quarta-feira, 1 de julho de 2015

Análise da música "Oversoul", da banda Andre Matos (solo)


Oversoul é uma música da banda de Heavy Metal "Andre Matos", composta pelo próprio vocalista e tecladista Andre Matos, Bruno Ladislau (baixista) e Hugo Mariutti (guitarrista), presente no álbum The Turn Of The Lights, de 2012. 

A letra traz uma visão crítica da nossa realidade, sobre o capitalismo, o consumismo e a alienação. Pode-se dizer que a música não chega a ser “pesada”, mas é rápida, assim como o ritmo da vida moderna — e não, como pensa a maioria, que a música é rápida ou pesada somente por a banda ser de Heavy Metal, pois conteúdo e melodia estão intrinsecamente ligados —, possuindo, em certo momento, uma “quebra” de ritmo, mas que depois volta para sua velocidade de início. Analisemos a tradução:

Superalma

As mandíbulas das corporações
Estão se espalhando para todos os lados
Invadindo como uma praga, você não pode ignorar
Você é levado para uma armadilha
Eles parecem nem se importar
Com sua vida, sua saúde — sua miséria!

Eles precisam que você diga
Eles precisam que você jogue
Eles vão achar um jeito para suas necessidades
Você é examinado de cima a baixo
Pois eles querem saber:
Você é simples o bastante para nos servir?

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

O florescer de uma vida
Você é inocente e selvagem
Você acha que sabe a verdade, mas simplesmente não sabe
É assim mesmo, quando se começa
Você tem que se juntar ao jogo!
Você está procurando por respeito — para ser alguém!

Eles forçam você a jogar
Eles forçam você a desejar
A partir de agora, eles estarão por trás de suas necessidades
Você fará o que eles dizem
Não consegue escolher seu próprio caminho
Exatamente quando é tarde demais para voltar atrás.

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

Olhe ao redor e veja
Você perdeu toda a vontade de viver?
Por que você não levanta e luta por sua alma?

//


Análise do conteúdo

Começa-se, então, com um eu-lírico alertando sobre o crescimento das corporações/empresas/grupos/instituições que, como se sabe, regem influência direta em nossas vidas. Interessante é que ele compara as corporações às pragas, pois elas alastram-se, destruindo os ambientes — no caso, nossa terra, nossa natureza, nosso planeta, nosso lar — e as vidas; ainda assim, é certo que pragas são prejudiciais, mas podem ser combatidas (o que mostra a esperança do eu – lírico).

Em seguida, diz que somos levados para uma armadilha e que elas/eles, corporações/empresas/governantes, parecem não se importar com as nossas vidas, com a nossa saúde e miséria, o que é verdade, pois todas essas instituições estão preocupadas somente com os lucros (deles, e não os nossos; para eles, quando pensamos e agimos diferente da maioria, nós somos a praga a ser combatida).

Na segunda estrofe, o eu-lírico mostra o quanto estamos ligados às corporações, e estas, a nós; diz que precisam de nossa opinião, necessitam conhecer nossas necessidades e vontades, para que, assim, continuemos no jogo (deles).

Não é muito raro vermos empresas, sites etc. perguntando ou pedindo a nossa opinião sobre tal produto, modificação ou ação; sempre usando a "segunda pessoa do singular", “tu/você”, para dar a impressão de que realmente se importam e de que nós quem mandamos, criando um ar de “construção”, quando, na realidade, é manipulação. Termina-se a estrofe dizendo que somos examinados de cima a baixo e que as corporações realmente estão preocupadas conosco: querem saber se iremos servi-las ou não.

Então, chega o refrão da música, no qual é dito que todas as vezes que “eles” atingem seus objetivos, somos esfaqueados sem saber. Claro, nossa pobreza ou nosso prejuízo é o lucro e a riqueza dos donos de empresas; ou ainda, como vemos atualmente, no Brasil, os políticos comemorando suas vitórias, com seus projetos pessoais, irracionais e empresariais, que fazem bem somente a eles, mas não ao povo — e que, se não pesquisarmos, nem ficamos sabendo. O refrão termina com uma pergunta: “Você não consegue sentir a Superalma? / O significado de tudo isso...”; notemos o uso da letra maiúscula em “Superalma”, algo que dá um significado maior à palavra.

