A cada concerto que vou, tiro menos fotos do show em
si, mas uma ou outra com os parceiros que vou ou que conheço lá. Achava que
seria bom para relembrar, para guardar e imortalizar o momento, mas o momento
que é e foi memorável não precisa de fotos, pois imortaliza-se na mente, ele é
a própria imagem; e, às vezes, não somos nós que lembramos dela, mas ela que
nos lembra sem pedirmos. Um dia, quem sabe, eu deixe de falar sobre o dia de
ontem em textos também; quando superar essa dialética, estarei vivendo as memórias do amanhã.
domingo, 8 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
Um caso de linguagem e alteridade
Um dos componentes da casa é o Rambinho, um cachorro. Todos
os dias ele chama a nossa atenção para caminhar: vai até onde estamos, toca-nos
com a pata, em seguida, corre para onde está a sua coleirinha e aponta para lá (com
a mesma pata). Só falta falar em nossa linguagem, mas com o que consegue fazer
da sua, na maioria das vezes, entendemo-lo.
Recentemente eu fui o seu acompanhante; aconteceu o mesmo
ritual que descrevi acima, e, então, fomos. Passando por uma das ruas, parei
para esperá-lo fazer suas necessidades. Enquanto isso, olhei para os lados; havia um terreno em diagonal, várias árvores (pequenas, de troncos finos, um
pouco secas) e uma mulher que aparentava ter uns 60 anos, capinando.
Ao perceber que eu e meu cachorro estávamos próximos,
parou sua atividade e começou a falar comigo. Contava sobre os seus animais de
estimação. Sabemos que uma imagem puxa outras: viu meu cachorro e lembrou-se
dos seus. Eu conhecia essa mulher apenas de vista, mas nunca havia conversado
com ela. Pois bem, tornei-me seu ouvinte.
Ouvi uma história muito triste, disse-me que alguns de
seus animais sumiram, ou que às vezes demoravam para aparecer e, quando apareciam,
estavam todos machucados. Tristes histórias e eu, ali, ouvindo uma pessoa que
nunca tinha conversado comigo; uma pessoa que nem perguntou meu nome, onde
morava, idade, se tinha que ir embora, nada. Na verdade, não sei se posso
chamar de diálogo, eu apenas afirmava suas colocações ou respondia com poucas
palavras.
Por fim, o Rambinho começou a latir, não queria mais
ficar parado, já tinha feito o que tinha que fazer, mas eu esperava a mulher
terminar alguma frase em que desse a possibilidade de eu ir embora sem que ela,
talvez, achasse ruim. E esse momento veio! Foi quando mudou o assunto, de
triste para alegre (ela até sorriu enquanto contava). Concordei, sorri também e
disse que tinha que ir.
Não sei se os animais entendem a nossa linguagem, sua
obediência provém, na maioria das vezes, do condicionamento, não propriamente
por entender as palavras e concordar; mas sim, do medo, da repetição e dos estímulos-reações.
Da mesma forma em que às vezes ele quer que o percebamos, quer que lhe demos
ouvidos (e comida, água, passeio, carinho, etc.), a mulher queria que eu desse atenção
às suas palavras. Não precisava concordar ou discordar, apenas ouvi-la. Às vezes
queremos e precisamos disso. Este texto mesmo, por exemplo, é uma vontade e necessidade
que tive de me expressar; você lê, entende, mas talvez não o responda/comente.
O texto é a fala da mulher e você, leitor, sou eu.
Não podia ignorá-la, não podemos nem com os animais,
quanto mais a alguém da mesma espécie, que usa a mesma linguagem. Foi através
dela que escrevi estas palavras, que ela se expressou, que eu entendi e me
despedi. E ainda bem que foi num momento de riso.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
A construção do eu através do outro
Sabemos sobre as dialéticas da sociedade e da vida. Uma que sempre se fez presente é a de que, como seres individuais, sempre
precisamos do outro para sermos o que somos, mesmo que esse outro seja uma
utopia. Diz-se que utopia é mais uma contradição da vida, mas ela é necessária à
sua existência e continuidade, porque nunca somos um eu, aqui e agora.
