sábado, 18 de abril de 2015

Análise do Soneto XIX, de William Shakespeare

De maneira (muito) resumida: Shakespeare foi/é um dos maiores autores que o mundo já viu, nascido possivelmente em 1564 e falecido em 1616, desenvolveu suas obras (poemas e peças teatrais) no período do Classicismo.

O Classicismo encontra-se dentro de um período histórico chamado Renascimento, que foi uma época de grandes mudanças em todos os âmbitos (sociais, religiosos, filosóficos, econômicos, políticos etc.): iniciam-se as grandes navegações, começa-se a mudança de sistema (feudalismo para "capitalismo"), a igreja católica perde seu poderio, muda-se a visão de teocentrismo para o antropocentrismo  e, principalmente, surge a Imprensa de Gutenberg.

Com a imprensa, muitos livros são publicados, assim, as ideias e obras de filósofos passam a ser conhecidas por muitos. Surge uma nova mentalidade, o homem considera-se em um período iluminado e renascido. Cheio de descobertas, busca diferenciar-se de outrora, agora buscando elementos da cultura grega e romana para adotar em suas obras. Portanto, a arte será racional; valorizarão a ciência, o engenho e valores da Era Clássica. Que fique claro: de maneira (muito) resumida.

Traduzido por Ivo Barroso, este soneto faz parte de "Os Melhores Sonetos de William Shakespeare" (Saraiva de Bolso). Como se sabe, o soneto é composto por 4 estrofes, sendo 2 quartetos (estrofes com 4 versos) e 2 tercetos (estrofes com 3 versos), podendo ser decassílabo (versos de 10 sílabas poéticas) ou alexandrino (versos de 12 sílabas poéticas).  Mas existe um "tipo" de soneto próprio de Shakespeare, também chamado "soneto inglês". Este modelo possui a estrutura de 3 quartetos e 1 dístico (estrofe de 2 versos); diferente do soneto italiano, o soneto inglês não é feito em estrofes separadas, mas todo junto; apenas os dois últimos versos se diferenciam por estarem 2 espaços à frente dos outros. Mantendo a fidelidade ao livro, eis o poema:
  
Soneto XIX

Tempo voraz, ao leão cega as garras
E à terra fazes devorar seus genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangue a eterna fênix. 
Pelo caminho vão teus pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo e aos gozos passageiros,
Mas proíbo-te um crime mais nefando:
De meu amor não vinques o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! permite que intacto siga avante 
Como padrão do belo no futuro.
  Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
  Pois jovem sempre há-de o manter meu verso.

//

Temos, então, aqui, um soneto decassílabo, ou seja, cada verso possui exatamente 10 sílabas poéticas (lembrando que sílaba poética não é o mesmo que sílaba gramatical). Quanto ao esquema de rima, segue-se: ABAB - CDCD - EFEF- GG. Percebemos o uso de antíteses com as palavras: garras/desgarras (mesmo em sentidos diferentes, uma sendo substantivo e a outra sendo verbo), vão/deixando, alegres/tristes, eterna/passageiros, proíbo/permite, belo/perverso, futuro/antes, velho/jovem.

Quanto ao conteúdo, o poema mostra um monólogo entre o eu-lírico e o Tempo - perceba que o "Tempo" sempre aparece com letra maiúscula, pois é uma das características da cultura grega. Não se trata do "simples tempo", mas sim, do "Senhor Tempo", como se fosse uma divindade.

Inicia-se com o eu-lírico falando das consequências do tempo sobre as coisas e seres, como as garras do leão que se tornam cegas ou as presas do tigre que se desprendem; além da terra que devora aquilo que está sobre ela, no caso, são citado os "genes".

Fiquemos atentos à forma como foi colocada os genes: "Tempo voraz, ao leão cega as garras/ E à terra fazes devorar seus genes (...)". Há um duplo sentido nessa frase. Ao mesmo tempo em que nos faz pensar que o tempo faz a terra devorar os genes do leão que teve as garras cegas, também nos faz pensar que a terra devora os próprios genes (num ciclo), como se a vida tivesse vindo da terra — podemos até se pensar que o eu-lírico refere-se aqui à Bíblia, por nela ser dito que Deus criou o homem do pó, da terra.

Embora o elemento cristão não seja parte principal das características ou pensamento do Classicismo, há ainda algumas passagens que nos remete à religião cristã e ao medievalismo. Termina-se a primeira estrofe com o eu-lírico dizendo que o Tempo arde no próprio sangue a fênix, que, lembremos, é um ser mitológico da Grécia (que é onde os "classicistas" buscavam elementos); uma ave que vivia 500 anos e após isso, renascia das cinzas, significando o renascimento e imortalidade (o próprio eu-lírico diz: "[...] a eterna fênix").


