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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Análise comparativa entre o filme Valente (Brave, 2012) e a Literatura Infantil

O filme americano Valente (Brave, no original), de 2012, da produtora Pixar, traça uma interessante relação com a Literatura Infantil, tanto com a contemporânea quanto com a antiga, a tradicional, criando, assim, um jogo de aproximações e afastamentos entre certos parâmetros. Para perceber esses padrões, será usado o livro Literatura Infantil: teoria, análise, didática (2000), da escritora Nelly Novaes Coelho.

O filme conta a história de Merida, uma princesa escocesa. A menina, segundo a tradição, deve se casar com algum príncipe dos reinos vizinhos e aliados. No entanto, não é isso o que ela quer — até porque ainda é uma criança... Na verdade, tudo o que a princesa gosta vai contra os costumes e os ensinamentos de sua mãe (ensinamentos destinados para toda mulher da época, principalmente às damas). São estes fatores que ocasionam os conflitos entre a filha e a mãe, que podem colocar todo o reino em desgraça.

A película já inicia com uma frase emblemática:

Dizem que o nosso destino está ligado à nossa terra, que ela é parte de nós, assim como nós somos dela. Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros. É a única coisa que buscamos ou que lutamos para mudar. Alguns nunca encontram o destino, mas outros são levados a ele. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”28’ – 5”05’)

Percebe-se, então, que há um determinismo no filme, uma tradição a ser seguida ou a ser quebrada; um questionamento entre obedecer ou questionar, que é um dos conflitos entre a Literatura Infantil tradicional e a contemporânea.

Olhando para os personagens, nota-se que Merida é muito parecida com o seu pai (um bravo guerreiro), tanto na aparência quanto nos gostos, que ele a influencia desde criança, quando, por exemplo, lhe deu um arco como presente de aniversário — algo inaceitável para a mãe, que diz que damas não devem usar esse tipo de objeto. Ainda sobre o visual da personagem, o cabelo da princesa é ruivo e encaracolado, que ela o usa de forma solta.



É importante ressaltar essas características, porque elas estão ligadas à personalidade da protagonista: solta, livre, guerreira (como o pai). Diferente dela, sua mãe, Elinor, usa o cabelo preso, porque é uma pessoa presa às regras e às tradições da época. Tanto o é, que, no final, quando os conflitos são resolvidos, a mãe anda de cavalo junto da filha (algo que a rainha considerava errado para uma dama) e usa o cabelo solto, o que mostra que ela também se libertou.



(Uma das cenas finais)

Como se vê, Elinor representa a ordem, a obediência que deve haver e que sempre houve na tradicional “literatura para crianças, o domínio quase absoluto da exemplaridade; da rigidez de limites entre certo/errado, bom/mau; etc.” (COELHO, 2000, p. 20). Por outro lado, como já havia sido afirmado, o filme rompe com alguns paradigmas, criando algo inusitado. No caso, a mãe é quem manda na família, ao invés do pai, do marido — que sempre foi o ente “responsável” para essa situação (ao menos no contexto do filme). Ainda assim, a mulher continua a ser idealizada em Valente. Segundo, Nelly Novaes Coelho (2000):

(...) essa superioridade do homem, patente no plano da vida prática, corresponde à idealização da mulher, no plano dos valores ideais conforme se vê na literatura, num prolongamento evidente da valorização da mulher, iniciada na Idade Média (...) Na literatura para crianças, todas essas características aparecem de maneira evidente, quase caricata, reforçando os limites entre o que é próprio da mulher e do homem. (p. 21)

 No filme, isso é reforçado com uma moral dogmática e uma reverência pelo passado, não somente pela rainha, mas pelos reis aliados também, que, na “data certa”, levaram seus filhos como pretendentes para cumprirem o seu destino e darem continuidade à família. Para “conquistarem” a moça, como os antepassados sempre fizeram, todos competem em jogos. Não há sentimentos envolvidos, apenas rituais.