Por que é tão difícil conhecer a si mesmo, principalmente
nos dias atuais? Ora, desde sempre valorizamos a opinião do outro (a opinião do
outro sobre nós mesmos — mesmo que ele discorde da nossa opinião, se pedimos a
sua palavra é porque a valorizamos) e, assim, criamos uma imagem do que somos.
Mas por que precisamos do outro? Pode parecer simples e até bobo, mas nós não
nos enxergamos (e quando não nos vemos ou conhecemos, ficam as lacunas), daí vem
essa necessidade.
É difícil saber ou conhecer algo sem ver tal ser ou coisa; geralmente, através dos sentidos e do contato é que podemos ter uma noção do
que aquilo é. Entretanto, é impossível que nos vejamos por completo; normalmente,
vemos uma parte ou outra, por isso temos essa falta de confiança e precisamos
da observação e da palavra de quem está ao lado, à frente ou disposto a “nos
dar uma visão”. Até aqui, embora seja a visão do outro, é algo “real”. Agora,
quando não temos ninguém, procuramos alguém; e um dos locais em que buscamos é a
internet.
Hoje estamos todos interligados pelas redes sociais, no
entanto, cada vez mais sozinhos. Mas antes de entrarmos nesses “locais”,
adentramos um outro lugar, que está em todas (ou em quase todas) as casas: o espelho. Lá
é onde vemos nossa imagem “completa” — mas nossa imagem não é o nosso eu. Aparecemos
lá, mas não estamos ali; aquele não sou eu, mas uma representação minha — e
dela dependo.
Alguns filósofos e religiosos já apontavam para a necessidade
de termos um tempo sozinhos, um “tempo conosco mesmo”, para nos conhecer através de nós mesmos, mas cada vez mais isso não acontece. Somos sempre dependentes
de algo ou alguém, há um medo enorme da solidão e uma falta de confiança em si
mesmo.
É por isso que gostamos de espelhos, é como se
observássemos alguém e esse alguém nos observasse também, é como se
estivéssemos acompanhados.
Mas aquele outro
não é real, é utópico. É o medo de estar
sozinho; por isso, sempre quando o estamos, ligamos a televisão, o computador, lemos
um livro (quando gostamos e nos identificamos com algum personagem, pensamos
não estarmos sozinhos nesse mundo), ligamos o rádio, etc. — aliás, atualmente há pessoas que não conseguem mais sair de casa sem os fones de ouvido, eles
precisam sempre estar ouvindo alguém ou algo que lhe seja familiar —, e isso
acarreta em outro “espelho” já citado: as redes sociais.
O Facebook é um grande exemplo de utopia, do que
queríamos que fosse real, mas não é. Os amigos, as frases motivadoras ou “sábias”,
tudo são imagens, tudo são utopias, tudo é virtual, não possuem valor, não se
passa no plano real. O Facebook é o espelho que, melhor do que o real, além de
vermos a nossa representação, não vemos o que não desejamos ver, basta bloquear o
indivíduo (assim não vemos mais nada dele e nem ele vê nada nosso) ou o post. Ora, desde
quando na vida real deixamos de ver o que está em nossa frente? Só se fecharmos
os olhos, mas o outro ainda nos vê. Desde quando evitamos a fraqueza e o
sofrimento?
Todos sabem que quem busca ter muitos amigos, não os possui;
quem busca felicidade (e a felicidade é apenas um momento, um instante, devemos
nos lembrar disso), não a tem; quem busca rir a todo o momento, é porque tem
uma vida triste. Buscamos sempre conhecer e ter alguém, porque não conhecemos
nem temos a nós próprios.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Opções
Em dias calorosos, espere a
brisa passar por você ou caminhe para transformar em brisa o ar. Em dias de
frio, espere algo ou alguém te aquecer, ou caminhe para seu corpo se esquentar.
Em dias chuvosos, abrigue-se ou molha-te até a chuva passar.
Reflexo
À infelicidade viro as costas
e dou de frente com uma porta,
que na verdade é um espelho.
E eu me olho, me vejo,
e penso ser feliz, mas sou
hipócrita.
Ressentimento
Um amigo sempre me dizia
Então ele superou a situação,
o quão ruim foi ter sido traído;
e eu, chato,
um dia lhe disse o quão ruim
deve ser não conseguir
superar uma traição,
reviver o que está morto,
trazer à tona uma discussão em vão.
Então ele superou a situação,
assim, superando a ela e a si.
