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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Beastars, mais do que uma fábula


Quando se fala em anime feito em CGI (computer generated imagery), todos já olham estranhamente, mas não deve ser o caso de Beastars, de 2019, produzido pelo estúdio Orange, que só trabalha com esse tipo de técnica. Adaptação do mangá homônimo de Paru Itagaki, terminada agora a primeira temporada, a obra consagra-se como uma das melhores do ano na cena, por diversos motivos.
Beastars passa-se num universo de animais humanizados, isto é, antropomórficos, predominantemente dentro de uma escola, a Cherryton, numa sociedade onde é proibido que carnívoros devorem herbívoros. Mais do que isso, toda ação gira em torno do clube de teatro e o protagonista é um lobo que esconde ao máximo a sua natureza. Já deve ter ficado claro que, como as fábulas, o anime metaforiza a vida em comunidade e engloba questões psico-filosóficas, não é?
 Antes de tudo, é preciso lembrar que a sociedade é um lugar onde, segundo Freud, pai da psicanálise, “ao menos todos capazes de viver em comunidade — contribuem com o sacrifício de seus instintos, e que não permite — de novo com a mesma exceção — que ninguém se torne vítima da força bruta” (FREUD, 2011, p. 40-41). Ou seja, é necessário reprimir os seus sentidos animais para se viver socialmente. Ora, essa é a premissa da vida civilizada, do anime de Beastars, e que é quebrada logo no começo do primeiro episódio: ninguém sabe quem foi o malfeitor, mas um animal foi devorado na escola.


 Essa situação deixa todos os herbívoros em pânico e, ao mesmo tempo, revela um preconceito sobre os carnívoros que, por sua vez, sentem relativa raiva dos primeiros e da lei que os defende, o que lembra o pensamento nietzschiano de que a sociedade é um local em que uma massa de fracos vence os fortes (NIETZSCHE, 2009).
 Além disso, não se pode esquecer de que o anime foca no grupo de teatro, isto é, uma arte que busca o Belo através da atuação; de certa forma, do fingimento. Como disse Shakespeare, mestre da dramaturgia: “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores” (SHAKESPEARE, 2013, p. 62). A representação, tanto em Beastars quanto na vida real, continua além dos holofotes, já que não se pode fazer nem falar tudo o que se deseja à luz do dia, em qualquer que seja o contexto social, pois há regras implícitas e explícitas que norteiam e “vigiam” seus usuários e punem quem as infringe (FOUCAULT, 2014).
 Como não poderia deixar de ser, embora não pareça, toda esta pressão e vigilância causa sofrimento às pessoas: “(...) privar um instinto de satisfação (...) É algo que tem seus perigos; se não for compensado economicamente, podem-se esperar graves distúrbios” (FREUD, 2011, p. 43). É o caso do protagonista da história, o lobo Legoshi, que, diferente de tudo o que se espera (inclusive dentro da obra), não é violento nem se exibe pela sua força, mas é gentil e calmo. Todavia, como já revela a abertura do anime, uma noite  — o que é simbólico, horário que a razão diminui um pouco, as subjetividades e vontades vêm à tona —, o lobo se deixa levar pelos instintos e quase devora uma coelha (pela qual, depois, ele se apaixona).


 Essa personagem, Haru, não é bem vista pelas outras coelhas e mesmo por alguns espectadores, porque ela “fica” (faz sexo) com qualquer animal, mesmo de outras espécies, como o cervo e líder do teatro, Louis, ou como quando já ia se entregar ao Legoshi, mesmo sem conhecê-lo, antes de ele fugir. Beastars é muito competente nisso, por juntar, ao mesmo tempo, questões humanas (morais) e animais (instintivas).
 No anime, Haru diz que cede a todos por medo, pois sabe que é fraca e frágil, então, se ser usada por outro animal lhe permitirá continuar viva, ela deixará, mesmo que não haja amor envolvido. É triste e reflexivo. Por outro lado, ela também diz que é só durante a relação sexual que todos são iguais. Não é nem preciso dizer que “tirar a roupa” e “ficar nu” é algo tanto literal quanto metafórico. Sem contar que “o amor sexual (genital) proporciona ao indivíduo as mais fortes vivências de satisfação, dá-lhe realmente o protótipo de toda felicidade” (idem, ibidem, p. 46). Daí, o preconceito que mascara a possível inveja inconsciente das outras coelhas sobre Haru e, na vida real, das pessoas “tradicionalistas/reacionárias” quanto à liberdade sexual dos outros. Novamente, pode-se lembrar de Nietzsche e a moral dos fortes e fracos.
 O anime aborda, então, um triângulo amoroso entre Legoshi, que ora se move pelos sentimentos, ora pela racionalidade, Haru, que se deixa levar mais pelos instintos, e Louis (o cervo, líder e ídolo da turma do teatro), que tenta ao máximo esconder seus medos e fraquezas de herbívoro e mostrar uma imagem de forte e elegante — muito coerente, já que é o maior representante da arte de atuar. O lobo gosta da coelha que gosta do cervo. Situação complicada, difícil de lidar, que evoca questões psicológicas.