Em inglês, a palavra “over” já deixa a expressão com mais ênfase, portanto, “oversoul” seria uma “superalma”, mas Andre Matos ainda a deixa com letra maiúscula. Quando se usa uma palavra desta forma, trata-se de algo supremo, algo universal, a representação perfeita daquilo que se propõe — característica da Literatura Clássica. Pode-se interpretar essa “Superalma” como a situação da vida, a situação como um todo, com seus lados bons e ruins, externos e internos.

Na próxima estrofe, o eu–lírico fala sobre o florescer da vida, sobre o despertar;  diz que somos inocentes e selvagens, achamos que conhecemos a verdade (sem saber). Aqui, mostra-se a experiência do eu–lírico, que, por ser mais velho, sabe que quando estamos despertando, achamo-nos inteligentes, mas temos tanto a aprender... Ou, talvez, esteja falando dos alienados; vemos tantas pessoas se considerando cultas, menosprezando todos os outros que não concordam com suas ideias, chamando-os de alienados e dominados por uma ideologia, quando, na verdade, nem percebem que eles também estão sob outra ideologia, mas não percebem — ou não querem saber.

Para terminar a estrofe, diz que a vida é assim mesmo, temos de nos juntar ao jogo, procurar por respeito, procurar ser alguém. Isso é ensinado e realmente torna-se o desejo de muitos. Essa é a ideologia passada, mas poucos se perguntam: o que é ser alguém? Ter respeito pelo o quê? Muitos confundem “respeito” com “medo”, outros querem ser respeitados pelo o que têm, e não pelo o que são. Todos devem buscar ser alguém, sendo assim, ser alguém é ser igual, e quem não pensa assim é diferente, é perigoso, é louco, é praga. O jogo deve ser jogado, não pode ser modificado, não pode ser (re)construído ou debatido.

Como objetos, somos forçados a jogar e levados a desejar, assim, não precisamos somente das necessidades, mas de quem as produza (e as induza) também. Fazemos o que mandam fazer, não escolhemos nosso próprio caminho, tornamo-nos alienados. Tornamo-nos objetos ao invés de sujeitos. Depois disso, repete-se o refrão e inicia-se o solo.

Neste momento, quando o refrão acaba, a música tem um corte repentino, tocando somente o piano. A música fica silenciosa, triste, como se fosse um momento para a reflexão. Aos poucos, os instrumentos voltam à velocidade inicial e o eu–lírico faz suas últimas questões ao leitor/ouvinte: “Olhe ao redor e veja / Você perdeu toda a vontade de viver? / Por que você não levanta e luta por sua alma?”, incitando-nos a sermos nós mesmos, buscarmos e lutarmos para sermos o que somos, e não o que querem que sejamos.

Além disso, ao sugerir a luta pela alma, que é algo abstrato, deixamos, pelo menos nesse momento, de lutar por coisas materiais. Repete-se o refrão e termina-se a música, novamente, com quebra de ritmo, triste, assim como a situação da vida no mundo atual, ou como pode  acabar se continuarmos assim. 

//  

Andre Matos é um dos maiores representantes do Heavy Metal brasileiro, reconhecido como um dos maiores vocalistas do mundo. Já esteve à frente das bandas Viper, Angra, Shaman, Virgo e Symfonia, além de ter participado de vários projetos. Está em carreira solo desde 2006, onde lançou três álbuns até então, sendo The Turn of The Lights o último. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Estrelas

Ao olharmos para as estrelas,
olhamos para o passado,
pois esses astros estão
a anos-luz distantes de nós;
e essa sua luz, ainda assim, fascina.
O mesmo para as nossas lembranças:
a anos de distância, 
boas ou ruins, ainda assim,
alcança-nos e, às vezes,
fascina-nos.
Longe, vemo-las como algo pequeno;
perto, não vemos, vivemos;
imersos no complexo.

Fichamento comentado do livro "Pedagogia do Oprimido", de Paulo Freire.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2014.

Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, é um livro forte. Nele, Freire busca explicar a (triste) situação da maioria das pessoas/alunos e dá-nos possibilidades de mudar esse contexto através do diálogo, através da libertação.

É dito que, primeiramente, precisamos nos perceber no mundo, perceber a situação em que estamos inseridos, mas só isso não basta. É necessário também percebermo-nos como agentes de nossa própria história, e não como objetos criados e manipulados pela elite do país/local.

