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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Uma pequena reflexão #7: Sopros

Pintando uma parede, a tinta ainda fresca, pousou um mosquito. Eu, sem querer matá-lo, assoprei-o para que saísse de lá. Porém, ao tocar na parede, suas finíssimas perninhas ficaram presas e o seu corpo se esmagou com o sopro... Fiquei triste por isso, pois não era a minha intenção...

Em seguida, pensei: também nós, com uma simples brisa da natureza, morremos. O bichinho não deve nem ter tido ideia do que aconteceu, nem do motivo, assim como eu não imaginei que seria essa a consequência.

Nós, humanos, às vezes, até conseguimos prever o nosso fim, podemos estudar a causa da morte do outro etc. E embora tenhamos consciência de tantos possíveis (e também impossíveis) fatores, na maioria das vezes, ignoramo-la (e ignoramo-los). Destruímos o nosso habitat, moramos em áreas perigosas e quando somos esmagados, imaginamos e acreditamos ter sido um sopro divino.

No entanto, essas são questões da Natureza, algo em que fomos inseridos (antes de existirmos, o mundo já estava aí). Mas é que eu também pensei na nossa natureza, na linguagem, algo que inserimos ao mundo — ao mesmo tempo em que, utilizando-nos dela, inserimo-nos mais profundamente ao Cosmos.

Ao ver o inseto esmagado por algo invisível, refleti: quantas vezes, por uma única palavra, algo invisível, que sai da boca de alguém e, através do ar, atinge-nos, somos destruídos? Ainda bem que a linguagem é dialética e, assim como pode derrubar, também pode levantar e despertar-nos. Ainda bem que nela nem tudo é literal, mas metafórico. 

Espero que esse curto texto sirva como ponte ou escada, que pinte em vós uma nova cor (não precisa ser bonita — até porque isso é subjetivo —, apenas diferente da de sempre). 

domingo, 1 de novembro de 2015

Um caso de linguagem e alteridade


Um dos componentes da casa é o Rambinho, um cachorro. Todos os dias ele chama a nossa atenção para caminhar: vai até onde estamos, toca-nos com a pata, em seguida, corre para onde está a sua coleirinha e aponta para lá (com a mesma pata). Só falta falar em nossa linguagem, mas com o que consegue fazer da sua, na maioria das vezes, entendemo-lo.

Recentemente eu fui o seu acompanhante; aconteceu o mesmo ritual que descrevi acima, e, então, fomos. Passando por uma das ruas, parei para esperá-lo fazer suas necessidades. Enquanto isso, olhei para os lados; havia um terreno em diagonal, várias árvores (pequenas, de troncos finos, um pouco secas) e uma mulher que aparentava ter uns 60 anos, capinando.

Ao perceber que eu e meu cachorro estávamos próximos, parou sua atividade e começou a falar comigo. Contava sobre os seus animais de estimação. Sabemos que uma imagem puxa outras: viu meu cachorro e lembrou-se dos seus. Eu conhecia essa mulher apenas de vista, mas nunca havia conversado com ela. Pois bem, tornei-me seu ouvinte.

Ouvi uma história muito triste, disse-me que alguns de seus animais sumiram, ou que às vezes demoravam para aparecer e, quando apareciam, estavam todos machucados. Tristes histórias e eu, ali, ouvindo uma pessoa que nunca tinha conversado comigo; uma pessoa que nem perguntou meu nome, onde morava, idade, se tinha que ir embora, nada. Na verdade, não sei se posso chamar de diálogo, eu apenas afirmava suas colocações ou respondia com poucas palavras.

Por fim, o Rambinho começou a latir, não queria mais ficar parado, já tinha feito o que tinha que fazer, mas eu esperava a mulher terminar alguma frase em que desse a possibilidade de eu ir embora sem que ela, talvez, achasse ruim. E esse momento veio! Foi quando mudou o assunto, de triste para alegre (ela até sorriu enquanto contava). Concordei, sorri também e disse que tinha que ir.

Não sei se os animais entendem a nossa linguagem, sua obediência provém, na maioria das vezes, do condicionamento, não propriamente por entender as palavras e concordar; mas sim, do medo, da repetição e dos estímulos-reações. Da mesma forma em que às vezes ele quer que o percebamos, quer que lhe demos ouvidos (e comida, água, passeio, carinho, etc.), a mulher queria que eu desse atenção às suas palavras. Não precisava concordar ou discordar, apenas ouvi-la. Às vezes queremos e precisamos disso. Este texto mesmo, por exemplo, é uma vontade e necessidade que tive de me expressar; você lê, entende, mas talvez não o responda/comente. O texto é a fala da mulher e você, leitor, sou eu.

Não podia ignorá-la, não podemos nem com os animais, quanto mais a alguém da mesma espécie, que usa a mesma linguagem. Foi através dela que escrevi estas palavras, que ela se expressou, que eu entendi e me despedi. E ainda bem que foi num momento de riso.