 Por falar nessa área de estudo, há uma espécie de “psicólogo”, um panda que vive fora da escola, na cidade, no “mundo dos adultos”, ou, como ele mesmo diz, de quem aprendeu a dominar os seus instintos e que sabe que, de qualquer forma, há uma fuga, no caso, o “mercado negro”, local em que é possível comprar e vender carne, onde crimes acontecem, todos sabem, mas não fazem nada para impedir, apenas afastam as crianças e os estudantes. Nada mais verossímil. Se quiser aproximar da realidade de cá, troque “carne” por “drogas” ou “prostituição”.
 É esse panda que ensina a Legoshi que, na verdade, o que ele sente pode não ser amor, mas somente desejo; que o medo que ele tem de perder a coelha para alguém é, no fundo, medo de perder a própria presa, seu objeto de prazer. É impossível não lembrar de Nietzsche: “Amamos, em definitivo, somente nossas inclinações e não aquilo a que nos inclinamos” (NIETZSCHE, 2013, p. 111). Isto é, ama-se o desejo, não o desejado; gosta-se apenas dos sentimentos e das sensações boas que o outro pode causar, mas não própria e especificamente do causador, tanto que, quando alguém deixa de ser fonte de prazer, é trocado por outra pessoa.
 Ainda assim, Beastars não se trata apenas de romance. Há ação, outros personagens interessantes, lutas/brigas (obviamente, sem poderes e exageros, pois a obra, como já deve ter ficado claro, não é um shounen), cenas cômicas, diálogos reflexivos e poéticos e momentos muito tensos, tudo feito com bastante cuidado, tanto na animação e nos enquadramentos, quanto nas cores e na trilha sonora. Aliás, a abertura é um show à parte, com imagens em stop-motion (aquela técnica de sequência de fotografias de objetos para simulação de movimentos) e música jazz, bem ao estilo das openings de Cowboy Bebop (1998) e Baccano! (2007), embora sejam instrumentais.

(Abertura de Beastars)

 Se fosse para apontar um ou outro “defeito” nesta primeira temporada, pode-se falar que alguns episódios soam desconectados, como, por exemplo, um no qual muito do tempo é gasto descrevendo ações e pensamentos de uma galinha. O capítulo é interessante e engraçado, tem seus próprios questionamentos e a personagem até possui relação com Legoshi, mas soa relativamente desnecessário.
 Outro ponto que parece desconexo é a falta de investigação sobre a morte que acontece no começo da história: ninguém sabe como foi, quem praticou o assassinato, as consequências etc. De vez em quando, até mencionam o fato, mas em boa parte do anime é esquecido. Uma hora, retomam, mas leva tempo. De qualquer forma, são apenas 12 episódios e esses detalhes não estragam a obra. Na já confirmada segunda temporada, ao menos a parte do crime deve ser melhor trabalhada.
 Em resumo, Beastars foi uma grata surpresa neste 2019. Por vezes, nem parece que é feito em CGI. Repleto de metáforas e levantamentos sócio-psico-filosóficos, é uma obra adulta que merece atenção não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma como aborda tudo, afinal, não se vê narrativas com animais antropomórficos toda hora, quase uma fábula moderna, mas sem o clichê maniqueísta de Bem e Mal, “final feliz” (pelo menos por enquanto) e lição de moral. Um verdadeiro trabalho artístico. Que venha a segunda temporada.



REFERÊNCIAS

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.  24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin Classics & Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich W. Além do Bem e do Mal. Tradução de Antonio Carlos Braga e Ciro Mioranza. São Paulo: Editora Escala, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich W. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SHAKESPEARE, William. Como gostais, seguido de Conto de inverno. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre, RS: L&PM POCKET, 2013. (Coleção L&PM Pocket, v. 727).

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Isshuukan Friends: amizade e memória


Isshuukan Friends, também conhecido como One week friends, é um anime de 2014, baseado no mangá homônimo que foi publicado entre 2012 e 2015, de Matcha Hazuki. A animação ficou ao cargo do estúdio Brain’s Base, responsável pelos relativamente conhecidos Rin-ne (de Rumiko Takahashi, criadora de Ranma ½ e InuYasha), Durarara e Bacanno! (ambos de Ryohgo Narita).

A história dura apenas 12 episódios e é muito bonita e relativamente simples, mas pode produzir reflexões interessantes. Em resumo, um menino, Hase, deseja ser amigo da menina mais quieta e reservada da sala, Fujimiya, e depois de muita insistência, descobre que o motivo de ela ser assim, afastada, é porque toda semana ela perde a memória dos amigos, lembrando-se apenas dos familiares e de questões que não envolvem pessoas, como o conteúdo das lições, os caminhos, as vontades, os gostos etc. Mesmo assim, toda segunda-feira, Hase pede para ser amigo de Fujimiya novamente.


Essa situação, pedir a amizade de alguém, é ambivalente, pois, de um lado, mostra a ingenuidade dos envolvidos, como se fossem crianças, o que, pelo design escolhido na obra, é o que eles aparentam ser, desenhados bem bonitinhos, com as bochechas coradas etc. Quando se é pequeno, é verossímil que uma pessoa peça para ser amiga da outra, mas, por outro lado, os personagens de Isshuukan Friends estão no ensino médio, são adolescentes, mesmo que, pelos traços e até pelas personalidades, não pareçam. Todavia, por causa do problema da menina que perde a memória toda semana, o anime mostra que amizade não se ganha, pelo contrário, se constrói dia após dia, o que combina com a estrutura episódica da obra.

Para evitar o infortúnio da amiga, o protagonista sugere que ela escreva as experiências cotidianas num diário, o que é uma boa ideia, pois, como se sabe, alguém sem memória, sem história, é, também, sem identidade. No entanto, isso levanta um questionamento psicológico: como toda relação humana, há certo egoísmo envolvido (não se pode esquecer que “ego”, em latim, significa “eu”), porque, no fundo, mesmo que quem sofra mais seja a Fujimiya, é o Hase que não quer ser esquecido... Episódios mais à frente, com outras palavras, essa dúvida é levantada: você realmente se esforça tanto por mim, ou por você mesmo? Todo contato tem atrito...