Ainda sobre a reverência ao passado, é interessante notar como a mãe conta uma história à filha, uma lenda que, segundo ela, realmente aconteceu. Essa narrativa traz um rei que dividiu a sua terra para seus quatro filhos, mas o mais velho era mais ganancioso e desrespeitou o pai, tomando tudo para ele. Contudo, o reino se desfez em ruínas, caos e guerras. São as “verdades” passadas de geração em geração. Mais do que isso, a rainha utiliza de todo um jogo de persuasão sobre a menina, para fazê-la aceitar a ordem “natural” dos fatos e culpá-la, implicitamente, se caso acontecer algo ruim ao reino e à paz atual. Observe este diálogo:

Merida — É uma bela história!
Elinor — Não é só uma história, Merida. Lendas são lições, elas carregam a verdade.
Merida — Ah, mãe!
Elinor — Eu aconselharia você a aceitar isso. (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 13”38’ – 13”50’)


(Os quatro antigos príncipes irmãos: três bons e um ruim, três sob a luz e um sob as sombras, os três de cabeça baixa, em respeito ao pai, e um de rosto erguido, em sinal de orgulho. Outra “coincidência” é que Merida é a mais velha dos quatro filhos do atual reino.)

Novamente, há outra contradição vinda da própria mãe autoritária, que, na história, para fazer a filha se casar, contou a lenda de um reino que se desfez porque um filho agiu sozinho ao invés de agir em conjunto com os outros três irmãos. O espírito solidário é um conceito da Literatura Infantil contemporânea, não da tradicional.

No plano visual, quando a rainha prepara a filha para conhecer os pretendentes, a roupa que a princesa usa, tão apertada — a ponto de ela quase não conseguir se mover e respirar —, reflete como ela se sente interiormente. Além disso, diferentemente da mãe, a menina só fica com o rosto e as mãos para fora. Irreconhecível (para a mãe: linda, perfeita), isto é, sem identidade alguma.
 



No entanto, não há jeito, a menina não quer se casar e humilha todos os pretendentes no jogo que ela mesma propôs: arco e flecha.

 (É interessante pensar que a flecha, quando atirada, possui um destino certo, o que lembra a passagem narrada no início do filme.)

Com isso, a princesa recebe uma bronca da mãe, que diz que os meninos foram envergonhados (algo inaceitável na Literatura infantil tradicional) e que ela é a rainha, que a filha deve ouvi-la:

Elinor — Agora foi demais, você passou dos limites, mocinha!
Merida — Mas foi você que quis...
Elinor — Você os envergonhou! Você envergonhou a mim!
Merida — Eu obedeci às regras.
Elinor — Você não sabe o que fez!
(...)
Merida — Me escuta!
Elinor — Eu sou a rainha! Você ouve a mim!
Merida — Ah, isso é muito injusto!
Elinor — Como é?
Merida — Você não se importa comigo! Essa história de casamento é o que você quer! Você já pensou em perguntar o que eu quero? Não! Você sai por aí me dizendo o que fazer, o que não fazer, tentando me fazer ser como você! Mas eu não vou ser como você!
Elinor — Ah, está agindo como uma criança...
Merida — E você é um... monstro! Isso é o que você é!
(ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 27”03’ – 28”04’)


Dois elementos importantes neste trecho: como a mãe utiliza não da sua posição familiar, como mãe, mas da sua posição social, como rainha, para fazer a filha ficar quieta. E, segundo, o tratamento da menina como um adulto em miniatura, conceito da Literatura Infantil tradicional. Ao mesmo tempo, há o questionamento da autoridade por parte de Merida, o “Repúdio ao autoritarismo. Consciência da relatividade dos valores e ideais criados pelos homens (...)” (COELHO, 2000, p. 25), característica da Literatura Infantil contemporânea.

Após essa discussão, a princesa, momentaneamente, numa ira súbita, rompe com sua mãe. Aqui, a linguagem não-verbal também é importante, porque assim como a filha corta sua obediência à rainha, também corta um tecido que representa a ligação da família. Não num ponto qualquer, mas exatamente entre as duas:
  


Em seguida, a menina foge e se encontra com uma bruxa na floresta. Não é a primeira vez que elementos mágicos aparecem no filme, pois, no início, já havia aparecido luzes mágicas — que o pai não acredita existirem, o que mostra que a praticidade (o rei era apenas um guerreiro) faz perder certo encanto que há em alguns aspectos da vida.