O problema do oprimido é muito grande porque, estando a vida toda preso a esta visão, passa a acreditar que este é o real; e por sempre ter sido assim, é um fato consumado. Principalmente por ideologias criadas pela mídia, como a meritocracia, em que todos possuem a capacidade de melhorar de vida, mas se não conseguem, é por incompetência do ser; ou a falsa generosidade, em que quem está no poder, finge importar-se e ajudar quem precisa, mas o que acontece é que este é um meio para as coisas continuarem como estão: quem está no topo continua no topo (e passam-se por “bons”), e quem está embaixo continua necessitado da ajuda de quem está no topo.

Para libertarmo-nos é necessária uma verdadeira revolução. A questão é muito complexa, pois, muitas vezes, o oprimido (e o “libertador” também) carrega o opressor dentro de si, colocando-se (às vezes) contra os próprios companheiros e desejando ser como os opressores; e quando não, desvalorizam-se, como diz Freire: “A autodesvalia é outra característica dos oprimidos” (p. 69), acreditando que são (por alguma “razão”, seja Deus, destino ou outra coisa) inferiores. Por isso deve-se valorizar os oprimidos, valorizar sua visão de mundo, valorizar o seu ser e ajudá-los (e assim, eles nos ajudarem e todos ajudarem-se) a serem/sermos mais, a deixar de sermos coisas e assumirmo-nos como humanos, como homens e mulheres.

O método que Freire nos propõe para esta transformação é o diálogo e a reflexão contínua, pois “(...) a reflexão, se realmente reflexão, conduz à prática.” (p. 73). O diálogo tem de ser verdadeiro, não um monólogo. É falar para eles e com eles — e colocar-se a ouvir também. Os temas a serem abordados devem ser temas geradores, temas da realidade do povo, temas que se problematizem, e assim, gerem outras problematizações/debates, desta forma criando conhecimento. Os alunos devem perceberem-se como autores que atuam a própria vida; percebendo-se, percebem o outro lado (a elite dominadora), e agindo — revolucionando —  acabam por libertarem-se e libertarem o outro lado também.

É por isso que Paulo Freire insiste tanto no uso do diálogo, porque dialogando são dois (ou mais) seres agindo um com o outro, e não como fazem os opressores, em que apenas um deles fala, depositando seus conhecimentos sobre o outro, como se o outro não tivesse nada a oferecer, somente a receber — é o que Paulo Freire chama de “educação bancária”. A educação bancária, além de dar-se de “forma vertical” (um está acima e o outro abaixo), coloca o aluno como alguém que tem que adaptar-se às coisas e ao mundo, retornando à ideia de que são meros “objetos”, e não sujeitos.

Enfatiza-se, também, que embora o educador não deva ser autoritário, não deve ser passivo. É preciso que na relação educador-educando haja amor, humildade, fé, confiança e pensamento crítico. Tudo isso é necessário para que haja o verdadeiro diálogo e assim, a mudança do ser para o “ser mais”. Paulo Freire nos adverte também para que não caiamos no erro de apenas mudar o oprimido de lugar: antes, da elite; agora, “nosso”. Não é colocar a nossa visão sobre o educando, é juntamente criarmos uma nova visão (e ação).

Devemos nos diferenciar em tudo dos opressores: se eles não dialogam, dialoguemos; se eles não causam revolução, mas sim, opressão, então causemos revolução e libertação; se eles tentam manter-nos afastados, devemos unirmo-nos; se eles pensam em “conquistar o povo”, não devemos conquistá-los, mas assumirmo-nos como povo e fazermos parte dele, porque “Todo ato de conquista implica um sujeito que conquista e um objeto conquistado(...)” (p.186), e ninguém deve ser tratado como objeto.

Discute-se muito sobre a alienação, algo que sempre temos de lutar contra, despertando o verdadeiro pensar. A elite teme isso, tanto que “(...) em certos níveis seus, até instintivamente, usam todos os meios, mesmo a violência física, para proibir que as massas pensem” (p.201).