Outra indagação que o espectador pode fazer e que também é realizada no anime é que há uma diferença entre a realidade objetiva do mundo e a subjetiva de Fujimiya: mesmo que ela escreva para não se esquecer das suas experiências, ao ler sobre elas e desejar crer naquilo, acreditaria em qualquer coisa que estivesse escrita, mesmo que modificada, por exemplo. Ou mesmo em outra ocasião, veja, se ela lê que tem um amigo chamado Hase e um menino chegasse falando com ela, a menina poderia pensar que é o seu colega (há episódios em que ela chega ao colégio, na segunda-feira, e pergunta: “Você é o Hase-kun?”), mas se fosse alguém mal-intencionado, conseguiria criar confusões e problemas entre eles. De qualquer forma, são apenas possibilidades que não acontecem na obra.

A direção do anime é eficiente e consegue conciliar bem conteúdo e forma, demonstrando os sentimentos dos personagens através do clima do momento, das cores ou por meio do enquadramento da tela. Então, por exemplo, enquanto querem revelar seus anseios, mas vivenciam dúvidas interiores, vão à praia e está chovendo, isto é, um tempo instável, além de estarem na presença do mar, que vai e volta, que é o movimento da vontade subjetiva deles. Não à toa, no fim desse episódio, uma pessoa relacionada ao passado de Fujimiya, tal como uma onda ou maré, retorna. Outro momento é quando a menina ainda não confiava no Hase e os seus encontros, na tela, eram sempre marcados por algo, no fundo, que os separava, como uma grade ou uma barra de ferro.


Uma dificuldade que os animes curtos têm, principalmente os do gênero “Slice of life”, como é o caso de Isshuukan Friends, é desenvolver os personagens, já que a história é curta e cada episódio tem seu próprio conflito, com início, meio e fim. Além dos já mencionados Hase e Fujimiya, o anime trabalha com outras três figuras: Kiryu, que é amigo do Hase; Yamagishi, que é uma menina que sempre quis ser colega da protagonista e que, curiosamente, gosta de Kiryu e também é esquecida das coisas (mas só de fazer a lição, lembrar do nome dos colegas de classe etc.); e Kujo, que era um amigo de Fujimiya do passado e parte do motivo de ela ter perdido as memórias.

Como se não bastasse a coincidência deste último personagem retornar para Tóquio, para a mesma escola que sua antiga melhor amiga está estudando, no mesmo horário que ela, de cair na mesma sala, de o único lugar vazio ser ao lado dela, Kiryu, por outro lado, também estudou com Yamagishi no ensino fundamental (embora esta não lembre) e mesmo que ele não demonstre suas emoções — típico personagem que é bom em tudo o que faz sem precisar se esforçar — já no passado, ajudava Yamagishi sem que ela soubesse... Por quê? Para quê? Eles nunca haviam trocado palavras e se dependesse dos dois, nunca trocariam, já que uma é extremamente tímida e o outro é quase totalmente indiferente a tudo e a todos.


Ainda assim, esses são problemas pequenos que não afetam a beleza da obra, nem desmerecem as sutis reflexões que ela proporciona, às vezes, sobre questões bobas que acontecem nas melhores amizades, como quando Hase apresenta seu amigo Kiryu para Fujimiya e ela se dá muito bem com ele, embora, no começo, não o considere um amigo e, por isso mesmo, na outra semana, lembre-se dele, mas não de Hase que, irracionalmente, sente ciúmes, como amigos que têm esse sentimento quando veem que seu/sua parceiro (a) agora é companheiro (a) de outro (a) colega seu/sua. Bobo, mas normal e verossímil.

O pensamento do protagonista sobre o fato da amiga perder a memória também vale para a vida de qualquer um: o passado é importante, claro, mas se você não consegue lembrar do ontem, viva o hoje, o amanhã, o depois de amanhã, hoje, amanhã e depois de amanhã; crie novas vivências que poderão ser lembradas, se não por você, então, por outros. Diz-se que, no grego antigo, os verbos “morrer” e “esquecer” têm semelhança, daí a preocupação em querer ser lembrado... Carlos Drummond de Andrade possui um poema onde diz que “eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo / mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata (DRUMMOND, 2010, p. 301)”. Essa é uma lição que todos sabem, mas que não deveria ser esquecida...


Todavia, há experiências que não apenas são abandonadas involuntariamente, quanto devem sê-lo, que o próprio corpo se encarrega de fazê-lo. Fujimiya não nasceu com o problema que ela tem, mas o adquiriu após uma série de eventos que ocasionaram um acidente que, por sua vez, gerou um trauma. A menina passa mal quando surge o Kujo e tenta lembrá-la do seu passado. Não é bom recordar de certas coisas (o sentido etimológico da palavra “recordar” é “passar de novo pelo coração”), e nem é necessário fazê-lo: quantas informações o cérebro capta durante o dia todo, num centro urbano? Agora, para quê lembrar de tudo o que foi visto ou ouvido? Além de ser impossível, é desnecessário, e a máquina do corpo humano sabe disso.

