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quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, curiosamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e modela-as, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Resenha do livro "Bom dia camaradas", de Ondjaki

ONDJAKI. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

O gênero literário “romance” pertence à categoria Prosa, mas há alguns autores que conseguem elevá-lo a um outro nível, criando, assim, uma prosa poética. Ondjaki faz parte desses escritores, Bom dia camaradas faz parte desses textos.

O livro é dividido em duas partes, que, por sua vez, se dividem entre curtos subcapítulos; cada um é iniciado por uma epígrafe, que é a fala de algum personagem do próprio romance no respectivo capítulo; enquanto as duas partes do livro são antecedidas por versos do poeta africano Oscar Bento Ribas — o que já indica o tom poético que a obra terá.

Bom dia camaradas é narrado em primeira pessoa quase que o livro todo, exceto num único trecho, o qual muda para a narração em terceira pessoa, para contar a ação e visão do personagem principal, que se chama Ndalu. Ndalu também é o nome do escritor Ondjaki, Ndalu de Almeida, o que pode indicar, talvez, que se trata de um romance “autobiográfico” (até porque os versos de Oscar Bento Ribas referem-se à saudade).

A história se passa na Angola (também o local de nascimento de Ondjaki), no período pós-colonial, e conta alguns relatos diários do personagem principal, Ndalu, uma criança de classe média, que embora seja jovem, possui um olhar crítico e politizado sobre o seu meio.

O livro já se inicia com uma pergunta do personagem principal ao cozinheiro da casa: “’MAS, CAMARADA ANTÓNIO, tu não preferes que o país seja assim livre?’” (p. 17), o que denota o caráter questionador da criança, além do período de pós-colonialismo português. Porém, António discorda, alegando que “(...) no tempo do branco isto não era assim...” (p. 17).

A resposta de António justifica-se, porque após a libertação do povo angolano, iniciou-se uma guerra civil, guerra que permeia todo o livro. A criança parece não entender a existência da guerra, pois agradece por ao menos o país ser governado por africanos de verdade, não por portugueses. Enquanto, por outro lado, António diz que pelo menos quando eram dominados, havia ordem...

É o retrato de pessoas que não percebem a situação na qual estavam inseridas, pessoas sem esperança, que preferem depender de outrem a criar a própria história. Pode-se dizer que António representa a classe popular (enquanto Ndalu, a classe média — que quer se reerguer e ser livre).

O menino estuda numa escola que possui professores cubanos, que foram para a África para ajudarem Angola, agora que é um país livre, mas em guerra e em construção da própria identidade. O livro, que faz parte da Literatura Africana de expressões portuguesas, possui diversas palavras angolanas, além de trechos escritos em espanhol para representar a fala dos cubanos, o que faz a linguagem da obra ser híbrida.

Esses professores representam a voz crítica do texto, por todo o seu contexto ideológico e revolucionário que vivenciaram em Cuba, como no primeiro relato do menino na escola, quando a professora está triste “(...) porque os alunos tinham sido indisciplinados, e que num país em reconstrução era preciso muita disciplina (...) que nós tínhamos que nos portar bem para que as coisas funcionassem bem no nosso país” (p. 21).

Também é importante ressaltar o espanto dos professores cubanos ao verem que seus alunos possuíam relógios de pulso e calculadoras. Mais à frente, o espanto aumenta-se ao presenciarem a quantidade de comida posta na mesa da casa de um de seus alunos. A primeira hipótese que se pode pensar sobre isso é que os cubanos não tinham acesso a esses objetos e a tal quantidade de comida em Cuba, ou a surpresa em saber a situação da Angola, que estava muito melhor do que esperavam (lembremos: esses alunos, em sua maioria, fazem parte da classe média angolana).

A linguagem utilizada pelo narrador é muito simples e poética, observando as pequenas coisas, como as atos cotidianos, as plantas e os insetos, comentando-as de forma ingênua, como se o escritor realmente fosse uma criança. No entanto, essa observação das pequenas coisas advém da própria monotonia local: “Nós ficávamos aborrecidos com as notícias, porque era sempre a mesma coisa: primeiro eram as notícias da guerra, que não eram diferentes quase nunca (...)” (p. 27).

A ingenuidade da criança é percebida (pela forma e) pelo o que ela aprende no seu dia-a-dia (por exemplo: quem era Nelson Mandela, seu tempo de prisão, a existência da África do Sul, as imposições — barbáries — sobre o povo e sua posição de “inimigos”), acompanhada de seus novos questionamentos e não conformação com o Apartheid, com o racismo, com as notícias, enfim, com a realidade.

A dura realidade local é demonstrada a partir da visita de uma tia de Ndalu, Dada, que mora em Portugal (ela morava na África/Angola, mas se mudou — não se explica o motivo). Logo no aeroporto, vê-se o medo, a força, a repressão e o autoritarismo existente no país, quando as Forças Armadas para a Libertação da Angola (FAPLA) não permitem que sejam tiradas fotos no lugar, “(...) eles não deviam saber que em Luanda não se podia tirar fotografias assim à toa. O Fapla disse: ‘a máquina está detida por razões de segurança de Estado! ’” (p. 40).

Mais à frente, vemos que quando o presidente passa de carro, todos os cidadãos próximos devem sair de dentro de seus veículos, para mostrar que obedecem e que não possuem armas contra as autoridades. É nisto que se mostra a dualidade da criança que, por um lado, questiona-se sobre alguns comportamentos adotados por certas pessoas, mas por outro, considera normais essas imposições autoritárias do governo, por já ter crescido nesse contexto.

Um trecho importante e que consome boa parte do livro é a história do Caixão Vazio. Um boato que estava acontecendo nas redondezas da escola, em que narrava um grupo de bandidos, todos vestidos de preto, com um caixão vazio (em que havia uma caveira desenhada), no qual eram colocadas as crianças. Eles chegavam num caminhão, cercavam as escolas e abusavam das professoras, além de destruírem tudo por onde passavam. Depois se descobre que tudo era uma mentira, mas mesmo assim, toda essa ficção reflete os medos das crianças e do povo, o medo da guerra, da violência e da morte.

