sábado, 19 de maio de 2018

Dos cultivos


Há uma história na internet de que, uma vez, alguém perguntou para um velho sábio quantos anos ele tinha, ao que o mestre respondeu:

“Oito ou dez. Tenho, na verdade, os anos que me restam, porque os já vividos não tenho mais.” — algo assim.

Embora não haja um autor definido, atribuem essa fala ao pensador Galileu Galilei. Sei que todos podem se equivocar ou julgar se algo é correto ou não, mas espero que a frase não seja dele. A resposta do sábio pode parecer lógica, mas não o é.

Não perdemos os anos vividos, pelo contrário, estão sempre conosco: adquirimo-los, guardamo-los, ampliamo-nos com eles, usamo-los quando aplicamos o que aprendemos ao longo do tempo. Como é dito na música Além da máscara, do projeto Poucal Vogal, do Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii): “Não há tempo perdido, não há tempo a perder”. Seria mais bonito e poético, para mim, se o sábio tivesse respondido que não sabia a própria idade, que o que ele tinha era a dúvida...

Sou da opinião de que “Cada dia que passa / eu fico mais jovem” (TRINDADE, 2011, p. 57), como escrevi no ano passado (embora, na época, ainda não conhecesse esses versos, nem esse nosso poeta); concordo com o fotógrafo Jacob Riis (apud CORTELLA, 2015, p. 69): “‘(...) olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela que conseguiu, mas todas as que vieram antes’”. Como pode alguém acreditar que não tem os anos passados, mas os futuros? Do amanhã só temos ideias, incertezas e planos — o que já é muito bom e importante.

Fiz aniversário hoje e não consigo concordar com a lição do antigo homem, nem sou capaz de discordar do meu mestre pessoal e espiritual, Mario Quintana, que diz que “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...” (QUINTANA, 2003, p. 64). Aliás, o mesmo poeta tem um texto, no mesmo livro, chamado “Pensamento para o teu aniversário”, no qual ensina: “Nem todos podem estar na flor da idade, é claro! Mas cada um está na flor da sua idade...” (idem, ibidem, p. 78).

Cito-o, porque fazer aniversário também é conhecido como “completar primavera”, que é conhecida como a estação das flores, que, por sua vez, são sinônimas de beleza. É preciso ver a vida, os anos, os dias, quaisquer que sejam, com mais atenção. Se não temos as grandes e melhores características dessa estação do ano, mas, por outro lado, temos a marca da passagem, que saibamos (ou lembremos), então, de que um buquê é formado por várias flores, e estas têm sementes ou podem servir como mudas, e esse produto final, de beleza singular, possui uma história que foi cultivada há anos...

REFERÊNCIAS

CORTELLA, Mario Sérgio. Não nascemos prontos!: Provocações filosóficas. 19 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

POUCA VOGAL: Gessinger + Leindecker. Além da máscara. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8HEzQQ5FAA0>. Acesso em: 19 maio. 2018.

QUINTANA, Mario. Caderno H. 9 ed. São Paulo: Globo, 2003.

TRINDADE, Solano. Poemas antológicos. 2 ed. São Paulo: Nova Alexandria, 2011. (Coleção Obras antológicas)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O jogo

Encontrei, nos meus arquivos, este "antigo" texto, de um ano atrás, e resolvi publicá-lo, embora esteja datado:

A mão global, que havia capturado a peça dilmãe, substituiu-a por um cara que se achava aristocrata só por ser velho e parecer o Conde Drácula. Porém, peças são peças e podem ser retiradas do tabuleiro.
Em outro quadrado (e em outro parágrafo), um componente da mão global começa a ser retirado do campo. É (quer dizer, "foi") o aecinho. Esse é impiedoso, não tem dó. Não captura: manda matar.
No entanto, é possível que ele continue recebendo privilégios — mesmo fora do campo —, já que uma outra peça, a de alcunha cunha, recebe para ficar em silêncio.
Esse último, como se sabe, foi um dos responsáveis pela retirada da dilmãe (embora ele tenha sido só uma marionete da mão global).
Ainda há alguns integrantes no tabuleiro, nas chamadas "side quests": de um lado, o juiz sem juízo, morinho (que lembra "marinho"); de outro, o cara que tem um dedo a menos (e que a mão global teme e sempre temeu); e aos arredores, alguns menores de nomes (alguns são até invisíveis!), mas metidos nas irregularidades. Afinal, embora as regras existam, ninguém as vê. Idem para as irregularidades.
O povo assiste ao jogo da mão global contra não-sei-quem (posto que há muitas mudanças rápidas: uma hora quem assume o lado oposto é o estado, outra hora são outras empresas, outra hora são cidadãos comuns que se cansam de esperar a jogada e tentam invadir o tabuleiro etc), sem saber que telespectadores são peões.
Engraçado é ver a mão global abrindo a boquinha (na mão, mesmo, estilo Deidara) para revelar secrets-secrets de suas peças, que fizeram parte de sua estratégia, passando-se, assim, como sincera e heroína (quem deve gostar de heroína é a sua peça aecinho). Faz parte da nova estratégia. Sacrifícios são feitos em jogos.
Qual será a próxima invocação? Sei lá, não sou jogador. Sou um mal relatador (à infeliz espera de delatores). A vontade é de fechar todo mundo dentro da caixa do xadrez, mas não sou o dono do brinquedo.

domingo, 15 de abril de 2018

Análise comparada dos contos “A aranha”, de Orígenes Lessa, e “Zoiuda”, de Luiz Vilela


Brevíssima introdução


O gênero, a Literatura comparada e os escritores: Orígenes Lessa e Luiz Vilela



O conto é um dos gêneros literários mais populares da contemporaneidade, por sua brevidade, “objetividade” (no sentido de ir direto ao ponto, sem enrolações que há, por exemplo, num romance), conflitos, imediata compreensão dos fatos (sem muito aprofundamento no passado) pelos leitores e por sua verossimilhança com a vida.