Em suma, Isshuukan Friends é um anime bom, leve e muito bonito, sobre amizade e lembranças e, portanto, sobre parte da vida. O design dos personagens ajuda a deixar tudo mais belo e até “inocente” e fofo, o que não condiz com a idade deles; a direção é bem trabalhada; a história termina bem, mas não cobre todo o mangá, então ainda ficam algumas pontas soltas, mas nada que interfira muito no produto final. Por ser curto, pode-se assistir ao anime em um ou poucos dias mais — e vale a pena vê-lo. Quer dizer, é memorável.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.



sábado, 14 de julho de 2018

Barakamon: leveza, profundidade e beleza


Escrito e desenhado por Satsuki Yoshino, Barakamon é um mangá que teve sua animação em 2014, produzida pelo recente estúdio Kinema Citrus, mais conhecido agora, por causa do anime Made in Abyss, destacado por muitos como o melhor da temporada de 2017.

O anime de Barakamon conta com 12 episódios, além de um spin-off chamado Handa-kun, de 2016 (produzido pelo estúdio Diomedéa), também de 12 capítulos, que aborda a infância do protagonista, mas o presente texto discutirá apenas sobre a série de 2014, Barakamon.

A obra, que oscila entre o slice of life e a comédia, tem como protagonista Handa Seishu, um calígrafo jovem e promissor, vencedor de alguns prêmios da arte da bela escrita, o que lhe dá um ar de arrogância, que logo no primeiro momento do anime é dissipado, quando um dos jurados diz que a letra de Handa não traz nada novo, apenas segue modelos tradicionais, e lhe pergunta se o autor já havia tentado escalar “o muro da mediocridade”, ao que o protagonista não aceita e agride o velho senhor.

É importante ressaltar essa fala do jurado, porque Barakamon é muito coeso entre a linguagem verbal e a não-verbal, o que é um ponto muito positivo na obra. Depois do ocorrido, o pai de Handa, um renomado calígrafo, envia-o para uma ilha, para que o filho descubra mais sobre a vida e sobre si mesmo. Lá, o protagonista é cercado por gente simples, mais velha, que nem usa a norma-padrão da língua e que desconhece a cidade grande, e muitas crianças, que são o fator cômico do anime e, metaforicamente, os responsáveis pela cor na vida e na obra de Handa. O calígrafo, ao chegar no local — e até mesmo o telespectador —, pensa que não aprenderá nada, o que não passa de um ledo engano.


A principal personagem dessa ilha, Naru, é uma menina muito engraçada e animada, que logo no primeiro episódio ensina uma lição muito bonita e importante a Handa e a quem assiste, e que possui total relação com a fala do jurado no começo do anime, tudo conduzido por belas cores e por uma linda trilha sonora. Falar mais do que isso sobre o mesmo capítulo pode diminuir a surpresa.

O segundo episódio apresenta outro personagem, um rapaz que só tira notas ruins na escola, embora estude demais e passe noites sem dormir. Ele leva uma refeição ao protagonista, que está dormindo, o que é motivo de sarcasmo do morador da vila: “Fica uma noite sem dormir e tem todo esse sono? Eu passo várias noites acordado e não fico assim. Vida de artista é diferente mesmo...”.

É um pensamento que parece válido, mas nem sempre o é. Naru, a menina extrovertida e intrometida, abre um armário e mostra ao rapaz o tanto de rascunhos que Handa fez durante a madrugada. Não era a intenção dela, mas o adolescente julgador, neste momento, percebe a besteira que estava falando sobre o calígrafo e sobre si mesmo, que apenas diz que estuda, mas que não se esforça de verdade; é por isso que suas notas continuam baixas, é por isso que não sente sono durante o dia, porque não passa horas da noite realmente desperto. Um detalhe: os rascunhos do protagonista estavam dentro de um armário, no escuro, não à mostra de todos. Apenas cada um sabe do seu trabalho e do seu esforço, é o que o personagem e o telespectador aprendem, além de que não basta talento na vida, como muitos pensam, principalmente sobre os artistas.

O terceiro episódio é interessante por causa de uma dupla de rimas. Logo no início, vê-se Handa finalizando um quadro escrito “Despreocupado”. As obras de caligrafia, ao menos no anime, são retratadas apenas como uma palavra ou uma frase, escrita(s) de forma única, com o intuito de passar o sentimento do momento e da mensagem no código linguístico.


A questão é que essa obra do protagonista não ganha o concurso ao qual concorre, e além de ser derrotado por um calígrafo mais jovem, Handa ainda perde para todos os velhos numa brincadeira da ilha (rima número 1), o que lhe frustra. Está, aí, então, uma contradição: o personagem principal não estava sendo sincero consigo mesmo quando escreveu “Despreocupado”, porque ainda estava orgulhoso de si. Talvez, este seja o motivo de ter perdido; talvez, este seja o motivo de muita gente perder(-se): levar-se demasiadamente a sério. É preciso ter paciência e humildade. Lição ensinada pelos simples moradores da vila.




Distintamente, outro personagem, que já havia aparecido desde o primeiro episódio, é apresentado mais a fundo. Tamako Arai, uma menina viciada em mangás, revela a Handa a sua paixão pela arte dos quadrinhos japoneses e a sua vontade de mudar a visão das pessoas, chocando-as, porque quando ela era jovem, também teve sua visão mudada através de uma cena chocante que viu num mangá. O curioso é que a moça quer revolucionar a arte com o seu trabalho, enquanto o calígrafo ainda não apresentava nada de novo, apenas seguia a tradição. Ainda assim, Tamako, ao emprestar o seu próprio quadrinho para Handa, entrega-lhe diversos outros, para que o protagonista entenda a obra dela, isto é, as referências que a aspirante a artista também segue — entre elas, Soul Eater e FullMetal Alchemist, dois grandes nomes da cultura pop japonesa, dos animes e mangás (rima número 2).



