segunda-feira, 25 de abril de 2016

Poeminha pessoal

Sou pobre,
por isso,
o presente
que posso
te dar
é só a presença
(ou ausência,
se preferir).

Show do Avantasia - 24/04/2016: um pequeno relato pessoal

Ontem, vi, pela primeira vez, o supergrupo Avantasia, após ter passado por uma semana de provas e ter feito uma delas até mesmo no domingo (porque quis fazer, concurso público da cidade). Foi como uma recompensa.

É sempre uma viagem, para mim, ir ver essas bandas, pois não moro no centro de SP; porém, a viagem não é somente física, é um momento em que não estamos em lugar algum: não há um distanciamento, ao contrário, há aproximação. Sentimos fazer parte do instante.

Logo que entrei, ao ser revistado, fiquei decepcionado por não deixarem entrar com minha câmera (que nem é profissional), porque sempre a levei e nunca houve problemas, mas ontem foi diferente, tive de deixá-la no guarda-volumes. Mais desapontado ainda fiquei ao chegar à pista e ver várias pessoas com câmeras...

Mas não voltaria atrás para reclamar com os seguranças, pois perderia o meu lugar, que estava bem perto da grade (da pista comum) e era capaz de eles não devolverem minha câmera, mas tomarem as dos outros. Ao final, foi até bom, pois prestei mais atenção ao show.

Show este que durou (como havia sido prometido) mais de 3 horas e que começou 20 minutos mais cedo, porque Tobias Sammet foi explicar que deste concerto sairia um videoclipe para a música Draconian Love, e, para isso, seriam gravadas três versões da canção. Para quem não sabe, quem divide os vocais com o Tobias nesta composição é o Herbie Langhans (Sinbreed) — é preciso ressaltar a forma como este homem canta! Como canta! É igualzinho ao álbum!

Após cantarem as três versões, Tobi teceu diversos elogios ao público paulista, agradecendo-nos. A banda saiu do palco, as cortinas se fecharam e esperamos por mais dez minutos para o show começar de verdade.

Tudo ali é e foi emocionante, desde a música escolhida para anteceder ao início do concerto. Quem conhece um pouco do gênero Power Metal sabe que geralmente há uma música de entrada; o Avantasia usou a abertura de uma composição do grande músico Richard Strauss: Also sprach Zarathustra.

Dois detalhes, um pessoal e o outro, não: quem me conhece sabe que eu adoro a filosofia e a própria figura do Nietzsche, logo, adorei a escolha, visto que Assim Falava Zaratustra é meu livro preferido do autor e que gosto desse tipo de música também.  Aliás, pode-se dizer que a banda é alemã (mesmo contando com vocalistas do mundo todo, o idealizador do projeto, Tobias Sammet, é alemão) — Nietzsche e Strauss também o foram. Ainda sobre Strauss, é bom lembrar que ele foi um dos últimos compositores da Era Romântica. Ora, o Romantismo foi uma arte e forma de vida que preza pela emoção. Aquela opening é escolhida propositalmente para emocionar e dar ansiedade.

A banda iniciou, então, como já havia sido feito em concertos anteriores, com a primeira música do novo álbum: Mystery of a blood red rose, seguida pela faixa-título do mesmo disco, Ghostlights, que conta com a ilustre presença do Michael Kiske (Unisonic, ex-Helloween).

Ao final desta canção, quando o ex-vocalista do Helloween já ia saindo do palco, o público começou a gritar “Ole, ole, ole, Kiske, Kiske”, fazendo-o parar, fazer sinal de “jóinha” e olhar para o Tobi, como se dissesse: “Está vendo isso?”, ao que o Tobi, como sempre, brincando, disse: “São Paulo loves Michael Kiske? I’d like to tell you that he’s just a guest vocal” e ri.

Depois disso foram só hits da banda, não falarei na ordem porque... Mas falarei dos outros vocalistas convidados. Como já foi citado, Herbie Langhans foi um deles (e foi a sua primeira vez no Brasil). Em Draconian Love (que, aliás, foi tocada pela quarta vez — três sendo gravadas e uma pelo setlist) ele usa uma voz muito mais grave do que em outras músicas em que participa, alternando entre o grave, o médio e o agudo; é um grande vocalista. Em Wicked Symphony, substituiu Russel Allen de forma impecável.

Kiske, embora não tenha muita presença de palco, sempre ficando parado no meio ou no canto (desde os tempos de Helloween), possui uma enorme potência vocal, sempre cantando as notas mais altas sem nunca — nunca mesmo! — desafinar!

Um outro convidado foi o Ronnie Atkins, da banda Pretty Maids. Que voz! Percebe-se em suas expressões que ele canta com vontade, com firmeza, uma voz bem rasgada, típica do Hard Rock. Além de potência vocal, possui muita presença também.

Falando em Hard Rock e voz rasgada, ele não poderia faltar, o grande Jorn Lande. Com certeza, é o cara mais esperado para subir ao palco. Como disse Tobias: “I believe that something will happens when this keyboard starts to play”. Era a The Scarecrow que estava por vir e o público entrar em delírio, principalmente ao aparecer Jorn Lande. Não sabemos se foi por ordem do setlist ou se foi pelos pedidos do público por Lucifer, mas ela foi cantada em seguida. Embora seja muito responsável em suas partes, Jorn é como o Kiske, que fica mais parado.

Lande faz parte dos grandes vocalistas atuais (modernos), tanto do Heavy quanto do Hard. É sabido que quando Tobias idealizou o projeto Avantasia, ele chamaria os vocalistas que o influenciaram. Um deles é muito conhecido na cena Hard Rock: Eric Martin, da clássica banda dos Estados Unidos, o Mr Big.

Sua entrada já é conhecida dos últimos shows: sempre entra numa balada (What’s left on me), sentando-se na escadinha do cenário. Grande vocalista, com presença de palco, sempre brincando e interagindo com a platéia. Muito interessante vê-lo substituir o próprio Tobias, em Twisted Mind, e o Bob Catley, em Mystery of Time.

Além deles, havia a grande Amanda Somerville nos backing vocals, que cantou Farewell entre outras (em algumas, substituindo até mesmo o Tobias e o Kiske), e, também, o Oliver Hartmann, que toca e canta (muito)!

É preciso falar sobre o principal, o gênio fundador do Avantasia: Tobias Sammet. Além de cantar muito, é um cara bem divertido, sempre fazendo brincadeiras ou piadas. Como, por exemplo, quando jogaram ao palco uma bandeira metade do Brasil e metade da Alemanha e o próprio público começou a gritar “7x1”. Ao ouvir, Tobias respondeu, sorrindo: “Sorry! Sorry... ‘Sorry’... but it was you that started it! I took the flag and saw you with a smile screaming ‘7x1’”. Ou, quando ao pegar outra bandeira, dizer: “What is that? A Messi’s T-shirt?”, e depois amarrá-la no microfone, imitando o Steven Tyler, e cantar um trecho de I don’t wanna miss a thing, da banda Aerosmith.

Enfim, das músicas tocadas, pelo o que lembro, foram: Prelude/Reach out for the lights, Farewell, Avantasia, Sign f the cross/The seven angels, Twisted mind, The scarecrow, Shelter from the rain, Lost in space, Story ain’t over, Wicked symphony, Dying for an angel (com Eric substituindo o Klaus Meine), Stargazers, Promised land, The watchmaker’s dream, Invoke the machine, What’s left on me, The great mystery, Mystery of a bood red rose, Let the storm descend upon you (que Tobias disse que acredita virar um clássico da banda dentro de cinco anos, sendo pedida em todos os shows), Ghostlights, Draconian Love, Lucifer e Unchain the Light — não nesta ordem.