As principais características do conto são a pequena quantidade de personagens, a presença de diálogos, a cronologia do tempo/dos eventos e, principalmente, uma única célula dramática (clímax), sempre ao final. No conto, a narrativa, a dissertação, a descrição e o tempo psicológico são menos presentes.

A Literatura Comparada é um campo de pesquisa que busca, por semelhanças ou diferenças, através da interdisciplinaridade e intertextualidade, analisar duas ou mais obras, sendo elas do mesmo gênero textual ou não. Neste trabalho, procurar-se-á, brevemente, observar como dois autores, de tempos diferentes, lidam com o tema da solidão. Curiosamente, há algumas semelhanças nas duas histórias selecionadas, A aranha, de Orígenes Lessa, e Zoiuda, de Luiz Vilela.

Orígenes Lessa foi um contista, romancista, novelista, ensaísta e jornalista brasileiro. O autor, que começou sua carreira literária em 1929, entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1981. O conto A aranha, que será analisado, está presente na antologia Para gostar de ler – Volume 10 - Contos (1991), que reúne diversos contistas, de diferentes períodos literários.

Luiz Vilela é um contista, romancista e novelista brasileiro. O conto Zoiuda, que será explorado, faz parte do livro Você verá (2013). O escritor iniciou sua vida literária com o livro Tremor de terra, em 1967, aos 24 anos, o que já lhe rendeu o Prêmio Nacional de Ficção.

É preciso ressaltar, também, que este texto analisará os dois contos apenas sob a ótica de um tema, o que é muito pouco para qualquer obra literária, que é, por natureza, plurissignificativa. 

 Análise do conto A aranha, de Orígenes Lessa

A aranha é um conto de Orígenes Lessa, presente na coleção “Para gostar de ler – volume 10 – contos” (1991). A história constrói-se em duas camadas: no presente, num corredor de um prédio, através de diálogos nos quais o narrador-personagem ouve, de forma indesejada, um evento que aconteceu num sítio, no passado, com o amigo de um dos personagens presentes no corredor, que narra o acontecido durante seus turnos da conversa.

De qualquer forma, ambas as “camadas” do conto passam-se em espaços fechados (o corredor e o sítio), ambas as narrações seguem o tempo cronológico (linear), e o foco narrativo, interessantemente, oscila entre a primeira e a terceira pessoa: há um personagem-narrador, mas este apenas ouve a história de um segundo, onde o protagonista é um terceiro...

A complexidade do conto já começa nas primeiras linhas:

— Quer assunto para um conto? — perguntou o Enéias, cercando-me no corredor.
Sorri.
— Não, obrigado.
— Mas é assunto ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo!
— Não, não é preciso... Fica para outra vez...
— Você está com pressa?
— Muita!
— Bem, de outra vez será. Dá um conto estupendo. E com esta vantagem: aconteceu... É só florear um pouco. (LESSA, 1991, p. 16)

A história é iniciada com a oferta de outra história, que será contada logo depois. Também já é demonstrado que o protagonista-narrador não quer dialogar, não quer companhia, o que está relacionado à narrativa do amigo. 

É importante notar essa valoração do fato, da não-ficção, como se a literatura fosse uma mentira e, por isso, algo de menos valor, quando, na verdade, ela é baseada na realidade e, às vezes, por “distorcê-la” tanto, ajuda o leitor a perceber melhor o seu próprio meio. Ao mesmo tempo, a valoração do amigo pelo fato justifica a narração ser em terceira pessoa, porque ela dá um caráter objetivo à história, embora, como se pode notar, esse amigo utiliza muitos adjetivos (ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo, estupendo), o que não é aconselhável para textos impessoais...

Pois bem, o amigo do narrador conta um caso acontecido com um de seus conhecidos, o Melo, que morava numa enorme fazenda e “Passava lá enormes temporadas, sozinho, num casarão desolador (...) um verdadeiro deserto” (idem, ibidem, p. 18). Esse colega adorava tocar violão, principalmente músicas tristes como “A madrugada que passou” e “O luar do sertão”. Como se vê, canções relacionadas ao escuro, à noite, que trazem a ideia de subjetividade e demonstram a personalidade do personagem.

Outra obra que o rapaz gostava de executar era “A tarantela”, de Listz, o que já indica e cria a “rima” para o que virá a seguir no conto: o aparecimento de uma aranha caranguejeira. Sempre que o Melo tocava violão, a aranha aparecia; quando parava, ia embora, se escondia, impossibilitando, então, a sua morte, e criando, desta forma, uma espécie de companhia para o artista.

Essas intermitências da aranha continuaram por dias e também formam outra coerência na narrativa: enquanto, no passado, no interior de um sítio, um animal fugia, ia e vinha, no presente, no corredor de um prédio, o narrador-personagem quer entrar no elevador, que sobe e desce a todo momento, mas sempre lotado, impossibilitando a sua “fuga” dos amigos.