Do contato com a bruxa, Merida consegue um encanto que mudará a sua mãe, porém, o que ela não sabia, é que Elinor seria transformada num urso (assim como o antigo príncipe mal — aquele da lenda — recorreu à bruxa para ter a força de dez homens, transformando-se num urso — o mesmo urso que atacou a família de Merida, no início do filme). O interessante é que no início da película, quando a princesa ainda é uma criança, vê-se a rainha procurando-a, as duas brincando de esconde-esconde, e ao achar a filha, a mãe, que estava dizendo “eu vou te pegar” (e não “eu vou te achar”), finge que é um urso e que estava devorando a criança. É como se fosse o destino transformando a brincadeira em realidade (tal como o fantástico tornou-se real)...

Assim, Merida e a mãe têm pouco tempo para desfazerem o feitiço (dois dias, exatamente). Nesse meio termo, Elinor aprende que estava errada, que, às vezes, é preciso seguir os instintos (tal como um animal...) ao invés de querer raciocinar tudo. Não é muito diferente do que Nelly Novaes Coelho (2000) ensina sobre a intuição, elemento da Literatura Infantil contemporânea: “A intuição, pondo em xeque a lógica convencional ou o senso comum, abre campo para um novo conhecimento. Daí o atual renascimento da fantasia, do imaginário, da magia, do ocultismo...” (p. 26).

É transformada em urso que a rainha perde tais aspectos que ela possuía enquanto humana, como a etiqueta na hora de comer, por exemplo, ou a hora que, simbolicamente, ela deixa a coroa esquecida sobre uma pedra e vai caçar (algo que ela não permitia que a filha fizesse). É outro valor da nova literatura infantil, a valorização do ser ao invés do ter.

Quanto à coerência do filme, não se pode deixar passar batido o significado do “enigma” para desfazer o feitiço com o ato antes praticado pela princesa, além da frase emblemática citada no início do filme. As falas da bruxa para desfazer a transformação da mãe: “Sina alterada, olhe sua alma. Remende a união por orgulho separado.” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 49”54’ – 50”02’). A ordem é para costurar novamente a tapeçaria em que a filha cortou, simbolicamente, a ligação entre ela e a mãe, no dia da grande discussão. Agora, parte da frase do início do filme: “Outros dizem que o destino é costurado como um tecido, onde a sina de um se interliga à de muitos outros (...)” (ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda, 4”38’ – 4”47’). (Além disso, não se pode esquecer que a tábua que mostrava os quatro filhos do antigo rei também estava quebrada, separando o irmão ganancioso dos outros.)
  


Por fim, mas não antes de resolver o feitiço, Merida ensina a todos os pais dos pretendentes que a questão não é sobre disputa, mas sobre colaboração; que todos são e foram importantes para manter a paz que há no reino até hoje, não há um único herói, mas todos o são. O passado não deve ser idealizado e seguido, mas redescoberto, que a vida é uma mudança contínua. E, principalmente, que cada um é responsável pelos seus atos, não mera peça jogada pela mão do destino. A princesa é a representação das crenças da nova Literatura-Infantil.

A intertextualidade do filme com os contos de fada

Além de todos esses fatores que sempre apareceram na Literatura Infantil tradicional e dos que aparecem na contemporânea, há algumas intertextualidades do filme com os contos de fada e com as histórias clássicas. Essa intertextualidade acontece, principalmente, no nível das figuras: princesa, rei, rainha, enfim, pessoas aristocráticas; obviamente, o contexto é o da Idade Média: castelo, reino etc.; os elementos mágicos e simbólicos: bruxa (não tão má assim), luzes mágicas, feitiços, vassoura mágica, corvo etc.; a bruxa faz bonecos de ursos de madeira, mas que, quando se fala em “boneco de madeira”, é possível lembrar do personagem Pinóquio; e embora a mãe, transformada em urso, e o antigo rei mal, também transformado em urso, não falem e ajam como animais, ainda assim, é possível lembrar das fábulas — e, junto dessas, das lições de moral que o filme transmite.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

VALENTE. Direção: ANDREWS, Mark; CHAPMAN, Brenda. E.U.A: Pixar Animation Studios, 2012. 93”37’. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cowboy Bebop , um universo rico em qualidade

Já faz mais de anos que ouvi falar no anime Cowboy Bebop. Li esse nome pela primeira vez numa revista, em 2005, na extinta Ultra Jovem. Nessa época, a qualidade da revista era bem menor, vinha uma página de imagem e apenas um parágrafo sobre a obra. Mesmo assim, o parágrafo sempre me interessou. Porém, só agora, em 2017, é que criei coragem para ver esse excelente animê. Não me arrependi. Quero dizer, se há arrependimento, foi de ter demorado tanto para vê-lo.