O opressor, ao mesmo tempo em que aliena o oprimido, invade sua cultura e vida, e o oprimido, por estar alienado, não percebe. Nas palavras de Freire: “(...) Os invasores atuam; os invadidos têm a ilusão de que atuam, na atuação dos invasores” (p. 205), assim, os oprimidos terão sempre em mente a cultura da elite, “(...) quererão parecer com aqueles: andar como aqueles, vestir à sua maneira, falar a seu modo” (p. 207). É por isso que a invasão cultural é uma violência e manipulação; é por isso que se deve conscientizar as pessoas ao máximo para que, com elas, superemos a falsa cultura, passemos a criar a verdadeira cultura, a sermos seres culturais, ao invés de sermos criados/moldados à forma do outro.

Não trata-se de conquistá-los, mas de colaborarmos uns com os outros. “O que distingue a liderança revolucionária da elite dominadora não são apenas seus objetivos, mas seu modo de atuar distinto (...)” (p. 226). Ninguém se liberta sozinho, mas ninguém doa liberdade a alguém, é um processo em que um ajuda o outro a se formar, a ser mais. “Daí que não possa a liderança dizer sua palavra sozinha, mas com o povo. A liderança que assim não proceda, que insista em impor sua palavra de ordem, não organiza, manipula o povo. Não liberta, nem se liberta, oprime.” (p. 243).

Por fim, é isto que Paulo Freire busca neste livro, a luta e a crítica à realidade em busca de melhorias; a busca ao diálogo; à libertação e ao engajamento dos povos nos processos sócio, histórico e culturais; a busca à valorização da vida. Como ele diz sobre o próprio livro: “Todo nosso esforço neste ensaio foi falar desta coisa óbvia: assim como o opressor, para oprimir, precisa de uma teoria da ação opressora, os oprimidos, para se libertarem, igualmente necessitam de uma teoria de sua ação.” (p. 252).

Conclusão

Este livro mostra o quanto a realidade é complexa e exige uma postura radical — uma verdadeira revolução — para caso queiramos mudá-la. Paulo Freire demonstra e explica como funciona o sistema opressor, suas táticas, ideologias e suas consequências sobre o outro.

Não só isso, ele também mostra e cria formas de combater esta violência, que é, em primeiro lugar, dialogar com os oprimidos. Para libertar-nos, precisamos estar junto dos outros e estes, nos ajudando a libertar-nos, libertam-se também.

O livro diz que não somos salvadores ou libertadores do povo, mas que devemos aprender a sermos construtores de nossa própria vida, porque somos humanos, não somos objetos. E que, para acontecer uma verdadeira revolução, devemos ser verdadeiros conosco e com os outros: não é fazer-se diferente, mas fazer-se semelhante; não é falar para o povo, é falar com o povo, sobre o povo e sobre o mundo, isto é fazer-se e fazer o mundo.

domingo, 31 de maio de 2015

Mudanças

Por mais que eu goste de você, agora me pergunto: o que eu estava dizendo ao te chamar de anjo? Dizer que você não existia ou que anjos existem, mas imperfeitos? O que é a força da ilusão e tradição! Ora, nunca acreditei nestas divindades. O carinho era verdadeiro, mas eu te chamava de uma mentira e você ainda gostava! 

O que eu fazia ao te parabenizar por ter feito aniversário? Parabenizar por ter continuado vivo por um ano? Por ter sobrevivido? Ora, difícil não é sobreviver, mas viver. E aqueles desejos? Felicidade, saúde, sucesso e todas aquelas coisas boas. A vontade era verdadeira, mas eu te desejava uma utopia! Eu desejava uma mentira e você ainda gostava e agradecia!

Nunca mais chamarei alguém de divindades nem desejarei apenas felicidade. Chamar por divindade e desejar só alegria é criar ilusão (e estando iludido, projetam-se outras ilusões ao que é real): chamarei e criarei metáforas usando apenas coisas concretas e reais, desejarei coisas boas, mas mais coisas más. Desejarei vida.

Pesos carregados

Carregamos e carregaremos o passado para onde quer que iremos, mas não deixemo-nos sermos carregados por ele.

sábado, 18 de abril de 2015

Análise do Soneto XIX, de William Shakespeare

De maneira (muito) resumida: Shakespeare foi/é um dos maiores autores que o mundo já viu, nascido possivelmente em 1564 e falecido em 1616, desenvolveu suas obras (poemas e peças teatrais) no período do Classicismo.