No outro dia, Melo “estava ocupadíssimo com a colheita. Só à noite voltaria para o casarão da fazenda. Teve que almoçar com os colonos, no cafezal. Andou a cavalo o dia inteiro. E sempre pensando na aranha” (idem, ibidem, p. 20). À noite

Queria saber se “ela” voltava. Começou a tocar como quem se apresenta em público pela primeira vez. Coração batendo. Tocou. O olho na fresta. Qual não foi a alegria dele quando, quinze ou vinte minutos depois, como um viajante que avista terra, depois de uma longa viagem, percebeu que era ela... o pernão cabeludo, o vulto escuro no canto mal iluminado. (idem, ibidem, p. 20)

Nesses trechos, percebe-se o tamanho da solidão do personagem que, mesmo envolto de pessoas durante o trabalho, só pensava na aranha. O Melo chegou até a colocar um nome (que o narrador não lembra) no animal, e “desde então, não sentiu mais a solidão incrível da fazenda” (idem, ibidem, p. 21).

O personagem contou o caso para outras pessoas, que vieram ver “a aranha amiga da música. Todas as noites era aquela romaria. Amigos, empregados, o administrador, gente da cidade, todos queriam conhecer a cabeluda fã de O luar do sertão e de outras modinhas.” (idem, ibidem, p. 21). É preciso se atentar ao fato de que todos iam ver a aranha, não o Melo, nem ouvir a sua música. Se, por um lado, o tocador “humanizou” um animal através da arte, por outro, isso é resultado da “desumanização” que os semelhantes fizeram com ele, ao não lhe darem atenção. Tal como as modinhas, que passam, o interesse pelas pessoas pela aranha desapareceu, mas o sentimento de Melo por ela continuou o mesmo, na verdade, ficou até maior.

Todavia, contraditórios como os seres-humanos são, assim que o tocador recebeu uma visita de uma pessoa diferente, cheia de novidades, esqueceu-se da amiga aracnídea e tocou seu violão, a música preferida da aranha, que apareceu em poucos instantes. Sem ser avisado do comportamento da amiga admiradora de melodias, o visitante matou-a sem hesitar, para a tristeza do Melo. Clímax do conto, chega o elevador para o narrador, fim da história.

O final sombrio já é esperado ao leitor que se atenta para a quantidade de palavras relacionadas à noite e ao escuro, além do rompimento na vida do protagonista, que começa triste, passa a ser feliz e, como o gênero conto pede o drama e a situação inesperada, isto é, abrupta, sempre ao final, haveria de acontecer algo que rompesse o encanto. No outro âmbito, no presente, no corredor do prédio, depois de tantas vezes em que o elevador chegou lotado, logo após a narrativa do amigo acabar, o elevador surgiu vazio, finalizando, coerentemente, os acontecimentos passados e presentes.
  
Análise do conto Zoiuda, de Luiz Vilela

Zoiuda é um conto de Luiz Vilela, presente no livro Você verá (2014). A história ocorre em espaços fechados: num bar, numa escola e num apartamento (a maior parte da narrativa acontece aqui); o tempo é cronológico, linear; o foco da narrativa é em terceira pessoa, um narrador conta a história de um professor que se apega a uma lagartixa.

Um dia, numa sexta-feira, após voltar do bar (e isso é muito significativo), um professor depara-se com uma lagartixa; após um observar o outro por algum tempo, o homem foi dormir.

Como a ida ao bar havia apontado, o professor não tem uma vida muito interessante, pois “Na noite seguinte — de novo o bar, de novo as conversas e as bebidas, conversas e bebidas que só serviam para matar o tempo e para matar dentro dele alguma coisa que ele não sabia bem o que era, mas que sabia ser essencial” (VILELA, 2014, p. 8). Além disso, o caráter repetitivo da existência do personagem é refletido na própria linguagem do narrador, que reforça as palavras “de novo”, “conversas e bebidas” e “matar”. Essa característica da narrativa é reutilizada em outros trechos do conto.

O protagonista, que não tem nome — o que pode sugerir que seja qualquer pessoa —, observa a lagartixa e nomeia-a, isto é, humaniza-a (nas palavras do narrador: “batizando-a”): Zoiuda. Ela tem nome, ele não; é como se ela fosse mais importante do que ele. De qualquer forma, o animal torna-se muito significativo para o personagem, como pode ser observado na passagem:

Na terceira noite, domingo — o mesmo bar e os mesmos amigos e as mesmas conversas e bebidas — ele, num momento de quase convulsivo tédio (“isso mesmo”, se diria depois, “convulsivo tédio”), lembrou-se da Zoiuda, isolando-se por alguns minutos do ambiente ao redor, um leve sorriso lhe aflorando aos lábios. (idem, ibidem, p. 8).

Mesmo fora de casa, mesmo rodeado de amigos, o homem distrai-se e sorri ao lembrar da lagartixa. Ela é motivo de um sorriso, algo que, em momento algum, antes ou depois, é causado ou observado no protagonista. Ao chegar em casa e chamar pelo animal, a companheira não apareceu. “Não estava. Ficou meio decepcionado. Tinha certeza de que...” (idem, ibidem, p. 9). Qual é o tamanho da solidão deste homem?

É importante ressaltar que esse personagem “dava aulas de português para um bando de adolescentes desinteressados e distraídos” (idem, ibidem, p. 9), ou seja, é um professor, alguém relacionado à comunicação humana, à língua, mas, ao contrário do que se espera, as pessoas ao seu redor não querem e nem estão abertas ao diálogo.

Ao contar para os colegas docentes que apareceu uma lagartixa na sua casa (um fato corriqueiro, banal), ouviu o relato de um que, desde que aprendeu um veneno, na sua casa “não ficou uma, nem uma só pra contar a história” (idem, ibidem, p. 9); a outra professora tem pavor; então o protagonista achou e disse que era meio maluco, “mas nenhum dos dois estava mais prestando atenção a ele” (idem, ibidem, p. 10).