Só não sei se superou a mim.
Incertezas
Pior do que quando alguém
Enquanto isso, entra frio,
vai embora,
é quando deixam a porta aberta.
Pois a incerteza não
nos deixa dormir:
Será que tal pessoa voltará?
Quem será o próximo a entrar?
(alguém verá a porta aberta?
E se ver, poderá e quererá entrar?)
Enquanto isso, entra frio,
entra sombras e doenças.
Tudo o que eu queria era poder fechá-la,
para, enfim, descansar e me recuperar.
Quem sabe, um dia, eu saia novamente
e à esta casa eu traga nova gente.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Às "crianças" e às crianças
Hoje é o Dia das crianças e o que eu menos
vejo são elas (por vários motivos, um deles é estarem trancadas no quarto
jogando videogame ou olhando para uma tela de celular). Claro que existem, mas
apenas de corpo e mente, não mais de espírito. Sempre houve crianças querendo
tornarem-se adultas mais rapidamente, no entanto, hoje, além desse tipo, há um
outro fenômeno: adultos com mente e desejo de serem crianças.
É comum o ser humano idealizar e romantizar o mundo, ver
as coisas como perfeitas ou infalíveis, e isso aplica-se ao passado e à
infância. Com frequência ouvimos frases como: “Tempo bom que não volta mais!”
ou “Eu era feliz e não sabia!”, ou ainda: “Aquilo sim era perfeito! Só
brincadeiras, só prazer, a única preocupação era os estudo...”. E claro: a
vontade de voltar no tempo.
Tudo bem em sentir saudades de uma época, mas sem exageros.
Tínhamos obrigações, tínhamos restrições, tínhamos medo; não tínhamos dinheiro,
não tínhamos (muita) liberdade, não tínhamos experiência, etc. Os que clamam
pelo passado percebem que tínhamos muito do que não temos hoje, mas ainda falta
perceberem que não tínhamos muito do que temos atualmente.
Enquanto isso, temos cada vez mais crianças se vestindo e
querendo agir como adultos, e os adultos, como foi dito, querendo ser, agindo e
pensando como crianças, também sem o espírito, apenas na infantilidade. Os fatores
mais importantes das crianças que faltam aos adultos são a curiosidade e o
questionamento, este é o espírito que as caracterizam. De resto, os adultos possuem
tudo: brigam por qualquer besteira; não discutem/conversam, tudo baseia-se na
vontade e no gosto pessoal; riem de tudo (o que mais se vê na internet é “kkk”) — aliás, é preciso dizer que sempre buscamos o que não temos, logo, se buscamos rir a todo momento, isso demonstra que temos uma vida bem triste —, etc.
Há algumas frases interessantes sobre essa relação
criança-adulto, uma delas é do filósofo Nietzsche (2013), que diz: “A maturidade do
homem consiste em ter reencontrado a seriedade que tinha nos brinquedos quando
era criança.” (p. 100). Aliás, os adultos precisam voltar a ler
(e as crianças começarem a ler). Uma outra frase, da internet, diz: “A criança que você foi teria orgulho do que você se
tornou?”
Interessante pergunta, mas retórica. A criança que fomos
não tem (ou teria) ideia do que somos. O que ela tinha era uma idealização baseada em uma existência de pouca experiência — comparada a de um adulto —,
por isso é criança.
Se você se decepciona ao imaginar o que a criança pensaria de seu estado atual, sente vontade de voltar no tempo e viver de novo, acha a infância perfeita, etc., é sinal de que você cresceu sem progredir. Se ainda carregasse o espírito da criança dentro de si, olharia para o presente e futuro, pois quem olha muito para o passado é quem acha que já viveu demais ou se vê incapacitado de viver o agora e o amanhã. Crianças sempre estão a aprender, já quem estagna-se... — ou, talvez, voltando à infantilidade, você tenha sido o tipo de criança que apenas chora?
Se você se decepciona ao imaginar o que a criança pensaria de seu estado atual, sente vontade de voltar no tempo e viver de novo, acha a infância perfeita, etc., é sinal de que você cresceu sem progredir. Se ainda carregasse o espírito da criança dentro de si, olharia para o presente e futuro, pois quem olha muito para o passado é quem acha que já viveu demais ou se vê incapacitado de viver o agora e o amanhã. Crianças sempre estão a aprender, já quem estagna-se... — ou, talvez, voltando à infantilidade, você tenha sido o tipo de criança que apenas chora?
