domingo, 2 de agosto de 2015

Análise da música "God Is Dead?", da banda Black Sabbath


God Is Dead? É um single da banda Black Sabbath, lançada no álbum 13, em 2013. A letra, como já mostra o título, fala sobre religião e possui influência direta do filósofo Nietzsche (a capa é uma paródia de sua pessoa, e o título é uma questão à sua famosa afirmação “Deus está morto”). Eis a tradução:

Deus está morto?

Perdido na escuridão
Eu me afasto da luz
Tenho fé que meu pai, meu irmão, meu criador e salvador
Me ajudarão a percorrer pela noite
Sangue em minha consciência
E assassinato na mente
Fora da escuridão, eu levanto do meu túmulo a um destino iminente
Agora meu corpo é meu santuário.

O sangue corre livremente
A chuva torna-se vermelha
Me dê o vinho,
Fique com o pão
As vozes ecoam em minha cabeça
Deus está vivo ou Deus está morto?
Deus está morto?

Rios de maldade correm por terras mortas
Nadando em tristeza
Eles matam, roubam e pegam emprestado
Não há amanhã para os pecadores que serão punidos
Das cinzas às cinzas, não é possível desenterrar uma alma
Em quem você confia quando a corrupção, luxúria e crença dos injustos
Te deixam vazio e imoral?

Quando este pesadelo acabará? Me diga
Quando poderei esvaziar minha cabeça?
Alguém me dirá a resposta?
Deus realmente está morto?
Deus realmente está morto?

Para defender minha filosofia até meu último suspiro
Eu transfiro da realidade uma morte em vida
Eu simpatizo com os inimigos até certo momento
Com Deus e satanás ao meu lado
Da escuridão surgirá a luz.

Eu vejo a chuva se tornar vermelha
Me dê mais vinho,
Eu não preciso de pão.
Esses enigmas que vivem em minha cabeça
Eu não acredito que Deus está morto
Deus está morto.

Não tem para onde correr,
Não tem lugar para se esconder
Me pergunto se vamos nos encontrar do outro lado
Você acredita em alguma palavra que a Bíblia diz?
Ou isto é apenas um conto de fadas sagrado e Deus está morto?
Deus está morto

É isso

Mas ainda há vozes em minha cabeça dizendo que Deus está morto
O sangue escorre
A chuva se torna vermelha
Eu não acredito que Deus está morto
Deus está morto, Deus está morto, Deus está morto.

 //
Análise do conteúdo

Percebe-se então um eu-lírico indeciso, o próprio título da música já é uma dúvida. Dúvida esta que, se percebermos, é somente uma “tentativa” do autor em fingir uma dúvida. É interessante ouvirmos as alternâncias do ritmo e “peso” da música, pois isso mostra a inconstância do eu-lírico e seus pensamentos. Vejamos.

Com um ritmo lento e sombrio, vamos lendo a descrição do local e crenças do eu-lírico. Ele diz estar perdido e em uma escuridão, que pode ser a situação ruim/caótica/descrente do mundo atual; mas que possui fé em que será ajudado a percorrer essa “fase”. Começa-se aí a complexidade da letra, pois mesmo possuindo fé, ele tem consciência dos problemas do mundo: “sangue em minha consciência/ e assassinato na mente (...)/ eu levanto do meu túmulo a um destino iminente/ Agora meu corpo é meu santuário”.

O sangue e assassinato mostram os crimes que acontecem em nome das crenças, em nome de Deus; e ao dizer que o corpo é o novo santuário, inicia-se as influências de Nietzsche. Pois para ele, não deve-se contemplar algo transcendente, mas a si, a esse mundo mesmo.

Neste ponto a música ganha um pouco de “peso” das guitarras e volta novamente ao tema do sangue/assassinatos/crimes que acontecem no mundo; o eu-lírico pede vinho e oferece pão. Aqui tem-se uma referência à Bíblia e mostra-se o sarcasmo da letra (e de seu autor), pois sabendo da crueldade do mundo e corrupção da religião, ao pedir o vinho é o mesmo que pedir para continuar na ilusão (ou viver uma), posto que o vinho tem efeito embriagador. Assim como o próprio Nietzsche diz: “Os povos só são tão enganados porque procuram sempre um enganador, isto é, um vinho excitante para seus sentidos. Contanto que possam obter esse vinho, contentam-se com o pão de má qualidade (...)” (“Embriaguez e nutrição” – Aurora). E para ressaltar a confusão/dualidade desse eu-lírico, ele diz que vozes ecoam em sua cabeça, questionando-se se Deus está vivo ou morto. 

Uma das frases mais marcantes do filósofo Nietzsche é a afirmação de que “Deus está morto”, frase esta que às vezes é mal interpretada. Com essa afirmação, Nietzsche não está pregando o ateísmo, nem pregando a morte literal de Deus, mas constatando o fato de que as pessoas não são mais tão crédulas como eram antigamente (tal qual o eu-lírico da letra da música), é a perca da religiosidade do ser, é a troca do teocentrismo do homem medieval para o antropocentrismo da modernidade, é a afirmação de que o ser humano não precisa mais de Deus (como desculpa e motivo de tudo) para avançar e evoluir. Sendo assim, seguir uma religião sem religiosidade seria hipocrisia (assim como o eu-lírico fala dos assassinatos e do sangue das mortes).