É o retrato de uma vida medíocre, abandonada, vazia. O personagem sabe disso, pois “À noite, naquela plena segunda-feira, ele não saiu, substituindo o bar pela TV — a mesmice pela idiotice, pensou” (idem, ibidem, p. 10). O homem não tem a atenção dos alunos, na escola; dos colegas docentes, na sala dos professores; nem dos amigos, no bar (que já é um lugar de “fuga” da realidade sem graça).

Não é à toa que o narrador compara o protagonista a uma criança: "‘Zoiuda!’, exclamou, com a alegria de um menino; ‘você está aí!...’" (idem, ibidem, p. 11). O que o personagem deseja é amparo. Esse encontro dos dois ocorreu quando o professor foi beber água, da mesma forma que aconteceu pela primeira vez, na sexta, à noite. A água, não se pode esquecer, é fonte de vida; o homem, ao buscá-la, sacia a sede física, mas a metafórica, a sede de companhia, também é satisfeita com a presença da lagartixa. A única coisa que o personagem quer é reciprocidade, como se observa neste trecho: “lá dentro, àquela hora, o minúsculo coração também estaria batendo um pouquinho mais forte?...” (idem, ibidem, p. 10).

Mais à frente, é explicitado:

“Zoiuda, tirando minha mãe, você é a única criatura que eu amo hoje no mundo” — Zoiuda passou a ser para ele uma... uma espécie de companhia. Afinal, num apartamento onde havia somente ele de gente e onde, por dificuldade em criá-los, não havia cachorro, gato ou passarinho, ela era uma presença, um ser vivo, a quem ele podia dirigir a palavra, embora não houvesse resposta — mas para que resposta? Não queria resposta, queria apenas falar; apenas isso.
“Né, Zoiuda?” (idem, ibidem, p. 11)

No trecho supracitado, confirma-se o motivo do narrador ter comparado o professor a um menino: a lagartixa é uma segunda mãe para ele. E como não poderia deixar de ser, por se tratar de um conto, onde o clímax está sempre no final, aliado às noites da história, o corte inesperado acontece: a Zoiuda some e o protagonista volta a sofrer, “— tinha de admitir — que aquele apartamento ficara um pouco mais vazio e aqueles fins de noite mais tristes.” (idem, ibidem, p. 11). Triste, mas coeso e bem construído.
  
Relação entre os textos e conclusão

Há diversas semelhanças entre os textos escolhidos: ambos fazem parte do gênero “conto”, foram escritos por brasileiros, possuem pequenos animais, têm seus acontecimentos mais significantes à noite e tratam da solidão de homens.

O primeiro, A aranha (1991), de Orígenes Lessa, apresenta a história de um tocador de violão que, um dia, de repente, encontrou uma aranha no interior de seu enorme sítio. O bicho, primeiramente, causou medo ao personagem, mas depois se tornou uma companhia.

O segundo, Zoiuda (2014), de Luiz Vilela, é o caso de um professor de português que, numa noite, ao voltar do bar, depara-se com uma lagartixa que, com o passar dos dias, torna-se uma espécie de companheira, de ouvinte.

Ambos os contos retratam a solidão: os dois protagonistas, indiferentemente de seus meios, seja um sítio ou um apartamento, mesmo rodeados de pessoas, tanto no trabalho quanto nas horas de lazer, sentem-se sozinhos e preferem a companhia de pequenos animais, uma aranha e uma lagartixa, bichos que causam medo na maioria das pessoas com quem dialogam.

Além disso, ambos os personagens principais estão ligados, mais do que outros indivíduos, à linguagem, por um ser professor e o outro, um músico, porém, os dois têm dificuldades em dialogar com as pessoas ao seu redor. Mais ainda: os protagonistas apenas querem ser ouvidos. Essa é a angústia dos contos e um apontamento em comum nas duas histórias: é preciso dar mais atenção aos semelhantes. Talvez, o tocador e o professor só “humanizaram” os animais, porque, em diversos momentos, foram "desumanizados". Tal como os personagens, é necessário abrir os olhos para as pequenas criaturas.  


REFERÊNCIAS

LESSA, Orígenes. A aranha. In: Para gostar de ler: volume 10 – contos. 6 ed. São Paulo: Ática, 1991.

VILELA, Luiz. Zoiuda. In: Você verá. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Por que o termo "Cinema de Arte" pode ser tão nocivo?


O texto abaixo é de um amigo que pediu um espaço no meu blog para escrever e postar este pensamento que ele possui. As palavras, reflexões e concepções sobre o tema são inteiramente dele. Espero que gostem.

Por que o termo "Cinema de Arte" pode ser tão nocivo?

Por Luke Muniz

Antes de mais nada, queria deixar claro que este texto nada mais é que uma opinião bem particular minha e que não se trata de nenhum tipo de artigo acadêmico ou algo parecido. Não se preocupem, não o encherei com referências ou nomes bonitos - talvez um ou outro, para dar um up no texto. Em fato, redijo aqui esse pensamento motivado por nada mais nada menos que por pura stream of consciousness minha, e também lembrando de discussões sobre cinema com amigos.

Deixando claro que isso não é uma regra, estou expondo um pensamento com intuito de discutir e, assim, gerar troca de experiências e aprendizados; falar besteira é normal, e provavelmente o farei durante essas X quantidades de palavras que irei digitar por aqui. Então, vamos ser tranquilos e debater com educação, ok? Concordar é ótimo, mas discordar promove trocas etc. Vamos para o que de fato interessa.

Quando falamos de clássicos cinematográficos, sempre aparecem nomes conhecidos como: “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Cidadão Kane”, “Pulp Fiction”, “O Poderoso Chefão” e por aí vai, dos mais antigos até os mais contemporâneos. E não só filmes, mas também seus diretores, as mentes por trás das obras: Kubrick, Tarantino, Spielberg, Hitchcock, Scorsese e tantos outros. Tendo consciência de que essas figuras se destacam, algo eles fizeram para serem tão reconhecidos, fazendo sua arte brilhar dentre tantas e pensar além de seu tempo. Quando o assunto “clássicos” surge, eles marcaram e definiram aspectos para os seus gêneros e para o cinema como um todo, é inegável.

