instabilidade e crise política no país. Em um trecho, Brabâncio (pai de Desdêmona) xinga Iago de “canalha”, ao que este devolve, ironizando, chamando-o de “senador”: “Brabâncio – Você é um canalha. / Iago – E você um senador!” (p. 17). Além disso, há conversas de alguns personagens sobre uma guerra e ameaça do Império Otomano.

Ademais, a obra demonstra algumas questões sobre amor e traição: o que é o amor? Do que ele é capaz? Quando o sentimento deixa de ser amor e torna-se ciúme? Até que ponto o ciúme (representado por Otelo) pode chegar? Qual o preço por uma traição?

Claro que são perguntas subjetivas, mas na obra elas possuem muito peso, chegando ao ponto de haver mortes (de inocentes!), segundo alguns personagens, “por uma questão de honra”, que na verdade é vista através de uma concepção patriarcal, a qual o homem sempre manda na família e na mulher.

As mulheres, por sua vez, nem podiam encenar na época de Shakespeare, então, eram representadas por homens vestidos como mulheres. Na obra, há três personagens femininas: Desdêmona (que representa a mulher ideal — para os padrões gregos), Emília (mulher de Iago) e Bianca (uma prostituta). Cada uma representa uma classe social diferente, respectivamente: aristocracia, "classe média" e baixa. Embora sejam de camadas sociais distintas, todas são submissas aos seus maridos (no caso de Bianca, ao seu amante Cássio).

Em suma, Otelo continua sendo uma história atual neste mundo violento, ciumento, ganancioso, preconceituoso, racista e ainda machista. Os temas discutidos por Shakespeare são universais, por isso é um autor que está sempre em voga.

REFERÊNCIAS

SHAKESPEARE, William. A tragédia de Otelo: o Mouro de Veneza. Tradução de Marilise Rezende Bertin. São Paulo: Matin Claret, 2014. (Coleção A obra-prima de cada autor, v. 123).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Presidente, o jogo


Os jogos podem refletir a nossa realidade ou as nossas vontades; o xadrez, por exemplo, demonstra um pouco de como era a Idade Média e suas hierarquias, com torres de castelos, cavalos e bispos; a limitação dos peões, trabalhadores comuns, que estão sempre à frente das outras peças, prontos para serem sacrificados, e que só podem andar uma casa por vez, somente para frente ou, em caso único de captura de outras peças, em diagonal; a liberdade de movimentação da rainha e toda a estratégia para defender o rei etc. Desconfio até da ordem de jogada no início da partida (embora isso não seja uma real desvantagem, dependendo do jogador): primeiro, as brancas; por último, as pretas. Tudo é simbólico.

Mais moderno, geralmente jogado por crianças (criado talvez para incentivá-las a esse contexto), é o Banco Imobiliário, fruto e reflexão de uma realidade não mais medieval, mas capitalista, burguesa. O nome do jogo em inglês mostra bem o seu objetivo: Monopoly. Significativo.

Desconhecido, há um jogo de baralho chamado “Presidente”. Descobri-o em 2007, através de um amigo que, por sua vez, aprendeu-o com os colegas da irmã mais velha, o que revela certa idade de existência da brincadeira. As regras são simples:

- Todas as cartas do baralho devem ser distribuídas entre os jogadores.
- O objetivo é acabar com as cartas que estão na mão;
- A ordem é: 3 é mais fraco que o 4, que é inferior ao 5, que perde para o 6, que é derrotado pelo 7, que é vencido pelo 8, que é batido pelo 9 etc. Em resumo, a carta mais forte é o 2, enquanto a mais fraca é o 3.
- Se alguém jogar um par, um trio ou um conjunto maior de cartas iguais (cinco oitos, por exemplo) na rodada, só pode ser vencido por outro jogador que lançar a mesma quantidade de cartas de valor maior do que o já posto na mesa (por exemplo, cinco damas).
- Se ninguém conseguir superar a jogada, quem a fez, isto é, o último a jogar, iniciará uma nova rodada.
Por fim, os títulos simbólicos:
- Quem acabar primeiro com as cartas que tem na mão vira o Presidente;
- O segundo a terminar as suas cartas torna-se o Vice-Presidente;
- O terceiro é chamado de Nada.
- O penúltimo a finalizar suas cartas é o Vice-Cu.
- O último, o maior perdedor, é o Cu.
- Quanto mais jogadores existirem, mais Nadas existirão.