Em seguida a música acalma-se novamente e é feita a descrição da maldade no mundo, rios de maldade, terras mortas (locais sem vida, sem felicidade) e que todos nadam em tristeza, que todos fazem o que querem, matam, roubam, etc., diz que as pessoas vivem como se não existisse amanhã, ou talvez, que para os que vivem assim, não haverá amanhã, não haverá vida após a morte (no céu/paraíso), pois estes pecadores serão punidos. Então vem o “lado ruim” do eu-lírico e diz que das cinzas viemos e às cinzas voltaremos (assim dizendo que não há amanhã mesmo, aqui acaba-se tudo), é impossível desenterrar uma alma, em quem confiar quando o mundo ao nosso redor nos corrompe, nos deixam imorais?

Então o “lado bom” retorna e pergunta quando é que esse pesadelo acabará, quando poderá esvaziar sua cabeça, quem poderá responder, por acaso Deus está realmente morto? Neste momento o videoclipe mostra várias pessoas abandonando seus itens religiosos, e a sonoridade não diminui mais no “peso” até o fim da música.

É neste ponto que aparece outra referência à filosofia nietzschiana: ao dizer que para defender sua filosofia até o fim ele transfere da realidade uma morte em vida, o eu-lírico está citando um conceito chamado “niilismo”. Nietzsche escreve muito sobre isso, para ele há dois tipos de niilismo: o ativo e o passivo.

Niilismo é a negação dos valores, é a negação da vida. Para Nietzsche, o niilismo passivo é o das religiões, pois negam essa vida em favor de uma outra, privam-se dos benefícios dessa, valorizando uma vida posterior e assim, livram-se das suas responsabilidades, deixam-nas nas mãos de Deus. Já o outro — que é o que ele diz fazer parte —, nega os valores da outra vida em favor desta, assim, a responsabilidade de tudo cai sobre o próprio homem, e por isso Deus morre. Ao negar os valores já postos e a outra vida, esta vida perde o sentido, então, o homem deve criar novos valores e dar sentido à sua própria vida.

Quando o eu-lírico diz que simpatiza com os inimigos e que está com Deus e satanás ao seu lado, ele está falando de outro assunto que Nietzsche valoriza muito: o amor-fati.

Amor-fati seria o amor à vida, amor ao destino; é a aceitação da vida como um todo, com os lados bons e ruins — porque a maioria das pessoas foge das coisas ruins, não querem vivê-las, mas Nietzsche diz que devemos aceitar e lutar para superá-las, pois só somos o que somos, graças aos dois lados. Ao aceitarmos isso, juntarmo-nos a Deus e satanás, isto é, ao bem e ao mal, saímos da escuridão e passamos a sermos mais esclarecidos sobre a própria vida.

Repete-se o refrão, mas agora o eu-lírico pede mais vinho e diz que não precisa de pão... Ou seja, ele quer continuar iludido (embriagado), diz que são muitos enigmas em sua cabeça, mas que ele não acredita que Deus está morto. Interessante é que ao dizer “Deus não está morto”, em seguida ele diz “Deus está morto”, como se fosse o outro lado, ou um eco que só repete parte da frase (os ecos são citados no 13° verso).

A partir daí o riff da música muda, fica mais rápido, e o lado ruim do eu-lírico domina totalmente a estrofe, dizendo que não há para onde correr nem fugir. Nesta parte do videoclipe aparecem algumas cenas do Planeta, como se não desse para fugir daqui, mas também pode-se pensar que não dá para fugir de nós mesmos, de nossas responsabilidades (mesmo que tentemos fugir da realidade com alguns prazeres momentâneos que nos iludem — o mesmo efeito do vinho)...

Mesmo assim ele pergunta à outra parte de sua consciência se eles se encontrarão do outro lado, no outro mundo (caso exista), se seu outro lado realmente acredita na Bíblia (na letra em inglês é dito como “Good Book”, que seria “Bom Livro”; talvez por ser um “livro de bondades” em um mundo de maldades, a parte ruim do eu-lírico considere-o como um livro de mentiras, como ele diz logo após), ou é tudo um conto de fadas considerado sagrado e Deus está morto?

Termina com o eu-lírico repetindo sua contradição: não acredito que Deus está morto/Deus está morto; como se fosse um eco, ou como se fosse o “lado ruim” tentando convencer o outro através da insistência.

Como percebe-se, a letra inteira é uma luta entre dois lados, não se trata de uma afirmação (como muitos tendem a interpretar), não se trata também da morte física/literal de Deus. A música é uma reflexão, a análise é uma explicação de alguns pontos, mas a decisão da pergunta cabe a cada um.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sobre as fórmulas

Certo dia, escrevi três versos.
Versos simples, curtos,
que não chegaram nem a quatorze palavras;
um amigo me disse que era um haicai.
Desconfiei que não era,
mas fiquei o dia todo pensando.
Contei para uma amiga sobre o caso e ela disse:
Não, não é haicai; nem deveria ser.
O poema tem que ser você.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Análise da música "Toda forma de poder", da banda Engenheiros do Hawaii e a relação com a "novilíngua".