(Hitchcock)

Mas sempre que se trata do cinema autoral (sim, eu prefiro esse termo, de longe) surge a aura maldita do termo “Cinema de arte”. Essa “taxonomia” é carregada e extremamente pedante, além de que, trata-se de uma segregação que não faz o menor sentido, tanto na prática, como conceitualmente falando. Em toda ocasião, quando o termo surgia, eu sentia uma cerca enorme ser criada, eu mesmo já falava disso quando queria me referir uma obra mais cult, e antes de mencionar, sempre deixava claro meu desprezo por essa taxação.

Arte sf 1. Capacidade de expressar uma ideia, empregando algum material que possa ser trabalhado – a arte de um pintor. 2. Prática de atividade que depende da inteligência e da habilidade - a arte de um médico/a arte de um pedreiro.
Geraldo Mattos – Dicionário JÚNIOR da língua portuguesa.

Vamos por conceito: Não sei vocês, mas o Dicionário Júnior  já me deixou bem claro que qualquer coisa que você empregar um valor artístico, dentro dos conceitos que aquela obra em específico abrange, será arte. Claro que ela, por si só, é extremamente subjetiva, do  modo de criação até o de apreciação, mas existem moldes de avaliação, como, já cito,  o do cinema, que observa fotografia, roteiro, atuação, direção etc. Esses são os aspectos técnicos que compõem qualquer obra cinematográfica. Assim como a música, que  tem que ter melodia, ritmo, voz (ou não, no caso das instrumentais). Descartando qualquer valor de qualidade, de bom ou ruim, se um produto segue as “normas” do seu segmento artístico específico, ELE  É ARTE.

O conceito de cinema de arte é um tanto vago, tanto quanto a sua história. É, todavia, do conhecimento geral que o termo se refere a obras apreciadas pelo seu valor artístico e não como passatempo lucrativo, a filmes que sobrevivem à avassaladora maré das produções de Hollywood, ao “mainstream”, ao cinema industrial cujo objetivo é o lucro. É, na sua essência, um cinema que se preocupa com a condição humana e a aborda numa perspectiva ética, que não é descartável da estética, tanto em criações de baixo orçamento (low budget films) ou de nenhum orçamento (no budget film) como em projetos de elevado custo de produção.”
Fonte: Wikipédia

Há quem ache que justificar algo dizendo que é a “Proposta” possa soar preguiçoso ou algo semelhante. Concordo, mas há casos e casos. Ressaltando o conceito que atribuem ao termo “Cinema de Arte”, podemos perceber que,  com apenas uma pesquisa rápida, reitera-se  o fator “segregação”. O cinema dito “lucrativo” e de “passatempo”, os famosos blockbusters, não se limita  a só isso. Não irei longe para citar um exemplo que de cara quebra todo esse paradigma insolente.

Dirigido por Ryan Coogler, em 2018 chegou aos cinemas o maravilhoso e importantíssimo “Pantera Negra”. Se você possui alguma rede social, deve ter visto centenas de publicações ao redor do mundo com a comoção do filme e pela representatividade que este carrega consigo. Lembrando: Um filme blockbuster. Mas destaco aqui o valor deste filme - que dizem não ser arte... Faça-me o favor!  -quando li uma notícia que circulou em vários veículos, de um garoto de 15 anos que resolveu voltar a estudar por conta de ter assistido e se inspirado no protagonista T’Challa. É um caso lindo, e deixo aqui um link para saber mais: https://omelete.com.br/filmes/noticia/pantera-negra-adolescente-decide-voltar-a-estudar-apos-assistir-ao-filme/

(Pantera Negra, de 2018)

O valor que isso tem é inestimável. O efeito que a obra causou na vida dessa pessoa já vale mais que os orçamentos exacerbados de filmes que “não são arte”. E ressalto, de novo, um “blockbuster”. Ano passado, tivemos “Mulher Maravilha”, dirigida por Patty Jenkins, outro grande marco no cinema que “não é de arte”, por sua representatividade feminina e por seu simbolismo.

Eu disse que não iria mais longe, mas tenho de ir. O que seriam dos conceitos de amizade que reverberam na memória de muitos se não fossem as aventuras dos anos 80? A escola Spielberg de produção, de garotos e garotas numa aventura contra o mal e descobrindo que a união faz a força e que a segregação só enfraquece. Filmes de apenas “entretenimento barato”. Entretenimento barato existe? Claro que sim, é óbvio. Abra qualquer filme do Adam Sandler. E até o Adam Sandler consegue arrancar uma mensagem bastante interessante, “Click” está aí para provar isso.

O recente programa (2016), feito pela TV Quase e exibido no canal do Omelete, “Choque de Cultura”, ganhou um público gigante de fãs e não-fãs de cinema. São motoristas de transporte alternativo, que se juntam em um estúdio e discutem obras cinematográficas, desde a mais cult até a mais “não cinema de arte”. Os personagens, Rogerinho do Ingá, Renan, Maurílio e Julinho, tratam das obras diante das perspectivas de suas vidas  e de quem eles são. Logicamente, algumas posições tendem aos exageros, mas isso ocorre  para efeito cômico, que é o viés principal do programa.
  