Na segunda estrofe, ele diz o quanto o tempo passa rápido e alegremente, deixando as estações tristes (percebamos a antítese), a tristeza, para trás. É dito, também, que o Tempo impõe-se ao mundo, fazendo tudo ser passageiro (assim como já dizia o filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, na Grécia); e termina a estrofe proibindo — ou seja, o eu-lírico está opondo-se àquele que se opõe a tudo — o Tempo de um único ato: não arrancar a face do seu amor, nem nele imprimir o seu traço duro, para que ele siga intacto e como modelo de belo para o futuro.

É bom lembrarmos que dois dos ideais gregos eram a busca pelo belo, pela perfeição; e pelo padrão/forma a seguir, que aqui o autor também busca. O próprio soneto é considerado um modelo perfeito e extremamente racional, é uma fórmula/estrutura considerada perfeita/bela.

O eu-lirico diz ainda mais: já anuncia que o Tempo obedecê-lo-á, deixando seus versos jovens para sempre, ou seja, eternamente atuais. Isso mostra o quanto o eu-lírico, representando o homem, considerava-se acima de tudo, no centro de tudo. O que era realmente o pensamento da época.

// 

E assim como foi dito, os poemas de Shakespeare até hoje continuam atuais. Ele realmente se impôs ao Tempo, assim como todos os grandes autores e obras. Todos os notáveis pensadores/autores, de qualquer área e época, já estavam além de sua época. Não é à toa que levamos anos para entendê-los.

sábado, 11 de abril de 2015

Buscas

O perfeito é belo,
maravilhoso,
por isso o desejamos.
Nós somos imperfeitos,
feios e horrorosos,
porque somos humanos.

Quem busca,
busca o que não tem,
busca o inexistente.
Buscamos o que 
não se encontra 
na gente.

Por isso a perfeição
é ilusão.
Se buscamos bênção,
possuímos maldição.

Ser

Por que tentar
se convencer
a parecer
um ser pensante?

Deve-se insistir
em não mentir a si.
Não parecer,
e sim,
ser tal ser.

quinta-feira, 12 de março de 2015

sábado, 7 de março de 2015

Uma pequena reflexão #3

Não é muito raro encontrar pessoas que pregam a bondade e o amor, quando, na realidade, esperam somente reciprocidade. Vemos isso frequentemente: alguma pessoa sente atração ou simpatia por nós, não apenas sente como também demonstra. Essa demonstração acontece por meio de presentes ou presença — e é sempre dito que é pelo nosso ser, que não deseja nada em troca a não ser que continuemos a sermos como somos.

Mas percebe-se que isso geralmente acontece quando se está em um início de relação, e que esse começo sempre vem carregado de entusiasmos de primeiro momento. Deve-se pensar, também, que não passamos 24 horas junto da pessoa; e que quando nos vemos, é quase sempre no mesmo horário e local. Quero dizer que, em cada local, horário e situação, agimos de maneira específica: quando alguém diz nos admirar pelo o que somos, não é pelo o que somos integralmente, e sim naquelas ocasiões e circunstâncias que nos conhecemos.

Ora, isso é óbvio e não é problema nosso; o problema surge quando o indivíduo passa a nos superestimar pelo aquilo que ele conhece. Aí, assim que começa a nos conhecer de verdade (muita vezes sufocando), não vê mais aquela pessoa de outrora.

Dependendo da pessoa, acredita até mesmo que o seu olhar está diferente, mas não é só o olhar, é a visão também. Isso porque não nos vê mais como "éramos", mas (que ironia) como somos. A bondade pregada muda por uma reciprocidade não recebida — ou percebida —, e não é só isso: culpa-nos por termos mudado, culpa-nos pela visão distorcida que criou.

Atualmente, em redes sociais, vemos muitas pessoas utilizando-se de frases "filosóficas, literárias e aleatórias" (fora de contexto) para mostrar (muitas vezes, fingindo) como se sentem, no caso: desiludidas — como se a ilusão fosse algo ruim; ruim é a realidade —, traídas e desapontadas. Tratando-se como vítimas e coitadas (moral dos fracos, segundo Nietzsche); tudo isso nada mais é do que o fruto de uma projeção do eu no outro, criada pela imaginação e vontade/desejo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Uma pequena reflexão #2

Já faz um tempo que muitas pessoas não aceitam elogios verdadeiros vindos de pessoas verdadeiras. Há um medo, um desconforto ao ouvir algo que lhe é bom, que lhe é favorável, como se o elogio fosse um fardo a ser carregado: uma responsabilidade.

