terça-feira, 27 de junho de 2017

Embasamento teórico para a elaboração do livro "As primeiras palavras de uma criança" (2017)

“(...) A literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.” (COELHO, 2000, p.15).


É com esta citação que inicio esta pequena defesa e justificativa da escrita e da leitura de textos e de livros infantis, que são (os textos e livros infantis) uma forma (riquíssima) de demonstração, compreensão e formação do mundo e do indivíduo ainda criança/adolescente.

Hoje, lê-se cada vez mais, por isso, deve haver boas referências no campo da literatura, não apenas vindas de autores clássicos e consagrados, mas de novos escritores também. Afinal, os tempos mudaram, logo, alguns conceitos e valores idem. Assim, as temáticas, as figuras e as abordagens sobre o mundo e a literatura infantil devem mudar. É isso o que As primeiras palavras de uma criança (2017) tenta propor.

As primeiras palavras de uma criança traz algumas memórias e vontades de um menino chamado Magno Júnior. De certa forma, pode-se dizer que é um texto metalinguístico, pois o narrador/personagem está escrevendo um livro — inclusive, ele mesmo (o Magno) diz que fará as imagens, mas que, no caso, quando lêssemos a história, elas já estariam feitas. A metalinguagem também aparece quando, em algumas figuras, há trechos que já foram escritos nas páginas anteriores (autorreferências).

Pois bem, o livro é construído sob a voz de uma criança — o que já é importante — contadora de histórias, que possui a liberdade de escrevê-las e o incentivo de seu pai à leitura desde cedo. Porém, o incentivo é a favor da leitura de enciclopédias, algo que não faz (nem deve fazer) parte da realidade de uma criança. Muitas vezes, a decepção com a leitura de um texto inadequado à mentalidade da pessoa pode fazê-la se afastar dos livros.

Foi o que quase houve com Magno Júnior, que afirma que aquele conteúdo (conhecimentos sobre Hitler e sobre as proteínas) não é/era importante, não devia ser iniciado em casa, durante essa idade, porém mais tarde, na escola (que é o que acontece). Essa afirmação demonstra a quebra da obediência absoluta, que é/era um dos valores tradicionais que “(...) transformou a ‘autoridade’ em ‘autoritarismo’” (COELHO, 2000, p. 20), como se houvesse alguém detentor do poder e do saber.

Pelo contrário, Magno Júnior traz algo da Literatura Infantil mais atual, que é o questionamento da autoridade e a consciência da relatividade dos valores e dos ideais (COELHO, 2000). Um dos momentos em que podemos notar tais conceitos é quando o personagem diz não acreditar que alguém seja autodidata, pois quem escreve o livro, de certa forma, está ensinando quem o lê. Embora boba, é uma opinião e uma reflexão.

Além deste, há as questões feitas à professora de Ciências e aos professores da catequese. Claro, o direcionamento das indagações foi errado, pois ele pergunta sobre religião para a professora de ciências e sobre ciência para os catequistas. Porém, esse ato demonstra a inquietação e a ingenuidade do personagem (que não compreende a Física, muito menos a Metafísica — afinal, ele só possui 11 anos).

Em outro trecho, Magno Júnior diz que acha que os professores não sabem tanto das coisas e que seus pais estão errados sobre os professores saberem sobre tudo. Percebamos esse “acha”, pois não é uma certeza, mas uma dúvida do personagem, um questionamento sobre o seu próprio pensamento.

É importante ressaltar a preocupação da criança com as representações (figuras, desenhos) daquilo que estava sendo dito. Ela mesma diz que fará as figuras depois, pois parece que assimilamos melhor o conteúdo quando há imagens representando-o. Este pensamento é exatamente — embora com outras palavras — o mesmo de Gregorin (2010): “O texto não verbal (visual) se desenvolve com cenografias e figuras de modo a um compor o outro, e os dois (visual e verbal) constroem um único texto, apropriado ao fazer interpretativo do enunciatário (p. 16).

No curto livro, percebe-se, também, a consciência de igualdade entre o gênero feminino e o masculino, “não mais estigmatizados pelo o que é certo ou errado para o homem e para a mulher” (COELHO, 2000, p. 25). Isso acontece quando Magno Júnior diz respeitar muito as meninas, pois possui algumas amigas que são mais amigas do que os meninos. No mesmo parágrafo, o personagem fala de rumores de que escrever é coisa de menina, um preconceito antigo, mas que, segundo ele, estão errados e todos deveriam escrever.

Aliás, levanto uma simples e rápida questão aqui: Se ao longo do tempo poucas mulheres tiveram o privilégio da escrita, sendo a maioria dos livros escritos por homens — até hoje! —, então, por que existiu a imagem de que “escrever é coisa de mulher”? Atualmente ainda há resquícios desse pensamento. Pensemos.