Postos os cargos de cada um, na próxima rodada, começa a violência simbólica da vida real dentro do jogo. O Presidente, por exemplo, deve receber as duas melhores cartas do Cu, que, por sua vez, recebe as duas piores cartas do Presidente. Ora, isto nada mais é do que recolhimento de impostos em troca dos piores serviços. Além disso, o Presidente é o primeiro a jogar, descartando as suas piores cartas. Quando a rodada chega ao Cu, o valor já está muito alto, quase impossibilitando o coitado de jogar, já que ele perdeu suas duas melhores cartas antes do início da partida como tributo ao Presidente.

Os Vices, tanto o Vice-Presidente quanto o Vice-Cu, também fazem trocas, mas de apenas uma carta. O primeiro dá a sua pior ao segundo, que lhe dá sua melhor. Novamente, impostos, mas em escala menor.

Os Nadas são a representação da verdadeira elite brasileira. Engana-se quem pensa que quem mandam são os políticos. Não, não. Os Nadas são os burgueses, que não pagam impostos para ninguém, que “estão fora” do sistema, que não têm responsabilidade a cumprir, que podem trocar quantas cartas quiserem entre si, coisa que nenhuma outra posição pode fazer, possuindo, assim, os melhores combos, e que ainda possuem esse nome, “Nada”, como se fossem neutros na partida.

Tudo isso acaba criando um determinismo, também existente na sociedade, que desmistifica a ideia de meritocracia: é muito difícil um Cu, que joga por último (quando tem poder aquisitivo para jogar!), que recebe as duas piores cartas do Presidente, que dá as suas duas melhores ao Chefe do Executivo, subir de posição.

Além desta perpetuação de classes, há um outro elemento que é uma herança na vida do brasileiro: o preconceito, a discriminação a quem tem menos poder. Nesse jogo, todo mundo, expondo os seus anseios que não podem ser realizados no cotidiano, humilha o Cu: xinga-o quando ele demora para entregar as cartas; joga-as ao chão e manda o pobre pegá-las (arrumar tudo é dever dele); faz piadinhas sobre sujeira etc.

Em suma, Presidente é psicologicamente e simbolicamente violentíssimo. Seu inventor é alguém notável! Como todo jogo, ele revela vontades, realidades e problemas sociais. No Brasil, hierarquia política, “toma lá, dá cá”, preconceito e determinismo são coisas comuns; todavia, diz-se também que Deus é brasileiro, então, milagres surgem às vezes. É por isso que pode acontecer que alguém seja Presidente por quatro ou oito anos/rodadas e, por diversos motivos, no outro dia/na outra rodada, vire cu; enquanto alguém que a vida toda foi um cu pode tornar-se Presidente, apesar de, no fundo, continuar sendo um cu que só fala e faz merda. Há sempre os seus cegos seguidores, geralmente cus (a identidade é um conceito interessante), que adoram dizer: “Não ligue. Por favor, inicie o jogo, Presidente...” ou “Nossa, senhor Presidente! Vai deixar passar essa?”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Tentei, tento e tentarei

Quando eu era criança, não havia esta facilidade de conhecer novas músicas e artistas como há hoje, através da internet, e muito do que nós, menores, ouvíamos, era por influência dos nossos pais, para o bem ou para o mal. Felizmente, o meu caso foi o primeiro, o benéfico.

Lembro-me de quando era pequeno e ouvia músicas que eu não entendia, de diversos artistas (Zé Ramalho, Zé Geraldo, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Fagner etc.), tanto por causa da pronúncia rápida dos intérpretes, quanto pelas metáforas utilizadas nas letras; todavia, ainda assim, sentia-me atraído por elas. O cantor que eu mais gostava era o Raul Seixas; não o compreendia, mas tentava.

