Ao longo da vida, somos pintados e nos
pintamos de várias cores diferentes, de formas diversas, mas essas tintas
chegam de fora (algumas foram ganhas, outras foram compradas etc.), por isso
descascam e caem depois de um tempo.
Paradoxalmente, mesmo todos possuindo
características distintas, dizem que somos todos iguais. É verdade (e não é
difícil de entender). É que somente a parte exterior é modificada, a interior
continua intacta. Daí o erro de quem quer parecer brilhante ao se pintar com
tintas fluorescentes ou jogando glitter por
cima do corpo.
O que quero dizer é que todos nós possuímos
um brilho interior, mas para que possam vê-lo, para verem o que somos (não o
que parecemos ser), é preciso que nos conheçamos e, mais do que isso,
precisamos ser transparentes.
Memorial da minha relação com a banda Engenheiros do Hawaii e o Humberto Gessinger
Lembro que foi em 2005, numa rádio qualquer
(sei que não era a KISS FM, porque
essa eu conhecia e ouvia), escutei uma música que dizia: “Nós dois temos os
mesmos defeitos, / sabemos tudo a nosso respeito, / somos suspeitos de um crime
perfeito, / mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”. Fiquei encantado, mas
não sabia por quem, pois não foi dito o nome da música nem da banda. (Por
acaso)
Fui para a escola (Di Cavalcanti) com o
trecho memorizado e a dúvida internalizada. Perguntei aos meus amigos da minha
sala (5° série D) se conheciam a canção, mas nenhum deles soube me responder
(houve até quem cogitou ser do Roberto Carlos! — nunca esqueci essa hipótese
que nem deveria ser considerada hipótese). (Nada a ver)
Coincidentemente, no mesmo ano, o meu pai
pediu para um amigo gravar várias músicas do rock nacional num CD. Tenho-o até
hoje (mas acho que nem funciona mais). Na gravação, havia Titãs, Paralamas do
Sucesso e Engenheiros do Hawaii. Gostei muito da primeira e da última banda (a
do meio, não). Em seguida, meu pai pediu para a minha mãe comprar algum CD dos
Engenheiros do Hawaii (havíamos acabado de comprar um do Raul Seixas, uma
coletânea). Ela nos trouxe o Tchau Radar!
Lembro que ele não gostou muito, pois, como eu, também estava começando a
conhecer, mas ele já conhecia as mais famosas (embora não soubesse os nomes
delas, nem em quais álbuns elas estavam inseridas). (Lado a lado)
Ouvi muito esse álbum. Achava a abertura daquela
primeira faixa, Eu que não amo você, pesadíssima!
Mal sabia eu que, anos mais tarde, o Metal se tornaria o meu gênero musical
preferido. Eu não conhecia ninguém que também gostasse da banda. Ouvi-a sozinho.
Na época, o que fazia sucesso na turma era algo que chamávamos de Black. (Quem diria?)
No ano de 2006, porém, tive a oportunidade de
fazer todos os meus amigos (e os “inimigos" também) da sala ouvirem aos
Engenheiros — hoje em dia, infelizmente, sou obrigado a ouvir música porcaria
por todos os lados, já que há um pessoal que adora ouvir os seus batidões com o autofalante (agora se
escreve assim, gente). Foi quando, na escola, a minha professora Edimara, de
Educação Artística, pediu para que todos levassem uma música que gostássemos
muito. Ouviríamos todas. Alguns levaram Pitty, poucos levaram Raps, a maioria
levou Blacks da época, e eu levei a Cruzada, última música do Tchau Radar!,
que na verdade é um cover (na época, eu nem sabia). Todo mundo estranhou aquele
início, aquela orquestra sombria. A professora adorou, disse que era fã do
Humberto Gessinger. Nunca esqueci a aula. (A maioria esqueceu tanto da aula,
quanto da música que levou, pois não a ouve mais.) (Exército de um homem sóI)
Passaram-se dois anos e eu fiz amizade com um
menino um ano mais novo do que eu, o Leo(nardo Mendes). Em 2008, quando o meu
pai comprou um computador, o Leo foi o responsável por me passar muitas músicas
de bandas e gêneros que eu não conhecia. Adorei várias bandas (Ozzy Osbourne,
Metallica, DIO, Motorhead — anos depois, cheguei a ver ao vivo o primeiro e o
último — etc.), já de outras, não gostei (Alice in Chains, KISS, System of a
Down — hoje em dia, gosto dessa última — etc.)... Lembro que era o primo dele,
o Ailton, que passava as músicas para ele, que, em seguida, me passava. (Novos
Horizontes)
Pois bem, desde criança, eu já ouvia muito
Raul Seixas e Engenheiros do Hawaii (e Led Zeppelin, ACDC e Pink Floyd), mas eram
poucas músicas... Foi, então, com esse amigo, que eu me aprofundei nas obras.
Se antes eu “somente” gostava muito, depois de conhecer mais músicas, virei fã.