Além desses tópicos abordados, o livro incentiva as crianças a lerem e a escreverem. Magno Júnior, por exemplo, escreveu o texto por simples vontade. Outras crianças também podem fazê-lo, basta incentivá-las. A escrita, segundo Nelly Novaes Coelho (2000), é um “ato-fruto da leitura assimilada e/ou da criatividade estimulada pelos dados de uma determinada cultura.” (p. 18).

Por fim, As palavras de uma criança possui intertextualidades (em forma de citação) com alguns desenhos japoneses, como os personagens Gohan, Griffith, Roy (Mustang) e Hyoga, respectivamente dos animes Dragon Ball Z, Berserk, Fullmetal Alchemist e Cavaleiros do Zodíaco, que fazem parte da realidade e do gosto do personagem principal. Também há a menção dos quadrinhos do Senninha, no início do livro.

Em suma, baseado nestes poucos conceitos adotados dos livros da Nelly Novaes Coelho e do José Nicolau Gregorin Filho, As palavras de uma criança foi escrito. Penso que o livro serve não apenas para a função pedagógica, mas pelo prazer estético também. Na verdade, primeiro escrevi o texto, depois notei os conceitos. Aliás, foi um prazer tê-lo feito.


REFERÊNCIAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.

GREGORIN, José Nicolau Filho. Literatura infantil: múltiplas linguagens na formação de leitores. São Paulo: Melhoramentos, 2010.

SIQUEIRA, Carlos. As primeiras palavras de uma criança. São Paulo: Novas Vozes, 2017.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

As primeiras palavras de uma criança

Neste semestre, enquanto estudava a disciplina Literatura Infanto-Juvenil, foi pedido um trabalho que consistia na criação de uma história infantil, em formato de livro (simples), com ilustração e tudo mais. Abaixo, eis o meu trabalho escaneado [desculpe(m) pelas sombras remanescentes]. Como algumas páginas não foram pintadas, nem possuem uma espécie de borda, para diferenciar umas das outras, penso que é melhor clicar na primeira imagem e, em seguida, clicar ou apertar o direcional da direita, para ir para a próxima:


























quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Rua dos Dias, de Paulo Franco: um diálogo entre eus, nós e os outros

A rua dos dias (2017), novo livro do poeta Paulo Franco, é curto pela quantidade de páginas, mas intenso e extenso na qualidade e profundidade de seus poemas. O autor investiga e trabalha vários temas, mas o foco maior está na questão do tempo, do instante, do passado e do futuro, da subjetividade do eu (na maioria das vezes, fragmentado). Como são quase quarenta poemas, o presente texto discutirá apenas alguns deles — e não integralmente.

Vivemos na chamada Modernidade Líquida, ou Pós-Modernismo, uma época em que tudo acontece muito rapidamente e quase não temos tempo para a reflexão, para a lembrança, para a imaginação e para os sonhos, o que nos faz, de certa forma, morrer aos poucos, como Paulo Franco já havia retratado no poema Óbito, presente na sua antologia inacabada, A máscara no espelho (2012). Porém, o poeta, sensível, sempre na contramão da massa, rebusca o seu passado e reflete sobre quem foi, o que traz a dor, infelizmente, de saber quem ele também não foi. No primeiro poema da nova obra, As cigarras e os girassóis, é dito: “As imagens que vejo sobre o que vivi, / hoje, são pitorescas alegorias / sobre o que não fui ou vi.” (p. 14).

No mesmo texto, estrofes abaixo do trecho supracitado, percebe-se a profundidade e o lirismo do eu-lírico que, como é confessado, não foram notados pelas pessoas ao seu redor: “Na taipa da alma, um menino se escondia / alimentado pela luz de cada dia / que alicerçava a poesia / meio a prantos e encantos / que ninguém nunca percebeu.” (p. 14). É assim, com o tempo, que os seres vão mudando, “virando outra coisa, / pois que tudo o que havia já não há, (...) Agora o tempo é outro, / sou outro a cada lembrança, / a cada presente que se desfaz / para virar as lembranças dos outros.” (p. 15)... As memórias sempre continuam e continuarão, bem como o eu-lírico lembrou-se de sua infância ao ouvir o canto das cigarras, que o remeteu aos cantos de seus parentes que partiram...

Outro poema que fala de memórias é Catacrese. Para quem não sabe, catacrese é uma figura de linguagem que utiliza combinações de palavras já existentes para designar algo que não possui um nome exato para si, por exemplo: costa(s) da cadeira, céu da boca ou manga da camisa. O eu-lírico se utiliza de várias catacreses ao longo do texto: “pé do fogão”, “perna da mesa”, “braço do sofá”, “asa da xícara”, “cabeça do alho” e “bico do bule” (aliás, perceba a aliteração em [B], que cria um ritmo durante a leitura), para dizer que em cada lugar da casa há uma memória, há uma história.