PS: Um ultimo comentário que gostaria de fazer é que, somente agora, após ter visto e ouvido a banda ao vivo, compreendi algumas passagens das novas músicas, nas quais o coro, feito pelo público, soa como aqueles momentos sombrios de suspense, o que tem a ver com fantasmas e com a obra (Ghostlights). Porém, no estúdio, isso não ocorre.

O tema desse arco, que se fecha com o novo álbum, é que as pessoas não possuem mais tempo para viver. Por isso, um cientista (o personagem principal), junto de outros, tentam mudar a situação para que as pessoas aproveitem melhor esta rápida passagem terrena. No entanto, ao modificar a vida das pessoas e fazê-las viverem da forma como querem (os cientistas), é controlá-las. Daí a problemática.

O álbum traz muitos momentos em que o eu-lírico fala (e até manda, por usar verbos no modo imperativo) para aproveitar todos os momentos possíveis, desde os bons até os ruins, pois todos são únicos.

Recentemente, comprei o Metal Opera Part II e alguém me disse (na internet mesmo) que baixar é melhor. Comentei, então, que a vida não é só abstrata, mas concreta também. Há emoção ao toque, ao ter, ao ver, ao ler etc. Quem gosta de pinturas vai ao museu, não fica só no Google imagens; quem gosta de ler compra livros, pega emprestado e empresta também, não fica só nos pdfs; quem gosta da arte cinematográfica vai ao cinema, não fica só vendo pelos sites ou baixando pelo torrent; quem gosta do que a música provoca vai aos shows, não fica só baixando ou assistindo às gravações ao vivo pelo youtube.

Lembro da primeira vez que ouvi a banda, em 2009, mostrada por um amigo, através da música Farewell. Depois disso, fui atrás das bandas de cada vocalista; gostei de algumas, de outras, não. Fico feliz por ter visto, numa mesma noite, vários vocalistas e músicas que me influenciaram desde que eu estava aprendendo sobre o gênero. E a influência não é só deles, mas de todos que me ensinaram e me mostraram tudo o que sei e que está relacionado a isso.

São buscas, são momentos vividos e contados e recontados, pois se eternizaram. Sair de longe, num domingo, chegar tarde em casa, cansado, com fome, com sede, rouco, "vale a pena se alma não é pequena" (Fernando Pessoa), pois há instantes que não nos apequenam, mas engrandecem (não perante ao outro, mas a nós mesmos). 

Como todo álbum do Avantasia, o personagem principal é alguém atrás de respostas: Do que é que gostamos? O que é que fazemos? Por que fazemos? Por que não fazemos? Como fazemos? Procuremo-las, pois, também.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha do livro "A Ordem do Discurso", de Michel Foucault

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.  24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

A ordem do discurso (2014) é um livro que contém todo o conteúdo da aula inaugural do filósofo Michel Foucault, no Collège de France, em 1970, em que ele substitui o lugar do professor Hypollite, que havia falecido.

O livro é totalmente metalinguístico, pois ao mesmo tempo em que Foucault faz o seu discurso, ele discute sobre o mesmo. O filósofo inicia, então, dizendo que gostaria de não começar a falar, pois sente uma “pressão” vinda do local e das pessoas ao seu redor. Em suas palavras: “Existe em muita gente, penso eu, um desejo semelhante de não ter de começar, um desejo de se encontrar, logo de entrada, do outro lado do discurso (...)” (p. 6).

É que nem o discurso nem o lugar são neutros. Quem fala, mesmo que seja um convidado, é vigiado pelo outro, por isso existe a tensão ao discursar. E em cada local há regras implícitas que “norteiam” o quê e como a palavra deve ser dita e ouvida.

Foucault supõe que em todas as sociedades “(...) a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e distribuída por certo número de procedimentos (...)” (p. 8), ou seja, se há rituais na sociedade, haverá rituais para com os discursos.

Dois exemplos que ele dá são os assuntos da sexualidade e da política, tabus da sociedade. São temáticas consideradas como perigosas, em que, sobretudo, exerce-se o poder de interdição sobre elas. Porém, pelo mesmo motivo que querem excluí-los das discussões, é que mostra o quanto eles possuem poder.

O filósofo lembra, então, da figura do louco, que sempre teve o discurso interditado, excluído, rejeitado: “(...) Desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros (...)” (p. 10), sendo assim, desconsiderado ou interpretado como visionário. No entanto, é por ele não obedecer às instituições (que impõem as regras e causam a “tensão”), que diz o que quer e o que realmente pensa. É livre.

Pode-se pensar que o louco era excluído somente no passado, mas até hoje é assim, pois os únicos que os ouvem são os médicos e os psicólogos/psicanalistas. Ora, se eles são mandados para estes locais, é porque ainda são rejeitados na sociedade pelo o que são.

Foucault explica como os discursos eram valorizados na Antiguidade Clássica, sendo considerados “verdadeiros” somente aqueles que falavam sobre a justiça, de forma preciosa e bonita, geralmente ditos por alguém de status. Com o tempo, deixou-se de considerar os discursos pela posição dos discursadores, mas sim pela sua coerência.

Essa divisão se deu pela “vontade de saber” (p. 15). As influências da época e da sociedade mudam a forma de pensar e de considerar os discursos. Assim, ao escapar de uma regra para ser considerado verdadeiro, o discurso sofre interferência de outras esferas. Por exemplo, quem quiser ser considerado como verdadeiro no ramo da ciência, deverá obedecer as normas daquela área; e, continuamente, o que estiver fora desses conceitos será excluído e tido como falso.

Há, portanto, três grandes sistemas de exclusão da sociedade que afetam o discurso, que são: “(...) a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade (...)” (p. 18). E há dois tipos de discurso: os que são ditos no dia a dia e os que são e serão ditos “sempre” (os literários, científicos, religiosos, etc); os primeiros podem ser ditos sobre os segundos, tomando a forma de “comentários”, mas nunca os substituem.

Após fazer estes levantamentos, Foucault discute a existência e a influência do autor. Novamente, ele comenta sobre o passado, em que, na Idade Média, era “(...) indispensável, pois era um indicador de verdade. Uma proposição era considerada como recebendo de seu autor seu valor científico. (...)” (p. 26). Enquanto com o passar dos séculos, na ciência, esta valorização do autor diminuiu, por outro lado, no campo literário, na mesma época, o valor do autor só aumentou.

É importante ressaltar a importância do autor, pois ele é dono não só da obra como do estilo e do método usado para alcançar tais objetivos, porém, para discutir algo novo, pede-se “(...) novos instrumentos conceituais e novos fundamentos teóricos (...)” (p. 33). É por este motivo que muitos autores não são compreendidos em seu tempo, mas postumamente, porque seus discursos não estão no que se considera “verdadeiro” (naquelas regras, leis, disciplinas, ordens etc) daquele período.

Dentre as disciplinas que o discurso deve seguir, há os rituais. O ritual define as formas de recitação, de gestos, de comportamentos, e, assim, define a qualificação e a eficiência do discurso. Percebem-se diferentes tipos de rituais em conferências acadêmicas, encontros religiosos, judiciários, políticos etc.