Uma das lições básicas da história e que também é, de certa forma, um clichê dos animes, em razão da sociedade nipônica, de seus costumes e valores, é sobre o esforço e o treino. Num dos episódios, a turma de Handa pede-lhe para ensinar caligrafia, ao que o mestre ensina o básico da arte e pede para que todos repitam a mesma frase até ela apareça e soe como da maneira desejada, mas os jovens acham uma tarefa chata — o que de fato o é — e perguntam se não há um truque, se ele não pode lhes ensinar o seu estilo pessoal, tal como os quadros que mantém escondido. Enquanto isso, ao fundo, às escuras, é mostrada uma das obras do protagonista, “Nulo”. Nada mais coerente, posto que o próprio calígrafo ainda não tem um estilo próprio, por isso está na ilha, para se descobrir, porque, por enquanto, ele mesmo se considera nulo.


Ainda nesse episódio, há um diálogo bonito e reflexivo, quando Handa diz que não pode mostrar os seus quadros que estão escondidos, tanto porque ainda estão em desenvolvimento, quanto porque não foram reconhecidos. A pergunta e a resposta de uma das crianças: “Reconhecidos por quem? Para mim, está muito bom”. Quantas pessoas escondem as suas qualidades e habilidades porque não foram reconhecidas por um ou outro alguém, enquanto a maioria aos seus redores admira-as? Quantas vezes o trabalho da subjetividade do autor é rebaixado por ele mesmo, por causa da interpretação, frequentemente também subjetiva, dos outros? Geralmente são essas negações da própria pessoa que tornam a sua obra nula.

Em diversos momentos, em diferentes capítulos, o cenário, além de deixar a imagem mais bela, revela situações e sentimentos dos personagens, o que é muito comum na arte cinematográfica. Há um episódio, por exemplo, em que aparecem vários girassóis, flores (que por si só já significam a beleza e a juventude) que “seguem o sol”; ao mesmo tempo, surge um fã de Handa, aquele personagem mais jovem que ganhou do protagonista no último concurso de caligrafia, o que cria uma rima de imagem: o personagem principal procura uma luz na ilha, busca um sol, ao mesmo instante, ele é o sol daquele fã, que pretende alcançá-lo e trazê-lo de volta ao seu posto de primeiro lugar...

(A opção da câmera, de baixo para cima, mostra a arrogância do jovem calígrafo, ao mesmo tempo, deixa Handa maior do que o fã.)

O diálogo entre os dois é muito bonito e mostra a evolução de Handa, que era como o jovem que lhe segue, que, por sua vez, antigamente, apenas seguia seu pai... O desejo do protagonista, de criar algo novo, de ser único, lembra muito uma epígrafe do poeta brasileiro Mario Quintana sobre a arte da poesia: “Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.” (QUINTANA, 2003, p. 76). Pode-se aplicar o mesmo pensamento à caligrafia, que não se resume a “escrever de forma bonita”.

Todos os episódios são bem estruturados, fechando bem o ciclo que iniciam. Um deles, por exemplo, começa de manhã, com o calígrafo regando os girassóis e se perguntando sobre quem foi que os plantou, depois o foco é mudado para o aniversário de Naru, a menina sapeca que vive seguindo o protagonista, por fim, o último ato do capítulo é sobre o aniversário de morte da avó de Naru. Há uma ordem coesa no episódio: inicia-se pela manhã, com os girassóis, símbolos da beleza e da juventude, passa para o aniversário da personagem mais nova da história, à tarde, e termina com a cerimônia da morte de um antepassado da menina, à noite. Lembra-se do questionamento de Handa no começo do capítulo: “Quem será que plantou esses girassóis?” Ele também não havia se perguntado sobre o passado da própria Naru, tal como os espectadores que não conhecem, muitas vezes, a origem daquilo ou de quem lhes cerca.

Para finalizar, é necessário mostrar, concretamente, a influência dos cenários, da utilização de quadros diferentes quando os personagens discordam. Veja, por exemplo, após essa bela resposta de Handa, iluminado, com os girassóis atrás de si, o isolamento do seu fã (e também calígrafo) dentro de um quadrado, enquanto o protagonista passa por ele.




(Este diálogo é a prática de uma lição que Handa aprendeu na ilha, sobre ceder o "seu" lugar a quem, no momento, parece ser melhor.)

Ou então, observe a simetria dos girassóis ao fundo, quando o protagonista e um rapaz da vila (aquele que dizia que estudava demais e só tirava nota ruim) trocam os seus pratos, mas em seguida, quando um critica a refeição feita pelo outro, o ângulo da câmera coloca-os separados por uma coluna, a mesma que isolou o fã de Handa.

 (Antes de provarem a comida, um fundo plano, colorido e simétrico.)

 (Depois de terem provado e discordado, o foco é em diagonal e uma coluna separa os personagens.)


Em outro momento, quando estão reunidos quatro personagens (o pai, a mãe e um colega de Handa), três querem a mesma coisa, e embora estejam em posições diferentes, todos aparecem dentro de um mesmo quadro, enquanto o discordante (no caso, a mãe do protagonista), em outro; porém, quando o amigo do calígrafo começa a pensar como a mãe do personagem principal, a câmera muda de lado e mostra outra coluna separando Handa e o companheiro, e, por fim, este ao lado da mãe do calígrafo, dentro de um único quadro. Veja as relações abaixo:

 (Os três no quadrado à esquerda desejam o mesmo objetivo, a mãe, discordante, isolada num quadrado à direita.)

 (O amigo começa a discordar do protagonista e a câmera mostra-os de outro ângulo, separados por uma coluna.)