Em um diálogo entre o protagonista e a tia Dada, entendemos um pouco da sociedade angolana no período da guerra civil. Quando a tia chega com os presentes, o menino pergunta como ela conseguiu tudo aquilo, se o seu cartão permitia tais aquisições, já que, na Angola, havia cartões de abastecimento, que limitavam e controlavam as compras feitas. Dada, por sua vez, responde que em Portugal pode-se comprar a quantidade que quiser e do que quiser, desde que se tenha dinheiro.

A narração em primeira pessoa já aproxima o leitor do narrador; há personagens que o cativam mais ainda; mas em Bom dia camaradas Ondjaki cria um narrador que conversa com o leitor, como na passagem em que o menino diz que os adultos, às vezes, fazem gestos somente por fazer, mas que não há sentido para fazê-los (e aqui percebemos o olhar ingênuo e pontual da criança). Depois, comenta: “(...) não sei se já repararam que os mais velhos fazem muito isso.” (p. 51).

Além da influência de cubanos em Angola, há, também, a presença de soviéticos no país. Estes dominam até mesmo uma praia, como se fosse deles — isto até nos lembra uma passagem do conto Um passeio na noite (1979), de Alex La Guma, quando os trabalhadores comentam que os brancos pensam em possuir uma praia africana só para eles. Novamente, o protagonista acha comum, assim como estranha que em Portugal o presidente não ande sempre cercado de soldados e que não impõe que todos parem o que estejam fazendo para observá-lo passar. É nisto que se mostra que o personagem principal, embora possua um olhar crítico, não deixa de ser uma criança.

Não só isso, Ndalu conta com naturalidade à sua tia as atrocidades que acontecem no país ou que lhe são contadas, como queimar bandidos vivos, mutilar dedos, injetar água de bateria no corpo, etc. Até acha graça. Também gosta da ideia de terem tirado uma estátua em homenagem a alguém e terem posto um tanque de guerra. É um traço do determinismo, que acostuma as pessoas aos seus respectivos meios (o que, automaticamente, ocasiona a reprodução de ações). Não é à toa que Murtala é um aluno que tem muitas dificuldades, pois é um dos únicos pobres da sala. Reflexo de seu círculo pessoal.

A segunda parte do livro inicia-se diferente da primeira (o que já deixa “dicas” do que acontecerá): enquanto a primeira começa de dia, esta, de noite. É nela que se descobre que o Caixão Vazio não existia e que o carro que eles pensaram ser o caminhão dos bandidos, era o carro do inspetor da escola, que faria uma visita surpresa e que todos deveriam estar comportados e limpos. O medo do caixão vazio reflete o medo das crianças pelo inspetor (elas fugiram da escola); e esse medo reflete o medo da(s) autoridade(s). É interessante comentar que os professores cubanos nem sabiam quem era o inspetor da escola em que trabalhavam, o que lembra os trabalhadores que não conhecem seus patrões e patrões que não conhecem seus trabalhadores.

É importante percebermos como as descrições mudam o tom da narrativa nesse segundo capítulo. Além de ser iniciado à noite, o protagonista passa a acordar mal-disposto (o que é contrário à primeira parte do livro, na qual ele acordava sempre bem disposto). É uma passagem de respostas e descobrimentos, como quando assistem a um vídeo e um professor mostra que o filme é ideológico, que os americanos sempre vencem e nunca apanham. Depois os alunos complementam, dizendo que realmente, a munição dos americanos nunca acaba.

Porém, a maior lição que esses garotos ouvem é sobre o seu próprio país e futuro. Fala do professor Rangel:

(...) Ustedes son jóvenes, pero ya se debem haber dado cuenta de que muchas cosas han cambiado em su país em los últimos tiempos... Las tentativas de acuerdos de paz, La llamada presión internacional, todo eso no pasa solamente en el telediario, va a pasar de verdad en su país, en sus vidas, en sus amistades... Su país está cambiando de rumbo y eso, como siempre, tiene consecuencias. La revolución, como decia Che Guevara, tiene muchas fases, unas más fáciles y otras más difíciles (...) son alumnos de uma escola, y a ustedes que son nuestros amigos, que la lucha, la revolución, nunca termina; la educación es uma batalha. Sus opciones de formación, bien sean profesores, mecânicos, médicos, operarios, campesinos... también esa opción es una batalha (...) Además de sentir haber cumplido nuestra misión em Angola, además de habermos sentido privilegiados por poder ayudar a nuestros hermanos angoleños em la lucha por el poder popular, volvemos alegres a nuestra pátria sabiendo que Angola tiene jóvenes, en su mayoría, tan empeñados en la causa revolucionaria, porque la causa revolucionaria, sobre todo, es el progreso. Angola está dando los primeiros pasos en outra dirección, pero puede ser una buena direción, todo depende de los hombres, de sus corazones, de la firmeza com que luchen por sus ideales, de la simplicidad que pongan em sus acciones, Del respeto que sientan por los compañeros... Angola ya es uma gran nación y va a crecer más (...) que realmente los niños son las flores de la Humaniadad! Nunca olviden eso... (p.111 - 113).

É um capítulo de despedidas: a tia Dada volta para Portugal, as aulas acabam, alguns alunos se mudam, os professores voltam para Cuba, um dos personagens próximos ao protagonista morre e, também, a guerra civil termina. Tudo isso é captado e descrito liricamente por Ndalu, de forma simples e poética, cheia de imagens, sinestesias e reflexões.