Cita-se que existiram “sociedades do discurso”, que guardavam e produziam formas e conteúdos de textos (geralmente orais) somente para si, como os rapsodos. Embora não existam mais tais grupos, o modelo de guardar e de produzir conhecimento ainda existe em outros meios e em outras esferas sociais fechadas. Por exemplo, não são todos que possuem acesso ou que compreendem textos filosóficos e científicos, mas um grupo seleto. Esta “doutrinação” une certos indivíduos, ao mesmo tempo em que separa e os diferencia de todos os outros.

Um fator interessante sobre os discursos é que eles existem antes mesmo de serem manifestados. Antes de serem pronunciados, já existe um tema, uma ideia, uma vontade e um sentido, que serão expostos através das palavras, dos signos, das marcas etc., que estão disponíveis.

Foucault pontua que, para analisar os discursos, deve-se “(...) questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento (...)” (p. 48), assim, tirando-os da ordem somente de “significante” e analisando-os como algo concreto. Com isso, investiga-se como eles se formam e o que está por debaixo deles.

Às vezes, ver-se-á que por baixo das palavras não há coerência nem continuidade, mas divergência, porque, na verdade, os discursos devem ser vistos como “(...) práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem” (p. 50).

Outro princípio abordado é o da “’especificidade’” (p. 50), o qual revela que todo discurso é ideológico. Ele não demonstra o que o mundo ou as coisas são, apresentados claramente por quem fala, mas o que foi imposto (dito) sobre tais assuntos. Portanto, é possível (e preciso) buscar a intenção do discurso.

Para isso, é necessário procurar o contexto do enunciado, pois é ele que determina a limitação do discurso, do comentário, do conteúdo, do autor, além de definir quais os métodos e disciplinas a serem seguidas.

Notam-se, assim, num mesmo contexto, diversas manifestações sobre um mesmo assunto, uma vez que elas são heterogêneas. Portanto, sua análise “(...) liga-se aos sistemas de recobrimento do discurso; procura detectar, destacar esses princípios de ordenamento, de exclusão, de rarefação do discurso (...)” (p. 65). A investigação “(...) não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra à luz do dia o jogo da rarefação imposta, com um poder fundamental de afirmação (...)” (p. 66).

Em seguida, no último capítulo do livro, Foucault discute sobre a importância do ex-professor — a quem ele estava substituindo — Jean Hyppolite. Fala-se sobre os seus métodos e a influência de Hegel em sua conduta, como ele confrontava muitos importantes filósofos modernos; a forma que ele via a filosofia, como “(...) o fundo de um horizonte infinito, uma tarefa sem término (...) tarefa sempre recomeçada” (p. 70).

Enfim, vê-se todo o reconhecimento e admiração que Michel Foucault possuía pelo ex-professor. O filósofo termina o livro de forma muito bela, voltando ao assunto do início da aula/livro, dizendo que agora compreende o motivo de sentir aquela pressão ao discursar, ali, no Collège de France. Com suas palavras: “(...) Sei o que havia de tão temível em tomar a palavra, pois eu a tomava neste lugar de onde o ouvi e onde ele não mais está para escutar-me” (p. 74).

A ordem do discurso é um excelente livro, que se propõe a desvendar as relações entre os discursos e os poderes que eles possuem; como eles se formam, como os enunciados eram vistos no passado, como são agora e como a sociedade cria e se apropria dos discursos para se apoderar das situações. Em suma, é um livro recomendado para todos aqueles que se interessam pela interação e pela linguagem humana.

Michel Foucault nasceu em 1926, na França, e faleceu em 1984. Foi um renomado filósofo de sua época, dentre as suas maiores obras estão Vigiar e punir (1975) e Microfísica do Poder (1979), além de estudos sobre a sexualidade.


Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André – SP.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

As antenas das crianças

Novamente, caminhando com o Rambinho (para quem ainda não sabe, ele é o cachorrinho aqui de casa — na verdade, nem gosto de chamá-lo assim, “cachorro/cachorrinho”, pois o romantizamos; vemo-lo com características humanas, como prosopopeia), ele me fez refletir.

Por gostar de sair, ele sempre sai na frente, cheirando e olhando para tudo. Quando percebo que a área em que ele pretende ir é perigosa, que possui espinhos ou que pode haver alguns tipos de insetos, eu o seguro com a coleira.

Uma vez, comentei que os animais nem sempre possuem consciência do que estão fazendo ou do que desejam fazer, apenas o fazem. Somos nós quem temos a consciência da situação, então, cabe a nós incentivarmos ou mudarmos o rumo do animal. Às vezes, há pessoas adultas que agem sem pensar também; agem sem consciência do que estão fazendo (tanto por se moverem pelas emoções, quanto pela alienação). E há as crianças, que são movidas pelo espírito da curiosidade.

No último texto do livro A dialética do esclarecimento, chamado “Sobre a gênese da burrice”, os filósofos Adorno e Hokheimer comparam a inteligência com as antenas de caracol e a burrice com a cicatriz. Explico.

O caracol se move conforme o tato de sua antena. Através dos seus sentidos, por onde lhe parece seguro, ele segue. Assim é a inteligência. Ela não permite que andemos por onde não conhecemos ou por onde nos parece inseguro. No entanto, se as antenas sofrerem (e elas são partes muito frágeis) alguma lesão ou se forem cortadas, mesmo que se curem, ficará uma cicatriz.

Semanticamente, a palavra “cicatriz” nos traz a característica da fixação, da marca, do sinal que nunca é esquecido ou apagado. Pois bem, foi disso que lembrei ao caminhar com o Rambinho, ao puxá-lo para não entrar no mato ou se envolver em brigas. A reflexão que faço não é sobre ele, mas sobre as crianças.

Há anos que deixamos de ver as crianças como “adultos em miniatura” e passamos a vê-las como seres em construção. Durante a infância, somos guiados pela nossa curiosidade (e a curiosidade é sempre acompanhada pelas perguntas) e pelos sentidos, antes do que pela razão. Podemos dizer, então, que a curiosidade e os sentidos são as antenas das crianças. Logo, se machucar ou a cortarmos, ficam as cicatrizes, fica a marca da burrice — não vamos entender a burrice como ofensa, mas como uma dificuldade maior ou  uma incapacidade de levar adiante a percepção, o pensamento, a argumentação, o aprendizado e o desenvolvimento.

Ao puxar o cachorro, lembrei dos pais e professores que “puxam” as crianças e alunos: “Não pode fazer isso”, “Assim, não!” etc. Não é que não permitem por “achar perigoso”, mas  por considerarem “trabalhoso” ficar observando, ajudando, incentivando e, assim, avaliando a todo o momento o aluno e a si mesmo (que é o que deveria acontecer sempre: a autoavaliação e a autocrítica, o repensar a si, ao outro e a tudo).

A infância é uma fase muito delicada, é quando começa o descobrimento do mundo para a criança. Se a curiosidade for cortada, seja lá por qual for o motivo, veremos pessoas crescidas e desinteressadas em aprender, deficientes em defender as suas próprias ideias e ideais, porque não sabem para onde apontam as suas vontades, pois perderam as suas antenas. Após o corte, não é a vontade ou a curiosidade que orienta o ser, mas, sim, o medo. No entanto, o medo não orienta: desorienta, paralisa.

Este texto é só uma reflexão, mas é interessante a metáfora usada por Adorno e Horkheimer. Os bons professores não são os que “puxam” o aluno para seu lado, dogmaticamente; os bons pais não são os que cortam as vontades de seus filhos, autoritariamente. Os bons responsáveis são os que orientam as pessoas, e tenho certeza de que eles se sentem felizes ao ver o quão longe seu aluno/filho chegou, seguindo suas sugestões, não ordens. Pois ensinamento não é ordem; ensinamento é para o bem e para o avanço. Ordem é para a paralisação ou para a ação contra a vontade.