O Classicismo encontra-se dentro de um período histórico chamado Renascimento, que foi uma época de grandes mudanças em todos os âmbitos (sociais, religiosos, filosóficos, econômicos, políticos etc.): iniciam-se as grandes navegações, começa-se a mudança de sistema (feudalismo para "capitalismo"), a igreja católica perde seu poderio, muda-se a visão de teocentrismo para o antropocentrismo  e, principalmente, surge a Imprensa de Gutenberg.

Com a imprensa, muitos livros são publicados, assim, as ideias e obras de filósofos passam a ser conhecidas por muitos. Surge uma nova mentalidade, o homem considera-se em um período iluminado e renascido. Cheio de descobertas, busca diferenciar-se de outrora, agora buscando elementos da cultura grega e romana para adotar em suas obras. Portanto, a arte será racional; valorizarão a ciência, o engenho e valores da Era Clássica. Que fique claro: de maneira (muito) resumida.

Traduzido por Ivo Barroso, este soneto faz parte de "Os Melhores Sonetos de William Shakespeare" (Saraiva de Bolso). Como se sabe, o soneto é composto por 4 estrofes, sendo 2 quartetos (estrofes com 4 versos) e 2 tercetos (estrofes com 3 versos), podendo ser decassílabo (versos de 10 sílabas poéticas) ou alexandrino (versos de 12 sílabas poéticas).  Mas existe um "tipo" de soneto próprio de Shakespeare, também chamado "soneto inglês". Este modelo possui a estrutura de 3 quartetos e 1 dístico (estrofe de 2 versos); diferente do soneto italiano, o soneto inglês não é feito em estrofes separadas, mas todo junto; apenas os dois últimos versos se diferenciam por estarem 2 espaços à frente dos outros. Mantendo a fidelidade ao livro, eis o poema:
  
Soneto XIX

Tempo voraz, ao leão cega as garras
E à terra fazes devorar seus genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangue a eterna fênix. 
Pelo caminho vão teus pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo e aos gozos passageiros,
Mas proíbo-te um crime mais nefando:
De meu amor não vinques o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! permite que intacto siga avante 
Como padrão do belo no futuro.
  Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
  Pois jovem sempre há-de o manter meu verso.

//

Temos, então, aqui, um soneto decassílabo, ou seja, cada verso possui exatamente 10 sílabas poéticas (lembrando que sílaba poética não é o mesmo que sílaba gramatical). Quanto ao esquema de rima, segue-se: ABAB - CDCD - EFEF- GG. Percebemos o uso de antíteses com as palavras: garras/desgarras (mesmo em sentidos diferentes, uma sendo substantivo e a outra sendo verbo), vão/deixando, alegres/tristes, eterna/passageiros, proíbo/permite, belo/perverso, futuro/antes, velho/jovem.

Quanto ao conteúdo, o poema mostra um monólogo entre o eu-lírico e o Tempo - perceba que o "Tempo" sempre aparece com letra maiúscula, pois é uma das características da cultura grega. Não se trata do "simples tempo", mas sim, do "Senhor Tempo", como se fosse uma divindade.

Inicia-se com o eu-lírico falando das consequências do tempo sobre as coisas e seres, como as garras do leão que se tornam cegas ou as presas do tigre que se desprendem; além da terra que devora aquilo que está sobre ela, no caso, são citado os "genes".

Fiquemos atentos à forma como foi colocada os genes: "Tempo voraz, ao leão cega as garras/ E à terra fazes devorar seus genes (...)". Há um duplo sentido nessa frase. Ao mesmo tempo em que nos faz pensar que o tempo faz a terra devorar os genes do leão que teve as garras cegas, também nos faz pensar que a terra devora os próprios genes (num ciclo), como se a vida tivesse vindo da terra — podemos até se pensar que o eu-lírico refere-se aqui à Bíblia, por nela ser dito que Deus criou o homem do pó, da terra.

Embora o elemento cristão não seja parte principal das características ou pensamento do Classicismo, há ainda algumas passagens que nos remete à religião cristã e ao medievalismo. Termina-se a primeira estrofe com o eu-lírico dizendo que o Tempo arde no próprio sangue a fênix, que, lembremos, é um ser mitológico da Grécia (que é onde os "classicistas" buscavam elementos); uma ave que vivia 500 anos e após isso, renascia das cinzas, significando o renascimento e imortalidade (o próprio eu-lírico diz: "[...] a eterna fênix").