As pessoas negam seus "dons", seus dotes, suas virtudes, para se mostrarem "humildes"; para se mostrarem "modestas" — quase como um arrependimento pelas suas qualidades (Schopenhauer diz isso).

A modéstia tornou-se uma das maiores virtudes humanas, e o que é isso senão a negação de seus próprios valores, de sua própria vida? Isto é: a decadência do ser (que Nietzsche diz ter começado com o cristianismo). 

É notório que as pessoas aderem mais aos adjetivos ruins do que aos bons. Vivemos em uma sociedade falsa e depressiva (não é à toa que livros de autoajuda vendem aos montes).

O objetivo

Não quero imagem
nem corpo.
Eu quero alma.

Alteridade,
profundidade,
quero alcançá-las.

Cada pessoa,
cada passagem,
são tatuagens.

Mas no exterior
é fraca a dor —
e elas somem.

Cravar um nome
por dentro
leva-se tempo.

E é lá que quero chegar,
o último patamar:
o coração.

Assim, minhas palavras
serão lembradas.
Querendo ou não.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Resenha do artigo "Gêneros textuais e (ou) gêneros discursivos : Uma questão de nomenclatura ?"

DIAS, Eliana; MESQUITA, Elisete Maria de Carvalho; FINOTTI, Luísa Helena Borges; ET AL. Gêneros textuais e(ou) gêneros discursivos: Uma questão de nomenclatura? Disponível em: <HTTP://www.eses.pt/interaccoes>. Acesso em: 22 de fevereiro de 2015.

Este artigo tem como base interrogar e explicar o uso e o motivo de alguns teóricos usarem os termos “gênero textual” ou “gênero discursivo”, algo que muitas vezes é usado ou entendido erroneamente, ou como se possuíssem o mesmo significado. Para isso, as autoras buscaram respostas e definições em obras de Bakhtin, Adam, Bronckart, Rojo e outros estudiosos.

Em apenas 12 páginas de conteúdo, é explicitado o início desta “confusão” de termos, desde as interpretações sobre linguagem de Bakhtin até os dias atuais, com outros teóricos. Explica-se aqui o que é gênero textual e discursivo, se há diferenças entre os dois, como são formados, de quê são formados e como devem ser entendidos.

Começam com a perspectiva de Bakhtin sobre o que é linguagem e como ela é formada (enunciação, polifonia, dialogismo e a própria noção de gêneros – p.144). Fica-nos claro que, para Bakhtin, o enunciado, para ser criado, precisa de uma interação entre um ser, um contexto histórico e um diálogo entre pessoas de uma mesma cultura.

Para cada situação, usamos um gênero para expressarmo-nos, e esse gênero é criado a partir de um tema, estilo e estruturação. Por isso, devemos sempre entender o momento histórico em que o texto foi criado, porque o texto sempre será o mesmo, o que mudará serão as interpretações sobre ele.

Vale ressaltar a complexidade do estilo, que é dito que quase sempre será individual, mas que, muitas vezes, dependendo do gênero escolhido para transmitir nossas ideias, devemos usar o estilo próprio do gênero.

As autoras se utilizam de Bronckart para explicarem que o texto é que forma o gênero, sendo que o texto é formado por concepções da Linguística Textual e da Gramática Tradicional (p.147), isto é, estruturação, mecanismos de textualização (coerência e coesão) e mecanismos enunciativos. Podemos dizer que esses elementos formam os gêneros textuais.

Por outro lado, os gêneros discursivos se utilizam dos gêneros textuais para “criarem vida”, ou seja, dentro de um texto há sempre as ideias de quem o fez. Um texto é formado, primeiramente, pelo discurso e pelos ideais do locutor, partindo de um tema, estrutura e estilo, cria-se o gênero, que, enfim, alcança o interlocutor.

Tendo-nos a competência discursiva, utilizamos dos inúmeros gêneros textuais para repassarmos nossas intenções da forma que queremos (ou podemos). Assim como os gêneros textuais dependem de cada contexto histórico, os gêneros discursivos dependem de um conhecimento antecipado de como se pronunciar, para quem, sobre o quê, entre outros fatores de quem os usará. Os discursos são usados a todos os momentos de nossa vida, em todas as situações proferimo-los.

Eliana Dias; Elisete Maria de Carvalho Mesquita; Luisa Helena Borges Finotti; ET AL.

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior, aluno do curso de Letras, em IESA, Santo André - SP.

Abrigo

Não é à toa que amigo rima com abrigo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Mero idealismo

Se sonhar faz bem
e causa-me alegria,
sonhar contigo
é mais que fantasia:
deixa de ser sonho
e torna-se utopia.