FOUCAULT, Michel. A
ordem do discurso. 24. ed. São
Paulo: Edições Loyola, 2014.
A
ordem do discurso (2014) é um livro que contém todo o conteúdo
da aula inaugural do filósofo Michel Foucault, no Collège de France, em 1970, em que ele substitui o lugar do
professor Hypollite, que havia falecido.
O livro é totalmente metalinguístico, pois ao mesmo tempo
em que Foucault faz o seu discurso, ele discute sobre o mesmo. O filósofo inicia,
então, dizendo que gostaria de não começar a falar, pois sente uma “pressão”
vinda do local e das pessoas ao seu redor. Em suas palavras: “Existe em muita
gente, penso eu, um desejo semelhante de não ter de começar, um desejo de se
encontrar, logo de entrada, do outro lado do discurso (...)” (p. 6).
É que nem o discurso nem o lugar são neutros. Quem fala,
mesmo que seja um convidado, é vigiado pelo outro, por isso existe a tensão ao
discursar. E em cada local há regras implícitas que “norteiam” o quê e como a
palavra deve ser dita e ouvida.
Foucault supõe que em todas as sociedades “(...) a
produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e
distribuída por certo número de procedimentos (...)” (p. 8), ou seja, se há
rituais na sociedade, haverá rituais para com os discursos.
Dois exemplos que ele dá são os assuntos da sexualidade e
da política, tabus da sociedade. São temáticas consideradas como perigosas, em
que, sobretudo, exerce-se o poder de interdição sobre elas. Porém, pelo mesmo
motivo que querem excluí-los das discussões, é que mostra o quanto eles possuem
poder.
O filósofo lembra, então, da figura do louco, que sempre
teve o discurso interditado, excluído, rejeitado: “(...) Desde a alta Idade
Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros
(...)” (p. 10), sendo assim, desconsiderado ou interpretado como visionário. No
entanto, é por ele não obedecer às instituições (que impõem as regras e causam
a “tensão”), que diz o que quer e o que realmente pensa. É livre.
Pode-se pensar que o louco era excluído somente no
passado, mas até hoje é assim, pois os únicos que os ouvem são os médicos e os
psicólogos/psicanalistas. Ora, se eles são mandados para estes locais, é porque
ainda são rejeitados na sociedade pelo o que são.
Foucault explica como os discursos eram valorizados na
Antiguidade Clássica, sendo considerados “verdadeiros” somente aqueles que
falavam sobre a justiça, de forma preciosa e bonita, geralmente ditos por
alguém de status. Com o tempo,
deixou-se de considerar os discursos pela posição dos discursadores, mas sim pela
sua coerência.
Essa divisão se deu pela “vontade de saber” (p. 15). As
influências da época e da sociedade mudam a forma de pensar e de considerar os
discursos. Assim, ao escapar de uma regra para ser considerado verdadeiro, o
discurso sofre interferência de outras esferas. Por exemplo, quem quiser ser
considerado como verdadeiro no ramo da ciência, deverá obedecer as normas daquela
área; e, continuamente, o que estiver fora desses conceitos será excluído e
tido como falso.
Há, portanto, três grandes sistemas de exclusão da
sociedade que afetam o discurso, que são: “(...) a palavra proibida, a
segregação da loucura e a vontade de verdade (...)” (p. 18). E há dois tipos de
discurso: os que são ditos no dia a dia e os que são e serão ditos “sempre” (os
literários, científicos, religiosos, etc); os primeiros podem ser ditos sobre
os segundos, tomando a forma de “comentários”, mas nunca os substituem.
Após fazer estes levantamentos, Foucault discute a
existência e a influência do autor. Novamente, ele comenta sobre o passado, em
que, na Idade Média, era “(...) indispensável, pois era um indicador de
verdade. Uma proposição era considerada como recebendo de seu autor seu valor
científico. (...)” (p. 26). Enquanto com o passar dos séculos, na ciência, esta
valorização do autor diminuiu, por outro lado, no campo literário, na mesma época,
o valor do autor só aumentou.
É importante ressaltar a importância do autor, pois ele é
dono não só da obra como do estilo e do método usado para alcançar tais objetivos,
porém, para discutir algo novo, pede-se “(...) novos instrumentos conceituais e
novos fundamentos teóricos (...)” (p. 33). É por este motivo que muitos autores
não são compreendidos em seu tempo, mas postumamente, porque seus discursos não
estão no que se considera “verdadeiro” (naquelas regras, leis, disciplinas, ordens etc) daquele período.