Aqui, em casa, havia uma coletânea com vários sucessos do Maluco Beleza, eu escutava-a todos os dias e gostava principalmente de uma canção de melodia triste, mas que, curiosamente, me deixava alegre e esperançoso: Tente outra vez. Diferente das outras letras, essa era simples, eu conseguia entender quase tudo, o que era mais do que “apenas” sentir e seguir o ritmo, embora este e a parte escrita, juntos, motivassem-me a andar (sempre para frente).

Um pouco mais velho, quando eu tinha 12 anos, na sexta série, uma professora, substituta, trouxe uma atividade diferente: no aparelho de som, com um CD (algo que muita gente que nasceu agora desconhece), músicas seriam executadas, e a educadora queria que nós nos movimentássemos conforme o sentimento que surgisse.

Sinceramente, não me lembro das outras canções, apenas tenho vagas lembranças de que algumas eram dançantes, porém, recordo (e este verbo é importante, porque, etimologicamente, ele significa “passar de novo pelo coração”) claramente de que ela, Tente outra vez, foi tocada. Surpreso, feliz, senti-me reconhecido naquele espaço.

Eu sabia que os meus amigos não gostavam do Raulzito, mas durante a execução da música, eles se moveram lentamente pela sala, com os braços abertos, de certa forma, sem sentido, somente porque a professora havia pedido movimentos. Enquanto isso, continuei quieto, apenas ouvindo. Ninguém perguntou o motivo de eu ter ficado parado, mas eu conto aqui, agora: nunca gostei de dançar, sempre acreditei que há canções que não pedem “coreografias”, que a agitação necessária deve ser interna, na mente; e se, na ocasião, eu tivesse sido verdadeiro, teria chorado, porque é o que desejo fazer sempre que ouço tal obra.

Depois, fui até a mestra e perguntei: “Professora, ‘Levante esta mão sedenta e recomece a andar’. ‘Sedenta’ de quê?”, ao que me foi respondido algo que jamais esqueci: “De vitórias”. Esta imagem nunca saiu da minha mente: um punho fechado, pronto para as batalhas da vida; uma forte mão que deseja vencer, que nunca desiste, que sempre tenta outra vez; com ela, termino de escrever estas memórias.

domingo, 4 de novembro de 2018

Novos caminhos para os meios de transporte


Redação antiga que encontrei nos meus arquivos:

Novos caminhos para os meios de transporte

Atualmente, um dos maiores problemas urbanos é o de locomoção das pessoas, tanto nos meios de transporte públicos quanto nos privados, pois ambos causam transtornos aos seus usuários e ao meio-ambiente.

A maioria das pessoas utiliza, diariamente, automóveis, trens, metrôs e ônibus; os três últimos, de caráter público, além de terem a passagem cara, a qualidade deles não ser boa, ainda causam desconforto, em consequência da lotação; já os primeiros ocasionam horas de trânsito e problemas de saúde aos habitantes, em consequência da poluição.

Algumas soluções para esses problemas seriam, com o dinheiro dos impostos, a construção de ciclo-faixas, a disponibilização de bicicletas para as pessoas, o investimento em propagandas a favor do uso desse meio de transporte, ou, ainda, a criação de postos de empréstimos de bicicletas, gratuitos ou a um baixo custo, próximos às estações de trens e metrôs, ou das rodoviárias, diminuindo, desta forma, a lotação e a poluição dos meios convencionais, melhorando a saúde dos cidadãos e preservando o meio-ambiente.

Enfim, o problema da locomoção das pessoas nos centros urbanos é grande, mas as soluções para ele são, de certa forma, simples, várias e eficazes, basta apenas os governantes terem boa vontade, visão ecológica, preocupação com o próximo e aplicação correta do dinheiro público, o que deveria ser, de fato e no mínimo, o dever deles.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A besteira do "Não fale mal do meu candidato"

Ninguém gosta de ouvir, ler ou ver que a verdade não está ao nosso lado, mas, pelo contrário, contra nós. Dói. Machuca. As reações, dependendo da pessoa, são diferentes. Alguém inteligente reflete, percebe o erro e busca melhorar a sua opinião sobre os fatos. Os ignorantes são diversos, eles podem parar de falar com quem lhes apresenta visões distintas das suas, ou são capazes de agredir quem lhes corrige, ou ainda, se forem mais infantis, apenas se recusam a ouvir.