Escrito por Keiko Nobumoto (conhecida por ter escrito o excelente Wolf’s Rain) e dirigido por Shinichiro Watanabe (também famoso por ter dirigido o ótimo Samurai Champloo), Cowboy Bebop é um anime de ação, ficção científica, drama e aventura. Sim, tudo isso. O estúdio responsável pela produção é o Sunrise, um grande nome, que também produziu o aclamado InuYasha (Rumiko Takahashi) e alguns animês menores (em fama, não em qualidade).


Pois bem, a história se passa no ano de 2071, uma época onde a tecnologia avançou bastante e é possível viajarmos para outros planetas facilmente. A Terra está desolada, por causa de um acidente num portal entre o nosso planeta e a Lua. Mesmo assim, ainda há algumas pessoas que vivem aqui, entre os meteoros que caem diariamente. Com isso, há muitas colônias e enormes cidades nos astros vizinhos, para os quais migramos.

Contudo, por o espaço ser vasto, a libertinagem aumentou demasiadamente, fazendo os crimes também aumentarem e os policiais não darem conta dos criminosos. Assim, são pagos prêmios como recompensa para os caçadores que conseguirem prender tais infratores. Bem ao estilo faroeste. Os personagens principais de Cowboy Bebop são uma turma desses especialistas em prender bandidos.

Os protagonistas são cinco: Spike Spiegel, um jovem habilidoso com naves e armas, que possui um passado obscuro e ainda aberto para se resolver; Jet Black, um ex-policial, o segundo mais velho do grupo — também não há muitas informações sobre o seu passado; Faye Valentine, embora tenha a aparência de uma jovem linda, é a mais velha do grupo, pois perdeu a memória num acidente há 50 anos, mas o seu corpo foi congelado e anos depois, revivido; Ed, uma criança nerd, capaz de hackear quase todo sistema de computador; e, por fim, Ein, um cachorro muito inteligente. Todos são tripulantes da nave Bebop. Porém, não se conhecem logo no primeiro episódio (exceto Spike e Jet), somente aos poucos, com o desenrolar da trama.


Como deu para perceber, os nomes não são orientais, mas, sim, ocidentais. Não só isso, o visual dos personagens e dos cenários também é americanizado. O animê possui apenas 26 episódios e um filme (produzido pelo estúdio Bones e distribuído pela Sony), no entanto, o conteúdo e as referências utilizadas são enormes.

A primeira delas é o nome dos episódios, quase todos relacionados à música e a bandas. Na ordem: 1 – Asteroid Blues (Blues é um gênero musical), 2 – Stray Dog Strut (um trocadilho com o título da música Stray Cat Strut, da banda Stray Cats), 3 – Honky Tonk Woman (nome de uma música dos Rolling Stones), 6 – Sympathy for the devil (idem), 7 – Heavy Metal Queen (Heavy Metal é um gênero musical), 10 – Ganymede Elegy (Elegia é um gênero musical), 11 – Toys in the Attic (nome de um álbum e de uma música do Aerosmith), 12 e 13 – Jupiter Jazz (Jazz é um gênero musical), 14 - Bohemian Rhapsody (título de uma música do Queen), 16 - Black Dog Serenade (Black Dog é uma música do Led Zeppelin), 17 – Mushroom Samba (Samba é um gênero musical), 19 – Wilde Horses (nome de uma música dos Rolling Stones), 21 – Boogie Woogie Feng Shui (Boogie Woogie é um gênero musical), 22 – Cowboy Funk (Funk é um gênero musical — e não é o brasileiro, não, hein?!), 23 – Brain Scratch (talvez seja referência à música Brain Damage, do Pink Floyd), 24 - Hard Luck Woman (título de uma música do KISS) e 25 e 26 – The Real Folk Blues (Folk é um gênero musical e Blues também). Além disso, o nome do filme é Knockin’ on Heaven’s Door, que também é o nome da famosa música do Bob Dylan.