Por fim, o eu-lírico indica que a própria palavra “saudade” é uma espécie de catacrese, pois ela é “como um sentimento / que de tão intenso / parece que ainda não tem nome” (p. 23). Dizem que o vocábulo “saudade”, no sentido que a língua portuguesa o emprega, não existe em nenhum outro idioma. Agora, é interessante esta importância, esse olhar diferenciado para os objetos, para as coisas, pois é o que Drummond já havia alertado em A flor e a náusea: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (2010, p. 36).

Por falar em Drummond, há um poeminho em que ele também fala da asa da xícara, mas sem usar catacrese, pois utiliza o termo “aparador”. Chama-se Cerâmica: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. / Sem uso, / ela nos espia do aparador.” (idem, p. 288). Em Catacrese, Paulo Franco também fala sobre os pedaços da vida, perdidos pelos cantos da casa. Nele, os objetos não nos observam, mas em seu poema As coisas, presente em A máscara no espelho (2012), sim.

Ao lado das ações que podem/poderão ser feitas amanhã, A rua dos dias (2017) reflete muito sobre o que não foi realizado ontem, o que causa um sentimento de culpa e de desilusão no presente do eu-lírico. Em Culpas, ele confessa: “A esperança cambaleia no remorso / de cada sensação que não vingou” (p. 27), versos que coadunam com aqueles do primeiro poema, As cigarras e os girassóis, que foram citados no segundo parágrafo. São sentimentos que todos possuem em vários momentos, que o poeta capta e transforma em arte.

É sobre isso que o eu-lírico de Linguagens fala, sobre o medo “da linguagem do tempo / quase sempre à toa. / Fluídicos sentimentos, / lembranças, passado intemporal, / que como ave voa.” (p. 35) A propósito, perceba o jogo de linguagem utilizado neste curto trecho: que co(mo) (a)ve vo(a), duas pequenas aliterações seguidas, em [K] e [V]. É um poema em que o eu-lírico tenta se descobrir, se conhecer, se reconhecer e conhecer aos outros, nessa “escuridão que se instala” (p. 36) e que ninguém se entende, pois “os semelhantes / não exercem uma língua una” (p. 36)...

É interessante notar a coerência desta ideia do autor: o poeta “nunca sabe além do que pressente ou vê ou viu.” (p. 35), são apenas intuições nesta escuridão em que todos habitam. Outro poema que discute este tema é Semântica, também presente na antologia A Máscara no Espelho (2012), mas publicado primeiramente em Pétalas de Insônia (1999), onde também um poeta confessa que “Minha semântica / é medo, / é solidão. / Minha ilusão, espírito / e pouca coisa mais / além do que pressinto / desta escuridão.” (1999, p. 46)

Mais uma intertextualidade interessante que há em A rua dos dias (2017) está no poema O brinco. Uma das estrofes diz: “Sereno mato a minha dor / e estrangulo quem não sou / para saber de mim.” (p. 43), mas essa é a primeira estrofe do poema O bobo, presente na antologia A máscara no espelho (2012). Porém, os dois textos tratam de temas diferentes. Não se trata de falta de criatividade, mas de afirmação do mesmo pensamento, que pode ser aplicado em várias situações.

Ainda sobre intertextualidades, o novo livro de Paulo Franco traz vários metapoemas (poemas que falam sobre poema/poesia), um deles se chama “O tecido”, no qual o eu-lírico diz não trazer “promessas vis para vislumbrar os olhos de ninguém”, que é, de fato, o dever de quem escreve ou de quem atua profissionalmente bem: fazer o seu trabalho de forma verdadeira, não de forma falsa, para agradar aos outros. No entanto, todo ser humano é complexo e contraditório, e “O poeta mente inclusive em ilusões / quando vê belezas que nunca se viu / em coisas que são naturalmente feias” (p. 55).

É o caso de “‘Uma pedra no caminho’, / ‘uma flor que nasce no asfalto’” (p. 56), que fazem referência aos textos No meio do caminho e A flor e a náusea, ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Segundo o eu-lírico, “são exemplos típicos / desta maquiagem que o poeta / ensandecido proclama para cutucar / o nosso olhar de mar e icebergs.” (p. 56) Na verdade, é a antiga lição de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” (s/d, p. 9).

Porém, a ficção, ao pintar/deformar/exagerar/transcender a realidade, facilita e esclarece alguns fatos reais e cotidianos. E é importante lembrar: o poeta até pode até ser falso, mas, como diria Mario Quintana, curiosamente, o poema é uma “estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face...” (2008, p. 127).