“Toda forma de poder” é uma música da banda Engenheiros do Hawaii, lançada em 1986, no álbum “Longe Demais das Capitais”. A letra, de cunho político, faz uma crítica aos governos e, como diz o próprio título, a “toda forma de poder”. É bom lembrar que a Ditadura Militar havia acabado há pouco tempo no Brasil, por isso a banda e tantas outras ainda discutiam esse tema.

O que chama a atenção nessa música é que, além do título, obviamente, a canção sugere, nos seus primeiros segundos, sobre o que tratará: a bateria de Carlos Maltz é tocada num ritmo de marcha, que pode ser associada ao Exército, aos militares, que estiveram no poder até há pouco tempo, considerando a data de 1986, um ano após o fim da Ditadura. E depois, no primeiro verso da letra, é feita uma crítica à linguagem usada pelos políticos/governantes/pessoas importantes, algo que, como será mostrado, está associado à “novilíngua”; ao mesmo tempo, ironicamente, em seguida, essa mesma estratégia é usada pelo próprio eu-lírico. Eis a letra:

Toda forma de poder

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada (Yeah, yeah)
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada (Yeah, yeah)
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
(Yeah yeah, uoh, uoh)

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada
(Yeah, yeah)
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada
(Uoh uoh)
A história se repete
Mas a força deixa a história mal contada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

E o fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante e se esquecer
Que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer


Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer



//


//



Logo de início, nota-se a percepção do eu-lírico quanto à espécie de novilíngua: “Eu presto atenção no que eles dizem / mas eles não dizem nada”. A novilíngua, idioma fictício do governo autoritário de “1984”, livro de George Orwell, “é o processo de manipulação da linguagem que invade o campo político, esvazia o discurso e, como pesadelo de Orwell, instrumentaliza a esfera pública”. Todos sabemos o quanto os políticos enrolam em seus discursos, mudam de assunto, utilizam frases prontas, frases de efeito (às vezes contraditórias), enfim, “falam sem falar”, com intuito de se distanciarem do assunto principal. É a novilíngua, muito utilizada por ditadores.

Em seguida, o eu-lírico diz que Fidel Castro e Pinochet dão risada de nós, pois não fazemos nada, e que ele já começa a achar normal que algum boçal/ignorante — fascista? — atire bombas na embaixada. É que a novilíngua é “capaz de minar o hábito de ouvir, a atenção e a concentração, formando pessoas que deixam de pensar a política como uma esfera de atuação em seu cotidiano” e assim, acostumam-se, apenas seguem o que é dito, acreditam que todos os discursos são iguais e mentirosos, alienam-se. 

Os nomes Fidel e Pinochet podem ser trocados por vários outros, aqui mesmo, no Brasil, temos tantos políticos que caçoam de nós, que criam leis que beneficiam a eles e nos prejudicam, no entanto, nós não fazemos nada para combatê-los; ou ainda, nem precisa ser político, mas líderes religiosos ou certos “artistas”, que soltam seus ideais e passam por cima de leis e nada lhes acontece.

Para quem não sabe, Fidel Castro foi o revolucionário cubano, líder ao lado de Che Guevara na Revolução Cubana, que tirou o ditador Fulgêncio Batista do poder e que implantou o Comunismo. Embora Cuba tenha melhorado em muitos sentidos desde então, Fidel Castro continuou sendo autoritário. Assim, o eu-lírico critica a “extrema esquerda”. 

Por outro lado, Augusto Pinochet, comandante do exército chileno, foi quem liderou o golpe militar de 1973 e implantou uma ditadura sobre o Chile. Autoritarismo e fascismo resumem o que foi o “governo” de Pinochet. Assim, o eu- lírico critica a “extrema direita”.

Em seguida, chega o refrão, e é nesta parte em que o eu-lírico, conscientemente, aproxima-se da novilíngua, distanciando-se totalmente do discurso proferido na primeira estrofe.

Se no primeiro verso ele reclama que presta “atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”, agora, quem não diz nada é o próprio eu-lírico: “Se tudo passa, talvez você passe por aqui / E me faça esquecer tudo que eu vi / Se tudo passa, talvez você passe por aqui / E me faça esquecer”. 

Além de fugir do assunto político que estava sendo discutido, neste momento o eu-lírico canta mais devagar, repete algumas frases e ainda se utiliza de um jogo de palavras que faz o refrão ser a parte mais memorável da música. Observemos o jogo de palavras usado, destacadas as sílabas que o compõem: SE – pasSA – voCÊ – pasSE – faÇA – esqueCER – SE – pasSA – voCÊ – pasSE – faÇA – esqueCER.

Não é à toa que a maioria das pessoas lembra somente desta parte da música, esquecendo-se totalmente (ou nem percebendo/refletindo) o teor crítico do resto dela. E isso acontece na maioria das músicas. 