Enfim, Bom dia camaradas é um excelente livro, que se propõe a mostrar a África e a Angola de uma forma diferente da que é mostrada na mídia (somente a pobreza). É um texto que mostra as necessidades do país, a guerra, a violência e o autoritarismo, mas mostra a luta, a busca por identidade, a mudança, a ingenuidade e a esperança do povo; um bom dia através das crianças. É uma obra recomendada a todos os interessados em Literatura (não especificamente a Africana de expressões portuguesas), que buscam conhecer e aprender sobre outras culturas, agora sim, especificamente, a africana (que, aliás, tem muito a ver com a brasileira).

Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki, é um sociólogo, poeta e escritor angolano, nascido em 1977. Vencedor de vários prêmios literários, entre as suas maiores obras estão Os da minha rua (2007) e Os transparentes (2012). Atualmente, mora no Rio de Janeiro.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é estudante do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.

sábado, 30 de julho de 2016

Resenha do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha

Os Sertões é a obra-prima de Euclides da Cunha. Publicado em 1902, o livro narra a história da Guerra de Canudos, no nordeste brasileiro. Escrito no período do Pré-Modernismo, a forma de contar os fatos é direta/objetiva, porém, por influência do Parnasianismo, a linguagem utilizada é complexa (o que reflete o teor da história).

Antes de iniciar a análise, é preciso comentar que Euclides da Cunha não era um escritor literário, mas um jornalista e engenheiro. Trabalhando para o jornal O Estado de São Paulo, Euclides foi enviado à área de combate como correspondente, para acompanhar e descrever as ações do exército e dos “rebeldes”, os seguidores de Antônio Conselheiro.

Chegando lá, o jornalista não encontrou nada do que havia escrito em artigos anteriores (sertanejos revoltados contra a república, que queriam trazer de volta a monarquia), nem verdades sobre o que diziam sobre os nordestinos (povo fraco e não civilizado), muito pelo contrário. Esse foi o motivo da escrita do livro.

Logo de início, Euclides percebe que o que separa o nordeste de outras partes do Brasil, mais do que a distância, é “o tempo” (CUNHA, 2011, p. 16). Em termos de progresso (construções, indústrias, sociedade, ideias etc.), os sertões estavam atrasados, ignorados, esquecidos, seguindo modelos de vida arcaicos.

De certa forma, pode-se dizer que o nordeste era para as áreas mais desenvolvidas do Brasil como o próprio Brasil em comparação a outros países até hoje em dia. E mesmo atualmente, quem pode ajudar o país, de dentro dele mesmo, não o faz.

Assim, o jornalista utiliza-se de seus conhecimentos e métodos científicos para tentar entender e explicar o motivo de tais situações, não como os românticos e simbolistas, de forma subjetiva, mas como os realistas e os naturalistas, através de pesquisas e observações. Com isso, o escritor propôs-se a desvendar o que é, de fato, o brasileiro, que, até então, era desconhecido ou conhecido somente uma ou outra personalidade.

É importante ressaltar essa questão do reconhecimento, pois o Pré-Modernismo foi uma ruptura com o olhar que se tinha sobre o próprio Brasil, um “inconformismo cultural” (BOSI, 2013, p. 354). Porém, apenas a visão e a vontade de descobrir e de ampliar o que já se sabia sobre o país mudaram, pois a forma continuou a mesma utilizada até então, no caso, uma escrita realista, mas em outro tempo (o que a faz neorrealista). Quem, depois, mudaram tanto o conteúdo quanto à forma de escrever e descrever nosso território, seres e cultura, foram os modernistas.

O livro é dividido em três núcleos (sub-capítulos): A terra, O homem e A Luta. No primeiro, o autor investiga as características de cada região do Brasil, desde o sul e sudeste até o nordeste, descrevendo o sertão como uma terra ignota, isto é, desconhecida, a qual as estradas são abandonadas, “(...) onde avançavam os rudes sertanistas nas suas excursões para o interior (...). Não a alteraram nunca” (CUNHA, 2011, p. 27). Terra seca, dura, difícil de vencer e de ser vencida.

É um capítulo extremamente difícil de ser lido, por conta de seus termos científicos e rebuscados, mas é nisso que está a riqueza do livro, pela quantidade de descrições. Vejamos, por exemplo, esta passagem:

(...) Verdadeiros oásis, têm, contudo, não raro, um aspecto lúgubre: localizados em depressões, entre colinas nuas, evoltas pelos mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada, recortando-se com destaque no chão poento e pardo, graças à placa verde-negra das algas unicelulares que as revestem. (idem, ibidem, p. 29)

Além disso, note a quantidade de aliterações em [p] e de utilizações de imagens, o que forma, assim, uma prosa poética.

É neste capítulo, também, que numa passagem o autor revela-se muito à frente de seu tempo, percebendo o problema das secas contínuas do sertão e dando uma possível solução ao sugerir que transportem as águas do rio São Francisco para as outras áreas, além de aconselhar que façam inúmeras barragens e muros. O livro foi publicado em 1902, mas essas ações (principalmente a transposição do rio) só começaram a ser feitas há poucos anos — e, ainda assim, devagar.

Como todo bom escritor, Euclides deixa aberturas para o leitor já desconfiar do que virá ao longo da obra, quando, por exemplo, diz que só de olhar para aquele deserto do sertão, vê-se um “mar extinto” (idem, ibidem, p. 33). É o que será exposto depois, com as ideias de Antônio Conselheiro. Assim ele descreve toda a área por onde passou, as cidades, povoados, tudo, até chegar ao próximo capítulo do livro.

No segundo núcleo é descrito o Homem de cada região (jagunço, vaqueiro, gaúcho etc.). Seguindo a linha do determinismo (pois é possível dizer que o Pré-Modernismo é uma continuação do Realismo e do Naturalismo [BOSI, 2013]), cada local determina como os seus habitantes serão, sendo assim, o ser humano é reflexo e fruto de seu meio. Ora, se o sertão é uma área difícil de viver, quem consegue tal feito só pode ser alguém forte — não no sentido de corpo, porque os sertanejos são descritos como magérrimos e quase desnutridos, mas numa concepção de resistência à oposição.