(Hora
do mergulho)
No entanto, algo interessante e triste: eu
não entendia muito bem as letras, só as passagens mais óbvias — e isso em
qualquer banda. Era mesmo apaixonado pelo ritmo e melodia. Só quando comecei a
estudar de verdade, na faculdade, em 2014, que descobri a Poesia, a Literatura,
algumas técnicas dessas duas artes, alguns autores e suas obras, aprendi
a relacionar o objeto com o seu contexto etc., só depois de tudo isso é que percebi
o quanto as músicas dos Engenheiros do Hawaii e do Raul Seixas eram profundas e complexas,
o quanto havia de citação implícita e explícita. Mais uma evolução: se a
criança gostava muito e o adolescente virou fã, o jovem adulto virou amante. (Pra ser
sincero)
Desde então, sempre que posso, escrevo
algumas impressões que tenho sobre uma ou outra canção, sempre com algo mínimo
de embasamento, um artigo ou um livro. Fiz algumas “análises” que foram e são
elogiadas por outros admiradores da banda até hoje (gente bem mais velha do que
eu, que acompanha o Humberto há anos). Fico bastante contente. De vez em
quando, também pesquiso o trabalho de outras pessoas sobre o que gosto. Sempre
aprendo algo novo. (Pra entender)
No ano passado, 2016, aprendi muito sobre a
banda, graças a uma querida amiga. Ela se chama Jéssica Tasso e mora no Rio
Grande do Sul (e eu em São Paulo). Encontramo-nos no ano passado e ela me deu a
nova “biografia” dos Engenheiros do Hawaii (coloquei entre aspas porque o livro
traz a história do início da banda até o rompimento da formação clássica,
Gessinger, Licks e Maltz, nada além). Com ele, aprofundei-me. Creio que o meu
melhor texto, a minha melhor análise, a da música Nossas Vidas, foi feita após isso. (Ela sabe)
Ontem, 27/05/2017, assisti a um show do
Humberto Gessinger pela primeira vez, junto do amigo que me passou a
discografia dos Engenheiros. Momento mágico. Por isso que me lembrei de todas
essas histórias. A turnê faz comemoração ao álbum A revolta dos Dândis (que é título de um capítulo de um livro do
filósofo Albert Camus), segundo álbum da banda, lançado em 1987. (Outros
tempos)
Foi muito bonito ver todo o pessoal cantando
em alto e bom som quase todas as músicas. Eu sabia todas, porque sou viciado. O
nome da tour é muito significativo: Desde aquele dia. Esse é o título de uma
música do álbum homenageado, mas também é fundo do novo trabalho do Humberto: Desde aquela noite. Agora, para mim, ambos os
nomes são importantes: o dia que conheci (em 2005) e a noite que constatei o espetáculo (2017), que para sempre será lembrado. (Túnel do tempo)
Não há o que falar mal da banda, um trio
incrível: o baterista Rafael Bisogno, que além da bateria, toca outros dois
instrumentos que não sei o nome (desculpem), todos com batida (um deles parece
um tambor e o outro parece um teclado pequeno); Fernando Peters na guitarra
(muitos o criticam, mas é um excelente guitarrista, que preza pelo feeling); e o gênio Humberto Gessinger,
que canta, toca baixo, teclado, gaita e acordeon — além de ficar improvisando as
letras da música, para a (des)graça de quem tenta acompanhá-lo certinho. Arrepiei em várias músicas, mas principalmente na Quem tem pressa não se interessa e na Guardas da fronteira. O setlist de ontem (houve mashups, então colocarei na ordem) foi:
A
revolta dos dandis I
Infinita
Highway
Até
o fim
Infinita
Highway
Quem
tem pressa não se interessa
Vozes
Terra
de gigantes
Vozes
Terra
de gigantes
Desde
aquele dia
Além
dos outdoors
Guardas
da fronteira
Refrão
de um bolero
Piano
bar
Filmes
de guerra, canções de amor
A
revolta dos dândis II
Eu
que não amo você
Alexandria
O que
você faz à noite
Surfando
Karmas e DNA
Olhos
abertos
Pose
(anos 90)
Somos
quem podemos ser
3X4
Dom
Quixote
Exército
de um homem só I
Era
um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones
Vida
real
Bora
Faz
parte
Pra ser
sincero. (Terra de gigantes)
Há tantas dos lado B que eu adoro e que ficaram
de fora... (Sob o tapete)
Este texto é um agradecimento a todos aqueles
que me ensinam, me ensinaram, me proporcionam e me proporcionaram prazer e
conhecimento sobre esse artista e sua banda, que eu amo (ao lado das bandas de Heavy Metal). Na internet, muitos já me
disseram que eu mostrei novas visões sobre as canções. Fiquei pensando nisso
ontem: eu, ao lado de muita gente que elogiou meus textos, todos anonimamente pelo
mesmo motivo. (Pra ficar legal)
Que essa tenha sido a primeira vez de muitas
que virão! (A promessa)
Nós, seres humanos, gostamos da ideia de
ciclos. Criamo-los. Marcamos datas de início e de fim. Com elas, podemos
refletir sobre o que fomos, o que somos, o que queremos e o que podemos ser.
Claro, a cada desejo, mais sofrimento enquanto não o realizamos (base
schopenhauriana).
Por falar no rapaz, lembrei deste trecho, que um dia eu quis escrever algo
semelhante, mas quando descobri que já havia sido escrito e de forma melhor do que
a que eu faria, desisti — não gosto muito de paráfrases, uso logo citações:
Cada
dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada
manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena
morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a
dificuldade de despertar como as dores do parto. (SCHOPENHAUER, s/d, p. 66)
(Fantástico! Fantástico!)
É que hoje fiz aniversário, por isso me
lembrei desse fragmento. Recebi alguns parabéns verdadeiros, outros nem tanto.
Mas sempre pensei que deveríamos dar mais atenção aos pequenos ciclos, àqueles
do dia-a-dia, não somente aos anuais. Afinal, cada dia é um nascimento novo. Obviamente,
a cada renascer, sofremos no início (às vezes, durante outras horas e momentos
também). Condição da vida.
Digo isso porque desejos utópicos me
incomodam um pouco. Não há apenas bons momentos na existência. Se desejarmos
mais um ano de vida a alguém, obrigatoriamente, desejamos más situações também.
É através da superação dessas adversidades que crescemos e melhoramos.
Acho engraçado, a cada ano que passa, alguém
nos diz que ficamos mais velhos. Errado. Ficamos mais novos! Onde é que entra o
Heráclito de Éfeso na história? Que eu saiba, ele não foi esquecido. O homem
que se banha num rio não é o mesmo homem de antes, e o rio também não é o
mesmo. O que é velho fica para trás. Só permanece o novo.
Há aspectos e ideias (preconceitos e utopias)
minhas que deixei no passado. Aí, sim, é algo velho. Há objetos e sentimentos
meus que carrego desde criança, estes são antigos. Velho é algo ultrapassado e
inútil; o antigo ainda é e pode ser usado. Por exemplo, estou usando textos de Heráclito,
que viveu há mais de 500 anos antes de Cristo, e de Schopenhauer, que viveu no
século XIX.
Então, para que não mais consideremos os aniversariantes
como velhos e para terminar este ciclo chamado “texto”, trago uma citação de um
escritor mais moderno:
(...) é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto
mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse mais velho
ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...
(...) Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente não
nasce pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova
edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o
tempo a medida) está no meu passado e não no presente. (CORTELLA, 2016, p.
13-14)
Sou o mais novo eu possível.
//
P.S.: Ah, é verdade, já ia esquecendo! Eu
mesmo me perguntei qual seria o melhor presente a se ganhar e respondi em forma
de poema, resposta subjetiva, crença e desejo meu...