Passando o refrão, o eu-lírico volta com suas críticas e diz que “toda forma de poder é uma forma de morrer por nada”, pois “toda forma de conduta se transforma numa luta armada”. Aqui se mostra quase um niilismo do eu-lírico, pois este não vê sentido em forma alguma de poder, seja de “direita" ou de "esquerda”, além disso, há a denúncia de que todo extremismo causa revoltas/ lutas armadas. 

Ainda nesta parte, é importante perceber a construção dos versos, que é bem composta. “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada” possui uma rima interna, com as palavras “poder” e “morrer”, que, aliás, são de classes gramaticais diferentes (substantivo e verbo), o que cria uma rima rica. Outra rima interna acontece em “Toda forma de conduta se transforma numa luta armada”, com as palavras “conduta” e “luta”. Isso mostra o cuidado e a habilidade do letrista, no caso, Humberto Gessinger, já no primeiro álbum.

Termina-se essa estrofe dizendo que “a história se repete / mas a força deixa a história mal contada”, até porque, geralmente quem sobra para contá-la é o vencedor. Ou, como disse Napoleão (que, por ter ficado na História, pode ser considerado um vencedor, mesmo após sua última derrota): “A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”. A força e o autoritarismo deformam os fatos e criam ideologias, por sua vez, camufladas por discursos. 

É interessante notar que o eu-lírico, ao terminar de cantar a última palavra da estrofe, “contada”, fica repetindo as duas últimas sílabas: “ta” e “da”, como se fosse um eco, assim como é dito que a história se repete, mas mal contada, contada pela metade, contada só o final. Outra interpretação possível é a de que essas duas últimas sílabas, ao serem repetidas, conotam uma onomatopeia, o som de uma arma, representando o tipo de “força” que “deixa a história mal contada”.

Depois disso, volta o refrão que nada tem a ver com o conteúdo da música, agora com mais de uma voz e cantado mais alto. Talvez, implicitamente, esteja mostrando que para a fuga há mais forças/pessoas/vozes, mas para a crítica...

Por fim, depois de tantos indícios que o eu-lírico já tinha dado, ele fala do fascismo. Diz que o “fascismo é fascinante / deixa a gente ignorante e fascinada / É tão fácil ir adiante e se esquecer / Que a coisa toda tá errada / Eu presto atenção no que eles dizem / Mas eles não dizem nada”.

Além de ser real, essa estrofe é atual. Ora, o fascismo, a violência, o poder, realmente atraem/fascinam. Dão uma resposta simples e rápida para problemas difíceis e complexos. Assim nascem as ideologias. O Nazismo, por exemplo, deu uma resposta muito simples e rápida para todos os problemas na Alemanha: extermínio de judeus. Disseram, na época, que o problema de toda a situação ruim (seja econômica, cultural etc.) da Alemanha era a presença dos judeus, sendo assim, a solução era somente exterminá-los. Não houve autocrítica nem diálogo, apenas imposição e eliminação de um ao outro. Hoje, ataques às minorias (defendidos por pessoas importantes, inclusive!) continuam acontecendo, sem reflexão nem diálogo. É o fascismo em escala menor, porque não oficializado.

Voltando à novilíngua, ela foi e ainda é muito utilizada por ditadores e fascistas, tanto que antes de ela possuir esse nome, era referida como “linguagem stalinista” (Stalin, como se sabe, foi um ditador da União Soviética). A ideia de punição/aniquilação/destruição, isto é, o fascismo, fascina e “deixa a gente ignorante”. Dão-se respostas simples e rápidas, porque é “tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda está errada”. 

// 

Não nos deixemos enganar pela linguagem, não nos deixemos cair em ideologias; pensemos antes de agir, porque ao agirmos sem pensar, se não for por emoção e desatenção, é por intenção, é por pretensão, é por ação imediata, ao invés de reflexão, opinião e ação sensata. 

Engenheiros do Hawaii é uma banda brasileira de rock, liderada por Humberto Gessinger, criada em 1984, esteve em atividade até 2008, ano em que a banda entrou em “pausa” e está até hoje. 

REFERÊNCIAS

JANUÁRIO, Marcelo Gallio. O vazio do discurso: Como uma linguagem vaga pode transformar-se em ferramenta eleitoral. Disponível em:  <http://revistalingua.com.br/textos/84/o-vazio-do-discurso-271230-1.asp>.  Acesso em:  07. Jul. 2015.

ENGENHEIROS do Hawaii. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Engenheiros_do_Hawaii>. Acesso em: 07/07/2015.

domingo, 5 de julho de 2015

O individualismo intrínseco

Ao dizermos que “vivemos em sociedade” chega até a ser irônico. Como podemos viver em grupos, se pensamos somente em nós mesmos? Falsidade para com todos e para nós mesmos. Vivemos em sociedade porque somos obrigados, pois somos (ou nos tornamos) seres individualistas.