Referências
NIETZSCHE, Friedrich W. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Editora Escala, 2013.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Sobre a transição e para a transcendência
Este texto, como qualquer outro texto, mensagem, fala,
enunciação, etc., destina-se a alguém além de mim. Isso tem que ficar claro,
pois é a ideia central do texto: o não-eu, o outro. Este texto não se propõe a
contar uma história, mas fazer algumas reflexões acerca da morte e ao doar-se.
Já deixo avisado que evocarei alguns nomes, não por pedantismo, mas porque em
situações difíceis sempre recorremos a alguém (alguns, a seres divinos; eu, a
pensamentos).
Digo isso porque o mundo contemporâneo é marcado pela
individualidade e falta de companheirismo, de compromisso, de alteridade
(Sartre até diz que o inferno são os outros), nada vai além do eu; tudo vem a
mim. Esse pensamento estende-se, passando para o campo das ações e detendo as
futuras: “não basta ter, devo ater-me aos outros”.
É assim que o ser deixa de fazer tudo que possa vir a
servir ao próximo. Pior do que ser pessimista e niilista passivo é ser egoísta. Ora, ao final, o que menos importa
sou eu. No fim, quase tudo se vai, mas algo sempre fica — material ou abstrato, bom
ou mau, útil ou inútil.
Todos nós temos perdas em nossas vidas e todos nós
iremos nos perder dos outros (os outros irão nos perder), mas, querendo ou não,
deixamos alguma coisa. Shakespeare, em uma de suas peças, nos diz que em nosso
último ato na peça da vida... Não aparecemos. É a morte, mas ainda sim, faz
parte do nosso papel, estamos atuando; ou seja, vivemos além da morte. Como?
Porque depois que a vida termina, acredito que não
passamos a uma posterior, mas a outro lugar (nada de céu ou inferno): ao próximo.
Passamos a morar nas pessoas. Não há sentido em viver para si, e sim, para além
de mim.
Pensando em possibilidades para seu epitáfio, Mario Quintana escreveu “Eu não estou aqui”, pois ele está (e sempre estará) presente em suas obras; e suas obras, presentes em todos aqueles que as leem e citam, como este texto.
Pensando em possibilidades para seu epitáfio, Mario Quintana escreveu “Eu não estou aqui”, pois ele está (e sempre estará) presente em suas obras; e suas obras, presentes em todos aqueles que as leem e citam, como este texto.
Mas e quem não escreve, pinta, desenha ou faz algo
físico, em matéria, o que deixa? Deixa lembranças, como disse no início, boas
ou ruins (aqui não cabe o termo “lembranças úteis ou inúteis”, pois todas são
úteis. Mesmo as que não gostamos de recordar, servem como exemplo para não
seguirmos). É preferível que deixemos algo bom e útil para os outros, caso não,
ficarão apenas lembranças de uma pessoa egoísta, que logo será esquecida.
Por isso, hoje, com a perda que tive, não vejo outro
motivo para passar a vida que não seja compartilhando o que eu tenho de melhor:
o conhecimento e a mim. Percebam que neste texto eu citei Mario Quintana,
Shakespeare, Sartre e, implicitamente, Nietzsche e personalidades ruins da
História: todos mortos, mas que encontram-se vivos por aí, nos estudos, nos
escritos, nas memórias e nos livros.
Recentemente eu conversei com uma amiga e ela disse-me que não gosta muito da ideia de ver seus textos “por aí, na internet”,
e ela até tem um pouco de razão; respeitemos a privacidade. Mas, diferente dela, penso: Para
que guardar para si o que pode ser útil ao mundo (ou às poucas — ou muitas —
pessoas que procuram algo interessante)?
Quem disse que “existir é apenas estar ali”, poderia encurtar
a frase e deixá-la mais poética: existir é estar. Quanto a viver, é bom que
façamos algo que transcenda nossa existência, para que não sejamos esquecidos, para
que um dia mudemos de moradia . Percebamos que mais do que o "eu" e mais do que o "meu", é o "nós" e o "nosso". E é tão bom termos e servirmos companhia.
domingo, 4 de outubro de 2015
Resenha do livro "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri
GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. 24.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
Gianfrancesco Guarnieri foi um importante dramaturgo, ator e diretor italiano, naturalizado brasileiro. Embora tenha escrito muitas peças, a que recebeu maior destaque (até por ter sido sua estreia) foi Eles não usam black-tie.