Algumas vezes, quando se é criança, esta, orgulhosa, egoísta, idiota, somente para não dar o braço a torcer, tapa os ouvidos, grita ou faz barulho para abafar o som, a fala, a verdade que vem do outro. É uma ação ridícula, sim, todavia não cometida apenas por menores, mas, frequentemente, por adultos, o que demonstra que, em alguns indivíduos, o corpo cresce, mas a mentalidade, não.

Por exemplo, durante os últimos meses do governo de Dilma, muita gente, alegando não querer dar atenção para a corrupção, iniciou o chamado “panelaço”, que nada mais era do que bater panela enquanto a ex-presidente discursava na TV. As pessoas que esse grupo que se dizia “anticorrupção” apoiava, uma a uma, foram acusadas, investigadas e, algumas, condenadas por corrupção. Há uma lista enorme de sujeitos investigados e comprovadamente culpados por diversos crimes, mas que ainda possuem privilégios que não os permitem ser presos. O que o pessoal das panelas fez e faz agora? Nada.

Quando conseguiram o impeachment, inteligentes como são, disseram que o país melhoraria, que se tiraram a Dilma, tirariam o Temer e todos os outros que fossem ruins. Nada disso aconteceu, o país piorou. Muito. Os escândalos de corrupção aumentaram, pouca justiça foi realizada, muita injustiça está sendo praticada e refeita diariamente. O que fez o grupo que vestia verde e amarelo, que gritava, que dançava? Isto mesmo: dançou, mas silenciosamente.

Agora, passado um tempo, com a ascensão de novos candidatos ao cargo de salvadores da pátria, de defensores dos bons costumes e da família, de pseudo-mártires, os ignorantes, tanto no sentido de que desconhecem os fatos, quanto no de que são agressivos, voltaram. Retornaram com uma estratégia que demonstra a sua incompetência. Ao verem o seu mito ser desmistificado, lançaram mão de uma imagem que diz: “Não fale mal do meu candidato. Fale bem do seu e tente me convencer”. Inteligentes, não? Aliás, atenção aos verbos no modo imperativo, que dão ordens: "não fale", "fale", "tente".

É a mesma história dos panelaços, de gente que não quer ouvir, ler (isso é o que menos quer) ou ver a realidade (ou realidades diferentes); é coisa de pessoas que não assumem o erro, que desconhecem que a política é coletiva, que requer diálogo e comprovações a favor ou contra personalidades e ideias; que não sabem que uma das estratégias da dissertação é o contra-argumento; que além da tese há uma antítese, para se chegar à síntese; que desconsideram até mesmo a hipótese de que o outro pode não ter um candidato escolhido para defender ou para falar bem, mas que está apenas avaliando todos e que, no momento, está pontuando as partes negativas do concorrente em questão. É difícil entender isso? Parece que, para eles, mais do que complicado, é impossível.

Desta forma, não adianta enaltecer A ou C, se você já está decididamente cego pelo B.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Breve análise do conto "Cabelos compridos", de Monteiro Lobato


Monteiro Lobato foi um renomado escritor brasileiro, inovador na forma de tratar alguns assuntos, crítico de tabus e problemas da sociedade da época, prosador racionalista e progressista, que olhava para diferentes regiões nacionais e temas sociais, porém, em razão do caráter moralista e didático de suas obras, não pôde ser considerado completamente “modernista” (e nem ele queria sê-lo), apenas “pré-modernista”.

Ora, o Pré-Modernismo é caracterizado por questionar-se mais profundamente sobre o que é, de fato, o brasileiro. Lima Barreto e Euclides da Cunha, por exemplo, mostraram aspectos e tipos de pessoas que os leitores não conheciam, como os negros ou os pobres nordestinos, ou conheciam de forma deturpada (como os sertanejos e os índios idealizados de José de Alencar). Porém, esses escritores também não podem ser considerados “modernistas”, faltava algo a eles: romper com a forma tradicional da escrita realista, ação que só a geração posterior fez.