Hoje, mais do que nunca, as pessoas estão cada vez mais egoístas; cada vez mais pensando em si mesmas. Frequentemente vê-se muitas pessoas cursando e capacitando-se para melhorar de emprego, mas não para melhorar seu trabalho e a si mesmo, mas sim, para receber mais. Em redes sociais percebemos o apelo feito para conseguir atenção, para conseguir likes, para aumentar o próprio ego.

Em contrapartida, vêem-se cada vez menos pessoas ajudando os outros. Pouquíssimos o fazem. É muito comum vermos alguém caindo na rua e ao redor, pessoas rindo ao invés de ajudar (o quadro “Cassetadas — seja lá como se chama — do Faustão”, da rede Globo, mostra muito bem isso: pessoas achando graça da desgraça de outrem).

Há toda uma lógica do capitalismo que incita-nos a sermos egoístas, buscarmos sermos os melhores, colocar-nos a competir — quando, ao contrário, deveríamos ajudar-nos; olhar, importar e cuidar do outro.

Enfim, a situação é/está realmente triste e só tende a piorar. Estamos tão concentrados (e convictos) em nós mesmos que, quando vemos as poucas pessoas solidárias agindo, achamos que eles querem se beneficiar com algo. Como diz Nietzsche: "Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade".

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Análise do poema "O banco", de Paulo Franco

O banco

Hoje, poderia ter feito planos,
contado estórias,
contado os dias
que arquitetam anos.

Poderia ter feito charme
ou me escurecido
em um depressivo verso branco.

Poderia ter mastigado calmante,
folheado a minha estante,
mas hoje só fiz um banco.

Sim, um banco destes de se sentar,
um banco destes de antigamente,
feio,
que nem cabe no lirismo dos meus versos.

Hoje, poderia ter feito
qualquer outra coisa,
mas fiz um banco.
Amanhã, quem sabe eu faça
um jardim.

Apetrecho fútil
parido de mim
que não me encontro.

E o interessante
é que nem mesmo preciso
de um banco.
Nem mesmo preciso-me.

//

Análise do conteúdo

Neste poema, Paulo Franco retrata perfeitamente a situação da nossa sociedade atual: perdida, triste e alienada. Temos um eu-lírico que diz que neste dia poderia ter feito várias coisas, contado dias, estórias, ficar se gabando ("feito charme") ou ter se escondido ("escurecido") em algum verso branco. Para quem não sabe, versos brancos são versos que não possuem rimas, mas que, ainda assim, possuem métrica. E a confissão continua, com o eu-lírico dizendo que mesmo podendo ter feito tudo isso, fez apenas um banco — percebamos, também, o jogo de palavras, "banco" e "branco", e o jogo de antíteses, "escurecido" e "branco".

Em seguida, o eu-lirico começa a descrever o tal banco, dizendo que é um banco comum, para sentar-se, feio, que nem cabe — e talvez nem corresponda — ao lirismo, ao sentimento do feitor. O interessante é que de todos os versos, aquele que corresponde ao adjetivo "feio" do banco, é o único que possui apenas uma palavra (que é a própria palavra "feio"): é o único diferente.

Depois, insiste-se na ideia que de tantas coisas a fazer, foi feito um banco, e que, talvez, amanhã ele faça um jardim. Quantas vezes nós deixamos as nossas vontades, os nossos desejos, os nossos gostos para o amanhã? Amanhã que nunca chega... O jardim, que é algo natural, algo belo, algo vivo, algo que depende de nós, fica abandonado — isso quando o criamos.

O pior é que o eu-lírico sabe que o banco é "fútil" e que não faz parte dele, que ele não se encontra no que faz (este é o retrato das pessoas que trabalham no que não gostam, estudam o que não querem estudar, etc., mesmo sabendo o que querem e gostam).

Por fim, o eu-lírico mostra saber que não precisa de um banco, nem mesmo precisa de si. Essa é a parte mais triste do poema, pois mostra o quão perdido/alienado e incapaz de mudar está o ser: embora saiba que não precisa de um banco, o faz; embora viva, não vive, sobrevive ou vive sem ver a importância de viver. Se não precisa de si mesmo, por que continua vivendo? Se não precisa do banco, por que o faz? 

Analisemos a figura do banco. O banco é um objeto — portanto, algo sem vida — que serve para se sentar (não necessariamente nós sentarmos, mas também os outros). O exemplo do banco é ótimo para retratar o trabalho das fábricas, pois imagine (ou lembre-se de) alguém que perde a vida toda fazendo bancos, com trabalho, suor, força, etc., mas esses bancos nem servem a ele, mas, sim, para os outros, para os donos sentarem — lucrarem. Bancos ou trabalhos que nem gosto ou vontade em fazê-los a pessoa possui; nem razão para fazê-los ou por fazê-los a pessoa possui, mas os faz. É assim que o próprio ser humano perde a vida, transformando-se em banco para os outros.

O autor, Paulo Franco, é um escritor contemporâneo, vencedor de vários prêmios literários dentro do país.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Análise da música "Oversoul", da banda Andre Matos (solo)


Oversoul é uma música da banda de Heavy Metal "Andre Matos", composta pelo próprio vocalista e tecladista Andre Matos, Bruno Ladislau (baixista) e Hugo Mariutti (guitarrista), presente no álbum The Turn Of The Lights, de 2012. 