Qual
o melhor presente?
É ter
alguém presente,
Não num
dia somente,
Mas daqui
para frente,
Do agora
para o sempre
(mesmo
que internamente)...
Referências
CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! In: Não nascemos
prontos!: Provocações filosóficas. 19. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria da vida. Disponível em: <http://imagomundi.com.br/filo/schopenhauer_aforismos.pdf>
Acesso em: 19. maio. 2017.
No Dia das Mães, eu queria escrever um poema
para a minha, porém, não consegui. Fiquei triste e fui relatar a ela, que disse:
— Mesmo se conseguisse, eu não entendo dessas
coisas, menino. Eu estudei só até a quarta série. Mas se é o que você quer
fazer, continue tentando, mesmo que eu não o compreenda.
Foi assim, então, implicitamente, que ela me
ensinou que poemas não se escrevem: poemas se fazem. E não são feitos de uma
hora para outra, mas palavra por palavra, ação por ação, dia após dia. O poema materno teve de ser adiado, precisou amadurecer.
Cada pessoa possui certa linguagem. Não
adianta eu escrever palavras bonitas, mas difíceis, se o meu receptor, se o meu
leitor, se a minha mãe não as entenderá. É preciso usar as palavras certas, que comuniquem, imediatamente e profundamente, quem as ouça.
Aprendi que ela (minha mãe) — e muita gente — percebe e
demonstra (inconscientemente) que a verdadeira poesia está nas ações, não nas palavras. Lição básica: um poema é, antes de tudo, sentimento.
No fim, o meu presente acabou sendo este
pequeno texto, no qual quem ensina é a minha mãe. Um dia, também pretendo ser
professor, mas, por enquanto, na vida, sou estudante.
Já faz mais
de anos que ouvi falar no anime Cowboy
Bebop. Li esse nome pela primeira vez numa revista, em 2005, na extinta Ultra Jovem. Nessa época, a qualidade da
revista era bem menor, vinha uma página de imagem e apenas um parágrafo
sobre a obra. Mesmo assim, o parágrafo sempre me interessou. Porém, só agora,
em 2017, é que criei coragem para ver esse excelente animê. Não me arrependi.
Quero dizer, se há arrependimento, foi de ter demorado tanto para vê-lo.
Escrito por Keiko Nobumoto (conhecida por ter escrito o excelente Wolf’s Rain) e dirigido por Shinichiro Watanabe (também famoso por ter
dirigido o ótimo Samurai Champloo), Cowboy Bebop é um anime de ação, ficção
científica, drama e aventura. Sim, tudo isso. O estúdio responsável pela
produção é o Sunrise, um grande nome,
que também produziu o aclamado InuYasha
(Rumiko Takahashi)e alguns animês
menores (em fama, não em qualidade).
Pois bem, a história se passa no ano de 2071,
uma época onde a tecnologia avançou bastante e é possível viajarmos para outros
planetas facilmente. A Terra está desolada, por causa de um acidente num portal
entre o nosso planeta e a Lua. Mesmo assim, ainda há algumas pessoas que vivem
aqui, entre os meteoros que caem diariamente. Com isso, há muitas colônias e
enormes cidades nos astros vizinhos, para os quais migramos.
Contudo,
por o espaço ser vasto, a libertinagem aumentou demasiadamente, fazendo os
crimes também aumentarem e os policiais não darem conta dos criminosos. Assim, são pagos
prêmios como recompensa para os caçadores que conseguirem prender tais
infratores. Bem ao estilo faroeste. Os personagens principais de Cowboy Bebop são uma turma desses
especialistas em prender bandidos.
Os protagonistas são cinco: Spike Spiegel, um
jovem habilidoso com naves e armas, que possui um passado obscuro e ainda
aberto para se resolver; Jet Black, um ex-policial, o segundo mais velho do grupo
— também não há muitas informações sobre o seu passado; Faye Valentine,
embora tenha a aparência de uma jovem linda, é a mais velha do grupo, pois perdeu a memória num
acidente há 50 anos, mas o seu corpo foi congelado e anos
depois, revivido; Ed, uma criança nerd,
capaz de hackear quase todo sistema de
computador; e, por fim, Ein, um cachorro muito inteligente. Todos são
tripulantes da nave Bebop. Porém, não
se conhecem logo no primeiro episódio (exceto Spike e Jet), somente aos poucos,
com o desenrolar da trama.
Como deu para perceber, os nomes não são
orientais, mas, sim, ocidentais. Não só isso, o visual dos personagens e dos
cenários também é americanizado. O animê possui apenas 26 episódios e um filme
(produzido pelo estúdio Bones e distribuído pela Sony), no entanto, o conteúdo
e as referências utilizadas são enormes.
A primeira delas é o nome dos episódios, quase
todos relacionados à música e a bandas. Na ordem: 1 – Asteroid Blues (Blues é
um gênero musical), 2 – Stray Dog Strut
(um trocadilho com o título da música Stray
Cat Strut, da banda Stray Cats), 3 – Honky
Tonk Woman (nome de uma música dos Rolling Stones), 6 – Sympathy for the devil (idem), 7 – Heavy Metal Queen (Heavy Metal é um gênero musical), 10 – Ganymede Elegy (Elegia é um gênero musical), 11 – Toys in the Attic (nome de um álbum e de uma música do Aerosmith), 12 e 13 – Jupiter
Jazz (Jazz é um gênero musical),
14 - Bohemian Rhapsody (título de uma música do Queen),
16 - Black Dog Serenade (Black Dog é uma música do Led Zeppelin),
17 – Mushroom Samba (Samba é um
gênero musical), 19 – Wilde Horses (nome de uma música dos Rolling Stones), 21 – Boogie WoogieFeng Shui (Boogie Woogie
é um gênero musical), 22 – Cowboy Funk
(Funk é um gênero musical — e não é o
brasileiro, não, hein?!), 23 – Brain
Scratch (talvez seja referência à música Brain Damage, do Pink Floyd), 24 - Hard Luck Woman (título de uma música do KISS) e 25 e 26 – The Real Folk Blues (Folk
é um gênero musical e Blues também).
Além disso, o nome do filme é Knockin’ on
Heaven’s Door, que também é o nome da famosa música do Bob Dylan.