Sobre a fragmentação do ser humano, é bela e triste a primeira estrofe de Os jardins e os sonhos: “Somos um pouco do pouco que restou / de cada um que fomos em cada momento da vida / feita de pedaços e olhares e jardins e esperanças / que se despedaçam refazendo-nos / a cada instante que fica para trás.” (p. 61). Ninguém é uno (e, por isso, como foi dito em Linguagens, a linguagem dos semelhantes também não é una), cada um é vário em cada pequeno período. É nisto que reside a complexidade humana, a angústia e a perplexidade do poeta, que se vê perdido entre tantos outros, eus e possibilidades, que lhe causarão culpa posteriormente...

Porém, o artista/poeta pega estas “pedras no meio do caminho” e modela-as, transformando as dificuldades em arte, como o eu-lírico conta em O tempo e a pedra, um dos melhores poemas do livro. Eis alguns versos: “A pedra (...) / é bem maior que o poeta / que só eterniza o poema / que faz de uma pedra uma onda / e da onda o sonhar (...)” (p. 60). Esta ideia rima com a primeira estrofe de O belo, poema de Paulo Franco, de 1999, do Pétalas de Insônia, que diz: “O novo nascerá vindo do velho / qual artista que a martelo / a arte nova cria / transformando a pedra em belo.” (p. 24). Percebe-se, então, a coerência e o aperfeiçoamento do poeta ao longo dos anos, que não só se aperfeiçoa, mas melhora aqueles que o leem também.

Em suma, A rua dos dias é um excelente livro de poesia, de um dos melhores poetas nacionais da atualidade, que mantém o seu nível e ritmo ao mesmo tempo em que tira fôlego e lágrimas dos leitores mais sensíveis. Há vários outros temas abordados na obra, alguns poemas possuem técnicas mais elaboradas, outros são mais livres, porém todos são profundos. Os eu-líricos de Paulo Franco, enquanto buscam a si, presenteiam quem os lê. Um trabalho sobre o passado, o presente e o futuro; poemas sobre o interior e o exterior. Livro atual e recomendadíssimo a qualquer leitor de Literatura que se preze. 

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André - SP.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 65. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Paulo. A Máscara no Espelho: uma antologia inacabada. São Paulo: Scortecci, 2012.

______________. A Rua dos Dias. São Paulo: Scortecci, 2017.

______________. Pétalas de Insônia. São Paulo: C. Cranchi, 1999.

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Cancioneiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000006.pdf>. Acesso em: 22. Jun. 2017.

QUINTANA, Mario. O poema. In: 80 anos de Poesia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2008.

domingo, 11 de junho de 2017

Resenha do show Metal Ballads, do Edu Falaschi e All Star Band, no Manifesto Bar

Ontem, 10/06/2017, no Manifesto Bar, houve um show de celebração ao Dia dos namorados, liderado por Edu Falaschi (Almah, ex Angra e Symbols), seguido por “sua” All Star Band, composta pelos músicos Ricardo Confessori (ex Shaman e Angra) na bateria, Luis Mariutti (About 2 Crash, Motorguts, ex Andre Matos, Shaman e Angra) no baixo, Junior Carelli (Noturnall, ANIE e ex Shaman) nos teclados e Demian Tiguez (ex Symbols) na guitarra. O concerto ainda contou com a presença do baixista Raphael Dafras, da banda Almah.

Embora o supergrupo seja formado por lendas do Metal Nacional, a proposta do show foi de apenas tocar baladas, tanto as do Angra quanto as do Almah. Uma ideia diferente e interessante, que até agora não havia acontecido, mas que já era querida por muitos fãs, principalmente pelos românticos.

Todos os músicos foram e são competentíssimos: Edu Falaschi, que recentemente lançou o álbum E.V.O. (com a sua banda Almah), mostrou que realmente voltou a cantar notas agudas como nos tempos de Angra. Júnior Carelli, sempre simpático, não só toca as músicas da forma como foram gravadas originalmente, mas também improvisa algumas introduções diferenciadas, o que enriquece a apresentação. Luís Mariutti, como é de seu costume, faz o seu trabalho responsável e seriamente, na dele. Ricardo Confessori não toca da mesma forma que o seu sucessor no Angra, Aquiles Priester (Hangar, Noturnall e ex Angra), mas faz mais do que o necessário, pois impõe o seu estilo na música. Raphael Dafras já é conhecido do público, parceiro do Edu no Almah, não precisa de comentários. E, por fim, Demian Tiguez, o antigo guitarrista do Symbols, banda dos irmãos Falaschi, ainda nos anos 90. Embora seja o mais desconhecido, o rapaz executa as canções eximiamente. Foi, com certeza, um dos destaques da noite.

O show começou com três músicas do Angra: Heroes of Sand, Wishing Well e Lease of Life, respectivamente dos álbuns Rebirth (2001), Temple of Shadows (2004) e Aqua (2010). Três músicas da fase em que Edu Falaschi passou pela banda. Essa última também faz parte da época que o baterista, Ricardo Confessori, ainda era um membro do Angra.