Como é característica de Monteiro Lobato, suas histórias possuem personagens cômicos, até mesmo ridículos, como acontece no conto Cabelos compridos. A narrativa traz a história de Das Dores, uma mulher que “É feia, desengonçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotundidade posterior; é pobre de bens e de espírito”, mas é uma pessoa “boazinha”. A única coisa que a personagem tem mais do que as outras é “cabelo”. O narrador chega até a citar uma frase de Schopenhauer: “Cabelos compridos, ideias curtas”. Essa citação, argumento de autoridade, em tom de piada, demonstra a racionalidade e o humor de Monteiro Lobato, mas que também são características do pré-modernismo.

Além disso, a personagem, Das Dores (e este nome já é significativo), é pobre, uma das classes investigadas pelos pré-modernistas, e representa grande parte da população brasileira, que “só faz tudo que outras fazem e por que as outras o fazem”. É o retrato do povo simples, inculto, que não reflete sobre os próprios atos e, por isso, apenas repete as ações, que se tornam costumes e tradições (muitas, ruins).

É nisto que se concentra o enredo do conto: a protagonista, um dia, vai à missa, e o cônego, dentre tantas coisas que diz e que não são entendidas pelo público — o que já é uma crítica à forma de tratamento e  ao discurso (que, por muito tempo, aliás, era feito em latim!) dos padres —, fala que deve-se refletir sobre cada palavra das orações cotidianas, pois se não o fizesse, seriam palavras em vão. Das Dores, a partir daí, fica pensativa.

Abismada, a protagonista foi falar sobre o assunto com uma tia, que “mastigou em ‘pois é’ que dava toda razão ao padre”. Trecho significativo do conto, porque indica duas ocasiões: a primeira, que Das Dores realmente estava refletindo sobre as palavras do cônego; a segunda, que sua tia não estava dando devida atenção às palavras da sobrinha e muito menos às do padre. Situação dialética.

Característica da maioria dos contos, o tempo segue cronologicamente, portanto, chega a noite, hora de a personagem rezar, coisa que sempre fez, mas agora ela refletiria sobre cada palavra. O espaço, fechado, o que dá mais tensão, é o quarto, somado à noite que, como se sabe, é um momento onde aguçam-se as subjetividades, o que acaba causando conflitos em Das Dores, porque ao pensar numa palavra, associa-a a pessoas, a lugares etc., não conseguindo terminar a oração e concluindo, equivocadamente, justamente por sua ignorância, que o cônego é quem está errado. É o fim do drama do personagem, como pede o gênero conto, sempre ao final.

A narrativa enquadra-se no Pré-modernismo por trazer essa personagem, mulher, feia, desengonçada, pobre, inculta, em suma, marginalizada, para a discussão, para a literatura, pois, antes, pessoas assim eram ignoradas pelo mundo das letras, como se não existissem; além, também, do estilo do conto não romper nenhuma convenção formal.

Monteiro Lobato, satírico e, ao mesmo tempo, com vontade de melhorar progressivamente o país, apontou para essas existências e para outros problemas pragmáticos. O cônego que fala somente para si, já que muita gente não o entendia, com aquela retórica toda, é outro obstáculo: o da comunicação e acessibilidade à linguagem. A tia de Das Dores, Vicência, “velha sabidíssima em mezinhas e teologias”, pode representar conhecedores de religiosidades não-cristãs, que não eram nem mencionados por muitos.

Enfim, o conto é curioso e chega a ser engraçado, em razão das descrições feitas pelo narrador, mas funciona e passa sua mensagem principal, mesmo que ao avesso: é por levar as palavras ao pé da letra, por sua ingenuidade e sua ignorância, que Das Dores não compreende o padre e pensa que ele pode estar errado: “pela primeira vez na vida duvidou”. Ao mesmo tempo, a história demonstra a dificuldade de parte da população, simples e pobre, para com a linguagem.

REFERÊNCIAS

LOBATO, Monteiro. Cabelos compridos. Disponível em: <https://tessellatedhearts.wordpress.com/2012/02/20/cabelos-compridos-monteiro-lobato/>. Acesso em: 14 set. 2018