Agora, o Rambinho sabe onde pode ou não pode entrar. Mesmo assim, continua indo na minha frente, sempre curioso. É bom vermos as pessoas indo a lugares novos e aprendendo por vontade própria, não sendo arrastadas por alguém ou por obrigação. Ou, pior ainda, quando sozinhas: paralisadas.

Que as perguntas sejam feitas, que os sentidos funcionem, que não tenhamos — nem causemos! — cicatrizes, que as antenas não sejam cortadas, que não sejamos paralisados pelo medo e pelo trauma causado no passado, que possamos vivenciar o nosso meio. 

Aliás, se eu não tivesse ficado atrás, observando (e observar é o sentido da visão) “meu” cachorro, eu não teria conseguido esta reflexão. Podemos dizer que, neste caso, foi ele quem me guiou?

PS.: Apenas lembrei-me do texto do Adorno e Hokheimer, mas o conteúdo vai muito além. Recomendo a leitura dele a todos (é pequenininho, só tem uma página). Deixo abaixo um link para acesso:

ADORNO, T.W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Disponível em:

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Diálogo sobre um coitado

— Como vai o coração?
— Descansando, após a última tatuagem.
— Como assim?
— Toda pessoa que o conhece tatua seu próprio nome nele. Dói, mas dói ainda mais quando alguém vai embora e o nome fica ali, para sempre. Depois de muito tempo, o coração tenta se lembrar do rosto da pessoa, mas não consegue; só ficou o nome. O mais triste, moça, é que ele não consegue mais lembrar como era antes de ter todos aqueles nomes por cima.
— E ainda há espaço livre?
— Não. Por isso ele não entende nada, perdido em si mesmo. Os nomes agora estão uns por cima dos outros; e quem mais quiser escrever, infelizmente, terá que ser por cima do último.
— Entendo. Mas ele não consegue lembrar por sua própria incapacidade. O problema está na memória e na mente, não no coração. Coitado. Todo ser e todos os seres aproveitam-se dele, que continua servindo-o(s) continuamente. Mas ninguém o serve. O único que pode ajudá-lo é o próprio dono, mas este só o ajuda porque é obrigado; ajuda-o sem saber (e também o oposto: machuca-o sem saber). Na maior parte do tempo, o dono até esquece que ele existe. É um coitado.
— É. Coitado do coração.
— Não, estou falando de você. Você é o coitado; e o culpado também.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uma pequena reflexão #4: Internet, estando sem estar

A Internet é o lugar para eu ficar onde não estou. Gosto das fotos de corpo todo, porque assim o foco fica longe e eu escondo os meus defeitos de mim e dos outros. Enquanto isso, a visão se dispersa pela minha expressão, roupa, cenário, e, às vezes, falsas companhias. Falsas porque, na verdade, nenhum de nós está ali; o corpo está, mas não a consciência. Na internet é o oposto, a mente é que está lá, não o corpo. Aí, para o telespectador, só resta a imaginação, vendo as fotos falsas ou palavras de alguém que não está ali. Às vezes, esse alguém nem existe.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Comentando sobre a palavra de Jaques, da peça "Como gostais", de Shakespeare

A primeira vez que li este texto foi em formato de poema, de tão encantado, fui atrás e descobri que ele era uma das falas de um personagem de uma das peças de Shakespeare. A peça é a comédia romântica Como Gostais (As you like it), e o personagem que a profere é um cavaleiro chamado Jaques. A versão que vos trago é a da L&PM POCKET, 2013, traduzida por Beatriz Viégas-Faria. Eis o monólogo:

“O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis, suas sete idades em sete atos. Primeiro, na infância, é um bebê choramingando e vomitando no colo da ama. Depois é o menino em idade escolar, reclamão, sacola a tiracolo, carinha matinal reluzente, arrastando-se feito lesma, contrariado de ir para a escola. E então é o apaixonado, suspirando forte como uma fornalha, com uma cantiguinha triste, triste, feita em homenagem às sobrancelhas da amada. Depois é um soldado, cheio de extraordinários juramentos, grandes melenas, barba farta, como um leão, zeloso pela sua honra, pronto para executar ordens, rápido no combate, sempre buscando a fama, linda e vazia, mesmo que na boca do canhão. E então é o juiz, barrigudo, estômago forrado de um bom franguinho capão, olhar severo, cabelo e barba bem aparados, cheio de máximas de grande sapiência e exemplos banais, e assim ele encena o seu papel. A sexta idade troca de figurino; agora é Pantalão, magro e de chinelas, óculos no nariz, bolsa de dinheiro ao seu lado, os calções da mocidade bem guardados, o mundo vasto demais para as suas pernas débeis, sua voz potente e viril voltando a ser aguda e infantil, um som cheio de assobios e sopros e chiados. Na última cena, que dita o fim desta admirável história cheia de acontecimentos, temos a volta à infância e o esquecimento, agora já sem paladar, sem dentes, sem enxergar, sem nada.” (Jaques, ato II, cena VII – p. 62)

Este trecho vai além da vida dos atores, pois fala de nós. É a descrição do ciclo humano, a começar pelo simbolismo do número sete, que indica um ciclo: sete cores do arco-íris, sete dias da semana, sete pecados mortais, etc.

É interessante a colocação de que todos nós somos atores, pois, sendo assim, todas as nossas ações já estavam preditas por um roteiro criado por alguém (para alguns, Deus; para outros, a sociedade) — é o determinismo que já surge aqui, no Classicismo, muito antes de ser usado e abusado pelos realistas e naturalistas. Com isto, também somos chamados de falsos ou alienados, pois tudo o que fazemos, não fazemos por vontade, mas por necessidade de cumprir nosso dever, nosso papel; não agimos: fingimos, atuamos (sem saber).

Todos entram e saem de cena, a cena é a vida; cada pessoa representando muitos papéis em seus sete (o simbolismo citado) atos, suas sete idades, que são as fases da vida. Este texto foi escrito em 1599, mas é atemporal, pois é aplicável à época atual. Nesta chamada Pós-Modernidade, onde tudo é líquido (para usar o termo de Zygmunt Bauman), tudo acontece de maneira muito rápida, as relações são frágeis, podemos estar e estamos em muitos lugares, fazendo as mais diversas ações, isto é, como Shakespeare coloca (e que depois Fernando Pessoa faria ao se multiplicar em vários heterônimos): representamos muitos papéis em pouco tempo.

Então Jaques começa a descrever as sete idades, as sete fases, os sete atos da vida humana: primeiro a infância, a criança chorando e vomitando no colo dos outros (para quem não tem ou teve ama, foi na mãe mesmo). Há um pessimismo neste texto, primeiro ao dizer que somos atores, ou seja, não somos livres para agirmos como quisermos; segundo, a infância é dando problema aos outros, ao mesmo tempo em que chorar e vomitar é problema para si mesmo também.

Depois é a idade escolar, caminhando devagar para ir à escola, e, ainda sim, reclamando. Notemos a infelicidade das crianças, até hoje é assim: elas não vão com gosto à escola, vão porque são obrigadas (são os papéis sociais a serem cumpridos). Mesmo sem ter a consciência de que a liberdade está sendo perdida, a criança demonstra que se sente presa; ela não sabe o motivo de ter de ir estudar, só sabe a ordem: é preciso estudar. Além disso, devemos ver como uma crítica à Educação, pois quando é que faremos instituições competentes e que façam os alunos se sentirem bem e com vontade de ir além, de aprender sempre mais e de serem mais (na linguagem de Paulo Freire)?