(O amigo assume que está ao lado da mãe, os dois ficam dentro do quadrado à direita, enquanto o pai, ainda de acordo com o filho, à esquerda.)

Em suma, Barakamon é um excelente anime, leve, belo e profundo, que, se não ensina nada novo, relembra lições importantes que podem ter sido esquecidas ou que não foram levadas a diante. Há diversas metáforas, momentos cômicos e reflexivos, que o autor deste texto não quis relatar, para não diminuir (mais ainda) a graça da obra para quem não a viu. O único problema do anime é uma cena que se passa por cômica, mas que é desnecessária, uma piada de “duplo” sentido vivida por crianças... Quem assistir perceberá e reagirá. A trilha sonora é bonita e relaxante, pois combina com aquele ambiente infantil; as cores são vivas, expressivas; os personagens secundários, embora não sejam tão bem trabalhados, evoluem com o passar dos 12 episódios. Ao todo, um trabalho bem feito, altamente recomendado para fãs de animações japonesas, coerente entre forma e conteúdo, grande demais para ser reduzido a este texto.

REFERÊNCIAS

QUINTANA, Mario. Caderno H. 9 ed. São Paulo: Globo, 2003.

domingo, 24 de junho de 2018

InuYasha, algumas considerações

Depois de 193 episódios e 4 filmes, finalmente terminei de assistir àquele anime que a Globo só exibiu 26 episódios, quando eu era criança, por volta de 2004/2005: InuYasha.
A história é boa, começa simples e termina complexa, mas, como é característica da criadora, Rumiko Takahashi, prolonga-se demais, tal como seu outro grande sucesso, Ranma 1/2 (que conta com 161 episódios e 2 filmes, e eu assisti a tudo...).
Além disso, a autora repete sua fórmula, o que, para alguns, torna a obra previsível. Em Ranma 1/2, Ranma é um menino amaldiçoado, metade homem, metade mulher, que gosta de Akane, que também gosta dele, porém, ambos fingem que não. Em InuYasha, este, metade humano, metade demônio, gosta de Kagome, que também gosta dele, mas ambos vivem brigando. (Em Rin-Ne, outra obra de Rumiko, feita após o fim de InuYasha, o protagonista, que também leva o nome do anime, é um rapaz metade humano, metade shinigami...).
Outros personagens de InuYasha são bem parecidos com os de Ranma 1/2. Kouga, rival de Inuyasha, por exemplo, lembra o rival de Ranma, Ryoga. Os dois estão sempre perdidos. A pulga Myouga, de InuYasha, é a cara do Happosai, de Ranma 1/2, mas este é muito mais engraçado e o seu caráter de "safado" é passado para Miroku, um dos personagens principais de InuYasha.
Depois da questão da "duração", que é muito longa, outro problema de InuYasha é a falta de vilões, ou a existência de apenas um: Naraku. Chega a ficar chata a situação: InuYasha consegue um poder, procura e enfrenta Naraku, que foge, aprende uma nova técnica que inutiliza a do protagonista, que, por sua vez, apanha, viaja para outro canto, adquire outra habilidade, enfrenta o vilão, que escapa etc.
Os cálculos de Naraku também podem ser considerados defeitos do anime: tudo é planejado, previsto e previsível, tanto pelo vilão quanto pelo telespectador, o único erro do personagem ocorre ao final (e que se não tivesse acontecido, Naraku reviveria...).
A primeira fase é constituída de 167 episódios, exibidos de 2000 a 2004; a segunda tem 26, que só foram feitos em 2009. Esta última, final, é muito corrida, deixando muitos acontecimentos sem explicação para quem viu apenas o anime...
Um último comentário negativo será sobre os confrontos. Rumiko Takahashi é famosa pelas comédias românticas, não pelas lutas, que são a principal característica do gênero shounen, ao qual InuYasha pertence. Porém, embora quase todo episódio possua batalhas, elas quase não são interessantes e emocionantes, pois não há estratégias. É um defeito que acontece em outros animes shounen antigos, como Dragon Ball Z e Saint Seiya, por exemplo.
Por outro lado, é preciso ressaltar que a trilha sonora é maravilhosa, as cores utilizadas no ambiente medieval também, a animação começa boa (exceto numa parte em que os protagonistas lutam contra demônios morcegos — não lembro exatamente em quais episódios —, onde é possível ver que apenas a boca do "rei" dos morcegos se move, mas as asas, não...) e termina excelente. Como é característica da autora, a obra traz diversas referências ao folclore e à mitologia japonesa, o que é muito bom e interessante, pois enriquece o trabalho.
A história conta com diversos personagens, conflitos e situações emocionantes, cenas tanto belas quanto tristes (a metáfora, a vontade e a morte de Kagura que o digam...); construções interessantes (como a passagem de Onigumo para Naraku, de Naraku para Musou — o motivo das ações deste, nos três únicos episódios em que aparece, são muito bem pensadas).
Em suma, InuYasha é bom, mas poderia ser muito melhor, se fosse bem mais curto, se possuísse mais vilões e complexidade nas técnicas de luta, ou se a minha experiência de assistir até o final tivesse ocorrido quando era mais jovem.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Comentando sobre o animê Boku Dake ga Inai Machi (Erased)



Introdução

Boku Dake ga Inai Machi (“A cidade onde só eu não existo”) é um mangá de Kei Sanbe, publicado de 2012 a 2016. Em 2016, a obra teve uma adaptação para animê, de apenas 12 episódios, que também é conhecida como Erased. O estúdio responsável pela série foi o A-1 Pictures, que já produziu animações famosas como Fairy Tail (2009) e Sword Art Online (2012). A abertura ficou por conta da excelente banda Asian Kung-Fu Generation, conhecida por ter suas músicas exibidas em Full Metal Alchemist (2003), Naruto (2002) e Bleach (2004).