Os nomes dos outros episódios também devem
fazer referências a outros gêneros, artistas e músicas que não conheço.
Afinal, não sou especialista em análises e nem conhecedor de tudo o que é
arte.
Obviamente, toda obra-prima liga entre si o conteúdo
e a forma, por isso, não basta ter nomes de músicas relacionadas ao Rock, ao
Blues e ao Jazz, mas é preciso conter esses elementos dentro da obra. É o que
acontece com Cowboy Bebop, um anime
com uma das melhores soundtracks que
eu já assisti e ouvi. É claro que essa sonoridade é para nos remeter aos filmes
de cowboys do velho oeste, embora o
contexto da história se passe no futuro e no sistema solar (a forma é
diferente, mas a ação é a mesma: perseguição de foras-da-lei).
O anime também faz referências — implícitas e
explícitas — a alguns filmes antigos, a outras músicas (além daquelas que nomeiam os
episódios), a livros, a contos e a escritores. Há um momento, por exemplo, em
que todos os personagens comem cogumelos e têm alucinações. Spike sobe uma
escada infinita quando, de repente, aparece um sapo que diz que aquilo é uma
escada para o céu. “Escada para o céu” é “Stairway to heaven” em inglês, título
de uma música do Led Zeppelin. Na mesma sessão (que é como os capítulos são chamados
em Cowboy Bebop), há um muro escrito
“Mobi Dik”, que faz referência ao livro Moby
Dick, do escritor Herman Melville. Obviamente,
aliado ao conteúdo do livro de Mellville, o cenário se passa num local onde há
peixes (como podemos notar escrito no muro ao lado esquerdo e acima do “Mobi
Dik”: Pescaderia).
("Pescaderia Mobi Dik")
Em outro episódio, Spike está lendo um livro
chamado Walking on the moon (que
também é uma música da banda The Police). Já em outra passagem, Jet Black cita
o escritor alemão Goethe. E essas são apenas algumas das intertextualidades que
notei. Com certeza, há muito mais.
Coincidência ou não, há um personagem no
segundo episódio de Cowboy Bebop que
nos lembra muito o Leorio, do animê Hunter
X Hunter (de Yoshihiro Togashi), embora este último tenha sido exibido um ano
mais tarde, em 1999. O que muda é que Leorio é um dos protagonistas de HxH, enquanto o personagem de Cowboy Bebop é apenas mais um. Porém, é
interessante a semelhança entre ambos: os dois carregam maletas, usam óculos,
são atrapalhados e aparecem pela primeira vez (no caso do personagem de Cowboy Bebop, pela única vez) em episódios que há animais.
(O de laranja é personagem de Cowboy Bebop, o de azul, o Leorio)
Também é curioso notarmos o uso de locais
reais do nosso sistema solar, embora desconhecidos por muita gente. Ganímedes e
Europa, por exemplo, que são realmente satélites naturais de Júpiter, no anime
são cidades.
Deixando de lado essas influências, o que eu
mais gostei na obra, além das batalhas, do visual e da comicidade, foi a
coerência simbólica dentro dos próprios episódios. Na sessão 5, Ballad of fallen angels, temos um pouco
da explicação do primeiro capítulo e da vida passada de Spike Spiegel.
Conhecemos o seu antigo amigo (e agora inimigo) Vicious. Os próprios nomes são
simbólicos. Vejamos.
Na primeira vez que Spike aparece, relembra
momentos entre tiros e flores. As flores remetem-nos à morte. O que é que Spike
sempre diz? Que já morreu uma vez. Ele sempre se lembra da sua amada Julia,
que depois conhecemos e percebemos que ela mesma é comparada a uma flor, de tão
linda e aparentemente delicada. Spike, como seu nome diz, é o cravo.
O passado e o presente de Julia, Spike e
Vicious estão ligados. Vicious, como o próprio nome sugere, é o mal da
história, o que se rebelou contra o próprio sistema (a que chamam de Sindicato)
e traiu todas as pessoas próximas. De cabelo cinza (o que pode nos remeter à
frieza de sua personalidade) e sempre acompanhado por corvos (que também podem significar a morte), Vicious utiliza-se de uma espada como arma. Diferente de
Spike, que só usa armas de fogo.
É interessante notarmos que nesses episódios 5
e 6 há muitas cartas de Ás de Espada. Primeiramente, o jogo de cartas é
considerado por muitos como um vício (assim, alia-se ao personagem Vicious). Em
segundo lugar, diz-se que a carta possui muitos significados, que foram mudando
ao longo do tempo, porém, ainda assim, o Ás de Espada está relacionado aos conflitos, à morte e às perdas. Então, lembremos: Spike já foi considerado
morto, Vicious usa uma espada (e está sempre com um corvo por perto), um deseja
matar o outro e a carta pode significar o corte da relação entre ambos.
Não só isso: o episódio chama-se Ballad of fallen angels, isto é, a
balada dos anjos caídos. Os dois personagens não são mais o que costumavam ser,
ambos lutam dentro de uma igreja, que, por sua vez, traz-nos a história bíblica
da criação e da traição (vício) de Lúcifer, o anjo caído. No entanto,
ironicamente, quem cai do vitral é o Spike... No final, causada por Faye
Valentine, temos uma queda de plumas brancas sobre Spike, o que nos lembra
penas de anjos... E que também nos lembra a queda das pétalas de rosas jogadas
por Júlia, no passado. Além da chuva, que houve no pretérito, que há agora e que pode significar mudança, purificação ou um ciclo.
Nesse mesmo episódio, por Spike ter ido
resolver seus assuntos pessoais sozinho, Jet fica com raiva; e quando Faye pede
ajuda para salvar Spiegel, Jet, que estava aparando os galhos de um bonsai
(pequena árvore oriental), acaba cortando um galho e nega a ajuda. Depois, muda
de ideia e vai atrás do amigo. Esse corte do galho, ocasionado sem querer, pode
significar o quase rompimento da amizade entre os dois: negar ajuda é cortar um
galho da árvore que dentro da nave todos são. Coerência extrema.
Outro capítulo simbólico é o 18, “Fale como
uma criança”, o qual é iniciado com Jet narrando um conto oriental à criança
Ed. O conto traz a história de um pescador que não envelheceu (ao mesmo tempo,
Spike está pescando ao lado de Jet e Ed...). Em seguida, recebem uma fita
cassete (não se sabe de quem) endereçada à Faye Valentine. Porém não existem
mais fitas, muito menos os aparelhos para reproduzi-las. Agora tudo é gravado
em CDs (os tripulantes da Bebop nem
sonhavam com as nossas atuais nuvens)!