Iniciando a rebeldia ao ir para a escola, a próxima fase é a adolescência. Sabemos que é a que há mais conflitos e mais desejo de liberdade, no entanto, é a fase em que se começam as paixões mais fortes — tanto “paixões” no sentido de “sentimento amoroso” quanto de “sofrimento”.

É preciso lembrar que durante as paixões é que a imaginação vai mais longe, e Shakespeare, através de Jaques, satiriza muito bem isso. Ao dizer que nessa época os apaixonados fazem cantiguinhas tristes (podemos pensar nas serenatas ou poemas românticos) sobre as sobrancelhas da amada, já mostra a ironia dos quão bobos os adolescentes são. Porém, a imaginação é um ponto de fuga da realidade — lembremos, a maior parte deste texto é pessimista. Se há vontade ou necessidade de fuga, é porque onde se está, não está bem.

Após essa fase vem o início da vida adulta, onde se busca a carreira. No caso é citada a vida do soldado (porque, na época, é quando os homens se alistavam; na verdade, até hoje é assim, mas a maioria é dispensada). É interessante que aqui é quando o ser humano começa a zelar pela moral, isto é, além do seu papel, ele se aprisiona a mais visões e opiniões de outrem.

Cheios de juramentos, grandes melenas (mecha de cabelos compridos) e barba — percebamos a preocupação com a aparência; tudo isso são amarras, são ideais de beleza que são postos para serem seguidos. Na época, o visual do soldado era este; hoje é o cabelo curto, sem barba, sem nada: mas ainda há um modelo que deve ser seguido.

Jaques sabe que tudo isso é em vão, por isso diz que os soldados (que podemos ver como qualquer adulto em qualquer profissão que dê para “subir de cargo”) estão sempre aptos a seguir ordens, sempre buscando a fama linda e vazia, mesmo que morra por isso (“mesmo na boca do canhão”). É um niilismo e pessimismo de Shakespeare, que não vê sentido (considera vazia) a busca por essas questões (honra, fama, aparência), pois ao final elas não valem nada, são meras interpretações.

A quinta idade/ato/fase da vida é aquela em que o ser humano já está estabilizado, já conquistou o que gostaria de ter conquistado e é considerado por muitos como um exemplo a ser seguido (ele mesmo se considera assim, às vezes). Por isso Jaques o chama de “juiz”, pois nessa idade é quando ele começa a julgar os outros, quem está começando a carreira, o que é certo ou errado, bom ou ruim, etc. Mas agora, depois de velho, a preocupação com a aparência muda; não tem mais o cabelo grande nem barba cheia, mas curtos. Considera-se mais experiente, mais inteligente, mais sábio (sabemos que na maioria das vezes nem o é). Na verdade, agora ele é mais moralista.

Depois disso começa o declínio do ser humano, Pantalão (bobo), magro e de chinelas, óculos e bolsa de dinheiro ao lado, é a fase da velhice. Como é dito, o mundo é grande demais para as suas pernas fracas, a voz volta a ser aguda como a das crianças, cheia de assobios, sopros e chiados, isto é, quase não se fala, sai mais ar do que voz.

É interessante a comparação do velhinho, que quase não fala mais, com a infância (“sua voz potente e viril voltando a ser aguda e infantil”), porque a palavra “infância”, etimologicamente, já significa “aquele que não fala; aquele que é incapaz de falar”. Maria Rosa da Costa (2000), em sua dissertação de pós-graduação, nos traz o significado original da palavra:

Da partícula negativa latina in, ‘não’, usada como prefixo, e do latim fans, fantis, particípio presente de fari, ‘falar, ter a faculdade da fala’, forma-se o adjetivo latino infans, infantis, ‘que não fala, que tem pouca idade, que é ainda criança’. O adjetivo infantilis, ‘que diz respeito à crianças, infantil’, e o substantivo infantia, ‘incapacidade de falar, dificuldade em se exprimir, meninice, infância’, são derivados latinos de infans, infantis. (DICIONÁRIO ESCOLAR LATINO-PORTUGUÊS, 1956, apud COSTA, 2000, p. 23).

O idoso, além de ficar bobo como as crianças, também necessita de cuidados, pois seu corpo é tão frágil quanto os de seres em formação, pois já está em desconstrução. Daí a comparação.

Por fim, a última cena do ator, do ser humano, é aquela em que ele volta à infância e ao esquecimento, isto é, volta ao início, quando ele era nada/ninguém. Este trecho nos lembra uma passagem do livro O ano da morte de Ricardo Reis (1988), do escritor Saramago, quando o personagem Fernando Pessoa diz a Ricardo Reis que depois que morremos não desaparecemos por completo: “(...) acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver, mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias vão nos esquecendo um pouco (...)” (p. 80).

Mesmo sem paladar, sem dentes, sem enxergar, sem nada, ainda estamos atuando, ainda estamos vivendo o último ato, ainda fazemos parte da peça e do cenário. Como? Nas falas do outro, quando citam algo que falamos ou falávamos, quando mencionam histórias em que estivemos, quando mostram fotografias, quando se utilizam de algo que criamos. Esta última parte é a única otimista.

As pessoas passam a vida toda atuando, uma após a outra, sem saber o que estão fazendo; Shakespeare/Jaques notou o ciclo de atuações, ele foi mais do que espectador, foi crítico e teórico. Ele criou essa peça que sobrevive até hoje, nos ajudando a sermos mais do que atores, mas espectadores, críticos e analistas também. Não importa quem fez o roteiro, o importante é a chance de atuar; somente tendo a chance de subir ao palco, de estar na vida, é que podemos improvisar e recusar o que nos é dado. Shakespeare ainda está aqui entre nós, pois a sétima idade/sétimo ato/sétima fase nunca termina. Como ele, além de ator, também sejamos criadores de nossos próprios papéis.

Referências

COSTA, Maria Rosa da. Eu também quero falar: Um estudo sobre infância, violência e educação. Rio Grande do Sul, 2000. Dissertação (Pós-graduação em Educação) – Universidade Federal Do Rio Grande do Sul, 2000. Disponível em:

SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. São Paulo: L&PM POCKET, 2013.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Resenha da peça teatral "Como gostais", de William Shakespeare

Sobre o autor e contexto

Apresentações sobre a vida e importância das obras de Shakespeare deveriam ser dispensadas, no entanto, há ainda quem o (e as) desconheça, e, por isso, necessite de algumas palavras sobre este grande escritor e seu importante trabalho.

William Shakespeare nasceu — possivelmente — em 1564, na Inglaterra. Ator, escritor, poeta e dramaturgo, foi um dos maiores homens de seu tempo e continua sendo até hoje.

Autor de clássicos universais como Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo e Sonho de uma noite de verão, Shakespeare viveu e fez parte do período artístico conhecido como “Classicismo”.

Com o início das grandes navegações, descobrimento de novas culturas e formas de vida, criação da imprensa de Gutenberg, a igreja católica perdeu grande parte de seu poder e deu-se início ao fim do período histórico da Idade Média. É o início da Modernidade.

