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terça-feira, 30 de julho de 2019

Análise do poema A terra das crianças pretas, de Paulo Franco


Este texto é parte modificada do último trabalho feito para o curso de Letras – Português, Inglês e respectivas literaturas, da Faculdade de Santo André, no segundo semestre de 2017.

 

Análise do poema A terra das crianças pretas, de Paulo Franco


Paulo Franco é um escritor contemporâneo, iniciou sua carreira ainda na infância; por volta dos catorze anos, um de seus poemas tornou-se o primeiro hino do município Rio Grande da Serra, local onde morava. Vencedor de muitos concursos literários no país, sua obra revela uma indignação com a sociedade, com a pobreza, com o preconceito, com a alienação e, ao mesmo tempo, um encanto pelas pequenas imagens do dia-a-dia e pelos sonhos. Seus versos variam entre os brancos e os rítmicos sonoros, vão do belo ao trágico.

A terra das crianças pretas, poema contido no livro Pétalas de Insônia, de 1999, traz à tona uma infeliz realidade: a exclusão do negro na sociedade, que persiste desde a época em que o Brasil era uma colônia escravista. A seguir, o poema e a sua análise:

A terra das crianças pretas


E os soldados brancos
sentinelam as crianças pretas.
E as crianças pretas
já não brincam de marchar
e observam os desfiles
dos soldados brancos.

E os soldados brancos
nunca brincam
vigiando
esta terra de crianças pretas.

E as crianças pretas
se acostumam a jamais serem soldados
e só brincam de crianças pretas
dominadas por soldados brancos.

...Pois que ser soldado
deve ser só para crianças brancas
que já nascem dominando
até os sonhos das crianças pretas.

É interessante o fato de o poema começar com a conjunção “E”, pois dá a impressão de que o que virá a seguir é uma continuação de um acontecimento que já ocorreu ou que ainda insiste, o que, realmente, o é: “E os soldados brancos / sentinelam as crianças pretas” (FRANCO, 1999, p. 3): são os negros que até hoje são vigiados por soldados, guardas, policiais e pessoas brancas.

Por outro lado, “as crianças pretas / já não brincam de marchar / e observam os desfiles / dos soldados brancos” (idem, ibidem, p. 3). São versos que denotam a forma como as crianças negras, desde pequenas, acostumam-se à passividade, à exclusão, a apenas serem observadas e, assim, deixam até mesmo de brincar, de se divertir, de ser sujeitos que agem; enfim, passam apenas a ser espectadores.

É necessário lembrar que a brincadeira das crianças pretas, às vezes, também é interrompida pela realidade pobre, muitas vezes presente em suas vidas, quando perdem a infância para trabalharem e ajudarem a sustentar as suas famílias. Por serem menores de idade, obviamente, o trabalho é ilegal, o que gera mais desconforto e permite mais abusos, ocasionados pela discriminação. Em suma, trocam o mundo lúdico das crianças pelo mundo do trabalho dos adultos.

Já os soldados brancos “nunca brincam / vigiando / esta terra de crianças pretas.” (idem, ibidem, p. 3). Os soldados, os guardas, os policiais, são agentes do sistema, perpetuam-no, dão continuidade à exclusão dos negros e ao preconceito, posto que não abrem os seus olhos para o diferente ou mesmo para a compreensão de sua própria realidade.

No entanto, eles também são vítimas do próprio sistema, pois os soldados são, de certa forma, alienados, que apenas seguem ordens de sentinelar as crianças pretas e nunca se questionam sobre o porquê de estarem fazendo o que fazem. Pela descrição do eu-lírico, são sérios, nunca brincam, apenas trabalham.

A quarta estrofe confirma que “as crianças pretas / acostumam-se a jamais serem soldados / e só brincam de crianças pretas / dominadas por soldados brancos.” (idem, ibidem, p. 3). Desta forma, com a existente e persistente opressão que há sobre elas, desistem de seus sonhos. A brincadeira deixa de ser marchar e passa a ser observar a marcha dos brancos, “... Pois que ser soldado / deve ser só para crianças brancas / que já nascem dominando / até os sonhos das crianças pretas” (FRANCO, 1999, p. 3).