A letra traz uma visão crítica da nossa realidade, sobre o capitalismo, o consumismo e a alienação. Pode-se dizer que a música não chega a ser “pesada”, mas é rápida, assim como o ritmo da vida moderna — e não, como pensa a maioria, que a música é rápida ou pesada somente por a banda ser de Heavy Metal, pois conteúdo e melodia estão intrinsecamente ligados —, possuindo, em certo momento, uma “quebra” de ritmo, mas que depois volta para sua velocidade de início. Analisemos a tradução:

Superalma

As mandíbulas das corporações
Estão se espalhando para todos os lados
Invadindo como uma praga, você não pode ignorar
Você é levado para uma armadilha
Eles parecem nem se importar
Com sua vida, sua saúde — sua miséria!

Eles precisam que você diga
Eles precisam que você jogue
Eles vão achar um jeito para suas necessidades
Você é examinado de cima a baixo
Pois eles querem saber:
Você é simples o bastante para nos servir?

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

O florescer de uma vida
Você é inocente e selvagem
Você acha que sabe a verdade, mas simplesmente não sabe
É assim mesmo, quando se começa
Você tem que se juntar ao jogo!
Você está procurando por respeito — para ser alguém!

Eles forçam você a jogar
Eles forçam você a desejar
A partir de agora, eles estarão por trás de suas necessidades
Você fará o que eles dizem
Não consegue escolher seu próprio caminho
Exatamente quando é tarde demais para voltar atrás.

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

Olhe ao redor e veja
Você perdeu toda a vontade de viver?
Por que você não levanta e luta por sua alma?

//


Análise do conteúdo

Começa-se, então, com um eu-lírico alertando sobre o crescimento das corporações/empresas/grupos/instituições que, como se sabe, regem influência direta em nossas vidas. Interessante é que ele compara as corporações às pragas, pois elas alastram-se, destruindo os ambientes — no caso, nossa terra, nossa natureza, nosso planeta, nosso lar — e as vidas; ainda assim, é certo que pragas são prejudiciais, mas podem ser combatidas (o que mostra a esperança do eu – lírico).

Em seguida, diz que somos levados para uma armadilha e que elas/eles, corporações/empresas/governantes, parecem não se importar com as nossas vidas, com a nossa saúde e miséria, o que é verdade, pois todas essas instituições estão preocupadas somente com os lucros (deles, e não os nossos; para eles, quando pensamos e agimos diferente da maioria, nós somos a praga a ser combatida).

Na segunda estrofe, o eu-lírico mostra o quanto estamos ligados às corporações, e estas, a nós; diz que precisam de nossa opinião, necessitam conhecer nossas necessidades e vontades, para que, assim, continuemos no jogo (deles).

Não é muito raro vermos empresas, sites etc. perguntando ou pedindo a nossa opinião sobre tal produto, modificação ou ação; sempre usando a "segunda pessoa do singular", “tu/você”, para dar a impressão de que realmente se importam e de que nós quem mandamos, criando um ar de “construção”, quando, na realidade, é manipulação. Termina-se a estrofe dizendo que somos examinados de cima a baixo e que as corporações realmente estão preocupadas conosco: querem saber se iremos servi-las ou não.

Então, chega o refrão da música, no qual é dito que todas as vezes que “eles” atingem seus objetivos, somos esfaqueados sem saber. Claro, nossa pobreza ou nosso prejuízo é o lucro e a riqueza dos donos de empresas; ou ainda, como vemos atualmente, no Brasil, os políticos comemorando suas vitórias, com seus projetos pessoais, irracionais e empresariais, que fazem bem somente a eles, mas não ao povo — e que, se não pesquisarmos, nem ficamos sabendo. O refrão termina com uma pergunta: “Você não consegue sentir a Superalma? / O significado de tudo isso...”; notemos o uso da letra maiúscula em “Superalma”, algo que dá um significado maior à palavra.

Em inglês, a palavra “over” já deixa a expressão com mais ênfase, portanto, “oversoul” seria uma “superalma”, mas Andre Matos ainda a deixa com letra maiúscula. Quando se usa uma palavra desta forma, trata-se de algo supremo, algo universal, a representação perfeita daquilo que se propõe — característica da Literatura Clássica. Pode-se interpretar essa “Superalma” como a situação da vida, a situação como um todo, com seus lados bons e ruins, externos e internos.

Na próxima estrofe, o eu–lírico fala sobre o florescer da vida, sobre o despertar;  diz que somos inocentes e selvagens, achamos que conhecemos a verdade (sem saber). Aqui, mostra-se a experiência do eu–lírico, que, por ser mais velho, sabe que quando estamos despertando, achamo-nos inteligentes, mas temos tanto a aprender... Ou, talvez, esteja falando dos alienados; vemos tantas pessoas se considerando cultas, menosprezando todos os outros que não concordam com suas ideias, chamando-os de alienados e dominados por uma ideologia, quando, na verdade, nem percebem que eles também estão sob outra ideologia, mas não percebem — ou não querem saber.