Em seguida, tocaram Breathe, canção do primeiro e homônimo álbum do Almah, lançado em 2006. Logo após, um momento muito bonito de reconhecimento do vocalista pelos parceiros Luís Mariutti e Ricardo Confessori, é tocada Lisbon, canção que não é da época do Edu, mas é do baterista e baixista, junto do primeiro vocalista do Angra, Andre Matos.

Depois, foi a vez de Warm Wind, música sempre presente nos concertos do Almah, uma balada feita pelo Edu em homenagem à sua filha. Posteriormente, duas surpresas: Breaking Ties e Dream On. A primeira faz parte do repertório do álbum Aurora Consurgens (2006), um dos mais injustiçados pelos fãs do Angra, e a segunda é um clássico do Rock Internacional, de 1973, da lendária banda Aerosmith. Porém, a versão tocada pela All Star Band foi a do grande Dio em parceria com o Malmsteen, pilares e mestres do Metal. Edu cantou Dream On de forma muito dramática, com alguns ecos, ficou muito bonita.

As próximas baladas foram Forgotten Land, Bleeding Heart, Visions Prelude e Nova Era. Exceto a primeira, que é do Almah, todas as outras são do Angra. Bleeding Heart compõe o Hunters and Prey (2002) e as duas últimas fazem parte do Rebirth, álbum de estréia de Edu na deusa do fogo. Detalhes: Visions Prelude nunca havia sido tocada ao vivo e Nova Era foi executada acusticamente, teclado e voz, que é a versão do Moonlight (2016), trabalho solo do vocalista, posto que a música é uma pauleira.

Por fim, três músicas do Angra: Rebirth (do álbum homônimo e de estréia do Edu), Late Redemption (do excelente Temple of Shadows) e a inesperada Carry On (do primeiro trabalho da banda, o Angels Cry, de 1993) fecharam majestosamente a noite.  A penúltima música foi uma das que mais emocionaram o público, que cantou em coro, tanto as partes em português, originalmente gravadas pelo grande Milton Nascimento, quanto os trechos em inglês, pelo Edu Falaschi, que são a maior parte.

A última canção requer dois parágrafos somente para ela, pois foi um dos momentos mais bonitos do show. Carry On, como se sabe, não é da época do Edu, mas do primeiro vocalista do Angra, segundo o próprio Edu Falaschi,  ontem: “o grande Andre Matos”. Além dele, na época, faziam parte da banda o baixista Luís Mariutti, o baterista Ricardo Confessori (embora este não tenha gravado o primeiro álbum, pois entrou somente depois do lançamento), ambos presentes no concerto de ontem, e os guitarristas Rafael Bittencourt (Angra e Bittencourt Project) e Kiko Loureiro (Megadeth e ex Angra).

Segundo Edu, embora a ideia do show seja tocar somente baladas, ele se vê na obrigação de tocar essa música que mudou a vida de muitos fãs, de muitos músicos e de todo o cenário do Heavy Metal nacional e internacional, no formato original: rápida, pesada, metal, pois é um dos hinos do Power Metal, gênero que o Angra ajudou a criar. Além disso, tocá-la é uma maneira de prestigiar o baixista Mariutti e o baterista Confessori, que são pessoas importantes desta história criada ainda nos anos 90, quando ele, Falaschi, estava com sua primeira banda, o Mitrium, e nem imaginava que um dia entraria para o Angra. Para isso, convidou uma menina da plateia, uma moça que grava vídeos e posta no Youtube, cantando músicas do Angra e do Almah, para fazer um dueto, ajudando-o nas notas mais altas. (Agora, é ela quem não imaginava que um dia estaria cantando junto com ele...)

Com isso, fecha-se a noite com chave de ouro. Se há algumas críticas positivas a se fazer, essas são: se o projeto continuar, aumente o tamanho do setlist, quinze músicas é pouco. Não foi tocada nenhuma música dos álbuns Fragile Equality (2008) e Motion (2011), do Almah; não foi executada nenhuma balada do Symbols, banda underground muito querida pelos fãs; houve apenas uma música do Aurora Consurgens e do Aqua, trabalhos subestimados do Angra. A outra dica é: Edu, decore ou releia as letras. Foram bem poucos deslizes, mas perceptíveis.

Finalmente, tomara que surjam mais oportunidades de shows do projeto, que ele continue e que volte à grande São Paulo novamente, em breve.