Semanticamente e esteticamente, é interessante perceber que este jogo de palavras criado pelo poeta, esta repetição dos vocábulos “soldados brancos” e “crianças pretas”, que se intercalam ao longo dos versos e estrofes, sugere a própria marcha dos soldados, para lá e para cá. Outro ponto a ser considerado é que o adjetivo “pretas” aparece mais vezes (seis, ao todo) do que o “brancos” (quatro vezes — cinco, se contar com a variação “branca”, no décimo sexto verso), o que remete à população brasileira, onde há mais negros do que brancos, mas estes sempre dominaram aqueles (antes, fisicamente; agora, simbolicamente).

Além disso, o uso contínuo dos termos “soldados brancos” e “crianças pretas”, sem sinônimos, elipses ou troca por pronomes, pode manifestar a ideia de que a descrição dessa realidade é feita justamente por uma criança, que ainda não utiliza de forma eficaz e sem redundância a linguagem.

É um poema que explicita um determinismo social, uma predestinação para cada pessoa: melhores para os brancos, piores para os negros. Este determinismo, no Brasil, acontece desde quando o país era uma colônia, quando o branco tinha escravos negros (bem como índios), quando os filhos destes já nasciam escravos daqueles também, exceto se fossem filhos — frequentemente nascidos sob abusos sexuais — da escrava com o “senhor” branco, pois, nesses casos, estariam livres.

Já na época da escravidão existiam os soldados brancos, os capitães do mato, os caçadores de escravos, que vigiavam as crianças, os jovens e os adultos negros; que se sentiam alheios às dores e à falta de liberdade dos semelhantes; que se achavam superiores a eles, simplesmente pela cor da pele, o que lhes rendiam classes sociais distintas.

Aliás, é importante notar que o eu-lírico de Paulo Franco não utiliza a palavra “negras”, mas “pretas”, o que pode indicar que, para o eu-lírico, só há uma raça, a humana, não a “branca” ou a “negra”, como alguns dizem até hoje. Dentro desta única raça, há os brancos (soldados) e os pretos (crianças pobres).

No entanto, essa separação denota que, mais do que racial, há uma separação social, as crianças brancas já nascem dominando os sonhos das crianças negras, dominando como os soldados brancos dominam as ações das crianças pretas. As brancas poderão e serão líderes e livres; as negras, lideradas e vigiadas; as brancas podem brincar do que quiserem, têm acesso à escola e à boa alimentação; as negras, quase sempre, não.

É desta maneira que a terra de crianças pretas é criada. Não é um local específico, mas qualquer um feito através da segregação, do preconceito, da opressão. As favelas não foram criadas por livre e espontânea vontade, mas porque eram os locais onde os brancos não queriam morar, eram os restos, eram as margens da sociedade (daí a palavra “marginal”); era para onde os negros “livres” se refugiaram após a sua “libertação” (que só lhe deu o nome de “livre”, mas não lhe deu emprego, moradia, educação, vestimentas, alimentação, nada). Obviamente, se uma terra de crianças pretas é criada, por outro lado, uma terra das crianças brancas também o é, sempre o oposto da primeira.

Assim, a mímesis continua a acontecer: se as crianças brancas veem que só há soldados brancos, líderes brancos, presidentes brancos, atrizes e atores brancos, apresentadores de televisão brancos, acostumam-se e acreditam que é seu direito sê-los, quando, na verdade, é um privilégio. A criança negra, ao não ver ninguém de sua cor e de sua classe social nesses locais, quando a “representação” dos seus aparece apenas como empregados passivos ou vítimas, ela também se acostuma à situação.

REFERÊNCIAS


FRANCO, Paulo. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, curiosamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e modela-as, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Análise do poema "O banco", de Paulo Franco

O banco

Hoje, poderia ter feito planos,
contado estórias,
contado os dias
que arquitetam anos.

Poderia ter feito charme
ou me escurecido
em um depressivo verso branco.

Poderia ter mastigado calmante,
folheado a minha estante,
mas hoje só fiz um banco.

Sim, um banco destes de se sentar,
um banco destes de antigamente,
feio,
que nem cabe no lirismo dos meus versos.

Hoje, poderia ter feito
qualquer outra coisa,
mas fiz um banco.
Amanhã, quem sabe eu faça
um jardim.

Apetrecho fútil
parido de mim
que não me encontro.

E o interessante
é que nem mesmo preciso
de um banco.
Nem mesmo preciso-me.