Com a Modernidade e durante o Classicismo, quase todos os valores são trocados. Agora Deus não é mais o centro do mundo, mas sim o homem; usa-se mais a razão em detrimento da emoção; não se evoca mais as figuras cristãs, mas as pagãs, deuses e divindades da mitologia greco-romana. Busca-se o belo, a perfeição e o culto à forma.

Tudo isso por influência dos pensamentos e obras dos escritores e filósofos clássicos, gregos e romanos, que agora, com a imprensa, passaram a ser (re)publicados e lidos novamente. Este novo culto à Era Clássica chamou-se Classicismo, período que Shakespeare viveu e ajudou a formar.

Sobre a obra

Como gostais é uma peça teatral de Shakespeare, uma comédia romântica (final feliz), encenada pela primeira vez em 1599. Embora não seja tão famosa como as outras obras já citadas do autor, Como gostais não perde em nada para elas, desde a complexidade de situações, personagens cativantes, momentos trágicos e cômicos, clichês e até uma frase marcante.

A peça conta a história de Rosalinda, filha de um duque que perdeu os domínios para o seu irmão, Frederico. Após seu pai ser exilado, ela continua na corte, pois o seu tio, o usurpador, sabe que sua filha, Célia, é muito amiga da prima, e sofreria caso ela saísse.

Dentro da corte há três irmãos, Jaques, Orlando e Oliver. Os três são filhos de Rowland the boys, um “rival/adversário” de Frederico. No entanto, Oliver serve a Frederico e, por inveja, humilha seu irmão mais novo, Orlando.

Orlando é um homem cheio de virtudes, por mais que tentem colocá-lo para baixo, ele supera a situação. Numa dessas situações é quando ele conhece Rosalinda e apaixona-se à primeira vista (eis o clichê).

Mas é o tempo de quando ele é forçado a sair da corte por seu irmão e Rosalinda é forçada a sair pelo seu tio invejoso. Célia decide ir junto da prima e Rosalinda dá a ideia de as duas se disfarçarem: ela (Rosalinda), de homem; e Célia, de camponesa, pois a vida na floresta é perigosa para damas.

A partir daí todo o cenário é dentro da floresta — e ninguém reclama dessa mudança, pois é mais confiável viver entre os animais e perigos da natureza do que entre as brigas e intrigas da corte. O próprio Duque Sênior diz: “(...) os velhos costumes não fazem esta vida mais agradável que aquela de pompas artificiais? Não são estas matas mais livres do perigo que a corte invejosa?” (Duque Sênior, ato II, cena I - p. 44). Shakespeare não temia em criticar a elite de sua época e parte de seu público, além de, com este trecho, já adiantar parte do mito do bom selvagem, do filósofo Rousseau.

É preciso ressaltar que naquela época as mulheres não podiam atuar, então, Célia, Rosalinda e outras personagens femininas eram encenadas por homens vestidos de mulher. O drama e a complexidade aumentam quando Rosalinda, que é um ator vestido de mulher, se finge de homem, Ganimedes, e, para enganar Orlando, pede para que ele (Orlando) imagine que ele (Ganimedes) é uma mulher, a própria Rosalinda. É uma quádrupla mudança de gênero: um homem/ator vestido de mulher que se veste de homem que pede para ser imaginado como mulher. Se hoje ainda há conservadores que não gostam nem aceitam mudanças, imaginemos naquela época.

Nota-se, também, que Rosalinda sabe da sua posição de mulher, mas diferente do que é imposto, é ela quem se impõe ao mundo, pensando racionalmente (característica do Classicismo) para superar as adversidades. Porém, é somente quando ela se veste/disfarça de homem, que é tomada, de fato, a dianteira e todos passaram a obedecê-la. É a constatação do patriarcado na sociedade.

Além do pensamento racional na obra, uma outra característica do Classicismo são as figuras mitológicas. Durante a peça são mencionados muito deuses nas expressões dos personagens, além do próprio deus grego Himeneu, responsável pelos casamentos, que é invocado para casar os vários personagens.

Outro fato interessante na obra é a quantidade de versos/estrofes/cantos. Os versos variam desde redondilhas até versos decassílabos e alexandrinos, mas há versos menores também — todos metrificados, como manda a tradição clássica.

Quanto aos personagens, há muitos clichês: o bom moço (Orlando), a boa moça (Rosalinda), a parente amiga (Célia), o irmão invejoso (Oliver) e o vilão que se arrepende (Frederico). Mas há dois personagens diferenciados e dignos de mais atenção, são eles: Touchstone e Jaques.

O primeiro é o bobo da corte e o segundo é um cavaleiro dotado de sensibilidade e poeticidade. O bobo lembra muito a figura do louco, pois é o único que diz a verdade sem se preocupar com as convenções sociais, mas por ser louco, não é levado a sério pela sociedade e termina sendo excluído (Foucault, 2014). É o mesmo caso do bobo Touchstone, que todos até dizem que é inteligente, mas é um bobo, por isso deve ser desconsiderado, que é um caso de azar o dele.

Touchstone é inteligente e sátiro, há um momento em que Shakespeare se utiliza dele para criticar a nobreza, quando um nobre jura algo por sua honra e o bobo diz que jurar por algo que não se tem é fácil, pois mesmo que não cumpra com a palavra, pelo o que foi jurado, por não o ter, não está quebrando a promessa. Ao ser repreendido, ele mesmo diz: “É uma pena, então, que aos bobos não seja permitido falar de modo sábio aquilo que os sábios fazem de modo bobo” (Touchstone, I, II – p. 30).

Já o cavaleiro Jaques é o dono da frase mais famosa da obra: “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis (...)” (Jaques, II, VII – p. 62). Frase que faz alusão à vida dos atores e aos seres humanos em geral, no teatro que é a vida. Este trecho, se completo, por si só já vale um texto.

Este cavaleiro é moldado ao estilo poeta, contemplador da vida e da natureza, da alegria e da tristeza. Aliás, percebem-se em algumas passagens, frases que lembram poemas de outros poetas que vieram muito tempo depois. No caso, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade são alguns deles.

Quando Sílvio diz que gosta de Febe; Febe, de Ganimedes (que é a Rosalinda disfarçada); Orlando, de Rosalinda; e Rosalinda disfarçada de Ganimedes diz não gostar de ninguém, é impossível não nos lembrar do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

E quando o bobo diz que “(...) a verdadeira poeticidade é a mais fingida (...)” (Touchstone, III, III – p. 83), Shakespeare antecede parte do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa.

Por Shakespeare ser poeta, além dos cantos, algumas falas são compostas por jogos de palavras. Por exemplo: “(...) aí temos a Fortuna sendo muito dura com a Natureza quando a Fortuna faz o que é natural na Natureza dar cabo de uma conversa naturalmente inteligente” (Rosalinda, I, II – p. 28) — percebamos, também, o uso de divindades mitológicas e das letras maiúsculas usadas, característica do Classicismo para designar a representação perfeita e absoluta do que está sendo mostrado.

Ou ainda: “(...) Ou com uma espada vil e violenta leve a vida (...)” (Orlando, II, III – p. 48) — vejamos a aliteração em [V] — e na mesma página: “(...) estive a serviço do senhor seu pai (...)” (Adam, II, III – p. 48), utilizando-se de uma aliteração em [S]. Até o bobo Touchstone usa uma linguagem bonita e poética: “(...) Na verdade, eu queria muito que os deuses tivessem te criado criatura criativa, com poeticidade” (Touchstone, III, III – p. 83).