Eles
não usam black-tie é uma peça de teatro de Gianfrancesco
Guarnieri, escrita em 1955, que narra a história de uma família e de alguns amigos
(uma comunidade) de uma favela do Rio de Janeiro. A obra se concentra em dois
acontecimentos: o casamento de Tião com Maria e a greve dos metalúrgicos que,
dentre os líderes, está o pai de Tião, Otávio.
A obra inova e marca por vários motivos: diferente dos
padrões teatrais da época, os personagens não são ricos ou nobres, mas pessoas
pobres, negros, moradores do morro; não se trata de uma comédia (embora haja
momentos cômicos), como a maioria das peças de hoje em dia, mas de reflexões,
críticas sociais e políticas.
Dividida em três atos, Eles não usam Black-tie foca na
relação do pai Otávio e seu filho, Tião. Este foi criado na cidade por seus
padrinhos, mas depois de adulto voltou à favela e agora namora uma moça, Maria,
que está grávida, embora ninguém saiba. Otávio é um homem um tanto “romântico”:
idealista, sonhador, leitor de autores críticos, possui uma mente
revolucionária, acredita na bondade do ser humano, de seus conterrâneos, e que
para melhorar de vida, apenas lutando — uma visão totalmente contrária a de seu
filho, que será abordada mais à frente.
O autor distribui muito bem as personalidades de seus
personagens, além dos já descritos, há também Maria, namorada/noiva de Tião,
uma moça alegre e que possui um sentimento muito forte de união para com o seu
povo, sua comunidade, sua favela. Chiquinho é o irmão mais novo de Tião,
brincalhão, embora honesto, é medroso e, por isso, omisso; namora a Teresinha,
moça alegre, divertida e sonhadora.
Mãe dos irmãos e mulher de Otávio, Romana é uma mulher de personalidade forte e uma visão realista da vida, uma verdadeira mãe, preocupada com todos de sua família, cumpre seus afazeres, reclamando ou não; aceita a vida como ela é, mas, infelizmente, não a aproveita. Há também os amigos da família que, exceto João (irmão de Maria) e Bráulio, embora todos dialoguem e sejam verdadeiros amigos, não recebem tanta atenção na obra.
Mãe dos irmãos e mulher de Otávio, Romana é uma mulher de personalidade forte e uma visão realista da vida, uma verdadeira mãe, preocupada com todos de sua família, cumpre seus afazeres, reclamando ou não; aceita a vida como ela é, mas, infelizmente, não a aproveita. Há também os amigos da família que, exceto João (irmão de Maria) e Bráulio, embora todos dialoguem e sejam verdadeiros amigos, não recebem tanta atenção na obra.
É interessante notar a forma como Guarniere parte de uma visão
romântica, com todos os personagens da favela sendo bons, honestos,
trabalhadores, amigáveis, patriotas e solidários (características do
Romantismo) e insere o determinismo (característica do Realismo e Naturalismo) — de forma
romântica — na peça e cria, então, a crítica à sociedade e ao capitalismo.
De todos os personagens, o único diferente, que pensa
mais em si, que teme a vida, que teme o patrão, que teme perder o emprego, que
teme a pobreza, é Tião: o único criado fora da favela, criado na cidade e, por
isso mesmo, não gosta do morro, só está lá pela noiva, Maria. Enquanto isso, o
pai, leitor, é um grande líder dos metalúrgicos, um dos “cabeças” da greve —
greve esta que Tião é contra, pois, para ele, lutar não adianta nada, aumenta-se
o salário (e pouco), mas em seguida aumenta-se o preço dos produtos, fazendo
tudo continuar na mesma situação; sem contar que muitos recebem mais por fazer menos.
Neste ponto mostra-se muitas críticas e reflexões. Além
do conflito pai-filho, temos também a divergência de opiniões: individualismo
(Tião) x coletivo (Otávio). Da mesma forma, aponta-se o quanto a leitura move o
ser. Na figura do pai leitor surge o líder revolucionário, que acaba
influenciando seu outro filho, Chiquinho, que sempre viveu entre eles
(novamente percebe-se o determinismo).