Setlist:

Heroes of Sand - Angra
Wishing Well - Angra
Lease of Life - Angra
Breathe - Almah
Lisbon - Angra
Warm Wind – Almah (participação de Raphael Dafras)
Breaking Ties – Angra (participação de Raphael Dafras)
Dream On - Aerosmith
Forgotten Land - Almah
Bleeding Heart - Angra
Visions Prelude - Angra
Nova Era acústica - Angra
Rebirth - Angra
Late Redemption - Angra
Carry On – Angra.



terça-feira, 6 de junho de 2017

Cores

Ao longo da vida, somos pintados e nos pintamos de várias cores diferentes, de formas diversas, mas essas tintas chegam de fora (algumas foram ganhas, outras foram compradas etc.), por isso descascam e caem depois de um tempo.

Paradoxalmente, mesmo todos possuindo características distintas, dizem que somos todos iguais. É verdade (e não é difícil de entender). É que somente a parte exterior é modificada, a interior continua intacta. Daí o erro de quem quer parecer brilhante ao se pintar com tintas fluorescentes ou jogando glitter por cima do corpo.

O que quero dizer é que todos nós possuímos um brilho interior, mas para que possam vê-lo, para verem o que somos (não o que parecemos ser), é preciso que nos conheçamos e, mais do que isso, precisamos ser transparentes.

domingo, 28 de maio de 2017

Relato pessoal: Desde aquele dia

Memorial da minha relação com a banda Engenheiros do Hawaii e o Humberto Gessinger

Lembro que foi em 2005, numa rádio qualquer (sei que não era a KISS FM, porque essa eu conhecia e ouvia), escutei uma música que dizia: “Nós dois temos os mesmos defeitos, / sabemos tudo a nosso respeito, / somos suspeitos de um crime perfeito, / mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”. Fiquei encantado, mas não sabia por quem, pois não foi dito o nome da música nem da banda. (Por acaso)

Fui para a escola (Di Cavalcanti) com o trecho memorizado e a dúvida internalizada. Perguntei aos meus amigos da minha sala (5° série D) se conheciam a canção, mas nenhum deles soube me responder (houve até quem cogitou ser do Roberto Carlos! — nunca esqueci essa hipótese que nem deveria ser considerada hipótese). (Nada a ver)

Coincidentemente, no mesmo ano, o meu pai pediu para um amigo gravar várias músicas do rock nacional num CD. Tenho-o até hoje (mas acho que nem funciona mais). Na gravação, havia Titãs, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii. Gostei muito da primeira e da última banda (a do meio, não). Em seguida, meu pai pediu para a minha mãe comprar algum CD dos Engenheiros do Hawaii (havíamos acabado de comprar um do Raul Seixas, uma coletânea). Ela nos trouxe o Tchau Radar! Lembro que ele não gostou muito, pois, como eu, também estava começando a conhecer, mas ele já conhecia as mais famosas (embora não soubesse os nomes delas, nem em quais álbuns elas estavam inseridas). (Lado a lado)

Ouvi muito esse álbum. Achava a abertura daquela primeira faixa, Eu que não amo você, pesadíssima! Mal sabia eu que, anos mais tarde, o Metal se tornaria o meu gênero musical preferido. Eu não conhecia ninguém que também gostasse da banda. Ouvi-a sozinho. Na época, o que fazia sucesso na turma era algo que chamávamos de Black. (Quem diria?)

No ano de 2006, porém, tive a oportunidade de fazer todos os meus amigos (e os “inimigos" também) da sala ouvirem aos Engenheiros — hoje em dia, infelizmente, sou obrigado a ouvir música porcaria por todos os lados, já que há um pessoal que adora ouvir os seus batidões com o autofalante (agora se escreve assim, gente). Foi quando, na escola, a minha professora Edimara, de Educação Artística, pediu para que todos levassem uma música que gostássemos muito. Ouviríamos todas. Alguns levaram Pitty, poucos levaram Raps, a maioria levou Blacks da época, e eu levei a Cruzada, última música do Tchau Radar!, que na verdade é um cover (na época, eu nem sabia). Todo mundo estranhou aquele início, aquela orquestra sombria. A professora adorou, disse que era fã do Humberto Gessinger. Nunca esqueci a aula. (A maioria esqueceu tanto da aula, quanto da música que levou, pois não a ouve mais.) (Exército de um homem só I)

Passaram-se dois anos e eu fiz amizade com um menino um ano mais novo do que eu, o Leo(nardo Mendes). Em 2008, quando o meu pai comprou um computador, o Leo foi o responsável por me passar muitas músicas de bandas e gêneros que eu não conhecia. Adorei várias bandas (Ozzy Osbourne, Metallica, DIO, Motorhead — anos depois, cheguei a ver ao vivo o primeiro e o último — etc.), já de outras, não gostei (Alice in Chains, KISS, System of a Down — hoje em dia, gosto dessa última — etc.)... Lembro que era o primo dele, o Ailton, que passava as músicas para ele, que, em seguida, me passava. (Novos Horizontes)