Para terminar a estrofe, diz que a vida é assim mesmo, temos de nos juntar ao jogo, procurar por respeito, procurar ser alguém. Isso é ensinado e realmente torna-se o desejo de muitos. Essa é a ideologia passada, mas poucos se perguntam: o que é ser alguém? Ter respeito pelo o quê? Muitos confundem “respeito” com “medo”, outros querem ser respeitados pelo o que têm, e não pelo o que são. Todos devem buscar ser alguém, sendo assim, ser alguém é ser igual, e quem não pensa assim é diferente, é perigoso, é louco, é praga. O jogo deve ser jogado, não pode ser modificado, não pode ser (re)construído ou debatido.

Como objetos, somos forçados a jogar e levados a desejar, assim, não precisamos somente das necessidades, mas de quem as produza (e as induza) também. Fazemos o que mandam fazer, não escolhemos nosso próprio caminho, tornamo-nos alienados. Tornamo-nos objetos ao invés de sujeitos. Depois disso, repete-se o refrão e inicia-se o solo.

Neste momento, quando o refrão acaba, a música tem um corte repentino, tocando somente o piano. A música fica silenciosa, triste, como se fosse um momento para a reflexão. Aos poucos, os instrumentos voltam à velocidade inicial e o eu–lírico faz suas últimas questões ao leitor/ouvinte: “Olhe ao redor e veja / Você perdeu toda a vontade de viver? / Por que você não levanta e luta por sua alma?”, incitando-nos a sermos nós mesmos, buscarmos e lutarmos para sermos o que somos, e não o que querem que sejamos.

Além disso, ao sugerir a luta pela alma, que é algo abstrato, deixamos, pelo menos nesse momento, de lutar por coisas materiais. Repete-se o refrão e termina-se a música, novamente, com quebra de ritmo, triste, assim como a situação da vida no mundo atual, ou como pode  acabar se continuarmos assim. 

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Andre Matos é um dos maiores representantes do Heavy Metal brasileiro, reconhecido como um dos maiores vocalistas do mundo. Já esteve à frente das bandas Viper, Angra, Shaman, Virgo e Symfonia, além de ter participado de vários projetos. Está em carreira solo desde 2006, onde lançou três álbuns até então, sendo The Turn of The Lights o último. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Estrelas

Ao olharmos para as estrelas,
olhamos para o passado,
pois esses astros estão
a anos-luz distantes de nós;
e essa sua luz, ainda assim, fascina.
O mesmo para as nossas lembranças:
a anos de distância, 
boas ou ruins, ainda assim,
alcança-nos e, às vezes,
fascina-nos.
Longe, vemo-las como algo pequeno;
perto, não vemos, vivemos;
imersos no complexo.

Fichamento comentado do livro "Pedagogia do Oprimido", de Paulo Freire.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2014.

Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, é um livro forte. Nele, Freire busca explicar a (triste) situação da maioria das pessoas/alunos e dá-nos possibilidades de mudar esse contexto através do diálogo, através da libertação.

É dito que, primeiramente, precisamos nos perceber no mundo, perceber a situação em que estamos inseridos, mas só isso não basta. É necessário também percebermo-nos como agentes de nossa própria história, e não como objetos criados e manipulados pela elite do país/local.

O problema do oprimido é muito grande porque, estando a vida toda preso a esta visão, passa a acreditar que este é o real; e por sempre ter sido assim, é um fato consumado. Principalmente por ideologias criadas pela mídia, como a meritocracia, em que todos possuem a capacidade de melhorar de vida, mas se não conseguem, é por incompetência do ser; ou a falsa generosidade, em que quem está no poder, finge importar-se e ajudar quem precisa, mas o que acontece é que este é um meio para as coisas continuarem como estão: quem está no topo continua no topo (e passam-se por “bons”), e quem está embaixo continua necessitado da ajuda de quem está no topo.

Para libertarmo-nos é necessária uma verdadeira revolução. A questão é muito complexa, pois, muitas vezes, o oprimido (e o “libertador” também) carrega o opressor dentro de si, colocando-se (às vezes) contra os próprios companheiros e desejando ser como os opressores; e quando não, desvalorizam-se, como diz Freire: “A autodesvalia é outra característica dos oprimidos” (p. 69), acreditando que são (por alguma “razão”, seja Deus, destino ou outra coisa) inferiores. Por isso deve-se valorizar os oprimidos, valorizar sua visão de mundo, valorizar o seu ser e ajudá-los (e assim, eles nos ajudarem e todos ajudarem-se) a serem/sermos mais, a deixar de sermos coisas e assumirmo-nos como humanos, como homens e mulheres.

O método que Freire nos propõe para esta transformação é o diálogo e a reflexão contínua, pois “(...) a reflexão, se realmente reflexão, conduz à prática.” (p. 73). O diálogo tem de ser verdadeiro, não um monólogo. É falar para eles e com eles — e colocar-se a ouvir também. Os temas a serem abordados devem ser temas geradores, temas da realidade do povo, temas que se problematizem, e assim, gerem outras problematizações/debates, desta forma criando conhecimento. Os alunos devem perceberem-se como autores que atuam a própria vida; percebendo-se, percebem o outro lado (a elite dominadora), e agindo — revolucionando —  acabam por libertarem-se e libertarem o outro lado também.