Neste momento é possível perceber a voz do autor em Tião, desmistificando a ideia do aumento salarial, já que logo em seguida os preços sempre sobem, fazendo com que todo ano aconteçam mais greves e os trabalhadores nunca fiquem, de fato, beneficiados. Dá-se fim, também, à ideia de meritocracia, pois na maioria das vezes, quem luta mais é menos recompensado, e quem menos luta (e rouba os honestos) "sobe" na vida — injustamente, mas sobe.
Neste momento é possível perceber a voz do autor em Tião, desmistificando a ideia do aumento salarial, já que logo em seguida os preços sempre sobem, fazendo com que todo ano aconteçam mais greves e os trabalhadores nunca fiquem, de fato, beneficiados. Dá-se fim, também, à ideia de meritocracia, pois na maioria das vezes, quem luta mais é menos recompensado, e quem menos luta (e rouba os honestos) "sobe" na vida — injustamente, mas sobe.
Não que seja propriamente um “defeito” da obra, mas se deve perceber a intenção do autor em colocar os moradores da cidade como falsos (os
tios de Tião criaram-no apenas para se aproveitarem dele, fazendo-o cuidar da
casa sem dar-lhe estudos) e Tião, por ter sido criado lá, torna-se falso
também, preferindo agir pensando em si próprio, não acreditando nos amigos, não
se percebendo como parte da favela, não acatando a greve que, se aceita, melhorará
a vida de todos. A comunidade, logo após descobrir a traição de Tião, exclui-no e também deixa de o considerar como um deles.
As mulheres são todas colocadas como pessoas boas e
sinceras. Em um primeiro momento, são vistas como submissas (principalmente Teresinha), mas que aos poucos se mostram como personagens
fortes e autônomas. Romana, além de cuidar da casa e dos membros da família, age
além de seu círculo, ajudando as vizinhas ou o Otávio com suas
confusões.
É importante ressaltar a forma como as culturas são, ao
longo do tempo, “invertidas”. Por exemplo, em certo momento da obra, Chiquinho
conversa com Teresinha sobre religião; os dois foram criados na favela, mas Teresinha
segue/acredita/gosta da igreja católica, por causa dos panos brancos, dos
adornos dourados e das estátuas de Jesus; enquanto Chiquinho prefere o terreiro,
por ter dança, fantasia, alegria e muitos santos. Percebe-se aqui a falta de
religiosidade de Teresinha, que se interessa por questões materiais e estéticas, diferente
de seu namorado, Chiquinho. Percebe-se, também, a visão de Gianfrancesco em considerar
ambas as religiões como válidas desde que haja respeito e seus praticantes
sintam-se bem.
Continuando no âmbito da cultura “invertida”, é triste
a cena em que a música de um dos moradores da favela, Juvêncio, toca na rádio,
mas com outra pessoa como autor. Juntando isso à discussão da religião, pontua-se
como a cultura do pobre, do negro, é roubada ou marginalizada pela cidade e,
então, inverte-se a cultura (como Paulo Freire alertou): o oprimido quer seguir
a linha do opressor; ou ainda, o oprimido crê que as coisas não mudam, não adianta lutar, pois, ao final, "tudo sempre foi e será assim".
Em suma, Eles não
usam black-tie é uma ótima peça, que aborda questões políticas, sociais e
culturais. Com uma linguagem muito simples, escrita de uma maneira corrida,
coloquial, cativa o leitor enquanto o faz refletir sobre a amizade, confiança,
família e amor — além dos temas já citados. É recomendado para todos amantes da
literatura, do teatro e para aqueles que se propõem a investigar a sociedade além
das esferas já conhecidas, mas a área dos pobres, dos proletariados, dos que
não usam ternos e gravatas: dos que não usam black-tie.
Gianfrancesco Guarnieri foi um importante dramaturgo, ator e diretor italiano, naturalizado brasileiro. Embora tenha escrito muitas peças, a que recebeu maior destaque (até por ter sido sua estreia) foi Eles não usam black-tie.
Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior, graduado em Letras, na Faculdade de Santo André, Santo André – SP.
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