Os nomes dos outros episódios também devem fazer referências a outros gêneros, artistas e músicas que não conheço. Afinal, não sou especialista em análises e nem conhecedor de tudo o que é arte.

Obviamente, toda obra-prima liga entre si o conteúdo e a forma, por isso, não basta ter nomes de músicas relacionadas ao Rock, ao Blues e ao Jazz, mas é preciso conter esses elementos dentro da obra. É o que acontece com Cowboy Bebop, um anime com uma das melhores soundtracks que eu já assisti e ouvi. É claro que essa sonoridade é para nos remeter aos filmes de cowboys do velho oeste, embora o contexto da história se passe no futuro e no sistema solar (a forma é diferente, mas a ação é a mesma: perseguição de foras-da-lei).

O anime também faz referências — implícitas e explícitas — a alguns filmes antigos, a outras músicas (além daquelas que nomeiam os episódios), a livros, a contos e a escritores. Há um momento, por exemplo, em que todos os personagens comem cogumelos e têm alucinações. Spike sobe uma escada infinita quando, de repente, aparece um sapo que diz que aquilo é uma escada para o céu. “Escada para o céu” é “Stairway to heaven” em inglês, título de uma música do Led Zeppelin. Na mesma sessão (que é como os capítulos são chamados em Cowboy Bebop), há um muro escrito “Mobi Dik”, que faz referência ao livro Moby Dick, do escritor Herman Melville. Obviamente, aliado ao conteúdo do livro de Mellville, o cenário se passa num local onde há peixes (como podemos notar escrito no muro ao lado esquerdo e acima do “Mobi Dik”: Pescaderia).

("Pescaderia Mobi Dik")

Em outro episódio, Spike está lendo um livro chamado Walking on the moon (que também é uma música da banda The Police). Já em outra passagem, Jet Black cita o escritor alemão Goethe. E essas são apenas algumas das intertextualidades que notei. Com certeza, há muito mais.


Coincidência ou não, há um personagem no segundo episódio de Cowboy Bebop que nos lembra muito o Leorio, do animê Hunter X Hunter (de Yoshihiro Togashi), embora este último tenha sido exibido um ano mais tarde, em 1999. O que muda é que Leorio é um dos protagonistas de HxH, enquanto o personagem de Cowboy Bebop é apenas mais um. Porém, é interessante a semelhança entre ambos: os dois carregam maletas, usam óculos, são atrapalhados e aparecem pela primeira vez (no caso do personagem de Cowboy Bebop, pela única vez) em episódios que há animais.



(O de laranja é personagem de Cowboy Bebop, o de azul, o Leorio)


Também é curioso notarmos o uso de locais reais do nosso sistema solar, embora desconhecidos por muita gente. Ganímedes e Europa, por exemplo, que são realmente satélites naturais de Júpiter, no anime são cidades.

Deixando de lado essas influências, o que eu mais gostei na obra, além das batalhas, do visual e da comicidade, foi a coerência simbólica dentro dos próprios episódios. Na sessão 5, Ballad of fallen angels, temos um pouco da explicação do primeiro capítulo e da vida passada de Spike Spiegel. Conhecemos o seu antigo amigo (e agora inimigo) Vicious. Os próprios nomes são simbólicos. Vejamos.

Na primeira vez que Spike aparece, relembra momentos entre tiros e flores. As flores remetem-nos à morte. O que é que Spike sempre diz? Que já morreu uma vez. Ele sempre se lembra da sua amada Julia, que depois conhecemos e percebemos que ela mesma é comparada a uma flor, de tão linda e aparentemente delicada. Spike, como seu nome diz, é o cravo.

O passado e o presente de Julia, Spike e Vicious estão ligados. Vicious, como o próprio nome sugere, é o mal da história, o que se rebelou contra o próprio sistema (a que chamam de Sindicato) e traiu todas as pessoas próximas. De cabelo cinza (o que pode nos remeter à frieza de sua personalidade) e sempre acompanhado por corvos (que também podem significar a morte), Vicious utiliza-se de uma espada como arma. Diferente de Spike, que só usa armas de fogo.