Assim, partem para o único lugar tão atrasado que pode possuir um aparelho
desses: a Terra!
Ao conseguirem-no, veem que é uma mensagem
gravada há anos... Incrivelmente, pela Faye e suas amigas (hoje, todas idosas)!
Uma mensagem destinada a elas mesmas, porém, anos depois. Contudo, como foi
dito no início do texto, Faye perdeu a sua memória e não se lembra de nada... É
muito triste ver que algumas pessoas perderam as suas memórias e, assim, a sua
identidade. Uma Faye adulta sem conseguir reconhecer ou se lembrar da Faye
adolescente, das amigas, de ninguém... Há disso na vida real também. Capítulo
bem coeso.
Sobre o episódio 23, Scratch Cerebro, deixo apenas essas palavras: “Eles estão apenas
praticando um ato de fé que eles decidiram crer. Por que você acha que as
pessoas acreditam em Deus? É porque elas querem. Não é fácil viver neste mundo
podre, não há nada certo enquanto se vive neste mundo (...) Deus não criou os
humanos. Os humanos criaram Deus. (...) Você sabe qual é a melhor e a pior
criação do ser humano? Televisão. A televisão controla as pessoas usando
informação e rouba os seus sensos de realidade. Sim, agora a televisão é uma
religião por si só. A TV criou pessoas que são facilmente enganadas por
fantasias idiotas”.
Outra sessão muito bem entrelaçada é a 24, Hard Luck Woman. Nele, Faye recupera
parte da memória e vai atrás de onde ela pensa que pertence. Por sua vez, Ed
encontra o seu pai na Terra. O trabalho dele é fazer mapas. Interessante
ligação: enquanto um faz mapas, a filha acha o pai e Faye procura o seu lugar
no mundo. Ora, o mapa é um instrumento de localização. Ao mesmo tempo, o pai de
Ed dá ovos a Jet e a Spike. Claro, os ovos são o princípio da vida, que nos
remete à família recém encontrada e à mulher que procura o seu passado para
entender o seu presente. Aliás, esse episódio anuncia o final do curto anime,
que é o Spike resolvendo as suas pendências com Júlia e Vicious.
Não comentarei sobre o que acontece nesses
dois episódios finais, somente sobre a criação de um cenário que achei muito
interessante. Num dos momentos, Spike e Jet conversam e o segundo comenta sobre
um conto em que um gato morre e revive um milhão de vezes, um gato que não
tinha medo de morrer (podemos associar à própria imagem do protagonista), mas
que um dia se libertou desse ciclo.
Agora, o curioso é que “a câmera” mostra os
dois embaixo de um ventilador que gira (observemos o ciclo — tal como o da história narrada por Jet — aqui também) em
sentido anti-horário: assim como Spike fala de seu passado (não do futuro). No
final do conto, ele dá uma resposta inusitada a Jet, assim como a história
caminha para um curso, mas, igualmente ao ventilador, Spike vai ao contrário do
que nós e Jet estávamos pensando. Muito criativo.
(Câmera mostrando Jet e Spike embaixo de um ventilador que gira em sentido anti-horário)
Sobre o filme, Knockin’ on Heaven’s Doors, de 2001, há um homem (Vincent Volaju) que foi cobaia de
testes de medicina e deseja se vingar de todos, passando a doença a qual ele é
imune para toda a população. Doença essa que está ligada à nanotecnologia.
Claro, a tripulação da Bebop encarregar-se-á do caso. Os traços do filme são superiores aos da animação (até
porque o longa foi feito três anos
depois e por um estúdio melhor, que é o Bones) e a trilha sonora continua impecável. Falta um pouco (só um pouco) de Jazz e Blues, mas que são compensados pelos corais (que combinam com as
palavras ditas pelo antagonista: céu, inferno, purgatório, Halloween etc).
Também é interessante notarmos que uma das
ruas que Spike passa ao lado chama-se La
Fontaine. La Fontaine, sabemos, foi um grande e importante fabulista do
século XVII. Além disso, há a citação de feijões por alguns vendedores que
parecem árabes (porém, esses personagens, com certeza, são para serem
relacionados a terroristas... — Vincent é considerado um terrorista — Olhemos a ideologia aqui...). Embora a história de João e o pé de feijão seja inglesa e
tenha ficado famosa a partir do século XVIII e XIX, os orientais foram grandes
fabulistas também. E o pé de feijão levava ao céu, lugar ao qual o antagonista
deseja ir (e o próprio nome do filme nos remete a isso: Batendo na porta do céu
— Knockin’ on Heaven’s Door). Filme
muito bem feito. Também há a metáfora das borboletas, mas que deixarei para
quem for atrás...
(La Fontaine e um comercial da Coca-Cola)
Em suma, é isso. Um animê obrigatório para
todos os apreciadores de animações japonesas, um clássico repleto de
referências a diversas artes e culturas (mas principalmente à americana); muito
bem elaborado, tanto em imagem quanto em conteúdo, cheio de sublimes reflexões
sobre a liberdade, a solidão, o sentimento de pertencimento, o
existencialismo etc. Os personagens são carismáticos (exceto a Ed, que chega a ser irritante, às vezes... — porém, não devemos nos esquecer que ela é apenas uma criança, logo, normal) e não
estereotipados. Além disso, é preciso ressaltar a
presença de muitos personagens negros nas diversas posições, não só como
foragidos, mas como médicos, advogados, apresentadores de TV, policiais etc., o
que não é comum no universo dos animês. Tudo acompanhado sempre de muita ação,
lutas e momentos cômicos. E, claro, uma das melhores trilhas sonoras de todos
os animês, muito Blues e Jazz (e Heavy Metal em um dos episódios).
(Abertura de Cowboy Bebop)
Obviamente, não comentei sobre todos os
episódios e nem sobre todo o conteúdo dos capítulos que escolhi falar (sou
apenas um apreciador de animês, não um crítico e especialista — muito menos um
caçador de easter-eggs!). É uma obra
que deve ser vista muito mais vezes para a entendermos melhor, então, assim que
puderem, vejam-na.