Porém, mais do que isso, o jornalista detalha cada característica dos povos, diferente do romântico, que entendia por brasileiro somente os índios e os europeus, descritos de forma idealizada.

O escritor não observou empiricamente somente aquele a quem foi ordenado observar, o sertanejo, mas a um leque de tipos de homens brasileiros, desde as feições, passando pela personalidade até a roupa. Interessantíssima é a comparação que ele faz e explica o porquê das roupas do gaúcho, quase como as de festas, em razão de sua riqueza natural do ambiente, em contrapartida às do nordestino, que mais parecem uma armadura, por conta do couro duro. É realmente a roupa de alguém que vai à luta, rígida como o próprio dono.

Em Os Sertões são observadas as várias miscigenações do povo brasileiro e os seus resultados — “(...) mulato, o mameluco ou o curiboca, e o cafuz (...)” (idem, ibidem, p. 77). Como é dito: “(...) o brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima afirmado, só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo” (idem, ibidem, p. 77).

Como ele afirma, “(...) Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. (...) Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos. A afirmativa é segura” (idem, ibidem, p. 79). E é por esse mesmo motivo, por não sermos unos, que, além da diferença de características, temos divergências de ideias e de ações, que ocasionam os conflitos. Assim se dará o terceiro e mais importante capítulo: A luta.

Ainda sobre as características, é importante lembrar como são intrigantes a fé e a crença sertaneja, como foi pontuado pelo escritor, pois ao mesmo tempo em que é um povo cristão, crê, também, nas lendas e nos mitos, tanto africanos quanto indígenas. Para o Euclides, um povo mestiço só pode ter uma religião mestiça.

Até então, o autor havia descrito somente o meio e os agentes que, agora, batalhariam. É uma regra do texto jornalístico manter a impessoalidade — e é o que faz Euclides da Cunha na maior parte do tempo. Ele não torce pelos soldados do exército vencer, nem para os sertanejos saírem vitoriosos, apenas os descreve. E nessas descrições percebe-se como os soldados da república são despreparados e o quanto a imagem dos nordestinos, de gente fraca, não passa de estereótipo.

Isso não deixa de ser críticas do escritor contra àquilo que ele mesmo fazia parte, para quem ele trabalhava. Não é uma opinião, mas uma constatação de que o que o governo republicano estava fazendo era errado, barbárie e crime.

Por outro lado, Euclides utiliza-se de técnicas literárias para narrar a história da Guerra de Canudos, não somente a do narrador em terceira pessoa (pois isso já há no jornalismo) ou a crítica à sociedade de sua época, mas a forma de detalhar os espaços e o tempo, cheios de imagens, comparações e usos de reticências, para deixar aquela sensação de reflexão, de descontinuidade da ideia. E é com este tipo de linguagem que o autor escreve o último capítulo do livro.

Depois de derrotarem três expedições do exército republicano e darem muitas baixas à quarta campanha — próximo ao desfecho da batalha, os militares, “Ao fim de três horas de combate, tinham-se mobilizado dous mil homens sem efeito algum (...)” (idem, ibidem, p. 563) —, os nordestinos persistiam lutando.

É, sobretudo, neste momento, que os juízos preconceituosos e condenatórios da parte inicial de Os Sertões transformam-se em admiração e respeito pelos sertanejos.

É preciso ressaltar que algumas afirmativas que Euclides da Cunha faz no começo do livro, como chamar os nordestinos de “raça inferior”, deve-se ao determinismo racial, aos ensinamentos e às tradições da época, as quais ele e a maioria aceitaram sem contestar.

Porém, por considerá-los assim, inferiores, é que se percebe que os sertanejos não mereciam nem deveriam receber toda aquela artilharia, transformando não só a linguagem euclidiana em épica, mas o próprio livro. É uma tragédia.

Ora, se o gênero épico narra em versos os grandes feitos de uma nação, Euclides narra em prosa as batalhas de Canudos. Geralmente, a narrativa épica possui heróis ou personagens fantasiosos/lendários; em Os Sertões existe a figura de Antônio Conselheiro, líder da cidade baiana. Aliás, pela descrição feita, Conselheiro assemelhava-se muito a Jesus, personagem bíblico. Não só quanto à aparência, mas aos ensinamentos religiosos também.

Antônio Conselheiro morreu após ver as duas igrejas da cidade derrubadas e todos os santos destruídos pelos tiros de canhões. Foi após ver este quadro que resolveu entrar em jejum, porém, daí não tornou a lutar. Aliás, mesmo o texto sendo objetivo, essa passagem é muito simbólica, pois foi nesse momento em que os sertanejos começaram a fraquejar. Perderam o local da crença religiosa (igrejas), perderam o líder, perderam a fé na cidade.

No entanto, as igrejas são materiais, os corpos são materiais, a cidade é material, a fé não. Os moradores e lutadores de Canudos ainda criam que Antônio Conselheiro voltaria. Eles realmente acreditavam que “(...) o profeta volveria em breve, entre milhões de arcanjos descendo (...) numa revoada olímpica, caindo sobre os sitiantes, fulminando-os e começando o dia do Juízo...” (idem, ibidem, p. 524). Por esse motivo que continuaram a lutar até o fim.

É por isso que mesmo sendo um livro de teor jornalístico, o autor conseguiu mesclar com a Literatura, dando possibilidades a inúmeras interpretações e estudos de diversas áreas (pois além dessas duas esferas, na obra há muita informação histórica, sociológica, filosófica, científica etc.).

Os capítulos são todos curtos, do tamanho de crônicas (que são textos ao mesmo tempo jornalísticos e literários), a maioria toma o formato de relato impessoal, tendo sempre ao final um resumo das baixas das batalhas. Há, também, outros capítulos que sempre fazem uma crítica pessoal às estratégias utilizadas pelos soldados (de certa forma, são textos de opinião/dissertativos).