//

Análise do conteúdo

Neste poema, Paulo Franco retrata perfeitamente a situação da nossa sociedade atual: perdida, triste e alienada. Temos um eu-lírico que diz que neste dia poderia ter feito várias coisas, contado dias, estórias, ficar se gabando ("feito charme") ou ter se escondido ("escurecido") em algum verso branco. Para quem não sabe, versos brancos são versos que não possuem rimas, mas que, ainda assim, possuem métrica. E a confissão continua, com o eu-lírico dizendo que mesmo podendo ter feito tudo isso, fez apenas um banco — percebamos, também, o jogo de palavras, "banco" e "branco", e o jogo de antíteses, "escurecido" e "branco".

Em seguida, o eu-lirico começa a descrever o tal banco, dizendo que é um banco comum, para sentar-se, feio, que nem cabe — e talvez nem corresponda — ao lirismo, ao sentimento do feitor. O interessante é que de todos os versos, aquele que corresponde ao adjetivo "feio" do banco, é o único que possui apenas uma palavra (que é a própria palavra "feio"): é o único diferente.

Depois, insiste-se na ideia que de tantas coisas a fazer, foi feito um banco, e que, talvez, amanhã ele faça um jardim. Quantas vezes nós deixamos as nossas vontades, os nossos desejos, os nossos gostos para o amanhã? Amanhã que nunca chega... O jardim, que é algo natural, algo belo, algo vivo, algo que depende de nós, fica abandonado — isso quando o criamos.

O pior é que o eu-lírico sabe que o banco é "fútil" e que não faz parte dele, que ele não se encontra no que faz (este é o retrato das pessoas que trabalham no que não gostam, estudam o que não querem estudar, etc., mesmo sabendo o que querem e gostam).

Por fim, o eu-lírico mostra saber que não precisa de um banco, nem mesmo precisa de si. Essa é a parte mais triste do poema, pois mostra o quão perdido/alienado e incapaz de mudar está o ser: embora saiba que não precisa de um banco, o faz; embora viva, não vive, sobrevive ou vive sem ver a importância de viver. Se não precisa de si mesmo, por que continua vivendo? Se não precisa do banco, por que o faz? 

Analisemos a figura do banco. O banco é um objeto — portanto, algo sem vida — que serve para se sentar (não necessariamente nós sentarmos, mas também os outros). O exemplo do banco é ótimo para retratar o trabalho das fábricas, pois imagine (ou lembre-se de) alguém que perde a vida toda fazendo bancos, com trabalho, suor, força, etc., mas esses bancos nem servem a ele, mas, sim, para os outros, para os donos sentarem — lucrarem. Bancos ou trabalhos que nem gosto ou vontade em fazê-los a pessoa possui; nem razão para fazê-los ou por fazê-los a pessoa possui, mas os faz. É assim que o próprio ser humano perde a vida, transformando-se em banco para os outros.

O autor, Paulo Franco, é um escritor contemporâneo, vencedor de vários prêmios literários dentro do país.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Análise do poema "As coisas", de Paulo Franco.

As coisas

Sobre os objetos
o olhar dos homens.
Sobre os homens
o ostentar dos objetos,
mais eternos, estáticos,
depositários do olhar das gerações.

A estante, a escrivaninha,
a penteadeira incômoda
observando o pentear
de quem se vai a cada instante.

O castiçal impávido
em um cômodo
do tempo
intacto.

Lá fora a tempestade,
abstrata
como o olhar
que observo
sobre as coisas.
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Análise do conteúdo:

Neste poema vê-se uma crítica ao materialismo e, obviamente, à sociedade atual. É visto que o homem olha para os objetos como se ele fosse superior, mas que, na realidade, os objetos valem mais do que o próprio homem, pois eles duram mais tempo, não mudam e são para eles que os olhares são voltados.

Na segunda estrofe o eu-lírico brinca com o sentido da frase. Ele diz que os objetos observam as pessoas que os usam e depois se vão. Assim, reforça a ideia da primeira estrofe, que diz que as coisas/objetos duram mais que os homens. Além disso, o eu-lírico coloca como se os objetos tivessem vida, pois "observam" os outros. Esse "(...) observando o pentear/ de quem se vai a cada instante" pode ser interpretado como as pessoas que deixam esta vida, ou seja, morrem, mas os objetos continuam lá.

E, por fim, o poema termina por dizer que embora nossa visão seja apenas material, lá fora, o mundo também é composto por coisas abstratas; no caso, é citado a tempestade, mas pode se pensar no tempo e nos sentimentos, por exemplo. Pode ser entendido que devemos olhar para o mundo com olhares abstratos também, olhares com sentimento, assim como o olhar do eu-lírico.