Como sabemos, nenhum período desaparece por completo; então, mesmo no Classicismo, ainda há elementos medievais. Em Como gostais, ao mesmo tempo em que há menções aos deuses mitológicos, há expressões e referências a Deus — e aos ensinamentos cristãos também, como por exemplo, quando Rosalinda diz que o mundo possui somente 6000 anos.

Em suma, se o mundo atual sempre traz elementos das épocas passadas, um dos motivos é por conta de obras semelhantes a Como gostais, que até hoje continua atual. Até hoje há brigas pelo poder; até hoje é necessário relacionar-se com o outro; até hoje reina o patriarcado na sociedade; até hoje (hoje mais do que nunca) precisamos da poesia; e até hoje somos atores e atrizes presos ao nosso papel, que não sabemos quem  criou nem quando terminará, e, assim, atuando, não sabemos nem quem somos.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é estudante do curso de Letras, em IESA, Santo André – SP.

Referências

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 2014.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. São Paulo: L&PM POCKET, 2013.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Análise do clipe e letra da música "My Eternal Dream", do Stratovarius

Em 2015, a banda Stratovarius lançou seu novo álbum, Eternal. A música que o abre é a “My Eternal Dream”, que também recebeu um videoclipe muito bem trabalhado; para alguns, o melhor videoclipe da carreira.

Com este texto, não pretendo esvaziar as imagens do videoclipe e de toda a música e letra, mas procurar conciliar os sentidos entre elas. Primeiramente, vamos à tradução:

Meu sonho eterno

Ainda me lembro de quando eu era uma criança
Tão curioso, aventureiro e selvagem
Olhava para o mundo com os olhos abertos!
Eu não sabia diferenciar as verdades das mentiras.

Ensinaram-me como viver, como comportar-me
Me disseram como andar, como falar, como conhecer meu lugar
Todos aqueles anos eu procurei o meu caminho
O mundo era meu palco...

Então eu transformarei cada sonho
Em realidade.
E através das trevas, eles serão
A luz a guiar-me!
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada
Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno.

Agora eu posso ver tudo tão claro
Não há limites nem fronteiras
Eu não mudaria a estrada em que estou
Meus sonhos viverão muito após eu partir!

Aprendi que eu tenho que fazer o que for preciso
Eu cometo erros, eu devo cair para levantar-me novamente!
Quebrar as regras, todas as correntes que me seguram
Eu posso me afundar, mas não irei me afogar!

Então eu transformarei cada sonho
Em realidade.
E através das trevas, eles serão
A luz a guiar-me!
Mostrarei que não posso ser domado/domesticado
Quando eu me for, lembrem do meu nome!
Vou gentilmente à noite...
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada
Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno.

Transformar cada sonho
Em realidade
E através das trevas eles serão
A luz a guiar-me.
Mostrarei que não posso ser domado/domesticado
Quando eu me for, lembrem do meu nome
E não desistirei da luta
Vou gentilmente à noite
Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada...

Continuarei, serei forte sozinho...
Tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno!
//

A letra é bem direta, sem muita subjetividade, por isso mesmo, os comentários feitos aqui serão mais voltados ao videoclipe. Como se vê, a música é uma “confissão” de um eu-lírico, na qual ele conta sobre seu passado, presente e o que pretende para o futuro. Sobre o clipe, ele está repleto de antíteses, que serão comentadas conforme forem surgindo.

O vídeo começa com uma sombra vindo em um reflexo num pedaço de vidro, o que já mostra que a música será ou terá uma projeção (um desejo) de alguém, que não sabemos ainda quem, por isso mesmo, a sombra.

O clipe inteiro é em preto e branco, exceto quando aparece a banda tocando. Isso se explica com o primeiro verso: “Ainda me lembro de quando eu era uma criança”, ou seja, o eu-lírico está falando sobre seu passado, logo, essa parte do vídeo possui somente duas cores; já a banda, por estar fora deste tempo, aparece em coloração normal.

É preciso diferenciar a banda, que é a autora, do eu-lírico. O eu-lírico é aquele que sente, que conta, que narra; a banda é quem o criou — “criou, pois não é uma representação dos membros. Por exemplo, não é porque alguém criou uma história em que o personagem principal é triste, que o autor é ou está necessariamente triste. Às vezes acontece, realmente, de ser uma projeção, mas é raro e não é digno de muita atenção, pois o que importa é a obra, não o que o autor está(va) sentindo ou querendo dizer, mas, sim, o que foi ou o que está sendo dito.

Pois bem, sabendo que estamos no passado do eu-lírico, vê-se uma criança em um local vazio e destruído, o que pode significar não somente o lugar, mas o interior dela. É uma antítese de imagens: uma criança, que é um ser social e em construção, em um local solitário e em decomposição.

Quanto à sonoridade, a música é bem rápida, típica do gênero que a banda faz parte, o Power Metal. É uma tradição neste estilo iniciar os álbuns com uma música agitada, assim como terminar o álbum com uma balada (o que não é o caso de Eternal).

Percebemos que a criança não aparenta estar feliz nem que anda livremente, mas escondendo-se. Não sabemos, mas aparência dela é de alguém do Oriente Médio e o local apresentado é parecido com o de guerra. Como o cenário já dava indícios, surge um velho ferido/doente e a criança o ajuda. Só então, a banda começa a cantar.

Notemos o tanto de antíteses que já surgiu em menos de um minuto: o clipe em preto e branco; um ser social em um lugar antissocial; e o encontro da criança, alguém cheio de vida, com um velho, alguém que lhe resta pouca.

Como havia sido dito, é mostrada a infância do eu-lírico; diz-se que quando criança era aventureiro, selvagem —“era”, hoje em dia ou tempos depois, pode ser que não mais — e que olhava o mundo com os olhos abertos (característica da curiosidade) e que não sabia diferenciar o certo do errado (verdades das mentiras).

Este trecho é muito interessante, porque aparece uma criança menor do que a primeira, brincando com soldadinhos de brinquedo, enquanto passa imagens de soldados de guerra. Ou seja, a criança achava que brincadeira e realidade eram a mesma coisa, por ser ainda pura (característica da criança — pelo menos da criança idealizada). Pode-se pensar também que ela acreditava no que diziam (ou no que ela imaginava), em ideologias, que todo soldado é bondoso e justo, e isso faz com que ela deseje ser como eles. Principalmente por viver em um local de guerras, onde se precisa ser forte. Depois retornarei a comentar sobre isso.

Em seguida, o eu-lírico diz que o ensinaram como agir, como se comportar, andar, falar e se reconhecer, que por anos ele procurou qual era o seu caminho e que o mundo era o seu palco. Mais do que ensinamentos, são as ordens, a “domesticação” do ser. Quantas vezes gostaríamos de fazer algo, mas nos foi ensinado que aquilo é errado ou de que não deve ser feito? O mundo era o palco (notemos o “era” novamente), pois, sendo palco, tudo o que ele fazia era cumprindo o seu papel, era o que tinha sido programado/ordenado para ele fazer, era fingimento, atuação, mas agora ou depois de certo tempo, começou a agir como queria.

Essa visão é vista na letra, mas no clipe o que é visto são boas ações das crianças. Se elas ajudam quem precisa, é porque alguém as ensinou. É o oposto do que se pensa quando não assistimos o videoclipe. Vê-se que o vídeo não fala somente de uma pessoa, mas de uma família que se forma: duas crianças, o velho e um soldado. Como havia sido dito, o cenário é de guerra, além dos soldados que já foram mostrados, a criança menor corre por entre os campos (enquanto a o eu-lírico diz que por anos correu procurando pelo próprio caminho), enquanto bombas explodem ao seu redor, até que ela chega em um local seguro, que é onde a outra criança, esta maior e mais velha, está.