Em suma, Os Sertões é um livro muito rico, um retrato direto do que foi a Guerra de Canudos, escrito de maneira muito rigorosa e científica, mas que, por conta das imagens, metáforas, antíteses nas descrições, figuras emblemáticas (como a de Antônio Conselheiro) e reviravoltas impensáveis e inesperadas, um leitor alheio à História do Brasil pode até pensar que é ficção, que é pura Literatura.

Como Euclides disse, na nota preliminar: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo” (idem, ibidem, p. 16). Um homem compromissado com a verdade de seu país. Reconheçamo-lo; conheçamo-nos.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André (antigo IESA - Instituto de Ensino Superior “Santo André”), Santo André, SP.

Referências

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011 (Saraiva de Bolso).

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Resenha do livro "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto

BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011 (Saraiva de Bolso).

O triste fim de Policarpo Quaresma é um romance pré-modernista, de Lima Barreto, publicado em 1911. O livro narra a história de Policarpo Quaresma, um homem ingênuo, idealista e fanático nacionalista, que não só acredita no Brasil como o melhor país, como tenta fazer dele um lugar melhor. Porém, ideal e real não significam a mesma coisa.

Esta versão conta com 240 páginas, que se dividem entre três partes. A primeira é uma apresentação do contexto e de quem é o major Quaresma; a segunda trás o afastamento de Policarpo para o campo, tentando ajudar e conhecer o país através da agricultura; e o último capítulo mostra a tentativa do personagem principal melhorar o país por meio da política.

Pode-se dizer que o major Policarpo Quaresma é uma caricatura do que seria o romântico, tão idealizador que não percebe sua situação de diferente de toda a sociedade. Policarpo é um homem extremamente moralista, tradicionalista e estudioso, mas somente dos autores e de tudo o que vem a ser brasileiro.

Logo de início, todos estranharam que um homem tão respeitável queria aprender a tocar violão, que na época era considerado “malandragem”. Porém, se o major quis aprender, era porque ele acreditava que “A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa (...)” (p. 17).

O narrador, ao descrever os livros na estante do personagem principal, denota todo o espírito nacionalista de Policarpo. Alguns dos autores: Bento Teixeira (poeta barroco), Gregório de Matos (idem), José de Alencar (escritor romântico) e Gonçalves Dias (poeta romântico indianista e nacionalista). Dos dois últimos escritores está toda a obra. Dentre os estrangeiros, está Darwin, que, como se sabe, visitou e relatou sobre o Brasil.

Na verdade, “major” é apelido, porque “Logo aos 18 anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. (...) Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar” (p. 19). Sabia tudo sobre as terras, os rios, os climas etc. Todos os dias, contava aos amigos alguma informação nova que descobrira, embora alguns não quisessem saber (e ele não percebia).

Uma característica da escrita de Lima Barreto é a maneira simples de escrever — que o fez ser muito criticado na época —, e sempre que pode, ela vem acompanhada de um sarcasmo. Leiamos esta descrição, por exemplo:

(...) Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios (...) o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado — aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção (p. 23)

O livro faz muitas críticas às ações do Brasil e às políticas do governo de Floriano Peixoto, militar e ditador brasileiro, durante a Primeira República. Não só a ele, mas também aos “tipos” de militares (que sempre existiram). É o caso do general Albernaz
(...) que nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. (p. 31).

Não é uma crítica somente ao personagem, mas a todos aqueles que, como sabemos, fazem carreiras dentro do exército, sem fazerem nem saberem nada (há vários deles no romance). Como quem estava no governo era um militar, a crítica estende-se e aplica-se aos políticos também. Até hoje ela é válida, posto os “exemplos” de representantes que “temos”.

Lima Barreto foca muito no quanto as pessoas valorizam as aparências, ora na profissão, ora em casa. Este general, por exemplo, valoriza a sua posição, o falso moralismo, e quer casar a filha, para se livrar dela, mesmo não gostando de seu genro, por causa de sua profissão (dentista); todavia, na rua, finge que não está gostando de ter de casá-la e separar-se dela. Enquanto isso, outras moças desejam se casar sem nem saberem o motivo, somente porque manda a tradição, somente por hábito.

Assim é feita a crítica ao casamento e ao Romantismo (como se não bastasse a sátira no personagem Policarpo) também. As mulheres casam-se pela moralidade; os homens, para conseguir bens. Com isso, não só o casamento, mas a família também é colocada em dúvida.

As instituições privadas não passam batidas pelo olhar agudo do escritor. Num diálogo entre um personagem e o dentista, eis que este profere a seguinte frase: “— Atualmente, não vale nada, meu caro senhor (...) Com essas academias livres... (...) Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...” (p. 49).

O livro ironiza o pensamento das pessoas sobre ler e escrever, como já é característica dos contos do autor. Quando Policarpo Quaresma fez um requerimento ao ministro, foi chamado de louco e que o motivo da loucura era a leitura. Ora

(...) — Pra que ele lia tanto? (...) — Telha de menos (...) — Ele não era formado, para que meter-se em livros? — É verdade (...) — Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores (...) — Devia até ser proibido (...) a quem não possuísse um título ‘acadêmico’ ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças (...) (p. 57)

São pensamentos dos personagens (da elite da época, dos militares) que continuam em nossa sociedade brasileira, que até hoje não lê nem quatro livros por ano; que acredita que ler e escrever é só para as elites. Além disso, percebamos que o autor escreveu “Pra” num dos diálogos, mostrando que nem os ditos cultos usam a norma privilegiada/padrão da língua em todos os momentos. Lima Barreto foi um dos primeiros a inserir características de várias camadas e classes do Brasil na Literatura (esta é uma das marcas dos pré-modernistas, investigar quem realmente é o brasileiro).