Uma outra questão que vale a pena refletir é que, no mundo, há coisas que são de natureza abstrata, por exemplo, as tradições, costumes e morais. Mas de tanta atenção e valor que os homens depositam, elas tornam-se quase "coisas concretas".

Há muitas regras/leis/costumes/tradições e morais que foram criadas há muito tempo e que são valorizadas até hoje (mesmo que discriminando muita gente), não mudam muito com o passar dos anos, os homens usam-nas, vivem-nas, morrem, e elas continuam as mesmas, assim como os objetos ditos na primeira estrofe.

Interessante pensar em como o homem, criador das coisas, tornou-se escravo das mesmas; se antes ele criava uma calça para lhe servir, agora ele faz regime e academia para servir na calça.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Resenha do livro "A máscara no espelho", de Paulo Franco.

FRANCO, Paulo. A máscara no espelho – Uma antologia inacabada. São Paulo: Scoortecci, 2012. 153 p.

Este livro de poesia tem como base a reflexão sobre as várias facetas dos seres humanos; a observação das ações das pessoas para com o outro, além do sentimentalismo do poeta sobre alguns temas tais como: o amor, o afastamento do eu, a infância e até mesmo o ser poeta.

Em apenas 146 páginas, Paulo Franco distribui suas críticas, dúvidas, questões e sentimentos sobre o mundo e a vida em 100 poemas — considerados os “melhores” de outros livros já lançados. Sendo vários os temas abordados na obra, nesta resenha será tomado como objeto de análise apenas um deles: o “ser poeta”.

Partindo do poema “O Circo” (p. 91), aqui mostra-se o eu - lírico interpretado por um palhaço, podendo significar também o poeta. Ele diz que é a representação do que as pessoas são, e que ele não deseja ser – em alguns aspectos – como elas, ou seja, como seus leitores.

As ações do poeta/palhaço são suas poesias, inspiradas nas pessoas ao seu redor, na sua platéia. Em seguida, diz assistir a seus sonhos repetidos, sentimentos tediosos (“enfadonhos”) em que ele é um palhaço que se pinta por dentro para se esconder, isto é, um ser que não aceita ser como é, por isso se pinta por dentro também (porque por fora o palhaço já é pintado), para tentar enganar-se totalmente.

Fora dele há uma estrada que ele busca para não ser como sua platéia, que ele considera patética por rir dos seus atos, como se ele fosse diferente. Ora, ele nada mais é do que a representação dela mesmo.

Por fim, termina por dizer que as pessoas ao seu redor são “vulgares”, e que ele, eu – lírico/ poeta/ palhaço/ artista é um ser inconstante, volúvel,      que vê no vago um vazio intenso. Isso mostra que o poeta é um alguém realista, porque algo vago é algo vazio, então ele não inventa nada sobre a realidade, apenas descreve-a como ela é — talvez aqui o eu – lírico esteja se referindo à sua platéia como um vazio; que as pessoas ao seu redor não signifiquem muito para ele, que sua platéia é vazia. O interessante aqui (e que será visto em outros poemas do mesmo tema) é essa inconstância do ser poeta, esse conflito que sempre o acompanha.

Outro poema que se refere ao poeta é o “O louco” (p. 107). Aqui aparece um poeta em meio a um momento de inspiração, mas que não possui um lápis, então perde a chance de escrever o poema e modificar o mundo, pois sem o poema, nada foi acrescentado ao mundo, nada lhe foi mudado.

Depois ele descreve o cenário em que se localiza e compara os objetos ao seu redor com o poema que não foi escrito momentos antes, chamando-os de “fora de moda”, por estarem, ambos (os objetos e o poema), no passado. Então o eu- lírico poeta lança seu olhar para fora e avista um “louco” rindo, como se o motivo do riso fosse o poeta que teve seu lápis roubado.

O louco pode ser tratado tanto como a distração do próprio poeta, como também pode estar representando as pessoas más intencionadas da vida, que roubam o que é útil dos outros e ainda caçoam das vítimas. Outra questão que pode ser abordada é que quando o louco rouba o lápis do poeta, ele não rouba somente o lápis, mas todo um futuro que poderia ter sido criado a partir dele: as poesias, as ações, as interpretações e as emoções que seriam tiradas dos poemas escritos por aquele lápis. O louco rouba, ao mesmo tempo, algo concreto (o lápis) e algo abstrato (a poesia e tudo o que ela viria a criar nos outros).