Erased traz a história de Satoru Fujinuma, um rapaz de 29 anos, que sonha em ser mangaká, porém, sempre tem os seus trabalhos recusados, por conta de ele não conseguir se aprofundar na vida de seus personagens. Na verdade, isto é reflexo da sua própria personalidade: afastado, sem amigos. São as primeiras palavras de Satoru: “Estou com medo. Eu tenho medo de entrar no meu próprio coração”. Assim, enquanto tenta se tornar mangaká, trabalha como entregador de pizza.

É interessante esta antítese, porque embora as palavras do protagonista sejam profundas, os contratantes de novos desenhistas o tratam como superficial. Duas possibilidades: ou ele é um personagem complexo e contraditório, ou ele é falso. Depois, no decorrer da série, vemo-lo ser tratado como a segunda hipótese.

Satoru Fujinuma possui um poder que ele chama de “Revival” (renovação, renascimento, restauração, em português), que é o de, repentinamente, voltar ao passado, cerca de 5 minutos, sempre que alguma tragédia acontece. Enquanto ele não a evitar, a situação se repetirá. Isso o transforma num herói anônimo.

É exatamente por este motivo que o personagem se culpa pelas ações que ele não fez quando teve a chance, pois quando era criança (antes de ter esse poder — que ele não controla), três de suas amigas foram sequestradas, não se sabe exatamente por quem, embora tenham achado um “culpado” pelos casos.

Um dia, de repente, quando Satoru está com a sua mãe, ele tem um revival, mas quem evita a tragédia é ela, a mãe. Seria um sequestro de uma menina. Porém, o sequestrador percebe quem o avistou, segue-a e mata-a com facadas, pois ela sabia demais. Satoru chega em casa e vê a mãe morta, no entanto, a polícia o acusa do feito, o que o faz fugir do local e ter outro revival, entretanto, agora ele volta 18 anos atrás, quando era criança, bem na época onde suas três amigas sumiriam, em 1988. Assim, como um herói, Satoru tentará evitar os sequestros, fazer amigos e mudar o seu futuro, para evitar todas essas mortes.

(Se você só quer saber a sinopse, pare de ler aqui, pois, a partir de agora, alguns momentos do animê serão citados e algumas comparações serão feitas.)



Comentários

Neste passado, temos a personagem Kayo Hinazuki, uma menina triste e solitária. Ela seria a primeira sequestrada. Seu afastamento e personalidade são justificados pelas agressões físicas de sua mãe, que, por sua vez, é agredida pelo namorado. É interessante como é formada essa cadeia de violência, de como um pouco de atenção e carinho dados às pessoas podem mudá-las. Satoru, no passado, não era tão próximo à Kayo, mas agora ele fez diferente, mudando a forma de ela ser também.

Sobre este assunto, é lindo quando o protagonista dá a mão para a sua amiga, por estarem ambos sem luvas, no frio, na neve. E, depois, quando um presenteia o outro com luvas, isto é, quando um proporciona acolhimento, conforto e calor ao outro. Bonita metáfora (que será repetida).

Outra metáfora que aparece no mesmo episódio é a aparição de uma borboleta. Ela surge em alguns episódios, tanto no passado quanto no futuro, e pode indicar três situações: um ciclo (a borboleta passa por várias transformações até chegar à sua forma final), assim como algumas frases da Kayo que se repetem no futuro, mas ditas pela personagem Airi Katagiri; a liberdade (por conta das asas), como os sentimentos de Satoru sendo expressos, diferente de seu eu do futuro, que não conseguia expor o que queria; e, por fim, o “efeito borboleta”, relacionado às pequenas mudanças que o protagonista está causando no passado, mas que mudarão todo o futuro.

(Uma das vezes em que a borboleta aparece)

É importante ressaltar que o título (traduzido), “A cidade onde só eu não existo”, é inicialmente feito por Kayo, num texto. A criança isolada quer se isolar mais ainda, sua utopia é um local onde só ela exista, para fazer o que quiser, para ser, enfim, livre; ao mesmo tempo, o local de onde ela veio não a possuiria, obviamente. E, novamente: a obra é um reflexo do seu autor (tal como o mangá superficial de Satoru), no caso de Kayo, um pedido de socorro. O título, depois, se liga a outras ocasiões...

Um fato bem trabalhado e curioso é a mudança de cenário entre o passado e o futuro. Enquanto no último há celulares, muitas pessoas na rua e no metrô, em 1988, as conversas das crianças são sobre os clássicos jogos de videogame Final Fantasy e Dragon Quest.

Outras referências que ocorrem ao longo do animê são as citações de livros. Kenya Kobayashi é um dos melhores amigos de Satoru, é o inteligente da turma, que está sempre lendo algo. Ele chega a citar “O homem trocado”, de Edgar Allan Poe, mas depois confessa que o livro não existe (já o autor, todos sabem, é um clássico da Literatura mundial). Porém, este título faz alusão ao próprio Satoru, que, segundo Kenya, parecia ser outra pessoa, um homem trocado. Claro, a mente do Satoru de 29 anos está agora na criança de 11. Durante a série, Kobayashi ainda menciona Romeu e Julieta, enquanto Aya Nakanishi, que seria uma das vítimas do serial-killer, aparece lendo Rei Lear, duas obras de Shakespeare.