Numa das descrições que o narrador faz de Policarpo Quaresma, é dito que ele passou a maior parte de sua vida dentro dos livros e de seu sonho, “Desinteressado de dinheiro, de glória e posição (...)” (p. 61). Uma espécie rara de homem, que quando o encontramos, temos mais esperança. Isso acontece porque o Romantismo não é somente uma escola artística, mas uma forma e ideal de vida que sobrevive até hoje. É como a Luísa, do Primo Basílio, de Eça de Queirós, que mesmo estando errada, causa dó em muitos leitores, que se identificam com ela, por serem românticos também.

É muito interessante a forma como Lima Barreto satiriza, de forma sutil, tudo e todos, mostrando que os jornalistas não são honestos ao roubarem num jogo de cartas (quem dirá em suas matérias?); ou os oficiais do governo, que possuem fama de sábios por terem tirado boas notas na faculdade (e o pior é que essa valorização da nota ao invés do conhecimento permanece até hoje, entre nossos alunos) e ficarem em silêncio na maior parte do tempo — isso até lembra uma crônica chamada Jargão, do Luís Fernando Veríssimo —, mas confundem tupi com grego, por conta dos “yy”. Enfim, tudo gira em torno da aparência.

Escrito numa época pós-escravagista, o livro traz muitos momentos que denotam o preconceito e a insatisfação (tanto dos ex-escravos, quanto dos ex-donos) da época. O amigo de Policarpo, Ricardo Coração dos Outros, por exemplo, cria uma rixa com outro tocador de violão, por dois motivos: o primeiro, pelo o homem ser negro, pois isso “desvalorizaria” o instrumento; e o segundo, porque esse homem dizia que as músicas tinham que seguir regras, criar uma mensagem, não serem puro sentimento. É uma ironia o nome do personagem possuir “Coração dos Outros”, quando ele pensa somente em si mesmo.

Termina-se o primeiro capítulo com o major Quaresma sendo afastado de seu posto e de seus amigos, num manicômio, por ser considerado louco ao sugerir um requerimento na lei para que falássemos o tupi, que é a nossa verdadeira língua (percebamos como chega a ser cômico o nível do patriotismo).

Depois que ele sai de lá, não volta para a cidade, pois decide mudar de vida: agora quer viver no campo, ajudar o Brasil através da agricultura. Sua irmã, como sempre, o acompanhou, até mesmo na roça. “(...) Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. (...) Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira! (...)” (p. 97). A maior parte das mulheres no livro age assim, sem vontade, apenas por hábito e aparência.

Muitas pessoas tentam convencer o major a voltar para a cidade, que viver na e da roça não dá mais lucro, que as terras já estão cansadas, mas ele insiste que as melhores terras e climas estão no Brasil, basta trabalhar. Além disso, outros personagens, por serem ruins, pensam que o major foi para a área rural para fazer fama e candidatar-se depois. É interessante que até hoje o Brasil sobrevive, em grande parte, da agricultura (e muitos agricultores estão na política).

Há vários momentos naturalistas no livro, como as descrições das pessoas, que são comparadas a animais, ou as dualidades entre os locais de ricos e pobres, com enfoque nos dos pobres, pois estes são desconhecidos da burguesia (que não conhece o Brasil).

Numa das visitas da sobrinha de Quaresma, durante o caminho da cidade à roça, eis o que ela constata, através do narrador:

O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais acusadas de preguiça trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal-alojados, talvez com fome, sorumbáticos!... (p. 128).

Esta moça é uma das melhores personagens, questionadora, inquieta, diferente de todas as outras mulheres do romance. Após fazer esse questionamento, ela lamenta ser mulher, pois se fosse homem, poderia viajar mais e estudar os motivos e as soluções para tais situações. Não deixa de ser uma crítica, também, ao patriarcado da sociedade.

Interessantíssimo é um diálogo que ocorre entre ela e um ex-escravo, trabalhador da roça de Policarpo. Quando questionado sobre o motivo de não plantar para si mesmo, ele diz que uma coisa é pensar, outra é fazer. Não dá para esperar pelos alimentos crescerem. “(...) — Terra não é nossa... E ‘frumiga’?... Nós não ‘tem’ ferramenta... isso é bom para italiano ou ‘alamão’, que governo dá tudo... Governo não gosta de nós...” (p. 129). Além do conteúdo, percebamos como o pobre realmente entra na história, com suas características linguísticas.

Ainda há quem precise ler estas palavras ou estudar História para saber que meritocracia é uma farsa, que os negros sempre foram postos de lado, postos à margem (por isso são chamados “marginais”, não com essa outra conotação que a palavra adquiriu com o tempo) de nossa sociedade; que os brancos europeus, imigrantes, tiveram privilégios em nossas terras e que isso virou herança. Além disso, critica-se também o capitalismo, no qual a burguesia detém os meios de produção, fazendo com que o pobre sempre tenha que trabalhar para o rico. Enquanto um dá uma miséria, a qual chama “salário”, o outro dá a vida, o tempo e a força.

Depois de muita dificuldade com os aparelhos científicos para usar na terra (ora, sendo Quaresma um idealista romântico, é claro que ele não se daria bem com a Ciência), prejuízos com as vendas, trabalho com as formigas e ver que o governo ditador estava recrutando gente, o major decide voltar para a cidade. Faria bem ao país através da política, mesmo que ditatorial (a qual ele chama de “forte”).

O terceiro capítulo é mais forte do livro, o qual a menor crítica feita ao governo era motivo para mandar prender e matar. A violência justificava tudo. Sobre Floriano Peixoto (o ditador militar),
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a coisa ao grande o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte (...) (p. 170).

Quaresma, assim como a maioria dos homens da época, não percebia isso como um mal, pois estavam “encantados” pela força e pelas palavras do ditador. Assim que pôde, levou um manuscrito seu para Peixoto. Esse texto trazia ideias para revolucionar o Brasil, porém, não teve a atenção desejada. Ainda assim, conseguiu o posto de um verdadeiro major.