Há pessoas que são muros e há outras que são
pontes — em diversos sentidos.
Em dezembro de 2006, no finzinho da sexta
série, o meu melhor amigo foi embora para a Bahia, pois os pais dele são de lá e
queriam morar na cidade natal (na verdade, a cidade natal do pai...).
Continuamos a nos falar pela internet, embora, no começo, para isso, eu tivesse
que ir para as lan houses (muitos
jovens nem sabem o que é ou o que foi isso). Só alguns anos depois, em 2008, é
que fui ter um computador e uma internet própria (do tipo discada!).
Com essa falta, aproximei-me de outras
pessoas, tive novas, boas e ruins experiências. Foi durante essas más relações
que notei que existem pessoas-muro, pessoas fechadas em si e que tentam fechar
o outro também. Para elas, se somos amigos, até podemos ser amigos dos seus
amigos, mas não podemos levar os nossos próprios para este novo círculo. Isso acontece
frequentemente em relações amorosas (o que nunca foi o meu caso).
E sobre os muros, há os fortes e os fracos. Estes, feitos de vidro, qualquer coisa é capaz de quebrá-los. Não precisa ser uma
pedrada, basta uma palavra ou um olhar. São ultrassensíveis. Devemos ter cuidado com essas pessoas, mas nem por isso devemos
deixá-las sozinhas, dentro de suas muralhas. Aproveitando-nos da característica
do vidro, a transparência, podemos aparecer em sua frente e acenarmos, para que
possam nos ver e verem que há pessoas ao seu redor. A não ser que, por dentro,
o dono tenha colocado cortinas escuras, para também não ver ninguém...
Por outro lado, há as pessoas-ponte, que foi
o que imaginei quando o meu amigo voltou para São Paulo, neste mês de abril, para
passar umas férias. Vieram ele e o irmão.
É que ele foi embora há 11 anos, mas a
história dele comigo e com a turma não acabou ali, continuou sendo escrita, por
outros meios, mas continuou, tijolo por tijolo. Ainda não está acabada, mas não
está parada: está em construção.
Não foi a primeira vez que ele veio passar
umas férias aqui, mas cada vez que vem, conhece mais pessoas do nosso círculo
(cada vez mais expandido), além de, unicamente pela sua presença, reunirmos
parte da turma que estudou junto na 5° e 6° série A, nos anos de 2005 e 2006,
na escola Di Cavalcanti. Hoje, todos com suas vidas distanciadas, mas que se
juntam para relembrar histórias, narrar a continuidade etc.
Acho isso fantástico: pessoas que são pontes
entre outras pessoas, entre histórias, entre lacunas no e do tempo, entre
algumas relações que, por causa das novas situações cotidianas, vão se perdendo...
E, claro, por serem pontes, levam-nos à frente, permitem-nos caminhar e crescer
enquanto elas também crescem.
Com essa vinda do meu amigo, fiquei mais
próximo do seu irmão, que era bem pequeno quando foi embora (lembro até
hoje...), retomei laços com outros amigos que há tempos não os via, relembrei
histórias que não recordava (e isso porque eu já tenho uma ótima memória!),
rememorei bons momentos que os colegas haviam esquecido, visitei lugares que
nunca havia ido, conheci e ri com seus amigos (que não eram meus), passamos
momentos com outros meus (que não eram da época dele) etc.
Enfim, penso ter havido um crescimento e
fortalecimento mútuo. Às vezes, precisamos dessas visitas para que possamos
caminhar um pouco mais e melhor.
Ao meu jeito, tento criar pontes entre as
pessoas através das palavras (o escritor é um construtor de pontes, de experiências
e de sentidos múltiplos). Ao menos como lembrança e agradecimento. Que esse
texto seja mais um bloco na construção de nossa amizade.
(Introdução
copiada de outra publicação que já fiz aqui)
De maneira (muito)
resumida: Shakespeare foi/é um dos maiores homens que o mundo já viu, nascido
possivelmente em 1564 e falecido em 1616, desenvolveu suas obras (poemas e
peças teatrais) no período do Classicismo.
O Classicismo encontra-se dentro de um período histórico chamado Renascimento, que foi uma época de grandes mudanças em todos os âmbitos (sociais, religiosos,
filosóficos, econômicos, políticos etc.): iniciam-se as grandes navegações,
começa-se a mudança de sistema (feudalismo para "capitalismo"), a
igreja católica perde seu poderio, muda-se a visão de teocentrismo para o
antropocentrismo e, principalmente, surge a Imprensa de Gutenberg.
Com a imprensa,
muitos livros são publicados; assim, as ideias e obras de filósofos passam a
ser conhecidas por muitos. Surge uma nova mentalidade, o homem considera-se
em um período iluminado e renascido. Cheio de descobertas, busca diferenciar-se
de outrora, agora buscando elementos da cultura grega e romana para adotar em
suas obras. Portanto, a arte será racional; valorizarão a ciência, o
engenho e os valores da Era Clássica. Que fique claro: de maneira (muito)
resumida.
Traduzido por Ivo
Barroso, este soneto faz parte de Os
Melhores Sonetos (2013) de William Shakespeare (Saraiva de Bolso). Como se
sabe, o soneto é composto por 4 estrofes, sendo 2 quartetos (estrofes com 4
versos) e 2 tercetos (estrofes com 3 versos), podendo ser decassílabo (versos
de 10 sílabas poéticas) ou alexandrino (versos de 12 sílabas poéticas).
Mas existe um "tipo" de soneto próprio de Shakespeare, também chamado
"soneto inglês".
Este modelo possui
a estrutura de 3 quartetos e 1 dístico (estrofe de 2 versos); diferente do
soneto italiano, o soneto inglês não é feito em estrofes separadas, mas todo
junto; apenas os dois últimos versos se diferenciam por estarem 2 espaços à
frente dos outros. Mantendo a fidelidade ao livro, eis o poema:
XCI
Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de
faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
O
infortúnio seria apenas este:
Tirar
de mim o bem que tu me deste.
(SHAKESPEARE, 2013, p. 89)
Comentário
Quanto à estrutura do poema, temos um soneto
decassílabo, isto é, todos os versos possuem dez sílabas poéticas. Como vimos
na descrição acima, o texto segue com três quartetos e um dístico; o esquema de
rima, por sua vez, é: ABAB – CDCD – EFEF – GG.