Pois bem, desde criança, eu já ouvia muito Raul Seixas e Engenheiros do Hawaii (e Led Zeppelin, ACDC e Pink Floyd), mas eram poucas músicas... Foi, então, com esse amigo, que eu me aprofundei nas obras. Se antes eu “somente” gostava muito, depois de conhecer mais músicas, virei fã. (Hora do mergulho)

No entanto, algo interessante e triste: eu não entendia muito bem as letras, só as passagens mais óbvias — e isso em qualquer banda. Era mesmo apaixonado pelo ritmo e melodia. Só quando comecei a estudar de verdade, na faculdade, em 2014, que descobri a Poesia, a Literatura, algumas técnicas dessas duas artes, alguns autores e suas obras, aprendi a relacionar o objeto com o seu contexto etc., só depois de tudo isso é que percebi o quanto as músicas dos Engenheiros do Hawaii e do Raul Seixas eram profundas e complexas, o quanto havia de citação implícita e explícita. Mais uma evolução: se a criança gostava muito e o adolescente virou fã, o jovem adulto virou amante. (Pra ser sincero)

Desde então, sempre que posso, escrevo algumas impressões que tenho sobre uma ou outra canção, sempre com algo mínimo de embasamento, um artigo ou um livro. Fiz algumas “análises” que foram e são elogiadas por outros admiradores da banda até hoje (gente bem mais velha do que eu, que acompanha o Humberto há anos). Fico bastante contente. De vez em quando, também pesquiso o trabalho de outras pessoas sobre o que gosto. Sempre aprendo algo novo. (Pra entender)

No ano passado, 2016, aprendi muito sobre a banda, graças a uma querida amiga. Ela se chama Jéssica Tasso e mora no Rio Grande do Sul (e eu em São Paulo). Encontramo-nos no ano passado e ela me deu a nova “biografia” dos Engenheiros do Hawaii (coloquei entre aspas porque o livro traz a história do início da banda até o rompimento da formação clássica, Gessinger, Licks e Maltz, nada além). Com ele, aprofundei-me. Creio que o meu melhor texto, a minha melhor análise, a da música Nossas Vidas, foi feita após isso. (Ela sabe)

Ontem, 27/05/2017, assisti a um show do Humberto Gessinger pela primeira vez, junto do amigo que me passou a discografia dos Engenheiros. Momento mágico. Por isso que me lembrei de todas essas histórias. A turnê faz comemoração ao álbum A revolta dos Dândis (que é título de um capítulo de um livro do filósofo Albert Camus), segundo álbum da banda, lançado em 1987. (Outros tempos)

Foi muito bonito ver todo o pessoal cantando em alto e bom som quase todas as músicas. Eu sabia todas, porque sou viciado. O nome da tour é muito significativo: Desde aquele dia. Esse é o título de uma música do álbum homenageado, mas também é fundo do novo trabalho do Humberto: Desde aquela noite. Agora, para mim, ambos os nomes são importantes: o dia que conheci (em 2005) e a noite que constatei o espetáculo (2017), que para sempre será lembrado. (Túnel do tempo)

Não há o que falar mal da banda, um trio incrível: o baterista Rafael Bisogno, que além da bateria, toca outros dois instrumentos que não sei o nome (desculpem), todos com batida (um deles parece um tambor e o outro parece um teclado pequeno); Fernando Peters na guitarra (muitos o criticam, mas é um excelente guitarrista, que preza pelo feeling); e o gênio Humberto Gessinger, que canta, toca baixo, teclado, gaita e acordeon — além de ficar improvisando as letras da música, para a (des)graça de quem tenta acompanhá-lo certinho. Arrepiei em várias músicas, mas principalmente na Quem tem pressa não se interessa e na Guardas da fronteira. O setlist de ontem (houve mashups, então colocarei na ordem) foi:

A revolta dos dandis I
Infinita Highway
Até o fim
Infinita Highway
Quem tem pressa não se interessa
Vozes
Terra de gigantes
Vozes
Terra de gigantes
Desde aquele dia
Além dos outdoors
Guardas da fronteira
Refrão de um bolero
Piano bar
Filmes de guerra, canções de amor
A revolta dos dândis II
Eu que não amo você
Alexandria
O que você faz à noite
Surfando Karmas e DNA
Olhos abertos
Pose (anos 90)
Somos quem podemos ser
3X4
Dom Quixote
Exército de um homem só I
Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones
Vida real
Bora
Faz parte
Pra ser sincero. (Terra de gigantes)

Há tantas dos lado B que eu adoro e que ficaram de fora... (Sob o tapete)

Este texto é um agradecimento a todos aqueles que me ensinam, me ensinaram, me proporcionam e me proporcionaram prazer e conhecimento sobre esse artista e sua banda, que eu amo (ao lado das bandas de Heavy Metal). Na internet, muitos já me disseram que eu mostrei novas visões sobre as canções. Fiquei pensando nisso ontem: eu, ao lado de muita gente que elogiou meus textos, todos anonimamente pelo mesmo motivo. (Pra ficar legal)

Que essa tenha sido a primeira vez de muitas que virão! (A promessa)



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ciclos

Nós, seres humanos, gostamos da ideia de ciclos. Criamo-los. Marcamos datas de início e de fim. Com elas, podemos refletir sobre o que fomos, o que somos, o que queremos e o que podemos ser. Claro, a cada desejo, mais sofrimento enquanto não o realizamos (base schopenhauriana).