Tudo isso é mostrado no início do refrão: “Então eu transformarei cada sonho/ Em realidade./ E através das trevas, eles serão/ A luz a guiar-me!/ Estou por conta própria, andando sozinho por esta estrada/ Continuarei, serei forte, tudo o que eu preciso é do meu sonho eterno”. Vemos que a criança mais velha acolhe a mais nova, assim como acolheu o velhinho, mas é interessante perceber que, antes disso, o menino maior, antes de ver o mais novo, já estava com uma faca na mão, todavia a guarda quando percebe ser alguém inocente. Por vivermos sob situações ruins, perdemos a inocência conforme a experiência, e tornamo-nos “desconfiados”, às vezes, até mesmo pessimistas.

Sobre a letra, agora não se fala mais do passado, mas sobre o futuro. Diz-se que transformará os sonhos em realidade que, por sua vez, é ruim, pois a chama de “trevas”, enquanto os sonhos serão a luz (outra antítese: trevas-luz). Antes, o eu-lírico havia dito que o mundo era o palco (local de performances), mas agora diz que está agindo sozinho por conta própria, ou seja, livrou-se daquele roteiro que havia sido preparado para ele. Termina-se o refrão com a imagem da criança mais nova sendo alimentada pela mais velha.

Após esta cena, a criança mais velha encontra-se com um soldado ferido (o mesmo do início), enquanto é cantado que agora o eu-lírico percebe tudo claramente, que não existe limite nem fronteiras; assim, a criança ajuda-o também. É interessante essa parte, pois mostra a besteira que é as pessoas lutarem entre si, cada uma defendendo um pedaço de terra porque alguém mandou e elas acreditaram, como se realmente existissem donos. As fronteiras são linhas imaginárias. Não há necessidade de ódio por quem está do outro lado, por quem defende, embasada e culturalmente, outras ideias. Pelo o quê e por que lutamos?

São questionamentos e respostas que não pertencem somente ao eu-lírico, mas a todos. Esse ideal de questionar, de ser livre, de ser quem quiser ser, não é um sonho somente dele, por isso mesmo é dito em seguida que os sonhos viverão além. Morremos, mas alguns ideais, não.

Enquanto canta-se dizendo que o eu-lírico aprendeu que tinha que fazer o que fosse necessário pelo que deseja, é mostrada a criança mais velha fazendo o possível para manter vivo aquele soldado ferido. É uma estrofe de consciência e de antíteses, pois para fazer o que desejamos e usufruirmos da nossa liberdade, é preciso quebrar regras e livrar-se de tudo o que nos prende, tal como foi descrito. Interessante é que quando é falado “(...) Eu posso me afundar, mas não irei me afogar”, a criança dá um pouco de água para o soldado que está deitado, e ele quase cospe; é visto o sofrimento dele para não morrer, quase como um afogamento.

Retorna novamente o refrão de esperança, mas acrescentado de alguns versos. O eu-lírico diz que não pode ser domesticado/domado, em contraste ao início da música: “(...) Ensinaram-me como viver, como comportar-me / Me disseram como andar, como falar, como conhecer meu lugar”, que assim como o sonho que ficará para os próximos, o seu nome também, isto é, como lembrança do idealizador.

No videoclipe, surge uma moça que aparenta ser uma freira, que mostra conhecer o menino mais novo, trazendo comida e bebida para os refugiados (além da criança mais nova, há o soldado e o velho). Neste momento do vídeo, a criança, diante do soldado deitado, segura uma faca, enquanto o soldado a tira das mãos e lhe dá um lápis.

 Lembremo-nos de que essa mesma criança já brincava com os soldadinhos de brinquedo e que havia sido comentado que isso poderia aparentar o desejo dela de seguir aquele caminho, o da violência, o da guerra, e aqui o verdadeiro soldado mostra-lhe um lápis, significando que a guerra não é o melhor caminho, que a luta não é só feita entre armas, mas entre ideias e palavras; que crianças deveriam estudar, ao invés de (pensar em) lutar; que a educação pode mudar a situação.  É um rompimento com o paradigma, com o determinismo local. E então se dá início ao solo.

Enquanto acontece o solo da banda, a mulher tira e põe novamente o véu na cabeça, significando a mudança de estado/andamento dos acontecimentos, assim, a criança, que pensava nos soldados e na faca, começa a desenhar um pássaro na parede. Após o desenho estar feito, a moça chega ao lado e segura um raminho na frente do bico da ave desenhada, juntando, assim, metaforicamente, desejo/sonho e realidade. 

Quando o teclado da música para e deixa somente o som da guitarra, muda-se totalmente o sentido do clipe; o que estava sendo visto como uma “melhora”, de repente, piora. O ferimento do soldado agrava-se novamente e ele acaba morrendo. Em um momento de tristeza, ainda surge um inimigo procurando por alguém. Interessante é que a aparência deste outro soldado é diferente; a roupa não é do exército, é um terno, e a aparência do rosto lembra os europeus. Pode ser visto como uma crítica consciente da banda de que os opressores nem sempre são os que aparentam ser (há quem acredite que somente os países do Oriente Médio é que são os errados nas guerras; europeus e americanos são sempre os “bons moços”).

No entanto, ele não acha ninguém. Retorna o refrão. É preciso ressaltar que quando se diz “Vou gentilmente à noite”, pode-se pensar no “fim”, pois quanto mais lutamos por algo, mais avançamos ao fim da vida. No entanto, irmos sabendo disso e por vontade própria, não é problema, por isso o “gentilmente”. Ruim é quando vamos sem querer e sem saber...

Os quatro personagens do clipe caminham, mas o velhinho possui dificuldades em continuar e senta-se. Nisto, o menino mais novo corre e entra num cômodo destruído (como todo o resto do cenário), e traz um pássaro nas mãos. Com isso, o velhinho levanta-se e todos se reúnem ao redor do menino e da ave.

Lembremos que o menino havia desenhado na parede um passarinho e agora ele encontra-o. O pássaro pode significar a liberdade e o sonho, pois não é preso a nada, voa por onde quiser, assim como o eu-lírico da letra deseja o tempo todo. O que antes era somente um desenho, após o último soldado ir embora (e ele representando o perigo), agora está nas mãos de todos. É a concretização do sonho de liberdade. Todos ao redor de algo, todos ao redor de um sonho. E para terminar, como já havia sido mostrado algumas vezes, a câmera mostra a banda com uma visão de cima, assim como a visão dos pássaros.

O clipe é dramático, mas a letra é bem positiva. Atualmente, ser otimista, defender ideias que defendam o outro ou um “futuro melhor” é motivo para ironias e deboche (sabendo disso, que é um caminho difícil e para poucos, o eu-lírico diz que continuará e será forte sozinho, pois para continuar é preciso apenas de um sonho eterno), ou considera-se utopia, mas lembremos que somente o sonho, o desejo, a meta, a utopia, é que nos faz seguir em frente. Antes de fazermos o que existe, imaginamos algo que não existe.

PS: Por fim, gostaria de dizer que alguns até podem dizer que estou vendo sentidos e significados demais onde não há, mas creio ser melhor assistir a um videoclipe, achar sentidos além do explícito e conseguir explicá-los, do que assistir e não ver nada além do óbvio. Imaginação faz parte da arte, mas faz falta à maioria das pessoas (imaginação e arte).