É interessante notarmos que nesses episódios 5 e 6 há muitas cartas de Ás de Espada. Primeiramente, o jogo de cartas é considerado por muitos como um vício (assim, alia-se ao personagem Vicious). Em segundo lugar, diz-se que a carta possui muitos significados, que foram mudando ao longo do tempo, porém, ainda assim, o Ás de Espada está relacionado aos conflitos, à morte e às perdas. Então, lembremos: Spike já foi considerado morto, Vicious usa uma espada (e está sempre com um corvo por perto), um deseja matar o outro e a carta pode significar o corte da relação entre ambos.

Não só isso: o episódio chama-se Ballad of fallen angels, isto é, a balada dos anjos caídos. Os dois personagens não são mais o que costumavam ser, ambos lutam dentro de uma igreja, que, por sua vez, traz-nos a história bíblica da criação e da traição (vício) de Lúcifer, o anjo caído. No entanto, ironicamente, quem cai do vitral é o Spike... No final, causada por Faye Valentine, temos uma queda de plumas brancas sobre Spike, o que nos lembra penas de anjos... E que também nos lembra a queda das pétalas de rosas jogadas por Júlia, no passado. Além da chuva, que houve no pretérito, que há agora e que pode significar mudança, purificação ou um ciclo.

Nesse mesmo episódio, por Spike ter ido resolver seus assuntos pessoais sozinho, Jet fica com raiva; e quando Faye pede ajuda para salvar Spiegel, Jet, que estava aparando os galhos de um bonsai (pequena árvore oriental), acaba cortando um galho e nega a ajuda. Depois, muda de ideia e vai atrás do amigo. Esse corte do galho, ocasionado sem querer, pode significar o quase rompimento da amizade entre os dois: negar ajuda é cortar um galho da árvore que dentro da nave todos são. Coerência extrema.

Outro capítulo simbólico é o 18, “Fale como uma criança”, o qual é iniciado com Jet narrando um conto oriental à criança Ed. O conto traz a história de um pescador que não envelheceu (ao mesmo tempo, Spike está pescando ao lado de Jet e Ed...). Em seguida, recebem uma fita cassete (não se sabe de quem) endereçada à Faye Valentine. Porém não existem mais fitas, muito menos os aparelhos para reproduzi-las. Agora tudo é gravado em CDs (os tripulantes da Bebop nem sonhavam com as nossas atuais nuvens)! Assim, partem para o único lugar tão atrasado que pode possuir um aparelho desses: a Terra!

Ao conseguirem-no, veem que é uma mensagem gravada há anos... Incrivelmente, pela Faye e suas amigas (hoje, todas idosas)! Uma mensagem destinada a elas mesmas, porém, anos depois. Contudo, como foi dito no início do texto, Faye perdeu a sua memória e não se lembra de nada... É muito triste ver que algumas pessoas perderam as suas memórias e, assim, a sua identidade. Uma Faye adulta sem conseguir reconhecer ou se lembrar da Faye adolescente, das amigas, de ninguém... Há disso na vida real também. Capítulo bem coeso.

Sobre o episódio 23, Scratch Cerebro, deixo apenas essas palavras: “Eles estão apenas praticando um ato de fé que eles decidiram crer. Por que você acha que as pessoas acreditam em Deus? É porque elas querem. Não é fácil viver neste mundo podre, não há nada certo enquanto se vive neste mundo (...) Deus não criou os humanos. Os humanos criaram Deus. (...) Você sabe qual é a melhor e a pior criação do ser humano? Televisão. A televisão controla as pessoas usando informação e rouba os seus sensos de realidade. Sim, agora a televisão é uma religião por si só. A TV criou pessoas que são facilmente enganadas por fantasias idiotas”.

Outra sessão muito bem entrelaçada é a 24, Hard Luck Woman. Nele, Faye recupera parte da memória e vai atrás de onde ela pensa que pertence. Por sua vez, Ed encontra o seu pai na Terra. O trabalho dele é fazer mapas. Interessante ligação: enquanto um faz mapas, a filha acha o pai e Faye procura o seu lugar no mundo. Ora, o mapa é um instrumento de localização. Ao mesmo tempo, o pai de Ed dá ovos a Jet e a Spike. Claro, os ovos são o princípio da vida, que nos remete à família recém encontrada e à mulher que procura o seu passado para entender o seu presente. Aliás, esse episódio anuncia o final do curto anime, que é o Spike resolvendo as suas pendências com Júlia e Vicious.