Chega a ser engraçado a forma de Quaresma liderar os soldados na hora do combate, na hora da prática, ao procurar teorias nos livros para ter mais eficiência. Além disso, havia muita bondade com os soldados de nível mais baixo.

Depois de alguns meses de revolta do povo contra o governo, tudo se tornou monótono. A sociedade toda se sentia mal, o próprio major se sentia triste por ter seu manuscrito não levado a sério, por ser chamado de visionário ao pedir reforma agrária para o ditador, pedir que desse emprego para todos, para que, assim, o país pudesse ser melhorado.

Depois de uma triste carta enviada à irmã, na qual ele conta suas vivências na guerra, suas tristezas e memórias, a contradição de termos tecnologia avançada, mas mentes e homens retrógrados, o personagem principal vai se tornando, aos poucos, niilista, percebendo qual era a verdadeira situação do país, que tudo o que ele pensava era sonho e fantasia; que a crise financeira, antes de tudo, é ética, moral, intelectual, política, tudo. Até hoje não a superamos.

Policarpo Quaresma é preso até a morte, num triste fim, como já apontava, desde o início, o título da obra. Tido como traidor, um homem que sempre quis o melhor para o seu país. No fundo, ele percebe que todo seu empenho e lutas não valeram nada; que os livros mentiam; que as terras, os climas e a hospitalidade do Brasil não passam de aparência.

Fica-nos a mensagem do quanto o patriotismo e o idealismo podem fazer mal à sociedade, embora pareçam bons. Os líderes ruins não são criados do nada, mas são sustentados pelo próprio povo que vê neles ídolos e heróis.

O triste fim de Policarpo Quaresma é um excelente livro, que nos mostra muitas facetas do brasileiro e do próprio ser humano, além de ser um resgate à história de nosso próprio país, apontando problemas tanto quanto possíveis soluções. Afinal, até hoje não tivemos reforma agrária, até hoje temos ultranacionalistas ignorantes que saem às ruas sem nem saberem o que estão fazendo.

Escrito de forma simples e corrida, Lima Barreto nos ajuda a conhecer a nós mesmos. É recomendável a todos aqueles que gostam de Literatura brasileira e realista (pois pode-se dizer que, de certa forma, o Pré-Modernismo foi uma continuação do Realismo e do Naturalismo).

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André, SP.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Resenha da peça teatral "Como gostais", de William Shakespeare

Sobre o autor e contexto

Apresentações sobre a vida e importância das obras de Shakespeare deveriam ser dispensadas, no entanto, há ainda quem o (e as) desconheça, e, por isso, necessite de algumas palavras sobre este grande escritor e seu importante trabalho.

William Shakespeare nasceu — possivelmente — em 1564, na Inglaterra. Ator, escritor, poeta e dramaturgo, foi um dos maiores homens de seu tempo e continua sendo até hoje.

Autor de clássicos universais como Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo e Sonho de uma noite de verão, Shakespeare viveu e fez parte do período artístico conhecido como “Classicismo”.

Com o início das grandes navegações, descobrimento de novas culturas e formas de vida, criação da imprensa de Gutenberg, a igreja católica perdeu grande parte de seu poder e deu-se início ao fim do período histórico da Idade Média. É o início da Modernidade.

Com a Modernidade e durante o Classicismo, quase todos os valores são trocados. Agora Deus não é mais o centro do mundo, mas sim o homem; usa-se mais a razão em detrimento da emoção; não se evoca mais as figuras cristãs, mas as pagãs, deuses e divindades da mitologia greco-romana. Busca-se o belo, a perfeição e o culto à forma.

Tudo isso por influência dos pensamentos e obras dos escritores e filósofos clássicos, gregos e romanos, que agora, com a imprensa, passaram a ser (re)publicados e lidos novamente. Este novo culto à Era Clássica chamou-se Classicismo, período que Shakespeare viveu e ajudou a formar.

Sobre a obra

Como gostais é uma peça teatral de Shakespeare, uma comédia romântica (final feliz), encenada pela primeira vez em 1599. Embora não seja tão famosa como as outras obras já citadas do autor, Como gostais não perde em nada para elas, desde a complexidade de situações, personagens cativantes, momentos trágicos e cômicos, clichês e até uma frase marcante.

A peça conta a história de Rosalinda, filha de um duque que perdeu os domínios para o seu irmão, Frederico. Após seu pai ser exilado, ela continua na corte, pois o seu tio, o usurpador, sabe que sua filha, Célia, é muito amiga da prima, e sofreria caso ela saísse.

Dentro da corte há três irmãos, Jaques, Orlando e Oliver. Os três são filhos de Rowland the boys, um “rival/adversário” de Frederico. No entanto, Oliver serve a Frederico e, por inveja, humilha seu irmão mais novo, Orlando.

Orlando é um homem cheio de virtudes, por mais que tentem colocá-lo para baixo, ele supera a situação. Numa dessas situações é quando ele conhece Rosalinda e apaixona-se à primeira vista (eis o clichê).

Mas é o tempo de quando ele é forçado a sair da corte por seu irmão e Rosalinda é forçada a sair pelo seu tio invejoso. Célia decide ir junto da prima e Rosalinda dá a ideia de as duas se disfarçarem: ela (Rosalinda), de homem; e Célia, de camponesa, pois a vida na floresta é perigosa para damas.

A partir daí todo o cenário é dentro da floresta — e ninguém reclama dessa mudança, pois é mais confiável viver entre os animais e perigos da natureza do que entre as brigas e intrigas da corte. O próprio Duque Sênior diz: “(...) os velhos costumes não fazem esta vida mais agradável que aquela de pompas artificiais? Não são estas matas mais livres do perigo que a corte invejosa?” (Duque Sênior, ato II, cena I - p. 44). Shakespeare não temia em criticar a elite de sua época e parte de seu público, além de, com este trecho, já adiantar parte do mito do bom selvagem, do filósofo Rousseau.