É por isso que Paulo Freire insiste tanto no uso do diálogo, porque dialogando são dois (ou mais) seres agindo um com o outro, e não como fazem os opressores, em que apenas um deles fala, depositando seus conhecimentos sobre o outro, como se o outro não tivesse nada a oferecer, somente a receber  é o que Paulo Freire chama de “educação bancária”. A educação bancária, além de dar-se de “forma vertical” (um está acima e o outro abaixo), coloca o aluno como alguém que tem que adaptar-se às coisas e ao mundo, retornando à ideia de que são meros “objetos”, e não sujeitos.

Enfatiza-se, também, que embora o educador não deva ser autoritário, não deve ser passivo. É preciso que na relação educador-educando haja amor, humildade, fé, confiança e pensamento crítico. Tudo isso é necessário para que haja o verdadeiro diálogo e assim, a mudança do ser para o “ser mais”. Paulo Freire nos adverte também para que não caiamos no erro de apenas mudar o oprimido de lugar: antes, da elite; agora, “nosso”. Não é colocar a nossa visão sobre o educando, é juntamente criarmos uma nova visão (e ação).

Devemos nos diferenciar em tudo dos opressores: se eles não dialogam, dialoguemos; se eles não causam revolução, mas sim, opressão, então causemos revolução e libertação; se eles tentam manter-nos afastados, devemos unirmo-nos; se eles pensam em “conquistar o povo”, não devemos conquistá-los, mas assumirmo-nos como povo e fazermos parte dele, porque “Todo ato de conquista implica um sujeito que conquista e um objeto conquistado(...)” (p.186), e ninguém deve ser tratado como objeto.

Discute-se muito sobre a alienação, algo que sempre temos de lutar contra, despertando o verdadeiro pensar. A elite teme isso, tanto que “(...) em certos níveis seus, até instintivamente, usam todos os meios, mesmo a violência física, para proibir que as massas pensem” (p.201).

O opressor, ao mesmo tempo em que aliena o oprimido, invade sua cultura e vida, e o oprimido, por estar alienado, não percebe. Nas palavras de Freire: “(...) Os invasores atuam; os invadidos têm a ilusão de que atuam, na atuação dos invasores” (p. 205), assim, os oprimidos terão sempre em mente a cultura da elite, “(...) quererão parecer com aqueles: andar como aqueles, vestir à sua maneira, falar a seu modo” (p. 207). É por isso que a invasão cultural é uma violência e manipulação; é por isso que se deve conscientizar as pessoas ao máximo para que, com elas, superemos a falsa cultura, passemos a criar a verdadeira cultura, a sermos seres culturais, ao invés de sermos criados/moldados à forma do outro.

Não trata-se de conquistá-los, mas de colaborarmos uns com os outros. “O que distingue a liderança revolucionária da elite dominadora não são apenas seus objetivos, mas seu modo de atuar distinto (...)” (p. 226). Ninguém se liberta sozinho, mas ninguém doa liberdade a alguém, é um processo em que um ajuda o outro a se formar, a ser mais. “Daí que não possa a liderança dizer sua palavra sozinha, mas com o povo. A liderança que assim não proceda, que insista em impor sua palavra de ordem, não organiza, manipula o povo. Não liberta, nem se liberta, oprime.” (p. 243).

Por fim, é isto que Paulo Freire busca neste livro, a luta e a crítica à realidade em busca de melhorias; a busca ao diálogo; à libertação e ao engajamento dos povos nos processos sócio, histórico e culturais; a busca à valorização da vida. Como ele diz sobre o próprio livro: “Todo nosso esforço neste ensaio foi falar desta coisa óbvia: assim como o opressor, para oprimir, precisa de uma teoria da ação opressora, os oprimidos, para se libertarem, igualmente necessitam de uma teoria de sua ação.” (p. 252).

Conclusão

Este livro mostra o quanto a realidade é complexa e exige uma postura radical — uma verdadeira revolução — para caso queiramos mudá-la. Paulo Freire demonstra e explica como funciona o sistema opressor, suas táticas, ideologias e suas consequências sobre o outro.

Não só isso, ele também mostra e cria formas de combater esta violência, que é, em primeiro lugar, dialogar com os oprimidos. Para libertar-nos, precisamos estar junto dos outros e estes, nos ajudando a libertar-nos, libertam-se também.

O livro diz que não somos salvadores ou libertadores do povo, mas que devemos aprender a sermos construtores de nossa própria vida, porque somos humanos, não somos objetos. E que, para acontecer uma verdadeira revolução, devemos ser verdadeiros conosco e com os outros: não é fazer-se diferente, mas fazer-se semelhante; não é falar para o povo, é falar com o povo, sobre o povo e sobre o mundo, isto é fazer-se e fazer o mundo.