Por falar no rapaz, lembrei deste trecho, que um dia eu quis escrever algo semelhante, mas quando descobri que já havia sido escrito e de forma melhor do que a que eu faria, desisti — não gosto muito de paráfrases, uso logo citações:

Cada dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a dificuldade de despertar como as dores do parto. (SCHOPENHAUER, s/d, p. 66)

(Fantástico! Fantástico!)

É que hoje fiz aniversário, por isso me lembrei desse fragmento. Recebi alguns parabéns verdadeiros, outros nem tanto. Mas sempre pensei que deveríamos dar mais atenção aos pequenos ciclos, àqueles do dia-a-dia, não somente aos anuais. Afinal, cada dia é um nascimento novo. Obviamente, a cada renascer, sofremos no início (às vezes, durante outras horas e momentos também). Condição da vida.

Digo isso porque desejos utópicos me incomodam um pouco. Não há apenas bons momentos na existência. Se desejarmos mais um ano de vida a alguém, obrigatoriamente, desejamos más situações também. É através da superação dessas adversidades que crescemos e melhoramos.

Acho engraçado, a cada ano que passa, alguém nos diz que ficamos mais velhos. Errado. Ficamos mais novos! Onde é que entra o Heráclito de Éfeso na história? Que eu saiba, ele não foi esquecido. O homem que se banha num rio não é o mesmo homem de antes, e o rio também não é o mesmo. O que é velho fica para trás. Só permanece o novo.

Há aspectos e ideias (preconceitos e utopias) minhas que deixei no passado. Aí, sim, é algo velho. Há objetos e sentimentos meus que carrego desde criança, estes são antigos. Velho é algo ultrapassado e inútil; o antigo ainda é e pode ser usado. Por exemplo, estou usando textos de Heráclito, que viveu há mais de 500 anos antes de Cristo, e de Schopenhauer, que viveu no século XIX.

Então, para que não mais consideremos os aniversariantes como velhos e para terminar este ciclo chamado “texto”, trago uma citação de um escritor mais moderno:

(...) é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...
(...) Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente não nasce pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado e não no presente. (CORTELLA, 2016, p. 13-14)

Sou o mais novo eu possível.
//

P.S.: Ah, é verdade, já ia esquecendo! Eu mesmo me perguntei qual seria o melhor presente a se ganhar e respondi em forma de poema, resposta subjetiva, crença e desejo meu...

Qual o melhor presente?
É ter alguém presente,
Não num dia somente,
Mas daqui para frente,
Do agora para o sempre
(mesmo que internamente)...

Referências


CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! In: Não nascemos prontos!: Provocações filosóficas. 19. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.


SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria da vida. Disponível em: <http://imagomundi.com.br/filo/schopenhauer_aforismos.pdf> Acesso em: 19. maio. 2017.

domingo, 14 de maio de 2017

Poema materno

No Dia das Mães, eu queria escrever um poema para a minha, porém, não consegui. Fiquei triste e fui relatar a ela, que disse:

— Mesmo se conseguisse, eu não entendo dessas coisas, menino. Eu estudei só até a quarta série. Mas se é o que você quer fazer, continue tentando, mesmo que eu não o compreenda.

Foi assim, então, implicitamente, que ela me ensinou que poemas não se escrevem: poemas se fazem. E não são feitos de uma hora para outra, mas palavra por palavra, ação por ação, dia após dia. O poema materno teve de ser adiado, precisou amadurecer.

Cada pessoa possui certa linguagem. Não adianta eu escrever palavras bonitas, mas difíceis, se o meu receptor, se o meu leitor, se a minha mãe não as entenderá. É preciso usar as palavras certas, que comuniquem, imediatamente e profundamente, quem as ouça.

Aprendi que ela (minha mãe) — e muita gente — percebe e demonstra (inconscientemente) que a verdadeira poesia está nas ações, não nas palavras. Lição básica: um poema é, antes de tudo, sentimento.

No fim, o meu presente acabou sendo este pequeno texto, no qual quem ensina é a minha mãe. Um dia, também pretendo ser professor, mas, por enquanto, na vida, sou estudante.