Não comentarei sobre o que acontece nesses dois episódios finais, somente sobre a criação de um cenário que achei muito interessante. Num dos momentos, Spike e Jet conversam e o segundo comenta sobre um conto em que um gato morre e revive um milhão de vezes, um gato que não tinha medo de morrer (podemos associar à própria imagem do protagonista), mas que um dia se libertou desse ciclo.

Agora, o curioso é que “a câmera” mostra os dois embaixo de um ventilador que gira (observemos o ciclo — tal como o da história narrada por Jet — aqui também) em sentido anti-horário: assim como Spike fala de seu passado (não do futuro). No final do conto, ele dá uma resposta inusitada a Jet, assim como a história caminha para um curso, mas, igualmente ao ventilador, Spike vai ao contrário do que nós e Jet estávamos pensando. Muito criativo.

(Câmera mostrando Jet e Spike embaixo de um ventilador que gira em sentido anti-horário)

Sobre o filme, Knockin’ on Heaven’s Doors, de 2001, há um homem (Vincent Volaju) que foi cobaia de testes de medicina e deseja se vingar de todos, passando a doença a qual ele é imune para toda a população. Doença essa que está ligada à nanotecnologia. Claro, a tripulação da Bebop encarregar-se-á do caso. 

Os traços do filme são superiores aos da animação (até porque o longa foi feito três anos depois e por um estúdio melhor, que é o Bones) e a trilha sonora continua impecável. Falta um pouco (só um pouco) de Jazz e Blues, mas que são compensados pelos corais (que combinam com as palavras ditas pelo antagonista: céu, inferno, purgatório, Halloween etc).

Também é interessante notarmos que uma das ruas que Spike passa ao lado chama-se La Fontaine. La Fontaine, sabemos, foi um grande e importante fabulista do século XVII. Além disso, há a citação de feijões por alguns vendedores que parecem árabes (porém, esses personagens, com certeza, são para serem relacionados a terroristas... — Vincent é considerado um terrorista — Olhemos a ideologia aqui...). Embora a história de João e o pé de feijão seja inglesa e tenha ficado famosa a partir do século XVIII e XIX, os orientais foram grandes fabulistas também. E o pé de feijão levava ao céu, lugar ao qual o antagonista deseja ir (e o próprio nome do filme nos remete a isso: Batendo na porta do céu — Knockin’ on Heaven’s Door). Filme muito bem feito. Também há a metáfora das borboletas, mas que deixarei para quem for atrás...

(La Fontaine e um comercial da Coca-Cola)

Em suma, é isso. Um animê obrigatório para todos os apreciadores de animações japonesas, um clássico repleto de referências a diversas artes e culturas (mas principalmente à americana); muito bem elaborado, tanto em imagem quanto em conteúdo, cheio de sublimes reflexões sobre a liberdade, a solidão, o sentimento de pertencimento, o existencialismo etc. Os personagens são carismáticos (exceto a Ed, que chega a ser irritante, às vezes... — porém, não devemos nos esquecer que ela é apenas uma criança, logo, normal) e não estereotipados. Além disso, é preciso ressaltar a presença de muitos personagens negros nas diversas posições, não só como foragidos, mas como médicos, advogados, apresentadores de TV, policiais etc., o que não é comum no universo dos animês. Tudo acompanhado sempre de muita ação, lutas e momentos cômicos. E, claro, uma das melhores trilhas sonoras de todos os animês, muito Blues e Jazz (e Heavy Metal em um dos episódios). 



(Abertura de Cowboy Bebop)

Obviamente, não comentei sobre todos os episódios e nem sobre todo o conteúdo dos capítulos que escolhi falar (sou apenas um apreciador de animês, não um crítico e especialista — muito menos um caçador de easter-eggs!). É uma obra que deve ser vista muito mais vezes para a entendermos melhor, então, assim que puderem, vejam-na. 

 See you in space, cowboy!