Como é costume dos sonetos, principalmente os
da época do Classicismo (ao qual Shakespeare fez parte) e do Barroco (que viria
depois), temos o uso da sintaxe invertida (frases inversas, não na ordem direta,
como estamos acostumados, principalmente na fala espontânea).
O uso de antíteses (ideias contrárias) nesse poema não ficou muito explícito por meio de palavras antônimas, exceto em “plenas” e “minúcias”, “alegria” e “infortúnio”, “tirar” e “deste”, mas através das ideias: o eu-lírico prefere
apenas uma coisa em detrimento de
todas as outras, além de comparar os quesitos de que alguns se orgulham.
Quanto ao conteúdo, até que é simples. Há um
eu-lírico que diz que muitos se orgulham da classe social a que pertencem; outros,
dos bens que possuem; outros, da fortuna; outros, dos cavalos treinados; outros, dos cães; outros,
da força física; outros, por acompanharem a moda (e aqui há o adjetivo “feia”,
crítica feita pelo dramaturgo às roupas na época) etc., mas que nada disso
alegra o eu-lírico. Este a tudo o que foi dito e comparado antes, bens ou
habilidades que todos se vangloriam, orgulha-se de ter o amor de alguém.
Com isso, também se pode pensar que ele dá
mais valor a algo imaterial, abstrato, do que às coisas terrenas e concretas. É
um traço de uma transcendência, algo além, como os classicistas enfocavam
(geralmente com substantivos iniciados com letras maiúsculas), por conta da
retomada do platonismo.
O que chama a atenção, no entanto, é o fato de
o eu-lírico se orgulhar do amor dado a ele por uma pessoa, não propriamente
pela pessoa que se dá a ele. Algo diferente do que se vê na maioria das
relações, onde um olha para o outro, mas nenhum olha para o objetivo (se há
algum) em comum e para aquilo que os une.
É claro que há indivíduos que lamentam pela
vida toda a perda de alguém, mas há aquelas que seguem em frente, relacionando-se com outros sujeitos. O que ninguém percebe e que o poeta mostra-nos
nesse poema, escrito há séculos atrás, é que, antes de tudo, somos apaixonados e
amamos o amor, não somente a pessoa. Não buscamos “alguém”, mas aquilo que ele(a)
pode trazer ou criar: os sentimentos, dentre eles, o amor.
Os pares vão se trocando, mas o que procuram ainda
é o mesmo: afetos. O eu-lírico sabe disso, por isso teme que lhe tirem o bem
causado por alguém, tirem-lhe o amor, tirem-lhe as lembranças, pois lhe tirando
essa subjetividade, esse valor transcendente, sobram apenas objetos terrenos e,
por isso, passageiros... Sobre as habilidades, idem.
E se o eu-lírico teme que essa substância possa
lhe ser tirada, é porque há essa possibilidade... Através de brigas, de discussões,
de falta de diálogo, de reciprocidade etc. Então, nem tudo o que é imaterial é
eternamente duradouro... Mas, por isso mesmo, é importante e deve ser valorizado.
Vale lembrar que em momento algum o eu-lírico
sofre, ele apenas reflete. Os poemas e as obras em geral, na época do
Classicismo, refletem a racionalidade, elemento herdado da Era Clássica. Quem
demonstrará muito mais do que a razão, mas os sentimentos, o sofrimento, uma
subjetividade maior, serão os românticos. Mas isso somente séculos depois.
Referências
SHAKESPEARE, William. Os melhores sonetos. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2013. (Saraiva de Bolso)
Já há alguns anos, li, numa revista, uma
sinopse de um anime chamado Kino No Tabi.
Interessei-me na hora e corri para assisti-lo. Como esperado, não me arrependi.
Recentemente, assisti à obra novamente e venho aqui, agora, fazer um breve
comentário sobre esse excelente e curto animê, o mais filosófico e poético de
todos os que eu já vi.
Kino
No Tabi é uma light novel (uma espécie de livro, romance curto, geralmente ilustrado no estilo mangá) de Keiichi Sigsawa. Publicada (escrita) em
2000, em 2003 ganhou a sua curta animação de apenas 13 episódios, a qual ficou
conhecida como Kino’s Journey: the
Beautiful World.
O animê conta a história de Kino, uma
viajante, e Hermes, a sua moto falante. Sim, um veículo que entende o que
dizemos e responde-nos. Excelente criação para quem viaja. Pouco sabemos da
protagonista; tanto a moto quanto Kino falam pouco, muitas vezes a atenção é
focada com quem elas interagem, mas, mesmo assim, a dupla consegue cativar tanto os
personagens quanto o telespectador.
A menina Kino viaja, então, por vários
países, que na verdade são pequenas cidades, algumas mais desenvolvidas, outras
nem tanto. Por motivos pessoais (para não se apegar e deixar de viajar), ela
não fica mais de três dias em cada país. Cada local possui uma característica e
aqui entra o trunfo da obra: a cada estadia de Kino, mais do que os costumes do
lugar, ela aprende e nós aprendemos sobre a irracionalidade humana.
(Kino e Hermes)
Comentarei um pouco sobre o primeiro episódio, no qual Kino chega ao “País da
dor aparente”. Título forte, episódio também. Ao entrar no país, a protagonista
percebe que está tudo muito vazio, as cidades são cuidadas por robôs (isso é
comum no universo de Kino), mas humanos “não há” nenhum.
Este fato por si só já nos traz um
pensamento: até quando o ser humano será útil? Pior ainda: sem ser útil,
precisará e continuará a existir? De qualquer forma, criando robôs superinteligentes para aumentar o seu tempo livre, o seu prazer, o homem cria, também, a sua
ruína. (Até lembrei-me do Aldous Huxley: o fim e o maior sofrimento da
humanidade virão com a sua busca incessante pelo prazer).
No entanto, no “País da dor aparente” os
humanos não morreram ainda, só estão escondidos, cada um em sua casa, cada casa
a metros e quilômetros de distância uma da outra. Por quê? Um dos moradores
“nos” conta.
Depois de ver algumas pessoas e todas fugirem
de Kino, uma delas volta atrás e percebe que não consegue ler os pensamentos da
menina, nem ela os dele. Fato raro, isso denuncia que ela não é daquele lugar.