Entretanto, dentro do tema que abordo aqui, "Choque de Cultura" é uma metalinguagem disso tudo, pois são pessoas que não são cults, mas que assistem a filmes assim, e os tratam, na hora de avaliar, da mesma maneira dos que "não são arte". E eles não motoristas de van, cinéfilos, consegue entender? Não conseguimos imaginar um motorista de van que seja cinéfilo, mas quem disse que não pode existir? E só pelo fato de já estar assistindo a filmes e discutindo sobre eles, já é maravilhoso.

Todo filme é arte. Bom ou ruim. É arte. Entender isso é fundamental. Gosta de filmes? É cinéfilo? Tenho certeza que, mesmo que não o seja, já deve ter visto algum filme que deixou alguma mensagem marcada (e uma que seja positiva). Nenhuma delas, estou certo disso, era sobre separar.

Não é só um termo para definir filmes com assinatura própria, se for por isso, existem nomes melhores para tal, como, por exemplo: “Filme com diretor de assinatura”. Olhe  aí, que beleza de nome. Não segrega, não é nocivo, mas agrega. É essa mensagem que a arte e o cinema espalham em muitas de suas obras: União. Da comédia romântica mais boba até uma Magnum opus de Scorsese. Em suma, sempre é algo voltado para o ser humano; alguns, em níveis mais aprofundados; outros, melhores discutidos, alguns, nem tanto, mas a intenção é a mesma. Cinema é Cinema. Cinema é arte.
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Para contatar Luke Muniz, acesse o perfil dele no Facebook.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Resenha de "O homem duplicado", de José Saramago: a perda, a busca e a construção do eu


Muitos já escreveram sobre a possibilidade de haver pessoas iguais num mesmo tempo e lugar. Mark Twain, grande escritor norte-americano, criou uma excelente obra, conhecidíssima, chamada O príncipe e o mendigo (1882), na qual dois meninos iguais são criados em diferentes contextos e depois cada um vive a vida do outro. Um livro repleto de críticas e reflexões do autor sobre a sociedade de sua época.

Meio século depois, Aldous Huxley revolucionou a literatura com sua obra-prima, o Admirável mundo novo, de 1932. Nesta distopia não há apenas duas pessoas iguais, mas dezenas! Nas palavras do próprio livro:

Gêmeos idênticos — mas não em insignificantes grupos de dois ou três, como nos velhos tempos da reprodução vivípara, quando um ovo se dividia às vezes, acidentalmente, e sim em dúzias, em dezenas, de uma só vez.
(...) Homens e mulheres padronizados, em grupos uniformes. Todo o pessoal de uma pequena usina constituído pelos produtores de um único ovo bokanovskizado.
— Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas! (...) Sabe-se seguramente para onde se vai. Pela primeira vez na história. (...) “Comunidade, identidade, estabilidade” (HUXLEY, 2014, p. 25 – 26)

Percebe-se o viés de ficção científica tomado e a crítica que Audous faz.

Mais moderno, José Saramago escreveu uma ficção sobre o mesmo tema, mas sob outros olhares e situações: O homem duplicado (2002). Nela, um homem normal, mas de nome único, Tertuliano Máximo Afonso, é um professor de História que, um dia, ao assistir a um filme, percebe que um dos atores secundários é igualzinho a ele. Depois do susto, o protagonista tenta descobrir quem é esse intérprete.

Como é característica do autor, “a ficção de José Saramago ergue-se sobre um tripé, composto pela História, os temas imprevistos, originais, e a ideologia” (MOISÉS, 2008, p. 527). Em O homem duplicado, o tempo histórico é o presente, o tema inusitado é a “clonagem” e a ideologia é perda da identidade do homem moderno num mundo globalizado. Outra marca do escritor é o tempo que, como sempre, é cronológico, nunca psicológico. (MOISÉS, 2008).

O romance já começa com o protagonista apresentando o seu cartão de identidade numa locadora, lugar onde ele adquirirá o filme no qual encontrará um homem igual a ele. Não é à toa que uma narrativa sobre identidade comece apresentando um objeto relacionado ao que será discutido, que um professor de História tenha um nome histórico (Tertuliano) e que seja idêntico a um ator secundário (não a um dos principais): alguém que quase ninguém dá atenção. E mais: um ator, isto é, um profissional que a cada filmagem interpreta outro papel, não tem uma constância, não tem uma identidade fixa.

Uma das diferenças entre as pessoas, além da aparência, é o nome (e, logo, os documentos), porém, o protagonista de O homem duplicado tem vergonha do seu diferencial, “Tertuliano Máximo Afonso”, como aponta o início da história, quando, ao fazer a sua assinatura, escreve apenas os dois últimos nomes, alegando ser mais rápido dessa forma.

Tertuliano é uma pessoa comum, um professor de História que a tudo se “cansa e aborrece, esta maldita rotina, esta repetição, este marcar passo” (SARAMAGO, 2016, p. 10), que se contenta “com o que vai passando na televisão” (idem, ibidem, p. 10). Por causa de sua profissão, tudo o que vê são documentários sobre diversas áreas da ciência, nunca algo relacionado à ficção. Talvez esse seja um dos motivos da sua depressão. Além disso, desta forma, cria-se a antítese para o que virá a seguir: encontrar alguém igual a si é tema para diversas obras de ficção.