(É interessante pensar que no Rei Lear, o rei fica louco, assim como o sequestrador e assassino de Erased. Outra ligação é o fato de o rei ter três filhas, enquanto o sequestrador inicia seus atos com três vítimas, além de ele ser considerado, pela profissão, um segundo pai para as crianças...)

E a história caminha com Satoru e os amigos tentando evitar os desaparecimentos das amigas, embora só o protagonista saiba do que acontecerá. Ao mesmo tempo, o Satoru do futuro tenta evitar ser preso. Nessas idas e vindas de consciência, causadas pelo revival, ele descobre que quem matou a sua mãe é o responsável pelos crimes ocorridos no passado. É nisto que entra um problema do animê.

É que até o episódio 7, Satoru não controlava o seu poder. O revival acontecia de repente. Porém, quando ele descobriu, no futuro, quem matou a sua mãe, lembrou-se de sua infância, aí soube o que precisaria fazer para evitar a morte de sua amiga Kayo. Nisto, por desejar voltar ao passado, voltou. Simplesmente assim.

Outro problema do animê é que esse poder não é explicado, não se sabe como ele o ganhou, nem o porquê de só ele o ter. No final, é dito que nunca mais o revival aconteceu. É um aparecimento e desaparecimento repentino, diferente do que acontece no animê Steins; Gate (2010), onde causas e consequências são explicadas.

Pode-se citar o Steins; Gate por quatro motivos: em primeiro lugar, porque também é um animê de viagem no tempo. Em segundo lugar, porque tanto nele quanto em Boku Dake ga Inai Machi há uma personagem de aparência feminina, mas que, na verdade, é um homem. No caso do Steins; Gate, é o caso de Ruka Urushibara; no de Erased, é o de Hiromi Sugita. E em terceiro lugar, ambas as obras possuem personagens que dizem que por o futuro ser desconhecido, todos somos potências, que nada é impossível. Aliás, a frase “Impossible is nothing” está escrita num dos cenários de Boku Dake ga Inai Machi. Em quarto lugar, a borboleta, já mencionada em Erased também aparece em Steins; Gate (somente na abertura), por conta do efeito borboleta. As duas são azuis.

(Borboleta que aparece na abertura de Steins; Gate)

(Hiromi Sugita, de Erased)

(Ruka Urushibara, de Steins; Gate)

Outra semelhança possível (de longe, vagamente) é a de Erased com Detective Conan (1996), pois, neste último, também há um homem adulto que volta à sua forma criança, mas não por causa de um conflito no tempo ou por algum poder, mas “graças” a uma droga que o fizeram tomar, com o intuito de matá-lo, o que não acontece. Assim, Shinichi Kudo (o personagem principal) segue a história tentando descobrir quem tentou matá-lo. Em Erased também há esse clima de investigação de crianças.

(Satoru, de Erased)

(Shinichi Kudo, de Detective Conan)

Um fato curioso da obra é a metalinguagem, que ocorre por ter um personagem de animê envolvido na criação de um animê/mangá, além de em uma das cenas haver um muro escrito “Re: Re”, que é o título da música de abertura da animação.

("Impossible is nothing", ou "Nada é impossível", em tradução livre, frase escrita num muro de Erased)

("Re: Re", título da música de abertura do animê, criada pela banda Asian Kung-Fu Generation, escrito no mesmo muro de Erased)

Em suma, Boku dake ga Inai Machi é um animê comum, com uma produção muito bem feita, uma trama interessante (mas com alguns problemas e obviedades), uma excelente e cativante soundtrack, temas que induzem à reflexão, como o abuso físico e mental de crianças, a necessidade de dar atenção às pessoas ao nosso redor, a ligação entre o nosso passado, presente e futuro, a dualidade (e perigos) de personalidades de algumas pessoas próximas, além de o animê mostrar a vagarosidade de algumas instituições — como o conselho tutelar — em tomarem uma ação quanto aos possíveis problemas dos alunos, ou a falibilidade de outras corporações, como a polícia, por exemplo. 

A obra possui os seus deslizes, como os que já foram mencionados antes (outro deles é a forma da câmera mostrar o personagem que viria a ser o vilão, tornando-o óbvio; mais um deles é o grau dos diálogos, muito profundo e existencialista para crianças de 11 anos, o que os tornam inverossímeis), que diminuem o valor da animação; o final também não é dos melhores, mas vale a pena assistir ao animê como entretenimento. 



























Relato pessoal

Num dos episódios, o falso roubo, tramado pela aluna rica da sala, para culpar a pessoa mais pobre, a Kayo, me lembrou uma vivência que tive.

Quando estava no primeiro ano do ensino médio, em 2009, uma vez, um colega pediu emprestado o celular de um amigo, que o emprestou. Porém, sem cuidado, depois de um tempo, o colega o largou de canto, em cima de uma mesa. Eu, ao ver o celular, devolvi ao dono.

Momentos depois, quando o colega percebeu que não sabia mais onde estava o aparelho, foi perguntar ao dono se ele sabia onde estava. Meu amigo negou, para fazer um medo e ver se o colega teria mais responsabilidade numa próxima vez. No entanto, ao se desesperar, pensando que havia perdido o celular, esse colega imaginou que alguém poderia ter roubado o aparelho. Assim, sem nem perguntar se alguém havia visto o objeto, ele foi diretamente à bolsa de um dos meninos mais pobres da sala, negro, acusando-o de ter roubado o celular...

Há vários outros momentos que poderiam ser comentados, principalmente sobre o final, mas seriam spoilers. Novamente, como na análise do Kino no Tabi, sinto-me como se não houvesse dito nada...

OBS.: Os anos que marquei são dos animes, não dos mangás.