O homem narra a história daquele país:
tratando-se de tecnologia, seu povo havia avançado muito, criando diversos
tipos de robôs que faziam quase tudo para os humanos. Os cientistas criaram,
então, uma máquina líquida, em forma de água. A pessoa que a bebesse conseguiria
ler os pensamentos do outro. Por que essa ideia? Para acabar com o sofrimento!
Diz-se que a maioria dos problemas ocorre
porque não conseguimos sentir ou imaginar a situação que o outro está passando,
além de nossa linguagem muitas vezes ser falha, não conseguir expressar o que
pensamos (e isso está relacionado à filosofia do Ludwig Wittgenstein). Logo, se
todos bebessem a máquina líquida, entender-se-iam sem falarem uma
única palavra.
Foi assim que o morador que conta a história casou-se com a sua amada: ele gostava dela, ela gostava dele, mas ambos nunca
tiveram coragem de falar um para o outro. Quando todos os cidadãos beberam a água (pois ninguém queria ficar de fora, ser excluído, não conseguir
ler os pensamentos do outro, não ter os seus lidos), ao se olharem, um percebeu
o que o outro sentia. Casaram-se.
Passou-se o tempo e os problemas vieram: a
mulher não gostava tanto de música quanto o homem, o homem não gostava tanto de
plantas quanto a mulher. Nem precisavam falar, um lia os pensamentos do outro.
Os dois sabiam que estavam se desgostando, logo, romperam a relação. Pior
ainda: as pessoas nas ruas brigavam e se matavam, porque sabiam que tal pessoa
tinha ódio por ela, outra queria se vingar, outra estava mentindo etc. O país
virou um caos, as pessoas separaram-se umas das outras a uma distância que não
conseguiam ler os pensamentos do outro nem terem os seus lidos. Os robôs cuidaram da cidade.
Como consequência, as pessoas foram morrendo,
os casais foram rompendo e ninguém mais nasceu. No fim do episódio, quando Kino
vai embora, em seu caminho, passa por uma casa que está tocando a mesma música do
homem que lhe contou a história: a casa da "ex amada". A música preferida dele, a música preferida da
ex-mulher. Um sente a falta do outro, mas o medo das discordâncias, o medo das
possíveis brigas, afasta-os.
Embora seja uma ficção, além das reflexões já
comentadas aqui, pode-se pensar no quão o episódio é atual quando pensamos em
nossa sociedade virtual, na internet, no Facebook ou em outras redes, nas quais
ao primeiro sinal de discordância de ideias, pode-se bloquear o outro. Ou,
antes disso, antes de adicionar alguém à sua lista de contatos, pode-se ver as
páginas que o ele(a) curtiu, as bandas que gosta, os livros que lê etc., e, dependendo
do seu gosto, pode evitar ou não o contato com tal pessoa. É quase como ler os
pensamentos do outro, evitando o contato, evitando o futuro.
Esse é apenas um dos episódios e esses são
apenas alguns pontos que eu comentei, pois os diálogos são quase todos
profundos e poéticos. Kino passa por diversos países e situações, que até podem
parecer estranhas demais, mas na verdade são sublimes representações de nossa
irracionalidade.
Dentre essas situações, temos, por exemplo, o
“País dos Adultos”, onde as crianças passam por uma operação para fazerem os
seus trabalhos sem reclamar, sempre sorrindo, aceitando o seu “destino”; para eles, isso é ser adulto. Isto
é, os adultos são aqueles que renunciam à razão e às suas vontades. Há também o
país no qual o trabalho foi abolido, deixado para os robôs, mas por não terem o que
fazer, os humanos trabalham gratuitamente, apenas para passar o tempo e estressarem-se propositalmente.
Essa história é contada a outros três homens
que não se conhecem e não sabem o motivo pelo qual trabalham, embora estejam numa mesma estrada (física e metafórica). Há 50 anos, cada um deles foi enviado para uma parte de uma ferrovia: o primeiro, para limpá-la, pois foi dito que um dia ela poderia ser usada; o segundo, mais atrás, para
desmontá-la, pois disseram que ela não seria mais utilizada; e o terceiro, mais atrás
ainda, para refazê-la, pois falaram que daqui a uns anos ela seria usada. Nenhum tem
contato com a família, nenhum nunca parou de trabalhar, pois nunca foi enviada
uma ordem para isso. Assim continuam o trabalho sem propósito, completando um
ciclo e trazendo a metáfora de Sísifo.
Porém, sem saberem de si mesmos, querem saber de Kino: “Para onde você vai?”
Irônico, poético...
Há outras críticas no animê, feitas aos
sistemas políticos, às religiões, às atitudes humanas, às guerras — há um país
que é rival de um país vizinho, para ambos deixarem de se matar, resolveram a
situação de forma muito simples: não lutarão mais entre si para disputarem
territórios: destruirão os pobres povoados ao redor. Os pobres, os outros, serão dizimados; os ricos países rivais, não. Não é muito diferente do nosso mundo.
Já em outro momento, Kino no Tabi traz reflexões sobre a
tênue linha entre a subjetividade da criação imaginária, a ficção dos livros, e a
realidade objetiva do mundo, suas semelhanças e diferenças, como uma interfere
e ajuda a outra; enfim, uma discussão sobre a função dos livros e o poder que eles exercem sobre as pessoas.
É por essas e outras que eu indico o animê Kino no Tabi, desconhecido, curto, porém
profundo. A animação conta com 13 episódios, um OVA e dois curtos filmes (de
meia hora). Os gráficos/traços podem não ser de primeira qualidade, a trilha sonora
pode não ser marcante (embora cumpra bem a sua função), mas o conteúdo é. Outro fator positivo é que a animação
não cai no clichê maniqueísta do bem x
mal. São situações, contextos e pessoas diferentes; são múltiplos ângulos de
nossos atos e de nossa sociedade. "Beautiful World" pode ser uma ironia, depende de que lado olharmos.
Viajemos pela viagem de Kino, pelos países e
pelos dilemas que a envolvem, que envolvem os personagens, que nos envolvem e
nos devolvem um pouco da razão.
P.S.: Eu queria comentar sobre vários
momentos de todos os episódios, porque são ricos
demais, mas só de fazer este texto já me doeu. Duas dores: a de ficar contando
parte do enredo e a de ter evitado contar mais... Sinto-me como se tivesse dito
nada...