É interessante pensar, também, que assim como a História se repete, os atos do professor de História também: ele lê sempre a mesma coisa, assiste aos mesmos gêneros de filme, come sempre a mesma comida (enlatada, pois só recebe o que lhe “dão”, nunca faz o que gostaria de comer), às vezes até fala em “destino”:

Tirou de um armário três latas de diferentes comidas, e como não soube por qual decidir-se, lançou mão, para tirar à sorte, de uma incompreensível cantilena de infância (...) Saiu guisado de carne, que não era o que mais lhe apetecia, mas achou que não devia contrariar o destino. (...) repetiu a cantilena com três migalhas de pão, a da esquerda, que era o livro, a do meio, que era os exercícios, a da direita, que era o filme. Ganhou Quem Porfia Mata Caça, está visto que o que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, nunca jogues as pêras com o destino, que ele come as maduras e dá-te as verdes. (idem, ibidem, p. 13 - 14)

É nesse primeiro filme, “Quem Porfia Mata a Caça”, que Tertuliano encontrará o seu sósia. “Porfiar” significa “lutar, competir, rivalizar, insistir”. Título bem escolhido pelo escritor, já que o protagonista competirá com o ator pela própria identidade. Na verdade (e triste), ambos disputarão pela aparência, já que as personalidades e as vidas já eram diferentes...

Essa descoberta de Tertuliano causou-lhe um enorme assombro, ao ponto de pensar se ele mesmo seria um erro da natureza. O personagem, que já era melancólico, passou a ter crises existenciais e interessantes diálogos consigo mesmo, com o que ele chama de “Senso comum”. Num deles, discutem sobre se encontrar ou não com o ator idêntico, ao que o Senso comum diz que não, que é melhor esquecer esse assunto antes que algo acabe mal, enquanto o professor, como sempre, diz que o que tiver de ser será. Mas, primeiro, é necessário saber o nome do indivíduo. Assim, Tertuliano aluga e compra vários filmes da mesma produtora, com o objetivo de ver em quais o tal ator aparece e verificar os nomes que estão nos créditos, descobrindo, desta maneira, como se chama o seu duplicado.

Os títulos dos filmes, não à toa, possuem uma relação com as situações vividas pelo protagonista. Alguns deles: Quem Porfia Mata Caça, que já foi mencionado; O Código Maldito (ora, Tertuliano está tentando descobrir qual é o nome do ator igual a ele, como se fosse um código); Passageiro Sem Bilhete (o bilhete é um objeto de identificação e de permissão para algo); Diz-me Quem És (nem precisa de explicação); Um Homem como Qualquer Outro (igualmente); O Paralelo do Terror (idem); A Deusa do Palco (palco é um local de atuação, um lugar de aparências). Há outros nomes que não convém relatar, para não revelar momentos emocionantes antes da leitura.

A crise do protagonista chega a tal ponto em que ele

foi buscar um marcador preto e agora, outra vez diante do espelho, desenha sobre a sua própria imagem, por cima do lábio superior e rente a ele, um bigode igualzinho ao do empregado da recepção, fino delgado, de galã. Neste momento, Tertuliano Máximo Afonso passou a ser aquele actor de quem ignoramos o nome e a vida, o professor de História do ensino secundário já não está aqui, esta casa não é a sua, tem definitivamente outro proprietário a cara do espelho. (idem, ibidem, p. 30)

O próprio narrador chama-o de “desnorteado homem” (idem, ibidem, p. 33), o professor sofre constantemente com leves perdas de memória, nada do que ele faz é com gosto, nada lhe é duradouro, sua vida é moldada pela indiferença com o mundo. Esse foi um dos motivos do seu divórcio com a primeira mulher e é uma das causas da dificuldade com o seu segundo relacionamento, agora com a Maria da Paz. Nas palavras de Tertuliano, numa conversa com um colega:

Eu sei, eu sei, (...) a culpa é só minha, deste marasmo, desta depressão que me põe os nervos fora do lugar, fico susceptível, desconfiado, a imaginar coisas (...) por exemplo, que não sou considerado como julgo merecedor, às vezes tenho até a impressão de não saber exatamente o que sou, sei quem sou, mas não o que sou, não sei se me faço explicar. (idem, ibidem, p. 58)

É muito interessante um diálogo que o professor de História tem com um amigo, professor de Matemática, no qual este diz que quando Tertuliano sair da depressão, as coisas mudarão de figura. Os diálogos entre esses dois professores são sempre muito reflexivos (e, pelo lado do professor de matemática, lógicos). Em primeiro lugar, o protagonista, até então, é um ser constante, previsível, mas conhece um cidadão que tem a aparência igual à sua, a partir daí, sim, o personagem passa a mudar; segundo, existe uma dialética: o homem é modificado pelo seu meio, mas o primeiro também transforma o segundo; e, terceiro, às vezes, as coisas se alteram somente na consciência do homem, porque o que mudou foi apenas o seu modo de olhar o mundo.

É necessário dizer que, embora o personagem principal tenha alugado todos os filmes da mesma produtora, para ver em quais o sósia apareceria, ele não os assistiu completamente, apenas viu até o ator aparecer e já pulou para os créditos, para anotar quais nomes se repetiam. Mais uma amostra da sua indiferença e de que não faz nada com gosto, nunca termina uma ação, faz somente o necessário, por isso seu conhecimento e sua personalidade é fragmentada.

Descoberto o nome do sósia, Daniel Santa Clara, o protagonista decide enviar uma carta para a produtora, pedindo uma foto do ator e o seu endereço, alegando fazer uma pesquisa sobre o papel dos atores secundários. Tudo invenção, tudo aparência. O que ele quer saber é o endereço para se encontrar com o seu duplicado.

Como se não bastasse esse fingimento, para não se expor, Tertuliano pede para que sua namorada permita que ele insira o endereço dela na carta, além da assinatura dela também — mas não lhe explica a situação. Novamente, o personagem principal não assume a sua identidade. Apenas um recado da amante: “Tem cuidado, vigia-te, quando uma pessoa começa a falsear nunca se sabe até onde chegará.” (idem, ibidem, p. 111), ou ainda, duas frases do Senso comum do protagonista: “Pelos vistos, para seres quem és, a única possibilidade que te resta é a de que pareças ser outro” (idem, ibidem, p. 139), “Quanto mais te disfarçares, mais te parecerás a ti próprio” (idem, ibidem, p. 139).