É preciso ressaltar que naquela época as mulheres não podiam atuar, então, Célia, Rosalinda e outras personagens femininas eram encenadas por homens vestidos de mulher. O drama e a complexidade aumentam quando Rosalinda, que é um ator vestido de mulher, se finge de homem, Ganimedes, e, para enganar Orlando, pede para que ele (Orlando) imagine que ele (Ganimedes) é uma mulher, a própria Rosalinda. É uma quádrupla mudança de gênero: um homem/ator vestido de mulher que se veste de homem que pede para ser imaginado como mulher. Se hoje ainda há conservadores que não gostam nem aceitam mudanças, imaginemos naquela época.

Nota-se, também, que Rosalinda sabe da sua posição de mulher, mas diferente do que é imposto, é ela quem se impõe ao mundo, pensando racionalmente (característica do Classicismo) para superar as adversidades. Porém, é somente quando ela se veste/disfarça de homem, que é tomada, de fato, a dianteira e todos passaram a obedecê-la. É a constatação do patriarcado na sociedade.

Além do pensamento racional na obra, uma outra característica do Classicismo são as figuras mitológicas. Durante a peça são mencionados muito deuses nas expressões dos personagens, além do próprio deus grego Himeneu, responsável pelos casamentos, que é invocado para casar os vários personagens.

Outro fato interessante na obra é a quantidade de versos/estrofes/cantos. Os versos variam desde redondilhas até versos decassílabos e alexandrinos, mas há versos menores também — todos metrificados, como manda a tradição clássica.

Quanto aos personagens, há muitos clichês: o bom moço (Orlando), a boa moça (Rosalinda), a parente amiga (Célia), o irmão invejoso (Oliver) e o vilão que se arrepende (Frederico). Mas há dois personagens diferenciados e dignos de mais atenção, são eles: Touchstone e Jaques.

O primeiro é o bobo da corte e o segundo é um cavaleiro dotado de sensibilidade e poeticidade. O bobo lembra muito a figura do louco, pois é o único que diz a verdade sem se preocupar com as convenções sociais, mas por ser louco, não é levado a sério pela sociedade e termina sendo excluído (Foucault, 2014). É o mesmo caso do bobo Touchstone, que todos até dizem que é inteligente, mas é um bobo, por isso deve ser desconsiderado, que é um caso de azar o dele.

Touchstone é inteligente e sátiro, há um momento em que Shakespeare se utiliza dele para criticar a nobreza, quando um nobre jura algo por sua honra e o bobo diz que jurar por algo que não se tem é fácil, pois mesmo que não cumpra com a palavra, pelo o que foi jurado, por não o ter, não está quebrando a promessa. Ao ser repreendido, ele mesmo diz: “É uma pena, então, que aos bobos não seja permitido falar de modo sábio aquilo que os sábios fazem de modo bobo” (Touchstone, I, II – p. 30).

Já o cavaleiro Jaques é o dono da frase mais famosa da obra: “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis (...)” (Jaques, II, VII – p. 62). Frase que faz alusão à vida dos atores e aos seres humanos em geral, no teatro que é a vida. Este trecho, se completo, por si só já vale um texto.

Este cavaleiro é moldado ao estilo poeta, contemplador da vida e da natureza, da alegria e da tristeza. Aliás, percebem-se em algumas passagens, frases que lembram poemas de outros poetas que vieram muito tempo depois. No caso, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade são alguns deles.

Quando Sílvio diz que gosta de Febe; Febe, de Ganimedes (que é a Rosalinda disfarçada); Orlando, de Rosalinda; e Rosalinda disfarçada de Ganimedes diz não gostar de ninguém, é impossível não nos lembrar do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

E quando o bobo diz que “(...) a verdadeira poeticidade é a mais fingida (...)” (Touchstone, III, III – p. 83), Shakespeare antecede parte do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa.

Por Shakespeare ser poeta, além dos cantos, algumas falas são compostas por jogos de palavras. Por exemplo: “(...) aí temos a Fortuna sendo muito dura com a Natureza quando a Fortuna faz o que é natural na Natureza dar cabo de uma conversa naturalmente inteligente” (Rosalinda, I, II – p. 28) — percebamos, também, o uso de divindades mitológicas e das letras maiúsculas usadas, característica do Classicismo para designar a representação perfeita e absoluta do que está sendo mostrado.

Ou ainda: “(...) Ou com uma espada vil e violenta leve a vida (...)” (Orlando, II, III – p. 48) — vejamos a aliteração em [V] — e na mesma página: “(...) estive a serviço do senhor seu pai (...)” (Adam, II, III – p. 48), utilizando-se de uma aliteração em [S]. Até o bobo Touchstone usa uma linguagem bonita e poética: “(...) Na verdade, eu queria muito que os deuses tivessem te criado criatura criativa, com poeticidade” (Touchstone, III, III – p. 83).

Como sabemos, nenhum período desaparece por completo; então, mesmo no Classicismo, ainda há elementos medievais. Em Como gostais, ao mesmo tempo em que há menções aos deuses mitológicos, há expressões e referências a Deus — e aos ensinamentos cristãos também, como por exemplo, quando Rosalinda diz que o mundo possui somente 6000 anos.

Em suma, se o mundo atual sempre traz elementos das épocas passadas, um dos motivos é por conta de obras semelhantes a Como gostais, que até hoje continua atual. Até hoje há brigas pelo poder; até hoje é necessário relacionar-se com o outro; até hoje reina o patriarcado na sociedade; até hoje (hoje mais do que nunca) precisamos da poesia; e até hoje somos atores e atrizes presos ao nosso papel, que não sabemos quem  criou nem quando terminará, e, assim, atuando, não sabemos nem quem somos.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é estudante do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.

Referências

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 2014.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. São Paulo: L&PM POCKET, 2013.