Na segunda estrofe, ele diz o quanto o tempo passa rápido e alegremente, deixando as estações tristes (percebamos a antítese), a tristeza, para trás. É dito, também, que o Tempo impõe-se ao mundo, fazendo tudo ser passageiro (assim como já dizia o filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, na Grécia); e termina a estrofe proibindo — ou seja, o eu-lírico está opondo-se àquele que se opõe a tudo — o Tempo de um único ato: não arrancar a face do seu amor, nem nele imprimir o seu traço duro, para que ele siga intacto e como modelo de belo para o futuro.

É bom lembrarmos que dois dos ideais gregos eram a busca pelo belo, pela perfeição; e pelo padrão/forma a seguir, que aqui o autor também busca. O próprio soneto é considerado um modelo perfeito e extremamente racional, é uma fórmula/estrutura considerada perfeita/bela.

O eu-lirico diz ainda mais: já anuncia que o Tempo obedecê-lo-á, deixando seus versos jovens para sempre, ou seja, eternamente atuais. Isso mostra o quanto o eu-lírico, representando o homem, considerava-se acima de tudo, no centro de tudo. O que era realmente o pensamento da época.

// 

E assim como foi dito, os poemas de Shakespeare até hoje continuam atuais. Ele realmente se impôs ao Tempo, assim como todos os grandes autores e obras. Todos os notáveis pensadores/autores, de qualquer área e época, já estavam além de sua época. Não é à toa que levamos anos para entendê-los.

sábado, 11 de abril de 2015

Buscas

O perfeito é belo,
maravilhoso,
por isso o desejamos.
Nós somos imperfeitos,
feios e horrorosos,
porque somos humanos.

Quem busca,
busca o que não tem,
busca o inexistente.
Buscamos o que 
não se encontra 
na gente.

Por isso a perfeição
é ilusão.
Se buscamos bênção,
possuímos maldição.

Ser

Por que tentar
se convencer
a parecer
um ser pensante?

Deve-se insistir
em não mentir a si.
Não parecer,
e sim,
ser tal ser.

quinta-feira, 12 de março de 2015

sábado, 7 de março de 2015

Uma pequena reflexão #3

Não é muito raro encontrar pessoas que pregam a bondade e o amor, quando, na realidade, esperam somente reciprocidade. Vemos isso frequentemente: alguma pessoa sente atração ou simpatia por nós, não apenas sente como também demonstra. Essa demonstração acontece por meio de presentes ou presença — e é sempre dito que é pelo nosso ser, que não deseja nada em troca a não ser que continuemos a sermos como somos.

Mas percebe-se que isso geralmente acontece quando se está em um início de relação, e que esse começo sempre vem carregado de entusiasmos de primeiro momento. Deve-se pensar, também, que não passamos 24 horas junto da pessoa; e que quando nos vemos, é quase sempre no mesmo horário e local. Quero dizer que, em cada local, horário e situação, agimos de maneira específica: quando alguém diz nos admirar pelo o que somos, não é pelo o que somos integralmente, e sim naquelas ocasiões e circunstâncias que nos conhecemos.

Ora, isso é óbvio e não é problema nosso; o problema surge quando o indivíduo passa a nos superestimar pelo aquilo que ele conhece. Aí, assim que começa a nos conhecer de verdade (muita vezes sufocando), não vê mais aquela pessoa de outrora.

Dependendo da pessoa, acredita até mesmo que o seu olhar está diferente, mas não é só o olhar, é a visão também. Isso porque não nos vê mais como "éramos", mas (que ironia) como somos. A bondade pregada muda por uma reciprocidade não recebida — ou percebida —, e não é só isso: culpa-nos por termos mudado, culpa-nos pela visão distorcida que criou.

Atualmente, em redes sociais, vemos muitas pessoas utilizando-se de frases "filosóficas, literárias e aleatórias" (fora de contexto) para mostrar (muitas vezes, fingindo) como se sentem, no caso: desiludidas — como se a ilusão fosse algo ruim; ruim é a realidade —, traídas e desapontadas. Tratando-se como vítimas e coitadas (moral dos fracos, segundo Nietzsche); tudo isso nada mais é do que o fruto de uma projeção do eu no outro, criada pela imaginação e vontade/desejo.