E é isso o que ocorre. Tertuliano, que, em seus atos, não é o mesmo do começo do romance, passa a se disfarçar para ir próximo à moradia de Daniel Santa Clara, que na verdade se chama António Claro, porque o primeiro nome é um pseudônimo. Ou seja, um homem disfarçado (Tertuliano), que não assume a identidade, persegue outro homem (António Claro) que não assume o próprio nome e que tem como profissão fingir ser outras pessoas.

O mais inusitado é mostrado depois: além das aparências iguais, os duplicados têm a mesma voz e nasceram no mesmo dia, mês e ano. O ator, ao saber da existência de alguém igual a ele, também entra numa crise de identidade. Pior ainda: esse fato traz problemas para sua mulher, que passa a tomar calmantes e outros remédios para esquecer esses acontecimentos. De certa forma, também é uma fuga da realidade, uma fuga de si...

Para não falar demais somente sobre o desenrolar da incrível trama, deve-se mencionar o trabalho com a metalinguagem que o autor quase sempre usa em seus livros, onde os narradores (sim, plural, porque várias vezes o narrador revela-se ser um personagem diferente) conversam com o leitor, ou comentam sobre trechos passados ou futuros da história, por exemplo: “AO CONTRÁRIO DA ERRÓNEA AFIRMAÇÃO deixada cinco linhas atrás, que contudo nos dispensaremos de corrigir in loco uma vez que este relato se situa pelo menos um grau acima do mero exercício escolar, o homem não havia mudado, o homem era o mesmo.” (idem, ibidem, p. 38), e: “podemos antecipá-lo, é que o professor Tertuliano Máximo Afonso não voltará a entrar numa sala de aula em toda a sua vida, seja na escola a que algumas vezes tivemos de acompanhá-lo, seja em qualquer outra. A seu tempo se saberá por quê” (idem, ibidem, p. 170).

Essa estratégia chama a atenção do leitor e o deixa ansioso, além disso, demonstra a consciência e o domínio do escritor, que sabe qual rumo a narrativa seguirá. Porém, é necessário ressaltar que há um ponto no livro no qual o autor aparentemente se viu sem saída para resolver um problema e utilizou um artifício um tanto forçado, uma espécie de deus ex machina.

O ator António Claro descobre que Tertuliano enviou uma carta à produtora de filmes, mas quando ele chega lá, a responsável avisa que é uma regra da empresa de que correspondências enviadas por fãs devem ser jogadas fora. Apenas escolhem uma foto do ator, imprimem uma cópia da assinatura do profissional e pronto, adeus à carta. Porém, coincidentemente, essa responsável resolveu “cometer uma pequena infracção aos regulamentos internos do pessoal” (idem, ibidem, p. 213) e guardou uma cópia da correspondência — ou, em suas palavras: “um duplicado” —, para seu uso. Qual uso? Não se sabe. O motivo de tal feito é apenas que ela achou interessante, nunca ouviu falar num estudo sobre os personagens secundários.

Depois disso, tal como os deuses das antigas peças gregas, que só apareciam para resolver um problema e saíam de cena, essa personagem desaparece. Só surgiu para tirar uma cópia da carta e entregá-la ao ator, que nunca teria acesso ao conteúdo da mensagem. Assim, ele conseguiu o endereço e o nome da namorada de Tertuliano (pois ela havia permitido que o namorado usasse os seus dados), e a história ganhou cerca de oitenta páginas a mais. Não é um defeito grave, pois a forma como António Claro trata a mulher responsável pelas correspondências revela parte da sua personalidade, que será exposta depois, mas foi um acontecimento quase (senão) inverossímil.

Após tal evento, a trama passa a ter várias reviravoltas, muitos momentos emocionantes, mais pessoas envolvidas e cada vez mais atuações dos personagens. Não eram mentiras as palavras de Shakespeare, na peça Como gostais (1599): “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres, apenas atores. Eles saem de cena e entram em cena, e cada homem a seu tempo representa muitos papéis” (SHAKESPEARE, 2013, p. 62).

Em suma, uma pequena resenha de seis páginas é muito pouco para discutir, mesmo que minimamente, sobre todos os aspectos de O homem duplicado. O romance demonstra a perda e a busca do eu numa sociedade que preza pela aparência e pelo individualismo, já que quase todos são anônimos, principalmente nos centros urbanos.

Além disso, o livro traz diversos diálogos críticos, reflexivos, filosóficos e poéticos sobre temas como a História, a educação escolar, o senso comum e a indiferença nas relações humanas, junto de personagens bem elaborados (principalmente, como é costume do autor, as mulheres). Outra característica de Saramago, como aponta Massaud Moisés, é a “ideia de que é preciso transformar a realidade como se apresenta, ou mudar a compreensão que temos dela.” (2008, p. 528), e é exatamente o que acontece no fim do romance. Nada menos esperado de um bom professor de História... Em tempos líquidos, O homem duplicado é uma leitura recomendadíssima!

Antônio Carlos da Silva Siqueira Júnior é graduado em Letras, pela Faculdade de Santo André, Santo André, SP.

REFERÊNCIAS

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Lino Vallandro e Vida Serrano. 22 ed. São Paulo: Globo, 2016.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 37 ed. São Paulo: Cultrix, 2008.

SARAMAGO, José. O homem duplicado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

SHAKESPEARE, William. Como gostais. In: Como gostais/Conto de inverno. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM,2013. (Coleção L&PM Pocket; v. 727)