Dentre as disciplinas que o discurso deve seguir, há os
rituais. O ritual define as formas de recitação, de gestos, de comportamentos, e,
assim, define a qualificação e a eficiência do discurso. Percebem-se diferentes tipos de
rituais em conferências acadêmicas, encontros religiosos, judiciários, políticos etc.
Cita-se que existiram “sociedades do discurso”, que
guardavam e produziam formas e conteúdos de textos (geralmente orais) somente
para si, como os rapsodos. Embora não existam mais tais grupos, o modelo de
guardar e de produzir conhecimento ainda existe em outros meios e em outras
esferas sociais fechadas. Por exemplo, não são todos que possuem acesso ou que compreendem textos filosóficos e científicos, mas um grupo seleto. Esta
“doutrinação” une certos indivíduos, ao mesmo tempo em que separa e os diferencia de todos os outros.
Um fator interessante sobre os discursos é que eles
existem antes mesmo de serem manifestados. Antes de serem pronunciados, já
existe um tema, uma ideia, uma vontade e um sentido, que serão expostos através
das palavras, dos signos, das marcas etc., que estão disponíveis.
Foucault pontua que, para analisar os discursos, deve-se “(...)
questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de
acontecimento (...)” (p. 48), assim, tirando-os da ordem somente de “significante”
e analisando-os como algo concreto. Com isso, investiga-se como eles se formam
e o que está por debaixo deles.
Às vezes, ver-se-á que por baixo das palavras não há
coerência nem continuidade, mas divergência, porque, na verdade, os discursos devem
ser vistos como “(...) práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas
também se ignoram ou se excluem” (p. 50).
Outro princípio abordado é o da “’especificidade’” (p. 50), o qual revela que todo discurso é
ideológico. Ele não demonstra o que o mundo ou as coisas são, apresentados
claramente por quem fala, mas o que foi imposto (dito) sobre tais assuntos. Portanto,
é possível (e preciso) buscar a intenção do discurso.
Para isso, é necessário procurar o contexto do enunciado,
pois é ele que determina a limitação do discurso, do comentário, do conteúdo,
do autor, além de definir quais os métodos e disciplinas a serem seguidas.
Notam-se, assim, num mesmo contexto, diversas manifestações
sobre um mesmo assunto, uma vez que elas são heterogêneas. Portanto, sua
análise “(...) liga-se aos sistemas de recobrimento do discurso; procura
detectar, destacar esses princípios de ordenamento, de exclusão, de rarefação
do discurso (...)” (p. 65). A investigação “(...) não desvenda a universalidade
de um sentido; ela mostra à luz do dia o jogo da rarefação imposta, com um
poder fundamental de afirmação (...)” (p. 66).
Em seguida, no último capítulo do livro, Foucault discute
sobre a importância do ex-professor — a quem ele estava substituindo — Jean
Hyppolite. Fala-se sobre os seus métodos e a influência de Hegel em sua conduta,
como ele confrontava muitos importantes filósofos modernos; a forma que ele via
a filosofia, como “(...) o fundo de um horizonte infinito, uma tarefa sem
término (...) tarefa sempre recomeçada” (p. 70).
Enfim, vê-se todo o reconhecimento e admiração que Michel
Foucault possuía pelo ex-professor. O filósofo termina o livro de forma muito
bela, voltando ao assunto do início da aula/livro, dizendo que agora compreende
o motivo de sentir aquela pressão ao discursar, ali, no Collège de France. Com suas palavras: “(...) Sei o que havia de tão
temível em tomar a palavra, pois eu a tomava neste lugar de onde o ouvi e onde
ele não mais está para escutar-me” (p. 74).
A
ordem do discurso é um excelente livro, que se propõe a
desvendar as relações entre os discursos e os poderes que eles possuem; como
eles se formam, como os enunciados eram vistos no passado, como são agora e como
a sociedade cria e se apropria dos discursos para se apoderar das situações. Em
suma, é um livro recomendado para todos aqueles que se interessam pela
interação e pela linguagem humana.
Michel Foucault nasceu em 1926, na França, e faleceu em
1984. Foi um renomado filósofo de sua época, dentre as suas maiores obras estão
Vigiar e punir (1975) e Microfísica do Poder (1979), além de
estudos sobre a sexualidade.
Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André – SP.