Depois de ter sido roubado, o eu- lírico dirige-se ao computador sem medo (“impávido”) do que possa vir, como se estivesse atento para não perder as próximas oportunidades da vida; o louco ri novamente e vai embora, como se fosse um sonho, como se fosse o poema de outrora. Pode ser entendido nessa última estrofe que, às vezes, aparecem pessoas na vida que podem causar algum mal, e depois que elas vão embora, tornamo-nos mais atentos ao nosso redor.

Além disso, no início, o eu – lírico poeta havia perdido a inspiração para escrever o poema, mas a conseguiu novamente na perda, compondo esse novo poema, agora terminado (fazendo deste um meta-poema). E se tudo isso foi apenas imaginação do eu- lírico, o louco pode ser que seja ele mesmo. E, novamente, o poeta encontra-se em conflito e sozinho.

No poema “Planta” (p. 129), o eu - lírico começa descrevendo o cenário (“meus aposentos”), suas ações e sua recepção; no caso, enquanto ele alimenta as pessoas com poesia, as pessoas passam por ele se reclamando. Em seguida, diz ser uma planta de fé, que possui suas raízes fincadas no medo, na aflição e no nada.

Ora, a planta é algo natural e belo, então, o poeta afirma nessa estrofe que das coisas ruins (“aflição, medo e nada”) podem surgir coisas boas também, como a poesia. Por fim, diz estar plantado contra os sonhos, sendo atropelado pela própria estrada; ou seja, o poeta é alguém realista e as pessoas querem viver em ilusões (“sonhos”), por isso reclamam de onde ele está: no meio do caminho, um vaso no meio da estrada.

Isso mostra que o poeta está sempre contra as atitudes humanas e afirma o que já foi dito nos outros parágrafos e análises: o poeta está sempre em conflito, é realista e está sempre sozinho.

No poema “Semântica” (p. 137), é reafirmado tudo o que já foi dito nos outros poemas em que o tema é o próprio “poeta”. Novamente, mostra-se aqui o eu – lírico poeta em conflito. Com a espada de um guerreiro ateu, que, no caso, seria a palavra ou o poema, ele pode tanto atacar quanto se defender dos dogmas, preceitos, e conceitos religiosos que o cerca.

Depois, diz ver o mundo como um espelho antigo, angústia e solidão, retraída e muda. Pensemos: o espelho só reflete aquilo que é posto em sua frente, se ele é antigo e reflete tais coisas agora, é porque o mundo continua o mesmo de tempos atrás.

Em seguida, conta que seu verso não vale nada na luz, o que deixa a hipótese de que, talvez, na escuridão, ele valha muito; que seus versos não são feitos para aqueles que estão bem, e sim, para os que precisam de ajuda, que se encontram na escuridão.

O eu- lírico afirma na próxima estrofe que a rima dele é uma estrada que torna a vida mais fácil de ser digerida, com isso, conclui-se que a vida não é fácil de ser vivida, que seus versos, poemas e rimas são uma antecipação da vida — assim como qualquer verdadeira obra de Literatura — e que, se sua rima é uma estrada, além de ser uma antecipação que o poeta traz para o leitor, pode ela já ter sido criada por outras pessoas.

Para fechar a ideia de “o que é ser poeta”, o eu- lírico diz que essa é a sua semântica: medo, solidão, ilusão, espírito e algo a mais que ele pode pressentir na escuridão em que se encontra. Coincidindo com o poema “Planta”, os dois afirmam que no seu interior (no caso da planta, as suas raízes) estão o medo, a solidão, o nada e suas ilusões, mas que nada disso é certeza, pois o eu- lírico apenas pressente, não pode afirmar, pois está envolto na escuridão, na incerteza. Tudo isso ressalta o quanto o poeta é inconstante, é volúvel (como também é dito no poema “O Circo”) e  realista.

Em suma, A Máscara no Espelho é um ótimo livro de poesia moderna, que busca trazer para o leitor várias reflexões sobre muitos temas. Escrito de maneira simples, o que pode dificultar a compreensão do poema é a forma de interpretá-lo, pois depende da vivência e visão de mundo de cada um. É recomendado para os alunos de Letras ou amantes da Literatura em Poesia.

O autor, Paulo Franco, é um escritor contemporâneo, vencedor de vários prêmios literários dentro do país.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior, aluno do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.